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Artigos-->Retrato de um poeta quando jovem -- 11/10/2003 - 12:19 (Darlan Zurc) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


Triste a humanidade seria se fosse substituída pela República de Platão: nela não existiriam poetas, nada pareceria ter beleza e a existência tinha tudo para ficar insuportável. A vida sem poesia é vida ordinária. Pensando nisso, a sentença de Fernando Pessoa (inspirada em Camões) segundo a qual é mais importante navegar que viver foi levada a sério neste livro “Diário de bordo”, de Jarbas Oliveira Cruz.



Marujo iniciante que não faz feio ao ofício, pelo contrário, utiliza vez ou outra belas imagens, chegava (talvez ainda chegue) a pensar em poesia na mesma freqüência que bebe água; trabalhei com ele quando eu editava, numa rotina de extremo amadorismo, um jornalzinho colegial. Na ocasião ele alternava crônicas curtas com poemas inspirados no Concretismo. Curou-se quase por completo do último e carrega seus versos com doses elevadas das primeiras. É por isso que a poesia jarbasiana é moderna, ou melhor, modernista. Ele prefere ser ourives das idéias a explorar todas as possibilidades das palavras. Jarbas é simples sem ser simplista. É generoso com o leitor, não retoca as orações para, numa aura obscurantista, parecer profundo e erudito. Jarbas, semelhante ao conceito de Cora Coralina, é operário, artífice da palavra, um encanador de vocábulos.



O leitor do “Diário de bordo” entra numa viagem da alma do autor por diversos gozos, por diversas angústias, por diversos medos. Literatura que se preze acaba promovendo esta simbiose: o que, por exemplo, Eurípides ou Mariana Alcoforado escreveu é atual porque a aflição deles também é a nossa — embora mais de dois mil e quatrocentos anos nos separem do dramaturgo grego e uns trezentos da poetisa portuguesa. A aflição ou a felicidade de Jarbas é minha, é tua e é até de Andrew, o robô de “O homem bicentenário”, filme futurista dirigido por Chris Columbus.



O grande Rilke, em sua breve obra “Cartas a um jovem poeta”, chama a atenção dos versificadores que estão dando os primeiros passos para que evitem assuntos excessivamente batidos tipo amor, paixão, mulher... Deveriam começar retratando o cotidiano, as coisas comezinhas da realidade. Como a lírica poética dos mortais não é só rilkeana, Jarbas achou por bem saltar esta etapa e tratar logo do que apertava o seu sapato. É aí que mora o perigo. Para escrever a respeito de grandes temas, o autor teria de aliar a leitura da tradição literária com uma formação empírica que apenas a convivência dá. Juntando o que acumulou até agora das duas, ele veste a armadura aquática e se lança na batalha do mar imprevisível da escrita e das relações sociais, tendo em vista principalmente que o ato de escrever é uma forma de vida, de navegação. Inclusive, poeta de verdade mesmo é todo aquele que navega ou já navegou intensamente. O nosso poeta está buscando viver, isto é, navegar com intensidade.



Os temas mais recorrentes do livro são o rumo indefinido de sua barca — cujo porto mais seguro é a morte —, a reiterada declaração de amor à vida e às mulheres (mas não quaisquer mulheres, ainda que ele anuncie também que “é preciso viver amando sem distinção”), a incerteza e ceticismo acerca de Deus e a preocupação para com os miseráveis. Além disso, o autor dialoga nos versos amorosos com uma personagem feminina tanto onipresente — a qual aparece em outros tipos de poema — quanto muitas vezes arredia; comumente ele roga por sua atenção, seu calor, seu corpo.



A amada volúvel, a insensível, a difícil e a que se entrega, às vezes todas elas juntas ou ora uma, ora outra, povoam os pensamentos do autor a ponto de lhe rancarem um segredo que beira (é verdade Paulo Francis!) um dos mais intoleráveis sentimentos humanos: a raiva do amante rejeitado. Dizem suas palavras:



“Você que passou feito vento espalhando as chamas,

pousou no meu coração sem deixar rastros, fez o ninho

e agora não quer se servir do que está posto;

dançou na minha imaginação seu sutil balé,

tirou meu sono roubando meus sonhos

e acha que o que eu tenho dado é pouco”.





