Usina de Letras
Usina de Letras
47 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 

Artigos ( 59664 )

Cartas ( 21255)

Contos (13325)

Cordel (10320)

Crônicas (22226)

Discursos (3169)

Ensaios - (9536)

Erótico (13486)

Frases (47213)

Humor (19420)

Infantil (4624)

Infanto Juvenil (3939)

Letras de Música (5497)

Peça de Teatro (1340)

Poesias (138775)

Redação (3078)

Roteiro de Filme ou Novela (1061)

Teses / Monologos (2432)

Textos Jurídicos (1946)

Textos Religiosos/Sermões (5657)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Aguarde carregando ...
Artigos-->Literatura árabe -- 04/12/2003 - 15:49 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Adab Al-Arabi (Literatura árabe)

(republicação)



Félix Maier (*)

ttacitus@hotmail.com





No dia 6 de março de 2002, assisti à palestra “História da literatura árabe”, proferida pela Sra. Aida El-Khoury, Embaixatriz do Líbano no Brasil, no Auditório da Reitoria da Universidade de Brasília (UnB). A Sra. Aida é formada em Literatura e Ciências Políticas pela Universidade de Beirute. Presentes, além do Embaixador do Líbano, outras personagens do corpo diplomático em Brasília, professores e alunos de Letras e de História da UnB, além de uns poucos gatos pingados amantes da literatura, como eu.



Muito simpática, a Sra. Khoury mostrou grande desenvoltura no trato do Português, que domina muito bem, sendo elogiada por um professor de Francês da UnB presente à palestra. Até hoje, não me perdôo por saber somente umas 50 ou 60 palavras árabes, embora eu tenha vivido 2 anos no Cairo, de 1990 a 92, quando trabalhei na Embaixada Brasileira. É que os próprios cairotas não me ajudavam em nada, pois quando eu entrava com a mulher e os filhos em alguma loja (“al-bazar”), ou íamos a alguma lanchonete, eu iniciava a conversação em árabe, cumprimentando-os com um caprichado “sabah el-hir” (bom-dia), mas logo descobriam que eu era “gringo” e passavam a falar em inglês, às vezes francês ou até espanhol. Assim, desisti de aprender a língua do Profeta Mohamed para me dedicar exclusivamente ao Inglês no British Council – como, aliás, toda minha família. Porém, não deixo de ter uma certa inveja de estrangeiros que chegam ao Brasil e em alguns meses já falam o Português com bastante fluência.



A palestra da Sra. Aida foi dividida em 4 partes:



1ª parte – A Península Arábica nos Séculos V, VI e VII;

2ª parte – Arábia e Síria nos Séculos VII e VIII;

3ª parte – Bagdá, Córdoba e o mundo árabe, dos Séculos VIII ao XVIII; e

4ª parte – Líbano, Egito e o renascimento das letras árabes nos Séculos XIX e XX.





1ª parte – A Península Arábica nos Séculos V, VI e VII.



A Sra. Aida iniciou a palestra discorrendo sobre as tribos da Península Arábica, habitantes nômades denominados de “beduínos”. Sabemos que o idioma árabe, assim como o hebraico, o aramaico e o ciríaco, são línguas semíticas. Os judeus e os árabes – por mais que se desprezem mutuamente – tiveram origem de um mesmo patriarca: Abraão. Com uma escrava egípcia, Agar, Abraão teve um filho, Ismael. Este, por sua vez, teve 12 filhos e seus descendentes formaram os árabes ismaelitas. Com Sara, Abraão teve dois filhos, Esaú e Jacó. Jacó, também conhecido como Israel, teve 12 filhos, que formaram as Doze Tribos de Israel.



As tribos da Península Arábica foram unificadas pelo Profeta Mohamed (Maomé) e passaram a formar o Estado teocrático de Medina, no período de 622 a 632, conquistando toda a Península. É o início do Islã, da 3ª religião monoteísta, ao lado do Judaísmo e do Cristianismo. “Islam” deriva-se da palavra “aslama”, que significa “submeter-se”, “entregar-se” – no caso, a Alá.



Os árabes sempre deram destaque à história, pela genealogia de seus ancestrais. As narrativas das lutas entre as diversas tribos da Península Arábica enchiam as horas de ócio dos acampamentos árabes, perpetuando assim as figuras dos heróis do passado.



No século VIII formam-se três escolas: uma em Medina, que se dedica ao estudo do passado; outra iraquiana, dedicada a métodos científicos; e uma terceira síria, da qual só há vestígios, pois a história islâmica é principalmente abássida e, portanto, hostil aos omíadas.



