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Artigos-->Três excrementos -- 11/10/2003 - 12:31 (Darlan Zurc) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


Medíocres sujeitos, metidos a sabichões, são uma espécie que se prolifera como pulgas e têm uma audácia e descaramento que estão esperando uma catalogação exaustiva da Psicanálise a fim de se mapear a sua real e lamentável magnitude. Uma certa categoria do idiota intelectualizado adquiriu o hábito de sustentar excrementos do tipo: 1) tudo na vida é uma construção histórica, 2) a verdade é um instrumento ideológico e 3) são as bases materiais a condição definidora da existência.



O primeiro, assim como o segundo, nem sequer passa pelo mais simples dos testes lógicos, que é a confrontação do enunciado contra ele mesmo. Se um postulado não consegue ultrapassar seus próprios limites e esbarra de imediato na autocontradição é porque nunca deixou de ser uma grande bobagem. Pois se tudo é histórico e esta própria premissa também o é, logo, ela mesma nega o que acabou de afirmar.



O segundo enunciado é igualmente uma matéria fecal. Ainda que haja mudanças freqüentes das conclusões científicas (comumente provisórias, uma vez que só a arte é longa) e o fato de que simples perguntas sobre nossa origem hominídea, sobre o sentido da história, sobre a origem do Universo, sobre para onde vamos e como chegamos até aqui... não obtiveram resposta definitiva, apresentar como inescapável a negação da existência da verdade é um exagero brutal. E toda vez que olho o semblante de alguém sentenciando que a verdade é uma versão da classe dominante ou de que ela nunca passou de um engodo qualquer, noto que esse alguém fala o maior dos engodos e com a convicção de nada mais ser do que uma própria verdade. Valha-me Deus!, é possível termos uma verdade que nos diga que não existe verdade alguma? Claro que não. Deste modo, a idéia mais realista é admitir que a verdade em si, diferentemente da dificílima possibilidade de chegar a ela, é por sua vez um dado irrefutável: ora é inquestionável e passível de demonstração em qualquer lugar, a exemplo da fórmula 2+2 ou do teorema de Pitágoras, ora é evasiva, fragmentada, incerta quando se trata de interpretar culturas ou quando está à mercê da subjetividade. Além dos problemas ligados ao seu estatuto ontológico e aos seus limites empíricos, a verdade pode servir a abusos de autoridade, formas de exclusão, etc. E que culpa ela tem? Nenhuma. E mesmo que a sua obtenção costume ser parcial, desfocada, insuficiente, nem por isso a sua busca e importância deverão cessar, deverão ser banidas para permitir o triunfo das teses relativistas e politicamente corretas.



O terceiro excremento é mais complexo e dá mais trabalho para ser contestado. Por quê? Porque, tomando a satisfação das necessidades básicas de sobrevivência dos indivíduos como regra elementar da vida, as pessoas costumam achar que tudo o que vem depois serão banalidades ou acréscimos dispensáveis, pois só dão valor a essa chamada satisfação básica. Sendo tal satisfação algo mais instintivo que qualquer outra coisa, sobrará para a realização social do homem o que não diz respeito a esse instinto. Se, em contrapartida, o leitor quiser sugerir que a ambição humana o faz acumular mais bens do que precisa e projetar por completo a sua vida em função disso, direi que ocorre aí um erro de interpretação de sua parte: os bens materiais tanto na fase instintiva quanto posteriormente são mecanismos para atender os desejos de cada um. Os objetos, do isqueiro à Ferrari, existem só como uma ponte para a realização do nosso apetite, da nossa libido. Um automóvel inexiste por si mesmo, dependerá sempre de alguém com a finalidade de torná-lo o que é com o uso e o status que tem. Resumindo a ópera: os bens em geral, inclusive o dinheiro –– este papelzinho sujo e malcheiroso ––, serão sempre meios cujo fim ignoram. Assim, as condições materiais satisfazem meu corpo alquebrado pelo frio ou pela fome, no entanto, elas estão apenas na superfície.



E, após uma overdose de Lógica clássica, nada melhor do que doses homeopáticas de, talvez, um pequeno tratado tipo “A arte de calar” (todo baseado em ensinamentos bíblicos; quem sabe não exorcizará focos de dejeto em determinados cérebros), de autoria do abade francês Joseph Dinouart (1716-1786). Se a falta do que fazer lhe cria transtornos, pior é agora quando o leitor tem tempo a mais porque há três excrementos a menos para se preocupar.





Publicado no jornal “Folha do Estado”, Feira de Santana (BA), 6-12-2002.











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