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Cartas-->João Roberto Gullino (*) -- 28/11/2007 - 11:57 (Benedito Pereira da Costa) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
João Roberto Gullino (*)


Sr. Benedito,



Peço licença para invadir sua privacidade com tão longo e-mail, mas seu endereço me foi fornecido pela nossa amiga Beatriz Dutra, da Academia Rio-Cidade Maravilhosa, com quem convivo desde antes de sua criação e a quem dedico o maior respeito e carinho. Ela me informou que também é de seu hábito a exigência ao nosso pobre vernáculo tão rico.



Permita que me apresente – João Roberto Gullino, 74 anos, aposentado, apreciador do desprezado soneto – portanto, adepto ainda da poesia metrificada e rimada, sem, entretanto, desprezar o estilo livre que não devemos confundir com o “modernista”. Assim, como sonetista e trovador, fica-se, às vezes, espremido numa palavra quando não se acha outra que a substitua à altura de seu sentido e da metrificação.



Por coincidência, Beatriz repassou-me seu texto sobre tautologia no mesmo dia em que um sobrinho, de SP, enviou-me outro igual (e agora já recebi mais três). Como a palavra já faz parte de meu vocabulário há muitos anos, com outro sentido, contestei a ambos. Beatriz repetiu-me seu texto, mas meu sobrinho polemizou e então enviei-lhe a análise abaixo para que apresentasse ao tio de lá, professor de português. Estou aguardando resposta, mas de um professor daqui – moro em Petrópolis/RJ – deu-me voto favorável e que espero não tenha sido somente por delicadeza, pois seria frustrante.



Não sei de sua participação como membro correspondente da ARCM – se em função da prosa ou da poesia – mas em poesia, digladiamo-nos muito com os duvidosos “sinônimos” que, quando mal empregados, rouba todo o sentido do verso (como alias, confessa o Houaiss). Assim, entendo que, embora as palavras TAUTOLOGIA, REDUNDÂNCIA E PLEONASMO possam ter uma correlação, têm aplicações diferentes.



Mas só sei que a palavra está dando “panos pra manga”, embora, como digo abaixo, eu não tenha competência “filóloga” para contestar o Houaiss ou sua equipe. Também como digo abaixo, são tão pormenorizados e detalhados em inúmeros verbetes, enquanto em outros, carecem de esclarecimentos mais amplos, pois, na minha opinião, qualquer palavra é de extrema importância no detalhe de seu significado.



Assim, gostaria de saber de sua opinião a respeito de minha explanação pois, como justifiquei com meu sobrinho, já diz um velho ditado que “da discussão nasce a luz” e acredito que não haja nada mais saudável que o esclarecimento sobre divergência de opiniões, principalmente sobre nossa língua “inculta e bela” tão mutilada. Como pode imaginar, polêmica é um tema que vivo em foco com meus confrades, adeptos da poesia livre. De tanto “discutir” tal assunto, findei por montar um livro em favor do soneto – “O Conceito do Soneto” – (aprovado por uns e reprovado por outros) que agora só depende de um apoio pois, como já disse, não basta ter-se um patrocínio para sua edição, mas sim, que se possa divulgá-lo amplamente para melhor atingir sua finalidade e aos possíveis interessados.



TAUTOLOGIA – QUESTIONAMENTO



AURÉLIO: vício de linguagem que consiste em dizer, por formas diversas, sempre a mesma coisa. Ex. “A gramática usual é uma série de círculos viciosos, uma tautologia infinita (João Ribeiro – Cartas devolvidas – pag.45).



MICHAELIS: vício de linguagem que consiste em repetir o mesmo pensamento com palavras sinônimas.



CÂNDIDO FIGUEIREDO: vício de linguagem que consiste em dizer sempre a mesma coisa por formas diferentes.



CAUDAS AULETE: vício de locução pelo qual se repetem constantemente as mesmas coisas em outros termos



FRANCISCO FERNANDES & CELSO LUFT: vício de linguagem que consiste em dizer sempre a mesma coisa, de formas diferentes.



DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE 1915/Portugal– (capa perdida): repetição da mesma idéia por palavras diferentes.



PEQUENO DICIONÁRIO DE ARTE POÉTICA DE GEIR CAMPOS: nome dado à figura que resulta da repetição da mesma idéia sob diversas formas, como na passagem da “Canção do Tamoio” nos Últimos Cantos de Gonçalves Dias :



Não chores meu filho.

Não chores, que a vida

é luta renhida:

viver é lutar.

A vida é combate

que os fracos abate,

que os fortes, os bravos,

só pode exaltar.



TAUTOLOGIA - HOUAISS :



1 - Rubrica: gramática. - uso de palavras diferentes para expressar uma mesma idéia; redundância, pleonasmo

2 - Rubrica: “lógica.” - proposição analítica que permanece sempre verdadeira, uma vez que o atributo é uma repetição do sujeito. Ex.: o sal é salgado

3 - Rubrica: retórica. - expressão que repete o mesmo conceito já emitido, ou que só desenvolve uma idéia citada, sem aclarar ou aprofundar sua compreensão



REDUNDÂNCIA - HOUAISS :

1 - qualidade ou característica do que é redundante

2 - insistência desnecessária nas mesmas idéias; excesso de palavras, de expressões; prolixidade, abundância

3 - Rubrica: gramática. - m.q. tautologia



PLEONASMO - HOUAISS :

1 - Rubrica: lingüística. - redundância de termos no âmbito das palavras, mas de emprego legítimo em certos casos, pois confere maior vigor ao que está sendo expresso (p.ex.: ele via tudo com seus próprios olhos); tautologia

