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Crônicas-->TIO EUCLIDES DA MINHA MEMÓRIA -- 23/07/2010 - 22:30 (Francisco Miguel de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
TIO EUCLIDES DA MINHA MEMÓRIA

Francisco Miguel de Moura*

Não cheguei praticamente a conviver com meus tios, quer do lado de minha mãe, quer do de meu pai. Entretanto, alguma coisa me ficou dos encontros nas festas da padroeira de Jenipapeiro e dos passeios e visitas à casa de meu avô Sinhô do Diogo. Como poderia ter grandes recordações deles? E não me refiro apenas às coisas doces, agradáveis da vida. Este é um dos problemas que tenho quando me meto a memorialista. Senti quando escrevia a biografia de meu pai, Miguel Borges de Moura, irmão de tio Euclides Borges de Moura.
Tii Clide como nós chamávamos em família era um rapaz nem gordo nem magro, de estatura baixa como o normal dos homens de nossa terra, mas de boa apresentação. Não tinha beleza que chamasse tanta atenção, mas também não era feio. Se assim me refiro ao físico é para chegar ao emocional. Caçula dos dez filhos homens de meu avô, Sinhô do Diogo, naturalmente gozava de todas as regalias, enquanto menino. Depois de taludo, ia para o serviço pesado da roça com os outros, onde desempenhava bem e com desenvoltura suas tarefas. Por outro lado, posso estar enganado, mas não acredito que tenha sido uma pessoa de grande iniciativa. Ele gostava mesmo era de festas, danças, namoricos, etc. Era assim que eu ouvia dizer quando botava atenção nas falas baixinhas de minhas tias. Quando se pôs rapaz feito, como se dizia, não pensava em casar. Seu caso era divertir-se. Para tanto, gostava de vestir-se bem. Mas chega um dia em que o homem tem a necessidade do casamento. Assim era. E ele, depois de ter namorado muitas moças, tomou-se de amores por uma viúva nova ainda, de nome Rosa, que tinha uma filha. Ela, que viria a ser minha tia, era da família Rocha, de Alagoinhas/São Julião. E, não obstante, a falta de aval da família para se juntar com ela, foi justamente o que fez tii Clide. O pessoal da casa de meu avô, Sinhô do Diogo, dizia:
- Com tanta moça prendada por aí, de boa família, parentas, amigas e conhecidas, por que esse menino foi escolher logo uma viúva pobre e com filho?
Reclamavam mais: que era de longe e ninguém sabia do seu passado.
Pelo que se sabe, o casamento não chegaria à aprovação geral da família, principalmente das irmãs, não obstante, meu “pequeno” tio insistisse em convencê-la. Disse “pequeno” porque nossa idade tinha a diferença de apenas 8 anos, tendo eu, possivelmente, brincado ainda com ele. Com a convivência é que todos se deram às boas.
Mas é sabido também que as mulheres solteiras, nunca aprovam o casamento dos seus irmãos, pelo menos de início. A isto pode se debitar o ciúme que ele causou ou a desconfiança em sua felicidade. Mas ele foi feliz. É preciso dizer que tia Rosa sempre foi uma verdadeira dona de casa, mãe de família e não tinha nenhuma queixa da negativa de suas cunhadas. Assim, o casamento com seus altos e baixos teve um curso de normalidade e paz, vivendo o par até os dias mais avançados da madureza, quando as doenças se tornam as donas das pessoas e os casais não têm mais o apegadio de antes.
De sua descendência, conheço bem o Dr. João Erismá de Moura, meu primo, uma pessoa de ótima educação, fino trato, solidária, hospitaleira, sempre pronto a servir no que pode e no que é necessário aos seus e até as pessoas que não lhe são ligadas por sangue. Ele, para meu entendimento, herdou muitas qualidades de meu tio: simplicidade, gosto pela boa vida, responsabilidade para com a família. Eu gostava muito dele, meu tio, como gosto do filho. E tenho lembranças do tempo de menino, quando ele era um rapazinho e eu tentava imita-lo em alguma coisa, além de me sentir meio sem jeito diante de tanta pressão que ele sentiu no affaire casamento.