Após a morte de Maomé, os califas (sucessores do Profeta) continuaram as conquistas árabes: de 633 a 643 dominaram todo o Crescente Fértil (Palestina, Líbano, Síria, Mesopotâmia), além de Egito, Armênia, Irã e a Cirenaica; de 647 a 700 conquistaram o Maghreb (“Ocidente”), atual Argélia, Tunísia e Marrocos; de 711 a 713 conquistaram parte da Península Ibérica (Espanha e Portugal); de 705 a 715 conquistaram as bacias do Amu-Darya e do Syr-Darya; e de 710 a 713, a bacia do Indo. Em menos de um século, o Islã estendeu-se do Marrocos e da Espanha até a Índia. Na Espanha, os árabes ficaram durante 7 séculos, até que foram expulsos em 1492. É o período de ouro da literatura árabe, com os importantes centros de Bagdá (atual Iraque) e Córdoba (Espanha).



A literatura árabe tem, pois, 15 séculos de rica história. Suas obras-primas iniciaram no século V. A poesia e a prosa árabes desenvolveram-se inicialmente na Arábia Saudita, Iêmen e Kuwait.



Nesse período (séculos V a VII), a poesia reflete a vida social, o meio geográfico, o deserto árido porém cheio de mistério. O amor é o tema dominante, depois a coragem, a hospitalidade, a honra. A partir de 622, com o Islã, a poesia passou também a ter papel importante para a propagação da nova doutrina.



Poetas famosos dessa época foram:

- Amr Bnou El Quays

- Torfa

- Zouhair

- Amr Ibn Koulsoum e

- Antar Ibn Chadad



Na prosa, o Alcorão é a principal obra da literatura árabe desse período. Maomé era analfabeto e seus ensinamentos, revelados pelo Arcanjo Gabriel, foram memorizados por seus seguidores, ou escritos em folhas de palmeiras, em pedras, em pedaços de madeira ou em couro, e depois coletados em um livro que se denominou “Al-Quran” (o Corão ou o Alcorão), a partir do terceiro califa, Otomã. “Al-Quran” significa “discurso”, “recitação”, e é também chamado de “Kitab Allah” (Livro de Alá). O Alcorão tem 114 “sura” (suratas ou capítulos), divididos em “aiat” (versículos), e sua mensagem é, genericamete: crença em um só Deus, Alá, crença na ressurreição dos mortos e na felicidade eterna. O idioma do Livro Sagrado se torna o árabe clássico, utilizado na literatura até os dias atuais. Os 20 países árabes da atualidade falam dialetos que variam de país para país, e que divergem bastante do árabe clássico. O árabe falado na Tunísia, por exemplo, se torna praticamente ininteligível para o habitante do Líbano.



Além do Alcorão, distinguem-se também na prosa os discursos dos primeiros sucessores de Maomé:

- Omar Ibn Al-Khattab, 2º califa, um partidário de Maomé; e

- Ali Ibn Abi Taleb, 4º califa, que foi casado com Fathima, filha de Maomé.





2ª parte – Arábia e Síria nos Séculos VII e VIII



A partir de 660, o califado se torna hereditário, iniciando-se a dinastia dos omíadas, com sede em Damasco, na Síria. Durante essa época, a partir de 711, os árabes subjugam a Espanha e Portugal.



Nesse período, destacam-se a poesia da corte e a poesia do amor.



A poesia da corte destinava-se a cortejar o soberano, a enaltecer suas virtudes, como a bravura, a honra, a hospitalidade. Destacam-se os nomes de:

- Al Akhtal

- Al Farazdaq e

- Jarir



A poesia do amor, nesse período, era polêmica e se dividia em dois grupos: o “amor com prazer” e o “amor romântico”.



Enquanto que os poetas do “amor romântico” serão fiéis a apenas uma mulher, seja na vida real, seja na produção literária, os poetas do “amor com prazer” dedicam sua vida e sua literatura a exaltar a paixão da carne, a sensualidade, o prazer do sexo. Entre os românticos destaca-se Majnoun Layla e entre os que exaltam o prazer sexual destaca-se Omar Ibn Abi Rabiha.





3ª parte – Bagdá, Córdoba e o mundo árabe, dos Séculos VIII ao XVIII



Em 750, a dinastia dos omíadas foi substituída pela dos abássidas, que iria se manter até 1258, e inicia-se o Califado de Bagdá. O último omíada expulso de Damasco se refugia em Córdoba, e funda o Califado Omíada do Ocidente. Na Espanha, os árabes mantiveram-se por mais de 7 séculos, até 1492.



