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Discursos-->O DISCURSO QUE NÃO FOI PROFERIDO -- 10/11/2003 - 22:49 (Francisco Miguel de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
O DISCURSO QUE NÃO FOI PROFERIDO

Francisco Miguel de Moura*



Para quem não possui o dom da palavra falada, nem todo dia é um bom dia. Se o anjo não baixar a gente fica mudo, sem palavras, gaguejando.
Com estas considerações inicio o relato de como foi o lançamento de meu livro “REBELIÃO DAS ALMAS’, na Academia Piauiense de Letras, em 6 de setembro deste ano, um sábado pela manhã. Quem fez a apresentação do autor e do livro, como de praxe, foi o Acadêmico Oton Lustosa, com uma bela alocução, por escrito.
Eu, salvo algumas anotações que ainda conservo e vou reproduzi-las daqui a pouco, nada escrevi porque passei a semana toda no hospital, acompanhando minha filha Mécia, acometida de dengue.
Assim, minhas palavras, principalmente as de agradecimentos, foram um tanto desconexas e sem empolgação. Lembro-me bem ter dito que quem escreveu o livro que está sendo lançado, a rigor, não deveria dizer nada sobre ele, pois tudo já foi dito (escrito).
Então? Falar sobre sua própria vida?
Sim.
Alinhavei alguns pequenos fatos, acrescentando que gosto de escrever contos, é quando me sinto mais solto, mais leve, mais à vontade; é uma espécie de passeio pela literatura; em razão disto há no meu estilo um tanto ou quanto de humor, que pode desaguar no que se chama de negro. Disse também estar satisfeito com minha produção e com a venda: Sou um dos que mais vendem livros, nesta terra, pois já publiquei 22 títulos e todos estão esgotados.
Dali em diante passei a ler um apanhado de citações e pensamentos que serviriam para enformar o discurso daquele dia.
“As coisas só duram enquanto estão sendo construídas”, comecei assim, com estas palavras do escritor José Luís Dutra de Toledo.
Agora, a minha referência à teoria: Existem as artes do tempo e as artes do espaço. A literatura normalmente é colocada entre as artes do tempo. A hipotipose transpõe a arte da literatura, que é do tempo, para arte do espaço. Não é um procedimento apenas clássico. Continua hoje como sempre, belo e necessário. Como fazer com que a arte do tempo mostre o espaço e as artes do espaço mostrem o tempo? Somente com as hipotiposes – afirmei.
Umberto Eco esclarece que Dumarsais nos recorda que HIPOTIPOSE significa imagem ou quadro, e acontece “quando nas descrições pintam-se os fatos de que se fala como se aquilo que se está dizendo estivesse realmente acontecendo diante dos olhos; mostra, por assim dizer, aquilo que se conta”, a realidade – bela metáfora, de verdade, mas usar uma figura para definir uma outra é um tanto pouco.
Não contente, dei mais um exemplo de hipotipose escolhido, entre muitos outros do mestre italiano, este já citando o poeta Nerval:
“Ela voltou a remexer nas gavetas. Ah, quantos tesouros! Que perfume em tudo, que brilho, que reflexos de cores vivas das lantejoulas! Dois leques de madrepérola meio quebrados, potezinhos de creme com motivos chineses, um colar de âmbar e mil cacarecos entre os quais se destacava um par de sapatinhos de fino tecido branco com fivelas incrustadas de diamante da Irlanda.” A esse tipo Eco dá o nome de hipotipose de elenco, porque existem muitos outros.
Outra observação de Umberto é que “a hipotipose, uma figura que nos põe as coisas quase aos nossos olhos, é a metáfora, como diria Aristóteles. Mas ninguém diria que a metáfora é a hipotipose.”
O Dicionário do Aurélio, imprescindível, registra: “Hipotipose: Descrição tão viva e animada de um objeto ou de uma ação, que apresenta à vista o que deve significar.”
Por último, lembrando Parrer, Umberto Eco vê a hipotipose como uma das figuras que concorrem para o Sublime.
Para mim e para outros tantos escritores e poetas, não existe o magma da inspiração, ou, quando existe, ela é apenas 1% de tudo; o restante fica por conta do trabalho, da transpiração. Para Umberto Eco, também não existe a receita de como escrever uma obra de arte literária. Existe uma idéia seminal, ou mais de uma, e outras idéias menos importantes. Existem perguntas. Ele disse que para responder a um pergunta de sua mente, vinda da infância, durou 8 anos, outras duraram mais.
Um outro conceito de literatura a que me quis referir foi o de Eça de Queiroz: “A nudez forte da verdade, sob o manto diáfano da fantasia”, lembrado pelo Prof. Paulo Nunes. Esqueci-o totalmente.
Se eu tivesse sabido concatenar essas idéias, naturalmente teria feito um discurso bonito, naquele dia.
Mas, de que vale um discurso bonito? Palavras, leva-as o vento. Por isto, quando indico alguém para me apresentar em qualquer solenidade mais séria, peço que faça sua fala por escrito. É documento. Não poderá jamais dizer que não as disse. No máximo, desdi-las-á. Mas o dito foi dito e gravado. Para sempre.
Nunca mais levo anotações. Nelas me perco. Pode-se infelizmente ficar bambeando entre o escrito e o “a dizer”, fugindo à espontaneidade do momento. Melhor confiar na memória, se se vai elaborar mentalmente a elocução. Senão, é levar o “improviso” prontinho, no bolso do paletó.”
_______________
* Francisco Miguel de Moura publicou 22 livros nos gêneros poesia, conto, crônica, romance, ensaio, história literário e antologia.


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