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Crônicas-->A GUERRA DOS GATOS E RATOS -- 23/06/2014 - 21:34 (Francisco Miguel de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

A GUERRA DOS GATOS E RATOS

Francisco Miguel de Moura*

Lá em nossa casa, quando eu era menino, a gente criava gatos. A função deles, como em qualquer lugar, era andar pela casa, roçar-se na gente, miar de noite em cima do telhado quando estavam no cio. Mas a principal era matar os ratos que entravam pelas brechas das portas de casa e se aninhavam em armários da dispensa para roerem as comidas. Mais disto nunca observei.

Hoje sei que os gatos são os felinos mais “filósofos” do mundo. Quem quiser provar que observe os gatos de hotel, onde parece que se sentem muito à vontade. Desta forma, pode-se aquilatar que não são bons guerreiros, contrariamente àqueles considerados seus inimigos.

Entretanto, minha mãe me contava histórias fabulosas de vários tipos, para menino, menina e gente grande. Uma delas era a da coligação entre ratos e gatos para acabarem com a festa de uma velha doente (doença psíquica, talvez), a viúva do Dr.Mutti e Silva, sem filhos, deixando tudo ao sabor dos animais e da empregada, quando fora para o hospício, depois da morte do marido, este vitimado por doença cardíaca.

- Não! – resmungou a “burra” da empregada. - Assim, aqui todos seriam iguais: liberdade de miar do mesmo jeito e durante o mesmo tempo, sem prejuízo do que cada um quisesse fazer na noite, nos telhados e nos fojos dos ratos – que por si já fazem muito rebulício e ruídos enjoativos.

Ninguém visitava a família, muito menos depois da morte do velho. Até hoje ninguém sabe por que motivo. Desde o início eles não quiseram criar nenhum animal doméstico. Como a casa dos Mutti e Silva era muito grande e sombria, muito depois eles resolveram quebrar essa solidão. Por isto começaram a criar gatos. Daí a pouco os felinos eram tão numerosos quanto os ratos que apareciam à noite para roubar-lhes os queijos e, acabando estes, o que mais houvesse. O tropel se tornou desconfortável demais. Derrubavam vasilhas e pratos, além de talheres e objetos de decoração lá pela cozinha e copa, depois pelos quartos e salas. Daí a pouco, os felinos eram tão numerosos quanto os ratos que apareciam à noite.

- Não é problema! - eis o que pensaram primeiramente: - Cada gato pega seu rato, e pronto. Poder criar tantos gatos quantos ratos apareçam.

A loucura faz alguns acertos nada razoáveis e, assim, torna-se a causa de contratempos. Pois não é que ela, a velha resolvera dar uma ração menor, bem menor aos gatos, até ficar insignificante o número de seus animais outrora de estimação! Os pobres ficaram magrinhos e os ratos gordos. Gordos e preguiçosos. A empregada cumpria fielmente as ordens de sua patroa, tudo ao pé da letra. Mas ainda havia muitos queijos e não sabia como guardá-los. Era um tempo em que não havia geladeiras.

Como alimentar ao mesmo tempo, gatos e ratos?

O senhor Mutti, antes de morrer, havia preparada uma grande armadilha para pegar todos os atrevidos que entrassem em casa, especialmente no seu quarto de dormir. Deixariam, enfim, de roer seus pés, de madrugada, além do queijo guardado. A invenção era uma espécie de enorme ratoeira. Para instalar a tal estrovenga, teve que derrubar o pé da parede e colocá-la, de forma que as bocas de entrada ficassem para fora, para o quintal, muito grande e sujo. De cá, os gatos abririam a janelinha de madeira e pegavam quem estivesse roendo a isca. O local escolhido para a instalação da armadilha fora a sala de jantar, agora transformada em depósito de tudo que fosse imprestável.

Eram muitos ratos. Em torno de cem já havia contado, de graúdos a miudinhos. Cada gato atacava, de per si, apenas um pedaço; os outros vinham após, pegavam o seu e fugiam.

