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Crônicas-->1986 - Palavreado -- 03/11/2019 - 18:30 (Jairo de A. Costa Jr.) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

1.986 – Palavreado

Eu vivo escrevendo sobre motoristas e caminhões; claro que por causa de eu ser filho de caminhoneiro e quase ter sido um, escapei por pouco. Pelos idos de oitenta e seis, voltei a São Miguel e fui dirigir carreta pelas estradas do Mato Grosso, acompanhando meu pai, levando cimento de Sorocaba e trazendo soja para Mairinque. Pena que não durou seis meses, pois resolvi voltar a seguir tentando a vida em São Paulo. Não foi nada não, acho que foi por ficar longe das crianças e eu ter descoberto que não seria caminhoneiro, embora aparentasse ser.

Eu mais ouvia o meu pai, das suas histórias das estradas e das instruções para dirigir, visto que eu tinha desaprendido depois de quinze anos fora dos caminhões. Se eu tivesse gravado, hoje eu teria um palavreado diferente para colocar aqui nesta crônica. O Jairo, meu pai, tinha um linguajar muito próprio das estradas, dos amigos de Avaré e das estradas, das comidas, das curvas e subidas e por aí em diante.

O cavalo era um Scania cento e onze e a carreta uma Randon graneleiro, de maial alto e com um fominha. O caminhão era bicudo, aquele com capô projetado, e toco, isto é, não era trucado. Hoje em dia, esse Scania é chamado de jacaré e ainda tem muitos andando por esse Brasil afora. Fião, cuidado aí com a banguela, que neste caso não é um desdentado e sim a descida em ponto-morto para pegar velocidade e subir o tope à frente.

Dá-lhe cimento para Campo Grande, nóis com setecentos sacos, coisa de trinta e cinco mir quilos, mas os Edson e Jair, de Avaré, tocavam mir sacos, cinquenta toneladas das boas e faziam urrá os motors dos vorvos. Esses sim se utilizavam das banguelas, andavam muito e não gostavam de andar batendo lata, que é andar com o caminhão vazio. Ultimamente se dizem que os caminhões deles tinham pressão e eles apavoravam, ou seja, aceleravam muito o caminhão.

Aprendi a dirigir num caminhão cara-chata; caminhão de cabine frontal, como a maioria de hoje em dia, por que as fábricas brasileiras seguem o padrão europeu desse tipo de cabine, contrário dos Estados Unidos e Austrália, onde imperam os bicudos. Nos “states”, além disso, ainda os caminhões são todos leitos, ou semi-leitos, cujas cabines suportam dois metros horizontais, que é onde dá para levar um bom sono.

Todo caminhão, em geral, é um cargueiro, mas tem as diferenças de cavalo simples, cavalo traçado, cavalo seis por dois, bitruck, bi-trem, rodotrem, bitrenzão, romeu e julieta, trucado, trucado traçado. Tem as muriçocas, que são os caminhões menores; apelido de bullyng, dado pelos carreteiros maiores aos irmãos de estrada. Essa muriçoca tá me incomodando aí na frente, não anda.

O que atrapalha, incomoda, enche o saco, vamos dizer assim, são os pés de breque, todo carro de passeio que ousa cruzar a frente dos carreteiros e incomoda mais o verdadeiro pé-de-breque, aquele motorista que usa o freio em todas as curvas e a todo momento; quem se incomoda mais é o coruja, o caminhoneiro que gosta de dirigir à noite.

Pior é quando o coruja vira um zumbi, que viaja mesmo com sono, querendo tomar um rebite, mas sabendo que não pode, por não ser recomendável. O tapete preto vai se alongando e a madrugada se adentrando, até o raiar do sol, quando um posto se aproxima e um café será bem vindo, ou do posto, ou da caixa, recipiente sob a carreta que serve como armário e cozinha.

Nós também tínhamos uma caixa e posso dizer que o café fica bom, melhor com leite ninho e um pão doce da mais próxima padaria. Neste domingo de três de onze de dezenove, posso dizer que naquele oitenta e seis que eu dei umas seis viagens, cozinhei umas panelinhas de arroz, com dois ovos em cima, ou duas fatias de queijo minas e algumas saladas de tomate e bife no ponto, na frigideirinha, onde cabia só um. Rápido, Fião, que o estomago tá precisado de ser forrado.

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