Mais recentemente – quando me aproximei de Jenipapeiro (hoje Francisco Santos – PI), e ele, meu tio, deixou Brasília, vindo residir numa bela casa que construiu juntamente com seu filho, bem próxima da cidade, na verdade um sítio aprazível – foi que nos reaproximamos. E eu que pensava que tii Clide fosse viver muito, tanto quanto tio Toinho (Antônio Borges de Moura – meu único tio ainda vivo)! Um dia soube da notícia do seu falecimento, através de Rosa Araújo, nós ambos sobrinhos dele, e me deu uma tristeza danada. Era como se um pedaço de minha infância tivesse desaparecido no meio do cipoal de minha vida adulta e de velho também, que já sou.
Das últimas vezes que passei por seu sítio, conversava longamente com ele, tio e sobrinho deitados em redes que se estendiam no terraço que rodeia toda a casa. Entre muitas coisas, ele lembrou de minha irmã Helena, que mora em Santo Antônio de Lisboa – terra onde ele morou também, num passado mais distante. Ele tinha chegado recentemente de lá e eu perguntei:
- Tio, você falou com Helena?
- Não, Chico. Eu ia passando bem perto de sua casa, até ia passar por lá. Mas, ela, quando ela me viu, fechou a janela. A porta já estava fechada.
Falando com Helena, um dia destes, perguntei sobre o acontecido, queria ter sua versão do incidente.
- Por que você não fala com tio Euclides, minha irmã? Ele já está na idade em que a pessoa sente mais solidão e precisa da afetividade dos parentes.
E ela respondeu-me:
- Eu falaria com ele, se ele é falasse comigo. Mas ele passa bem por perto de mim, no mercado, e não fala. Dessa vez, ele passou por longe... E como ele nem acenou, eu também não falei.
Diante disto, é impossível não lembrar do que disse, um dia, o próprio João Erismá de Moura, no momento em que sua filha caçula chorava muito e teimava, querendo algo que não era possível:
- Cale a boca, minha filha! Você parece que é do Diogo!
Ser do Diogo, a terra de meus avós paternos, meus tios e a maioria de meus primos... Ele, Erismá, tem razão e eu já lhe disse isto: Que as pessoas do Diogo, especialmente a família de meu avô, são amorosas a mais não poder. O que nós não temos é comunicabilidade, temos vergonha de dizer o que sentimos, tal como a propalada teimosia dioguense. Esta talvez seja mais uma qualidade que um defeito. É por causa disto que somos vencedores. Teimamos, prosseguimos até alcançar o objetivo. Meu tio Euclides era do Diogo, com todas essas características.
Não posso esquecer de frisar o tom gozativo, com que ele me contou, naquele dia, o seu encontro-desencontro com minha irmã Helena. Tii Clide, Euclides Borges de Moura, era uma pessoa agradável, bem humorada, contava seus casos e fazia-me rir. Nunca tive dúvidas de sua inteligência e operosidade, quer como agricultor, quer como pedreiro, quer como quando se dava a outras obras.
Em sua memória, comovido, teci esta pequena crônica. Guardo-o como nos vimos pela última vez no seu sítio, ainda pisando firme, trabalhando, embora se queixasse de incômodos provenientes, segundo ele, de uma cirurgia a que se submetera recentemente. Contudo, tinha sempre palavras que denotavam o seu bom humor de outrora.
Para mim, as pessoas boas, amigas, parentes e conhecidas, não morrem: transportam-se para regiões distantes, onde descansam e vivem outra vida menos trabalhosa, difícil e cheia de incertezas. A morte só é um castigo para os maus. Estes, sim, morrem para sempre.
Tio Euclides certamente ganhou o melhor lugar no plano a que Deus o elevou, dentre os que trabalham, são pacíficos e vivem para fazer o bem.
__________________
*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina, Piauí, é membro da Academia Piauiense de Letras, da União Brasileira de Escriores e da IWA - Iternational Writers and Artists Association, Estados Unidos.
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