O poderio árabe atinge seu apogeu em meados do século IX. Sua capital, Bagdá, durante 5 séculos se torna o centro político e cultural do Oriente. É a idade de ouro da literatura árabe, que incorporou a filosofia, a sociologia, a ciência, a história, as artes e o amor. Nesse período, outro centro se distingue, além de Bagdá: Córdoba. A incorporação da cultura grega enriquece ainda mais a cultura árabe, que também adota as culturas dos povos conquistados, além das heranças e tradições da Mesopotâmia, da Índia e da Pérsia. Pode-se dizer que na parte cultural, em certa medida, os conquistadores foram subjugados pelos conquistados. Os contos “Alf Laylah wá Laylah” (As mil e uma noites) eram originalmente persas, não árabes. Os persas escreveram os mais importantes livros da “Hadith” (Tradição), tanto da seita xiita quanto da sunita.



A cultura e a literatura árabes floresceram esplendidamente durante a Idade Média, enquanto o “período das trevas”, ocasionado pela Inquisição católica, colocou a Europa na mais profunda escuridão cultural. Devemos aos árabes a conservação da cultura grega e muitos aspectos culturais europeus inspiraram-se nos costumes árabes. Alguns consideram que a concepção da cavalaria, na Europa, a arte bélica desenvolvida em volta do cavalo, foi uma noção que veio do Islã.



Paradoxalmente, os muçulmanos preservaram a cultura grega para o Ocidente, que mais tarde iria ser o fermento do Renascimento, quando os cruzados levaram aquela cultura e as ciências árabes para a Europa. Enquanto isso, os árabes permaneceram fiéis aos rígidos ensinamentos do Alcorão, sem desvio de rota.



Bagdá, fundada em 762 por Al-Mansur, segundo califa da dinastia abássida, era o maior centro de cientistas, tradutores, riquezas e mulheres bonitas em todo o mundo. Os califas incentivam e protegem os sábios, filósofos e poetas, construindo academias científicas, bibliotecas públicas, observatórios e instituições de estudos e pesquisas. Bagdá chegou a ter 36 bibliotecas públicas e um corpo de tradutores. A primeira tradução de Aristóteles foi paga em diamante. Ninguém era rico sem incentivar as artes. Em nenhuma parte do mundo se manifestou tamanha paixão pelos livros.



Em 1258, o mongol Hulagu matou o último califa, saqueou Bagdá e destruiu completamente o Iraque, incluindo seus canais de irrigação. Em 1401 ocorre a última invasão mongol, quando o turco Tamerlão – que se declara descendente de Gengis Khan destrói novamente Bagdá. A partir de então, Bagdá esteve alternadamente sob domínio persa e turco, até 1917, quando foi capturada por forças britânicas. Em 1958, um golpe de Estado faz surgir a República do Iraque. Em 1991, Bagdá é arrasada pela coalizão militar formada pelos EUA para libertar o Kuwait, que fora invadido por tropas de Saddam Hussein.



Alguns aforismos e provérbios da época, apresentados pela Sra. Aida:



“Se quiseres ver a glória de Deus, observe a beleza de uma rosa vermelha”.



“Não declares que as estrelas estão mortas só porque o céu está nublado”.



“Os ricos e os avaros são como as mulas: carregam ouro mas comem aveia”.



“O avaro trabalha para as três pessoas que mais detesta no mundo: o futuro esposo de sua mulher, o genro e a nora”.



“Quando tudo é destruído, o que sobra é a cultura”.



Poetas famosos dessa época foram:

- Abou Tamman

- Ibn El Roumi

- Al Bohtori

- Al Moutanabbi

- Abou Nawas

- Bachar Ibn Burd



Na poesia filosófica distinguem-se Abou Atahia e Abou Al Alaa Maari.



Na poesia sufista ou mística sobressaem Ibn Al Arabi, Al Hallaj e Ibn al Farid.



Na prosa temos Ibn Al Moukaffah e Al Jahez, o “Voltaire” árabe.



Na filosofia destacam-se quatro gigantes do pensamento humano: Al Farabi, Avencina (Ibn Sina), Averroés e Al Ghazali.



O físico e filósofo Avencina foi formado nas universidades ocidentais.



A palavra “alfarrábio”, sinônimo de livro antigo, volumoso, de conteúdo muitas vezes inútil, deriva-se de “Al Farabi”.



