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Contos-->O Estranho Médico Conto-depoimento -- 05/08/2001 - 12:43 (Vânia Moreira Diniz) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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Acordei assustada, com uma nesga de sol, batendo entre as cortinas ligeiramente afastadas e senti a nostalgia de um longo dia de domingo triste e vazio.
Lembrei-me do meu sonho daquela noite que me pareceu envolto em brumas do passado e que não me deixou realmente descansar. Só pensava em sentar-me e fazer do meu computador o ouvinte certo do que precisava transmitir. A longa recordação de muitos anos anteriores.
Gávea. Rio de Janeiro e a casa de meus avós cheia de gente, o que sempre me empolgava muitíssimo. As figuras conhecidas: O Dr. Antunes, o médico cuja mulher se encontrava em um sanatório, segundo eu ouvia dizer. Recordo-me de sua figura corpulenta e da paixão que ele tinha pelo jóquei. Por que me lembrei disso? Talvez porque essa noite passei como nos velhos tempos, em meio às figuras de outrora. Lembrava-me de todas aquelas pessoas, muitos escritores, vários políticos e alguns simplesmente citados como “amigos”. Todos, porém fascinantes para minha cabeça infantil.
Mas o que mais me intrigava, sempre era um médico que era hóspede habitual daquela casa. Sua figura imponente, os cabelos louros que começavam a embranquecer, os óculos grandes e grossos, os traços bem marcados faziam com que eu contemplasse o Dr. Michael de uma forma mais insistente. Era estrangeiro, judeu não sei de que nacionalidade, mas a sua história me fazia sempre ficar cada vez mais curiosa.
O sofrimentos oriundos de perseguições o haviam trazido para o Brasil e os sofrimentos impostos tinham transformado o médico num homem amargo e triste. Não acreditava na bondade de ninguém, exceto do meu avô que o tinha recolhido, não sei dizer em que circunstância.Muitas vezes quando estava passando férias lá, sentia um certo receio inexplicável, mas condoia-me vê-lo contar os horrores porque tinha passado. Muitas vezes vinham me buscar na sala quando o triste Doutor começava suas recordações nostálgicas.
Só uma vez vi sua mulher, cujo físico bonito havia me impressionado. A maioria das vezes ela estava sempre viajando e hospedando-se na casa de uma irmã em São Paulo.
Jamais soube porque aquela mulher tão bonita, que praticamente não convivia com o marido, continuava a manter um relacionamento à distância, mas posso imaginar que fosse por medo ou acomodação.
Recordo-me das discussões que ele tinha com quase todo mundo, suas teorias violentas, a incompreensão para todo tipo de erro que qualquer pessoa pudesse cometer e concluía que só podia ser fruto de tudo o que sofreu.
Quando me olhava mais longamente debaixo dos grossos óculos de tartaruga eu desviava os meus com pressa como se seu simples olhar pudesse me fazer algum mal. Achava-me, então muita injusta para alguém que havia sofrido tanto e tentava suavizar minha expressão. Mas havia algo que não conseguia assimilar.
Muitas vezes na discussão que mantinha com as pessoas tornava-se violento na forma de expressar-se e os outros não nutriam muita simpatia pelo Doutor que tinha aparecido de repente, parece que por indicação de um amigo comum.
Fora isso o ambiente naquele lugar era maravilhoso e principalmente fascinante.
As histórias citadas, o círculo de informação e interesse que se formava, a dissertação de meu avô, um verdadeiro contador de histórias interessantes cuja cultura e inteligência impressionava a todos, faziam daquela casa para qualquer criança uma terra de fábulas. E eu me sentia privilegiada.
Existia também alguém que chamávamos de babá e cuja figura adorável, jamais esquecerei.
Um dia, quando cheguei na casa de meus avós havia um silêncio estranho, desusado e totalmente incompreensível. Babá me levou lá para fora e minha avó recomendou-me que eu não aparecesse na sala.
Não obedeci. Subtraindo-me à atenção da nossa querida babá, andei pelos fundos até chegar ao outro lado da casa e pela abertura da janela pelo lado de fora vejo o Dr Michael, estendido no sofá enquanto seu corpo parecia sofrer espasmos intercalados.
Apavorada virei-me e então pude sentir na minha mão fria a quentura agradável da mão de um velho amigo de meu avô que dizia
— Mantenha-se calma, minha querida. Nada vai acontecer
— E o que é isso?
Olhou-me com simpatia enquanto com o braço em volta dos meus ombros me levava para perto da velha babá.
Soube então que o estranho médico fora descoberto de uma maneira inusitada, tentando violentar na sua fúria uma jovem empregada da casa e enquanto era subjugado, contara que já havia feito isso várias vezes, em outras ocasiões e longe dali, mas que não tinha sido descoberto. Só então todos compreenderam que o hóspede era além de um maníaco contumaz um doente totalmente lesado por convulsões costumeiras.
A decepção de meu querido avô deixou marcas que ainda hoje recordo e apesar de tudo seu coração extremamente aberto e magnânimo lamentava o ocorrido enquanto o médico era recolhido a uma casa de doentes mentais..
Compreendi então porque sentia por ele aquela forte sensação de aversão, mas jamais pude deixar de experimentar uma compaixão não costumeira por alguém cujo sofrimento não é absorvido para aprendizado, mas se transforma em lesão psíquica cujas conseqüências são imprevisíveis.
Vânia Moreira Diniz
OBS: Os nomes dos personagens foram alterados para preservar suas identidades



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