2 - Rubrica: lingüística. - excesso de palavras para emitir enunciado que não chega a ser claramente expresso; circunlóquio, circunlocução

3 - qualidade do que vai além da suficiência; superfluidade, excesso, inutilidade



SINÔNIMO HOUAISS :: lingüística. - sema diz-se de ou palavra que tem com outra uma semelhança de significação que permite que uma seja escolhida pela outra em alguns contextos, sem alterar a significação literal da sentença



CORRELAÇÃO - HOUAISS : correspondência, similitude, analogia entre pessoas, coisas, idéias etc. relacionadas entre si



MEU COMENTÁRIO :



Cada palavra tem seu significado específico como confirma o próprio Houaiss :



“que tem com outra uma semelhança de significação que

permite que uma seja escolhida pela outra em alguns

contextos, sem alterar a significação literal da sentença”



Portanto, sinônimos não são exatamente de significados idênticos, mas semelhantes – uma palavra nem sempre pode ser substituída por outra sem alterar-lhe o sentido específico. Houaiss é o único que coloca o termo no mesmo nível e equivalência à redundância e pleonasmo quando, cada uma tem seu sentido explícito. Resumindo, apensar de serem sinônimas, cada palavra tem seu significado, conforme a própria definição de Houaiss :



TAUTOLOGIA - uso de palavras diferentes para expressar uma mesma idéia;



REDUNDÂNCIA - insistência desnecessária nas mesmas idéias; excesso de palavras, de expressões; prolixidade, abundância



PLEONASMO - redundância de termos no âmbito das palavras, mas de emprego legítimo em certos casos, pois confere maior vigor.



Assim, prefiro ficar com o exemplo de Geir Campos que dá o enfoque e alcança o que se pretende transmitir, portanto, onde não há a redundância como “subir pra cima” ou “descer pra baixo, mas uma tautologia exemplificada também pelo Aurélio que, por mim, também apelo para a “lógica” referida por Houaiss.



Não pretendo e nem tenho autoridade “filóloga” para contestar Houiass, mas aceitando-o, põe-se em dúvida os demais, inclusive o Aurélio, pois a seguirmos as definições de Houaiss – tão detalhadas e pormenorizadas para inúmeros verbetes– teríamos que aceitar sua definição para outras, como TROVA que a classifica, em literatura, como simplesmente QUADRINHA, quando qualquer poeta consciente sabe não ser essa sua verdadeira e perfeita qualificação. Já em QUADRINHA ele a define como sendo “de quatro versos – geralmente de sete sílabas - como a TROVA”. Assim, ele deveria saber que uma trova será sempre uma quadra, mas uma quadra raramente será uma trova, em função de suas regras definidas e não eventuais.



No meu Dicionário de Sinônimos Melhoramentos, o verbete não entra e em REDUNDÂNCIA consta excesso, exagero, prolixidade, pleonasmo.



Já no Dicionário de Sinônimos de F. Fernandes & C. Luft em TAUTOLOGIA não aparece o verbete, porém, em REDUNDÂNCIA o verbete aparece como sinônimo, quando tal similitude está ausente em seu “Superdicionário” mencionado acima.



Veja como é difícil chegar-se a um denominador comum sobre o perfeito significado de uma palavra. Assim, deduz-se que nossos filólogos são dispersivos ou contraditórios em seus ensinamentos (ou suas equipes não estão à altura de fornecer esclarecimentos), o que viria a ser um crime de “lesa vernáculo”. Acho que devemos combater com muito afinco a mutilação de nossa língua para impedir que, até intelectuais, assassinem-na, como “nosso” ministro da cultura. Consideremos, ainda, que a má utilização de uma palavra pode levar um processo judicial à derrocada.



Mas Houaiss se machuca, também, na definição do que vem a ser poesia quando diz :



Literatura: composição em versos, livres ou providos de rimas,

cujo conteúdo apresenta uma visão emocional e/ou concei

tual, na abordagem de idéias; estado de alma; sentimentos,



e se contradiz, num comentário, quando “ classifica como cegos os que não apreciem a poesia de Drummond” e a certa altura transcreve (apoiando) a visão de Luis Costa Lima que, por sua vez, faz eco a Otto Maria Carpeaux: “E Drummond é o maior e último poeta modernista. Quem ainda considera a poesia como enfeite decorativo, não pode compreender o poeta cuja matéria é a vida presente. Quem aprecia nos versos a harmonia artificial dos ritmos e das rimas, (os destaques são meus) não admitirá que na vida a dissonância é, conforme Nietzsche, a regra e o acorde a exceção; e que o poeta pode ter todos os privilégios menos o de mentir. Quem bate palmas à poesia declamada no teatro ou no comício, ignora a meditação solitária que afasta da sociedade o poeta autêntico.”



Uma observação específica - poesia metrificada não é “enfeite decorativo” – um totalitarismo preconceituoso – pois seu valor poético depende dos temas abordados, confrontando com a poesia modernista que, na maioria dos casos, apresenta prosa esquartejada, totalmente desprovida de sentido poético.



Finalizando tão extensa explanação, acho ser este estudo uma autêntica “tautologia”, dada a sua insistência em cima do mesmo tema, sem ser uma redundância ou um pleonasmo.



Assim, só me resta agradecer – e muito - por sua paciência em aturar tanto blá-blá-blá. Não é que eu não tenha o que fazer, mas é um hábito de quem gosta de tudo esclarecer e nunca se apoiar num “dar de ombros” para qualquer assunto, como é tão peculiar em nosso povo, seja qual o tema abordado e o que empurra o país para este estado em que se encontra.



Um abraço,

João Roberto Gullino

Rua Monte Caseros, 486 - Petrópolis, RJ

jrgullino@oi.com.br

23.11.07
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