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Crônicas-->1950 - Motoristas -- 21/07/2019 - 11:33 (Jairo de A. Costa Jr.) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

1.950 – Motoristas

 

Naqueles anos que São Miguel vivia mais isolada pela falta de estradas boas que a ligassem ao mundo os motoristas faziam o papel de leva e traz do que acontecia por lá e por ali, pelo menos eu entendia assim, já que ouvi-los era um prazer incomensurável. O Santino Vicente contava dos gaúchos e de Caxias do Sul; meu pai e suas passagens por Belém do Pará; o João do Querubim dos trejeitos especiais dos outros brasileiros e bom contador de piadas e histórias relativas aos trechos estradeiros. Meu pai também nos dizia das comidas diferentes e ensinava minha mãe a fazê-las. No meio deles e de outros não menos importantes eu me sentia no país inteiro.

Pelas andanças pelo Brasil afora eles detinham um linguajar diferente, que me encantava, como gírias, nomes e apelidos, pontos geográficos, nome dos caminhões, das comidas, dos lugares, curvas e postos de gasolina, subidas e topes, serras, descidas, banguela, primeira reduzida, quarta louca, truque cadelinha, trucão, transportadoras, etc. Eram especialistas de norte a sul, visto que as viagens se concentravam ao sul e ao nordeste e ao norte, de Porto Alegre a Belém, passando pelo Rio, Salvador e Recife.

Uma semana até Porto Alegre, um mês até Recife, dois meses Belém e Fortaleza, levando cargas comerciais e industriais, já que alimentos não aguentavam tanto tempo. Às vezes o frete era por peso, e cargas leves por lotação, fora as apanhas, coletas e entregas nas firmas, que trocavam os destinos. Como não éramos produtores de grãos, o centro-oeste quase não era frequentado, só depois dos anos setenta. O motivo mais era a falta de frete de retorno e muitas vezes a volta era batendo carroceria.

Lembro-me de que meu pai ao encostar-se ao Posto do Fogaça, uma leva de conhecidos se chegava nele, ávidos pelas novidades: E aí, Jairo, como foi lá pelo Belém? Meu pai se deleitava, contando das estradas, imaginem dois mil quilômetros de Belém-Brasília e isso no chão, asfalto nem pensar. Não era fácil para eles, mas as histórias eram maravilhosas para nós, o Gurupi, Imperatriz no Maranhão, São Miguel do Guamá e outras localidades, todas descritas com os detalhes mais interessantes possíveis.

E quando meu pai trazia os colegas para degustar um salame e tomar um vinho de Bento Gonçalves. Um Sete Irmãos, um Slaviero, um franguinho frito, um tomatinho, pedaço de pão, uma Cerveja Norteña do Uruguai e assim à tarde inteira, até o anoitecer. Todos calejados nas estradas e forjados nas noites mal dormidas, mas bem viajadas, para vencer os quilômetros a fio nas estradas empoeiradas e esburacadas de então.

Cidades ao Sul das minhas lembranças de ouvi-las sendo contadas, como Vacaria, Passo Fundo, Alegrete, Uruguaiana, Jaguarão, Porto Alegre, Pelotas, Curitiba, Lages, Caxias do Sul, Mafra. Eu tinha uma predileção especial por Livramento, por ser um nome muito sonoro e que me tocava. Bem que eu poderia ir conhecê-la, mas ainda não fui, nem sei se vou, porém a lembrança está encalacrada na minha memória. O Iraí Pinheiro contava dos Arfãos, pois trabalhava com um pela Transportadora Foresti, era muito destemido, não tinha medo de nada, uma coragem em pessoa.

O Santino Vicente tinha uma predileção por Caxias do Sul, onde ficava a maioria das fábricas de carretas, carrocerias e de ônibus. Eu conhecia tudo de Caxias por ele e nesta cidade eu já fui. O Santino era compadre do meu pai e vinha em casa para uma visita e não vou conseguir descrever o quão memorável era esse encontro, regado por café e bolo. Meu Deus do Céu era fantástico! Os dois numa sintonia, enlevados com um e com outro; eu nem piscava, só ouvindo tudo. As comadres participando atentamente e seus compadres faziam questão, imaginem horas de conversas.

Neste domingo de vinte e um de sete de dezenove, lembrando que caminhoneiro é um termo mais recente e de que naquela época eles eram chamados de motoristas, aos quais tenho o mais profundo respeito, uma veneração e uma saudade sem fim.
Comentários

Toye de Almeida  - 23/07/2019

Bons tempos!!!!

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