Mas um dia os ratos resolveram que isto era uma tolice. Poderiam pegar muitos pedaços, em cada investida, e guardar a sobra para o dia seguinte. Não lembraram que não existia lugar seguro para armazenarem as rações; além do mais, uns eram mais gulosos que os outros e o plano iria de água abaixo. Combinaram, em assembléia, eleger também um líder e ele seria sempre quem iria buscar o queijo, sob o risco de ser comido pelo gato líder. Isto foi resolvido, depois que notaram haver, do lado de lá, também um líder: - um gatão preto, com listas pelo meio do corpo, com um olho azul e outro preto.

Chegou um momento em que os ratos começavam a passar fome, pois a velha, obedecendo a orientação do gato-líder, o Xisto I (haveria um II), desistiu da idéia de diminuir a população de gatos.

Foi esta uma Assembléia dos poucos gatos restantes. Sorte ou inteligência - não é possível ainda saber-se - foi a reação dos gatos também de diminuir, acabar com a ração dos queijos para os ratos: aquilo fora um erro do velho, continuado pela velha.

Foi nesse ínterim que a Sra. Mutti falecera, rogando pragas em todos e em todas que chegavam perto dela, em meio às crises. E a empregada já não sabia mais o que fazer. A doméstica resmungava, era só isto.

- “Está ficando insuportável!” - falava às paredes.

Como fora colocada a invenção do Sr. Mutti, talvez mais maluco do que sua mulher, os gatos dividiam os queijos com os ratos, e aquilo não podia continuar. De fato não continuou: Não havia mais queijos. Os fornecedores se afastaram por falta absoluta de pagamento. E os ratos, sempre em assembléia resolveram afastar-se e ir buscar comida nos sítios além-muro dos Mutti. Mas nem todos acreditaram na conversa do seu líder: ficaram do lado de cá, ou melhor, em cima do muro.

Foi aí que foi convocada nova Assembléia dos Gatos. Elegeram um líder, o Xisto II. Este iria na frente, os outros atrás. Mas nenhum podia ser velho nem criança, só os gatões adultos. Uma batalha, uma guerra. Já vinham ganhando terreno, graças ao astuto líder. Afinal, seria a vitória. Mas não teve jeito: Também pisou em lugar falso da grande ratoeira, tentando ultrapassar a barreira de ferro e pegar uma migalha de queijo do outro lado e não conseguiu. Morreu engasgado por uma haste da estrovenga, tal com o primeiro. Um e outro foram jogados no lixo.

E esta seria agora a sorte de todos os líderes, senão de todos os gatos.

Muito depois circularia na cidade que os ratos haviam perdido a batalha. E nenhum voltaria mais àquela casa, justamente por causa da catinga insuportável de gatos mortos ali desde o início da batalha na qual morreu o último líder deles, o Xisto II.

A dona da casa grande não soube da notícia da baixa enorme dos gatos e da retirada incondicional dos ratos, pois já havia partido para a outra vida, senão iria procurar sua gatinha Mimi, que fugira na primeira investida dos ratos da cidade “Anima Meae”, ao sul do Vale do Cano, e haveria de torná-la, novamente, a boa reprodutora que foi.

Muitas reuniões na Assembléia dos Gatos ainda foram feitas, mas nenhum dos seus líderes foi tão inteligente quanto o gato Xisto, praticamente cada um lutando só. Os companheiros, a maioria, ficavam no bem bom, dormindo à porta da casa, esperando que passasse algum bichinho na rua, tarefa muito mais fácil que a de pegar um daqueles ratos bonitinhos, mas catingosos – diziam por despeito. Além do mais a casa estava insuportável com tanta catinga de merda de rato. É que eles não haviam tomado conhecimento do fechamento total do casarão, com a morte da dona Mutti, após sua chegada do hospital. E que a empregada também deu graças a Deus e “se mandou”, nunca mais passando nem pela porta da morada dos gatos e ratos.

As duas partes nunca pensaram que a paz social pela divisão dos bens unicamente, só faz destruir, nada se ganha, se não a solidão e o desprezo dos que respeitam as diferenças e as liberdades. E os gatos, apesar de filósofos não chegaram a encontrar a filosofia da convivência, difícil, mas necessária.

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Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina, PI, Brasil - Escreve poemas, contos, crônicas, romances e crítica literária, em cujos gêneros já publicou vários livros. Membro da Academia Piauiense de Letras, da União Brasileira de Escritores -SP e da Associação Internacional de Escritores e Artistas - Estados Unidos.

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