Averroés nasceu em Córdoba, em 1198, e estudou quase todas as ciências e a filosofia de seu tempo, escrevendo obras sobre medicina, física, astronomia, jurisprudência muçulmana, filosofia, teologia. Principal representante da filosofia árabe, Averroés foi o precursor dos filósofos heréticos do islamismo e do cristianismo, e sua influência estendeu-se até a Renascença. “Seus comentários sobre Aristóteles em “Sharh” (Grande Comentário) e “Telkhis” (Resumo), traduzidos para o latim na primeira metade do séc. XIII, tornaram conhecida a filosofia de Aristóteles, o que influiu no pensamento de Tomás de Aquino, produzindo verdadeira revolução no pensamento cristão, até então baseado no platonismo”. (Mirador, Volume 3, pg. 1091 e 1092) Para Averroés, na interpretação do Alcorão, há verdades óbvias para o povo, verdades místicas para o teólogo e outras científicas para o filósofo. Daí resulta a “idéia das duas verdades” de Averroés, segundo a qual uma proposição pode ser teologicamente falsa e filosoficamente verdadeira e vice-versa. Averroés foi desterrado da Espanha por Al-Mansur, que considerou desrespeitosas suas idéias sobre o Alcorão.



Al-Ghazzali escreveu “Tahafut al-falasifah” (A Incoerência dos Filósofos), obra combatida por Averroés em “”Tahafut al-tahafut” (A Incoerência da Incoerência), na qual faz defesa do neoplatonismo e do aristotelismo contra os ataques de Al-Ghazzali.



Na sociologia destaca-se Ibn Khaldoun. Historiador, Ibn Khaldoun nasceu em Túnis em 1332 e faleceu no Cairo em 1406. “Considerado o primeiro escritor do mundo árabe a dar à história o caráter de ciência, sua obra só foi descoberta pela Europa no séc. XIX. Nos “Maqaddimah” (Prolegômenos) de sua “Kitab al-Ibar” (História Universal), propõe uma nova sociologia da civilização, estudando as condições gerais que regulam o desenvolvimento da sociedade humana a partir do “asabiyya”, espírito de solidariedade do grupo social, unido por laços de sangue e identidade de interesses, que é a principal força propulsora de sua evolução. Sua filosofia da história baseia-se no estudo das civilizações grega e árabe, e sobretudo em suas próprias experiências.” (Barsa, Volume 9, pg. 156)



A obra mais conhecida no Ocidente é a coletânea de contos “Alf Laylah wá Laylah” (Mil e uma noites). É uma obra coletiva e anônima, cujos contos têm origem diversa. Os temas, originários da Índia, chegaram aos árabes através dos persas. O núcleo da obra é constituído pelos “Mil contos” traduzidos do persa antes do século X. Outros são acrescidos em Bagdá no século X, e mais outros são incorporados no Cairo, por volta do século XII. No século XIII ou XIV são ainda inseridos contos didáticos, estruturando-se as “Mil e uma noites” na forma como passou a ser conhecida. O conto central de “Mil e uma noites”, a história de Xarazade, é de origem indiana: “Conta ele que Chahriyar, um dos reis de Sassão, ‘rei das ilhas da Índia e da China’, desiludido com as mulheres, porque experimentou a traição da sua, ordenou ao vizir que todas as noites lhe trouxesse uma donzela: após possuí-la, mandava matá-la na manhã seguinte. Até que a vez coube a Chahrazad, filha do vizir. Esta pediu ao rei para se despedir da irmã, Dinazard. O rei concede e manda chamá-la. Depois possui Chahrazad. Dinazard então pede à irmã que conte uma história para passarem os três a noite. E, com o assentimento do rei, Chahrazad começa a narrativa que ao romper do dia ainda não tinha terminado. O rei, curioso para saber o desfecho, resolve não matá-la logo. Mas as histórias se sucedem noite após noite até que o rei suspende definitivamente a condenação de Chahrazad.” (Mirador, Volume 2, pg. 381)



O romance “Baibars” conta a história do sultão mameluco Baibars, que defende o Islã dos mongóis e das cruzadas.



Córdoba, na Espanha, no ano 1000, era considerada a “capital do mundo Ocidental”. Suas 70 bibliotecas tinham mais de 500 mil volumes. Essa cultura ajudou a preparar a Europa para a Renascença, incluindo a ciência trazida dos gregos. Outras cidades importantes do Egito e do Marrocos contribuíam para o brilhantismo da cultura árabe.



