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Crônicas-->O diabo anda à solta -- 26/07/2019 - 14:52 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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O diabo anda à solta

Crônica urbana

João Ferreira

Brasília, 26 de julho de 2019

Da minha janela vejo os mangueiros e os abacateiros cobertos de flor. Muito agradável. É uma promessa otimista da Natureza. Apesar das agressões do homem ao meio ambiente, a força da terra continua impávida oferecendo seus mimos, seus espetáculos e a produção dos alimentos de que a humanidade precisa para sobreviver. Lá em baixo, na sobra dois casais de joão-de-barro ciscam o chão procurando alimento. Mais na tarde, virá o sabiá laranjeira, saltitante, procurar sua comida. No ar, o gavião sobrevoa a região procurando suas presas. De surpresa, aparece o tucano à procura de filhotes alheios para sequestrar.  

Retido pelo frio, fico em casa e me sento olhando o computador. Penso em escrever. Mas o que vou escrever? Não sei bem ainda. Há mil possibilidades de dar sequência ao discurso. O mais simples por enquanto é sentar,  ficar calminho. Deixar o pensamento assentar, deixar entrar a consciência plena para conceber um plano. Depois organizar as sensações e a cabeça. Decidir se vou querer  produzir um texto de imaginação ou um texto referente  ao mundo real. Vou ficar no mundo onde assentam meus pés ou me inclino a escolher rigorosamente o gênero de escrita que vou produzir?  Na realidade vou contar uma história real ou fazer comentário sobre fato acontecido? A cabeça fica toda mobilizada. Passam pelos neurônios mil estradas que me levam longe e muitas porteiras que me retêm em mil dúvidas. No entretanto, o pensamento é dinâmico e não se compadece de nada nem de ninguém. À solta, cumpre sua missão. Cria movimento que vai das emoções e sensações até à inteligência, memória e imaginação. Esse movimento me mostra como o mundo é plural e multidiverso. Na convivência dessa ideia, de minha parte resolvo assumir o comando, chamando o "eu" para dirigir a ação da escrita na convivência plural e diversa que me habita.  A decisão nasceu do fato de não ficar simplesmente retido ou prisioneiro de minha diversidade. Aí veio a necessidade de bater o martelo e decidir. A decisão foi a de escrever uma crônica urbana. Na decisão estava contida a temática e a forma como desenvolver a narrativa. Sendo assim, que feição vou dar à minha crônica?  A primeira coisa seria pegar uma ideia ou um detalhe que me proporcione uma  narrativa. Ao pensar isto, veio-me a lembrança de Guimarães Rosa. Em primeira mão a proeminência que ele deu ao diabo em Grande Sertão:Veredas. Lembrei-me do curso semestral que dei no CEUB em 1971 para setenta alunos regulares do curso de Letras, analisando e interpretado o Grande Sertão. Veio-me à memória como resumo o episódio narrado em Veredas Mortas que representa o clímax do pacto de Riobaldo com o Diabo. Ao mesmo tempo lembrei-me da problemática similar explorada por Goethe na sua inegualável obra Fausto. Escrever, agora,  eis a minha questão. Sei que a escrita é um jogo. Um jogo onde as palavras ganham lugar e sentido. Onde as palavras conduzem a mente a fazer uma associação ligando o entendimento a aspectos da realidade. Onde as palavras são chamadas a representar o que chamamos de passado, de presente e de futuro.

Na imprensa quotidiana brasileira, são oferecidos os mais diversos estímulos para uma crônica cuja espinha dorsal poderia designar-se pelo complexo título de "O diabo à solta". Não é o caso individual de um Fausto ou de um Riobaldo. É o caso mais geral do "sertão" encarado por Guimarães Rosa. O significado de sertão roseano pode ser vertido em termos modernos para o de sociedade. Uma sociedade cada vez mais complexa enredada em mil situações de dramas, de crenças, de processos, de ambições, tramóias, crimes, roubos, assaltos, sequestros, até aos crimes cibernéticos dos hackers. No fundo, o "diabo à solta" é o rosto do mal agindo e se expandindo. Um mundo oculto, estranho, com mil atores em mil palcos. Tráfico de armas e drogas, sessenta e três mil assassinatos por ano, chacinas, presídios desumanizados, assaltos e roubos de carga, execuções sumárias, roubos espetaculares como o de 718 quilos de ouro.  Esta é a parte negra do mundo em que vivemos.

Se o homem, hoje, fosse esse ser que a tradição consagrou como "animal racional", teríamos certamente uma história da humanidade  que poderia caracterizar-se pela elevação e pelas grandes conquistas científicas e humanitárias . Não é o que acontece. Apesar da existência de grandes correntes de espiritualidade e de muitas igrejas na sociedade contemporânea e do esforço em se apelar para a ética nos debates e nas conversas sociais, a verdade é que a prática fica longe ainda da segurança e do respeito aos cidadãos pacíficos. "O diabo à solta" continua fazendo trágicos estragos  com chacinas, roubos espetaculares, execuções, desrespeito à lei e à paz da sociedade pacífica. Muitos membros da sociedade  continuam se comportando, como diz o povo,  ao nível de "bestas quadradas". A inteligência humana tem de ser convertida a favor do próprio homem. Educação? Formação? Comportamentos sociais regidos por leis adequadas? Situações negativas parecem ser parte da condição humana que a par dos deveres sociais haverá de conviver com a liberdade individual e com as circunstâncias existenciais ocorrentes que têm sua parte no surgimento de comportamentos suspeitos e marginais. Não sabemos ainda se num futuro possível o homem irá ter autoridade para conter tantas atrocidades e abusos e ao mesmo tempo criar mais espaços para a expansão de seus ideais supremos. Para já, atenção, o diabo anda à solta!

Comentários

Lita Moniz  - 04/08/2019

Comente: Maravilhoso! A crônica perfeita em todas as suas instâncias, conteúdo e forma em perfeita harmonia. Parabéns.


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