Para dificultar os fatos, corre em paralelo a isso uma luta profunda do poeta entre a vontade de encontrar significado em tudo e a constatação lispectoriana de que “viver ultrapassa todo o entendimento”. Nele lutam sem fim um racionalismo exacerbado e um empirismo em desenvolvimento; por isso, sua indecisão ou dualidade não é nada pequena. Admirador da razão, ele suspeita que a capacidade dela é restrita, entretanto, hesita pensando que nada existe fora do seu alcance. Crente no poder da mensagem iluminista, que é terrena (e que chega a combater a imaginação), descrente no poder divino que todos dizem sentir, mas não respeitam, Jarbas, devidamente autodessacralizado, quer acreditar que um outro mundo é possível, é necessário, e se enoja com o que aí existe (“lá fora está o mundo de que tenho aversão”). E será possível aperfeiçoar a sociedade a partir da sujeira dela mesma? De qual maneira reformar tendo como objeto só aquilo que se encontra condenado? Sua ambigüidade não é gratuita. Ela é uma entre as tantas que nos incomodam desde ao menos o movimento civilizatório dos últimos duzentos e cinqüenta anos.



O sucesso do desejo — como tem desejos nosso poeta — de suprimir as feridas alheias (e ele “fazia planos de ser médico e acabar as dores do mundo”) é impossível porque não há vida (leia: navegação) sem sofrimento, há pouca aprendizagem sem dor. Ainda que saiba disso, o objetivo do poeta é expiar as chagas das pessoas. Mas do que não é capaz a compaixão dos poetas?



Um banzo piora ainda mais os movimentos marítimos do autor. Poeta originário do sertão baiano, radicado na selva de pedras da Grande São Paulo, seus versos demonstram o quanto o deslocamento populacional dos nordestinos para o Sudeste brasileiro, incluindo a si mesmo, desorienta e muitas vezes desenraíza o migrante. A onírica viagem jarbasiana no livro por certo se estruturou antes dessa mudança de lugar e de cultura (na verdade, sua errância é congênita), no entanto, somente se aflora para ele próprio e para os que o lêem após esta migração.



A terra real de Jarbas não tem palmeiras e raros são os sabiás, mas ele a quer de volta ainda assim. Se bem que o que lhe cativa são homens, mulheres, crianças: as gentes. Claro que a tranqüilidade bucólica de suas origens (jogando “o futebol aos domingos, andava a cavalo”) contrasta assustadoramente com o vaivém da metrópole (do “som das máquinas e dos transeuntes”). A propósito, o sonho do nosso poeta a respeito de um lugar bastante idealizado se confunde (inconscientemente ou não) com o seu plano de dar aos homens — àquela porcentagem de maltrapilhos — um lugar encantado.



Vendo entrar água nos seus planos, no seu barco, o poeta percebe amargamente que sua sina é esta: sonhar num canto e engolir a negação no outro. Que fazer? Continuar confabulando tornaria o fardo cotidiano do homem menos pesado? Faria parecer mais leve? Melhor seria, e logo, se os poetas fossem varridos como desejou Castro Alves a uma certa embarcação, um certo navio negreiro? Para que um poeta se o rebanho não o segue? Realmente,



“o poeta está ferido e sangra,

o poeta enxuga suas lágrimas agonizantes,

o poeta não suporta o peso dos ombros e desaba.

O poeta não existe mais, fizeram dele matéria das escrituras

e as cinzas da sua quimera lançaram às feras mais profundas”.





Chocado por nada tornar realizável do que almejava, o poeta a bordo do seu fiel escudeiro, o diário, começa a imaginar que até as suas frases registradas passaram a ser mentiras. E onde jogar, inclusive para que nunca mais incomodem, o seu medo da noite e a sua preocupação sobre o que ele próprio será no futuro, uma vez que até o seu ofício está imprestável?



O poeta parece respirar fundo — aproveita para fazer logo porque não sabe se nem isso vai durar muito tempo —, ignora como responder a tantas perguntas, pois nem se vê obrigado a tal, e, por fim (um fim que é apenas o começo), sente uma vontade arrebatadora de continuar vivendo (leia de novo: navegando) — o que significa igualmente continuar escrevendo. E que direção tais escritos e tal vida vão tomar? Talvez para cá, para lá, para ali...? A do nosso poeta, numa embarcação desconhecida (e que não aprisiona negros, mas sim seus temores), ele mesmo sabe: “eu sou sem destino, pingo, ponto. Pronto”. Então, pronto!





Povoado Melancia, Nova Soure (BA), inverno de 2003.





Prefácio do livro inédito “Diário de bordo”, de Jarbas Cruz.













© Copyright. Todos os direitos autorais reservados. A reprodução total ou parcial é permitida desde que citada a fonte. Mais informações e contato: darlanzurc@ig.com.br



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