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Crônicas-->Nereida das águas... -- 15/07/2020 - 05:52 (Brazílio) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Quanto tesouro aqui, gente, lêde e vereis, e certamente dessas águas, bebebeis...

 

Crônicas-->Rios fascinantes -- 02/07/2003 - 20:52 (Nereida)

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Nasci perto do rio Tietê. Era uma tira de água que lutava contra o barro que se acumulava nas
suas entranhas, sobrevivia, coitado, a muito custo. Quando chovia muito, era sua oportunidade de mostrar sua revolta pelos maus tratos: esbaldava-se, espraiava-se por toda parte: calçadas, casas, ruas, estradas. Mas, depois de alguns dias, voltava ao seu leito carregado de detritos, e conformava-se com seu destino. Até hoje vive assim, embora com a ligeira esperança de que alguns japoneses lhe tirem um pouco da lama e a levem para outro lugar. O Tietê me é querido porque eu caminhava perto das suas margens, testemunhando seu esforço em prosseguir, apesar de estar amarrado em cipós internos, em pedras invisíveis, em toneladas de lamaçal não resolvido. O quanto me ensinou o Tietê, na sua brava marcha... para onde, José?

Depois, passou o tempo. Viajei por este mundo afora. Conheci o Amazonas. É conhecer um mar. O que eu disser sobre o Amazonas vai soar ridículo. Não tenho o que dizer sobre o Amazonas. É como se fosse um coito perfeito. Eu e o rio. Ele me penetrando e eu gozando. O que se pode falar sobre isto? Nada. É só repetir. Repetir. Repetir.
Mas um dia tive de partir. Voltei para a rotina paulistana. O Tietê ali, firmão, capengando, mas
fiel. Já não podia passear por suas margens imundas, mas o mirava de uma ponte. Ele me acenava, até com uma certa alegria nas suas ondinhas tão encardidas.

E pela graça de Deus, um dia fui até o rio Jordão. É um riozinho. Verde, transparente, gostosinho, com jeitinho de velhinho bonzinho. Águas calmas, sedosas, brilhantes. Com roupa de turista, calças jeans e camiseta, entrei pelo Jordão mas, em sinal de extremo respeito, tirei os tênis e as meias. Meus pés no rio Jordão! Se isto nào se chamar privilégio, eu não sei o que privilégio é.

Do Jordão, fui ao Nilo. O Nilo é azul, de um azul que reflete o céu. Lembrei-me do poema do Fernando Pessoa, que dizia dos perigos do mar, mas que, ao fim, o mar reflete o céu. O Nilo é isto. É um mar interno que reflete o céu. Talvez não no Cairo, mas no interior do país, ele é todo céu. Uns barcos a vela, muito bonitos, vão de um lado para outro, carregando gente, comida, animais, mercadorias, grãos, tapetes, sei lá, a economia rural. Não fiquei pensando muito na economia egípcia, para não ficar triste. Vi muita gente pobre. E eles não pediam nada dos turistas, deviam ser super regimentados. Alguns vendiam besteiras, daquelas que somos praticamente forçados a comprar. O Nilo é um lindo rio, mas o que é também de uma beleza extasiante são suas margens. As terras que o ladeiam são cobertas de palmeiras, de um matagal alto, de arrozais, de gente plantando, de meninos e meninas correndo, de gente acenando, de gente parada, vendo o rio, os barcos, a vida passar.

Do Nilo, fui ao Sena. Já escrevi o que vi no Sena: os rostos de todos os que o visitaram, passearam por ele quando era ainda um rio livre, com suas águas correndo para as lavadeiras enxaguarem suas roupas, trazendo ondas e ondas de água clara para a roupa sair bem branca e se prestar a serem engomadas. Uma água tão diversificada que podia lavar as mais finas rendas e os mais grossos aventais, sem prejuízo de nada. Saía tudo limpo, nas mãos daquelas lavadeiras que deram tanto assunto para os Zolas da vida...

Do Sena, fui ao Tejo. Lá vivi Portugal inteiro. Desde quando os cabrais saíam do porto e as mulheres de negro ficavam abanando seus lenços brancos até os barcos desaparecerem. Cena das mais exploradas pelo cinema do mundo inteiro (não só com as portuguesas, com todas as mulheres que ficam enquanto seus homens vão em busca de pratos mais brilhantes). Vi o Tejo pegando fogo, o Tejo dos terremotos, o Tejo dos afogamentos. O Tejo da Inquisição, onde os judeus jogavam seus filhos para não serem batizados, e os portugueses católicos jogavam os judeus que não se deixavam batizar. Todo o mundo se encontraria por baixo das águas, pena que já não se reconheceriam. Há lugares no Tejo em que se pesca e se come a sardinha pescada na hora. Tudo ali cheira à sardinha. Ainda sinto aquele aroma penetrando pelas narinas. E os portugueses gritando com as portuguesas e elas com eles. Parecia uma enorme briga, mas me acostumando com aquilo, percebi que era assim mesmo que se comunicavam.

Este relato é meio superficial, reconheço. Estou aqui especulando a passagem do tempo.

Como é que viajei tanto assim? Ah a gente viaja.
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