Os poetas árabes mais famosos da Península Ibérica foram Ramadi, Ibn Chuhaid, Ibn Wahbun, Moutamid, Ibn Guzman e Ibn Hazm.



Ibn Hazm é uma das personalidades mais eruditas da literatura árabe na Espanha. Foi político, jurista, historiador, bibliógrafo, teólogo, exegeta, metafísico, psicólogo. É autor de “Tawq al-hamama” (O Colar da pomba) e seu livro principal, amplamente divulgado na Europa, é “Kitab al-Fasl fil’l-Milal wa’l-Ahwa Wa n-nihal” (Livro das religiões e das seitas), que é um dos primeiros trabalhos sobre religião comparada.



Ibn Guzman é considerado o maior poeta no gênero “zadjal” (poesias de estrofes no esquema AB cccA dddA etc.). A ele se atribui influência decisiva para a origem e desenvolvimento da poesia trovadoresca na Espanha e na Provença. As cortes rivais de Córdoba eram Toledo, Granada, Sevilha e Valência.



A passagem dos árabes pela Espanha e por Portugal enriqueceu nosso vocabulário, a exemplo de palavras como “fatura”, “bazar”, “xerife”. Muitas palavras que começam com “al” tem origem árabe: alface, alcaide, algarismo, álgebra, almanaque. “Alfarrábio”, já foi dito, origina-se de Al-Farabi, filósofo árabe, e tem o significado de livro antigo, volumoso. “Salamaleque”, palavra que quer dizer “excesso de reverência”, teve origem na saudação árabe “salam alikum” (a paz esteja contigo). “Intchaalá!” (se Deus quiser!), expressão utilizada em toda a conversação árabe, deu no nosso “oxalá”.







4ª parte – Líbano, Egito e o renascimento das letras árabes nos Séculos XIX e XX



Com a Revolução Industrial, houve o avanço do Ocidente sobre os países árabes, que foram colonizados pelos europeus, ocasionando o declínio da literatura árabe.



Eruditos libaneses tiveram destacado papel no renascimento das letras árabes. Afortunadamente, as montanhas do Líbano serviram de refúgio a muitos tesouros do idioma árabe, que escaparam, assim, da sanha persa e de outros povos conquistadores do Oriente Médio.



No século XIX, eruditos libaneses lançaram a gramática, dicionários, impressoras, revistas, jornais, traduções, especialmente a cargo das famílias Boustani, Chartounny e Yazigi.



Líbano tem uma bela capital, Beirute, outrora a “pérola do Oriente Médio”, antes que uma guerra civil de 15 anos destruísse a cidade. Mas Beirute, com um passado de 5.000 anos, de origem cananeo-fenícia, é “a cidade que se recusa a desaparecer”. Líbano é também o país dos cedros, os mesmos cedros que foram transportados para Jerusalém, para a construção do Templo de Salomão.



Líbano é o país de montanhas espetaculares, cobertas de neves. É o país de castelos dos cruzados, o país de Trípoli e Byblos. É também a Terra Santa por onde peregrinou Jesus Cristo, como Tiro e Sidon. É um país amadurecido por séculos de civilizações e provações. Quando o Islã chegou ao Líbano, após o ano de 640, criou com o Cristianismo um modo de vida original de tolerância mútua. Infelizmente, a intolerância religiosa afetou a vida nacional do Líbano no século passado, resultando em sangrenta guerra civil, que dispersou grande parte de seu povo por todos os cantos do planeta. O Brasil, país que tem por tradição acolher bem os estrangeiros, tem a maior população libanesa do mundo, superior ao próprio Líbano.



Poetas e escritores libaneses dos séculos XIX e XX:

- Khalil Moutran

- Bechara El-Khoury

- Chbli Mallat

- Ahmed Farés Chidiac

- Omar Fakhouri

- Amin Nakhlé

- Gibran Khalil Gibran

- Michail Naoymé

- Faouzi Maalouf



Gibran Khalil Gibran é conhecido principalmente por sua obra “O Profeta”. Outros livros de Gibran, todos traduzidos para o Português por Mansour Challita, incluem:

- Jesus, o Filho do Homem

- O Louco

- Areia e Espuma

- Parábolas

- Uma Lágrima e um Sorriso

- As Ninfas do Vale

- Temporais

- O Precursor

- Os Deuses da Terra

- O Jardim do Profeta

- Curiosidades e Belezas

- As Almas Rebeldes

- A Música

- O Errante

- Asas Partidas

- Gibran, esse Homem do Líbano

Há, ainda, a “Biografia de Gibran”, de Bárbara Young, também traduzido por Challita.



