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Crônicas-->TRES ATITUDES - SALVANDO A ALMA -- 19/03/2013 - 20:19 (Francisco Miguel de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

SALVANDO A ALMA-TRÊS ATITUDES

 

 

 

 

 

 CRÔNICA

 Francisco Miguel de Moura*


Não tenho explicação para o que sinto quando as ruas de minha cidade se esvaziam de gente indo e vindo, carros buzinando em disparada: uns vão, outros vêm. Sinto alívio dos sons e dos rostos, destes nem tanto, mas quando são muitos cansam, aborrecem. Se todos fossem rindo e não nos parassem para conversar! Ai! O fio do pensamento já está a me fugir para o rebulício. Minha intenção é voltar aos feriados normais e aos chamados fins-de-semana prolongados, hoje tão comuns, por causa da facilidade das máquinas corredoras, e as pessoas como eu não embarcam, voam ou correm pelas estradas, e então o tempo fica de sobra para fazer-se o que se têm de fazer.

 

Nesses dias meu pensamento flui.

 

Foi pelo Natal. Fim de ano que também já é começo de outro. Eu não ia só – acompanhou-me uma mulher, minha conhecida de caminhada matinal. No início, íamos mais ou menos calados, por ruas desertas, quando, ao pé de uma porta, uma andorinha apareceu, e triste como se estivesse doente. E estava dodói de um pé, aliás de uma asa, por isto caminhava em vez de voar. A mulher disse de sua intenção de pegá-la e levar... (Não explicou o que ia fazer com ela).

 

- Não, não faça isto, deixe a bichinha aí, que ela se recupera.

 

No nosso encalço vinha um cão daqueles que vivem pela rua, não têm dono ou nunca tiveram, viu a ave, cheirou...

 

- Vou pegar a bichinha antes que o cachorro a coma.

 

- Não, não, ele não vai interesssar-se por ela.

 

Dito e feito. O cão nos acompanhou deixando a andorinha em paz.

 

- Pegue uma pedra e jogue nele, que ele deixa de nos seguir.

 

- Mas ele vem tão em paz! Olhe!

 

Ele foi logo passando à nossa frente, nos seguindo de perto, cheirando o chão e os postes e...

 

- Ele está procurando fazer xixi, ou então seu amigo, não acha?

 

E seguimos. Na frente, havia uns quatro livros jogados na calçada. Já um pouco molhados pela chuva. Mas eu, curiosamente, como sou escritor, abro um, abro outro, e o que encontro? Relatórios de atividades burocráticas, exercícios para concurso, entre outros com matérias mais ou menos afins. Não me interessei mais. E bem em frente, molhando a mão no capim orvalhado, senti-me limpo por ter pegado naqueles livros que viraram lixo.

 

Ela disse: “Não vai levar um ou todos para você”?

 

Não respondi. Mas, antes do fim da jornada, pensei: Por que não dei a menor importância aos livros? Certamente dei a importância que eles tinham. Se fossem meus, tivessem o meu nome? Aquilo é material que publicam às carradas, em toda banca de jornal a gente encontra em melhores condições, ou mesmo nos sebos, a preço de banana. Quanto ao cão, confesso que não gosto de cachorros, dos chamados de raça, criados presos para defender a casa. Na grande maioria das vezes mordem até os donos; outros, quando se soltam, saem por aí atacando os passantes, pessoas que não têm nada a ver com eles. Os de raça “pitbull” matam crianças e até gente grande. Um horror! Desse tipo de cachorros não gosto. Mas, estes cãezinhos comuns que por uma razão ou outra se tornaram vira-latas, eu admiro. Admiro por sua inteligência bem próxima do homem, no sentido em que a liberdade é o nosso maior bem, depois da vida. E eles são livres. Gostam de sê-lo, não perseguem ninguém, a menos que se lhes tentem maltratá-los. Eles querem roer um osso, perto dos açougues e, em ultimo caso, vão furar os sacos de lixo. Mas isto faz também até as crianças famintas.

 

Nesses três encontros inesperados assumi comportamentos e atitudes diversas. Sobre a ave e o cão, respectivamente tive a de respeitar a vida e a liberdade de cada um. Se valeram algo para os animais, não sei. Mas pessoas devem comportar-se bem. É o que vale a pena.

 

Pareceu-me, naquele momento, que havia, na minha colega de caminhada, uma atitude sobre determinadas coisas. O interesse ou o zelo pelas coisas não deve obumbrar os princípios de vida e liberdade. E também não prejudicar a natureza como um todo, um sistema: o ambiente. As coisas devem ser preservadas enquanto servem à vida e à liberdade. E isto é muito variado porque os gostos são muitos. “E não se discutem!” Aliás, discutimos os gostos, sim, quando nas aulas de estética e de ética. Fora disto é simples jogar conversa fora, para lavar a alma de alguma outra sujeira. 

 

 

 

Será que a minha crônica também me lava a alma de pecados anteriores? Por exemplo, o de “pregar que não gosto de cachorros nem na televisão”?   Talvez, quem sabe? Por estas e outras – tenho feito poemas à minha cidade quando passeio por ela, de manhã, e a cidade está praticamente vazia, poemas que me dão gosto de ler depois. Continuo lavrando e lavando minha alma, leitor, sem cerimônia. Nem medo de ser egoísta.

 

 ___________________

 

*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina, PI, é  membro da Academia Piauiense de Letras e da International Writers and Artists Association (IWA), Estados Unidos.

 

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