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Crônicas-->Logro da sociedade* -- 16/12/2019 - 15:58 (Benedito Pereira da Costa) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Logro da sociedade*

Fevereiro de 1992. Domingo. Dezoito horas. Tarde nebulosa e fria. A cidade calma lembrava o silêncio de vila do interior. 

Fui ao aeroporto apanhar conhecido de regresso a Brasília. Cheguei cedo: cerca de 30 minutos antes. 

Enquanto aguardava a aterrizagem da aeronave, notei diversas pessoas que conversavam no pátio de espera. Alguns vendiam sorvetes e sanduíches; outros, balas, pirulitos e bombons.

De repente, aproximou-se um homem bem vestido, aparentando 30 anos. Trazia cartela nas mãos, com o alfabeto do surdo-mudo, a qual me entregou. Li os dizeres e a observação de que, caso desejasse ficar com ela, pagaria Cr$ 1.000,00. Por sinais, perguntei se tinha troco par Cr$ 10.000,00. (*); respondeu-me que sim (logicamente também por gestos). Fiz a compra, ele agradeceu e se foi.

Certa garota, de aproximadamente 9 anos, que assistia à cena, indagou:

-- Senhor, desculpe, mas o que é isso?

Esclareci, com paciência e com palavras dirigidas a crianças, o que era. Parece que entendeu; entretanto, questionou:

-- E se ele não for realmente surdo-mudo?

Disse-lhe:

-- Jovem, na vida, cremos em certas coisas que não são, em tantas inverdades que nos pregam e em muitas ilusões humanas. Esse dinheiro que, abnegadamente transfiro, não haverá de ser responsável por erro da humanidade. Apenas acredito. Faço minha parte. Se estiver me enganando, não tenho culpa: o ludibriado termina sendo o próprio. 

Sem dizer nenhuma palavra, saiu. Não soube se me compreendeu nem se concordou.

Enfim, na terra, onde a vida é fração da eternidade, acontecem fatos complexos e até paradoxais: uns creem e outros fazem com que acreditem, ainda que seja por conveniência.

* Representação monetária da época.

** "Contos e crônicas", 1ª edição, Rio de Janeiro (RJ), LItteris Editora, 1993, pp. 40/41.

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