A obra de Mansour Challita inclui ainda:

- Traduções de “O Alcorão”, “Kalila e Dimna”, de Ibn Al-Mukafa;

- Antologias: “As mais belas páginas da literatura árabe”, “Os mais belos pensamentos de todos os tempos”, “Os mais belos pensamentos de Gibran”, “Hinos ao prazer: os mais belos poemas de amor do Oriente desde o século I a. C. até hoje” e “As mais belas páginas da literatura libanesa”.

- Monografias: “As mil e uma noites em nossos dias”, “O Alcorão ao alcance de todos”.



No Egito, também nos séculos XIX e XX, o renascimento das letras árabes dá-se principalmente com:



Poetas:

- Ahmad Chaouki

- Hafez Ibrahim



Reformadores sociais e políticos:

- Al Afghani

- Mohamad Abdo

- Taha Hussein



Romancistas:

- Ismail Sabri

- Toufic Al-Hekim

- Nagib Mahfouz



Em junho de 1992, o escritor egípcio Farag Fouda foi morto por dois extremistas no Cairo e um porta-voz da Sociedade Islâmica, grupo fundamentalista do Irã, assim se pronunciou: “Quem quer que advogue as idéias de Fouda merece ser morto de acordo com as normas do Islã”.



No dia 14 de outubro de 1994, o escritor egípcio Nobel de Literatura, Nagib Mahfouz – considerado a consciência do mundo árabe – foi esfaqueado na garganta após sofrer várias ameaças de morte por parte de fundamentalistas islâmicos. Seu romance “Filhos de Gebelawi”, pelo qual foi condenado à morte pelos zelotes islâmicos, passou a ser vendido “como tortas quentes” – conforme noticiou o jornal Al-Ahram de 29 Dez 94 – 4 Jan 95. A obra mais importante de Nagib Mahfouz é “A Trilogia do Cairo”.



Há importantes poetas e escritores em outros países árabes:

- Iraque: Sidki Az-Zahawi

- Síria: Khalil Mardam, Omar Abou Richa

- Marrocos: Abas Ibn Ibrahim, Alal Al-Fasi

- Argélia: Mamad Eid, Hammoud Ali

- Tunísia: Ach Chabi

- Palestina: Mahmoud Darwich, Ziad El-Kassem

- Jordânia: Hosni Fariz, Mostafa Wehbé Tell



Nos primórdios da literatura árabe, havia muitas mulheres dedicadas à poesia e à literatura, devido à influência que as mulheres viúvas do Profeta Maomé exerciam sobre a comunidade islâmica. Com o tempo, as mulheres muçulmanas foram praticamente proibidas de exercer essa atividade, devido aos rígidos preceitos islâmicos. Hoje, porém, há um renascimento dessa categoria no mundo árabe e islâmico.



Hoje, graças à patrulha fundamentalista islâmica, muitos autores são perseguidos, além dos egípcios já citados. O indiano Salman Rushdie, autor de “Versos Satânicos”, foi condenado pela “fatwa” (decreto religioso) islâmica e sua cabeça colocada a prêmio pelo Aiatolá Khomeini. A escritora de Bangladesh, Taslima Nasrin, fugiu de seu país para a Suécia para escapar da perseguição fundamentalista, acusada de distorcer o sentido do Alcorão, de propor direitos iguais para ambos os sexos e de escrever temas relacionados a sexo – um tabu para as mulheres islâmicas.



Chegamos ao fim deste pequeno trabalho, al hamdulilá! (Graças a Deus!) Espero que o leitor tenha gostado da rápida viagem feita no tapete persa da literatura árabe. Intchaalá! (Se Deus quiser!)



Chukrán! (Obrigado!)



----------



(*) O autor viveu 2 anos no Cairo (1990-92) e publicou "Egito - uma viagem ao berço de nossa civiliação", Thesaurus, Brasília, 1995.



Os interessados no livro, que trata da história egípcia antiga, costumes egípcios, conflito árabe-israelense, Guerra do Golfo, viagem a Israel e religião muçulmana, podem comunicar-se com o autor (e-mail acima).



Obs.:



O presente texto seguiu o “esqueleto” apresentado pela Sra. Aida, com a adição de dados extraídos do meu livro “Egito”, além de outros retirados da “Enciclopédia Britânica” - Mirador e Barsa (F.M.).











Comentarios
Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui