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Humor-->Histórias do João Macaco -- 26/08/2006 - 17:24 (Jader Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos






A empregada do Macaco


Durante anos, a República Durango Kid funcionou em Taubaté, na altura do número 125 da rua Aristides Oliveira Patrício, no Jardim Ana Emília. O local ficou famoso porque ali moravam vários propagandistas solteiros, amantes da festa da vida. Nos fins de semana, a república se transformava em abatedouro de mulheres sem compromisso. Podiam ser solteiras ou casadas, não importava. O vizinho, hoje proprietário de um “pet-shop” na cidade, era muito simpático e foi muito paciente conosco. Fosse outro, certamente não teria agüentado a barulheira. Com o passar do tempo, em virtude do intenso agito, tornou-se necessário contratar uma empregada para cuidar da faxina do local, da lavagem das roupas e da preparação da comida. O João Macaco foi oficialmente nomeado pelo Barriga de Bagre como o contratador da doméstica. E o Macaco levou a sério a sua missão. À noite, depois que retornava das visitas aos médicos, o João saía pelos bairros de Taubaté entrevistando possíveis candidatas ao cobiçado emprego de secretária doméstica da famosa República Durango Kid. Durante a entrevista, quando declinava o nome da República, as moças ficavam meio ressabiadas. Será que a rapaziada pagaria um bom salário? Valeria a pena arriscar? Certo dia, o Macaco abordou uma jovem que estava parada no ponto de ônibus da CTI e fez a proposta que julgava ser irrecusável, afinal ninguém pagava um salário mínimo para empregadas domésticas naquele tempo. A mulher ouviu atentamente a proposta: os deveres, as obrigações e os horários rígidos da República foram expostos com clareza. Quando, porém, o Macaco disse o quanto ela receberia pelo honroso trabalho, a mulher reagiu indignada: “Moço, mas é muito pouco! Pra ganhar esse salário “nóis prefere” continuar sendo biscate!...”





Caraguá, a tragédia

Quando rolava o ano de 1967, eu estava com vinte e dois anos. Já fazia mais de três que era propagandista e cursava a faculdade noturna de Serviço Social de Taubaté, enfrentando as durezas da maior tragédia que até então se abatera sobre o povo brasileiro: a mão pesada e intolerante da ditadura militar. A década infeliz estava por terminar quando uma outra mais próxima de mim, real e concreta, aconteceu. No exato momento em que eu retornava de Ubatuba para Taubaté uma tromba d’água, nunca vista, caiu sobre a serra. O fenômeno natural que por pouco não me leva desta para melhor, ficaria conhecido como “a tragédia de Caraguá”.
Naquele fim de dia fatídico, em Ubatuba, lembro que o Filhinho seria o nosso último cliente. O Robertinho do Organon, anfetamínico, agitadíssimo, tentava me convencer a subir junto com ele pela estrada de terra de Taubaté — seria bem mais suave que dar a volta por Caraguá. Realmente, o caminho era perigoso, mas era bem mais curto, mais rápido e tentador. Estávamos em carros separados e poderíamos subir em comboio, apoiando-nos reciprocamente em caso de pane. A idéia era arriscada, mas convidativa. O “Seu” Filhinho, que era homem sábio e prudente, ouviu tudo e me chamou para um particular: “Olhe, menino, não vá na conversa deste doido... Já é noite e a chuva está ameaçando cair forte na subida da serra. Lembre-se, meu filho, “que passarinho que acompanha morcego amanhece dependurado!...” Mas não dei ouvidos ao velho farmacêutico, que se julgava o único amigo de Saint Exupéry em todo o hemisfério sul. Fui teimoso, peguei o caminho de terra mais curto e parti em cima do rastro do Robertinho. Nosso destino era Taubaté. O doido já tinha entrado no seu carro, bem mais potente que o meu, e sumira na neblina da serra. Alguns anos mais tarde, o competente colega seria assassinado enquanto dormia. Morreu com vários tiros de 38, desferidos pela companheira. Mas isto é uma outra história. A chuva grossa caiu conforme previra o seu Filhinho e me pegou, à noite e sozinho, na serra. Nessa hora, seria bom se eu estivesse com um amigo por perto, mas o meu prometido companheiro, o Robertinho, já andava longe, talvez para além de São Luis do Paraitinga, ignorando-me solenemente. A estrada se transformou num rio de lama, enormes seixos, verdadeiros meteoros líquidos escorregavam na enxurrada e raspavam, por baixo, o chão do meu valente “pé de boi” —um carro popular e sem acabamento, produzido sob encomenda para servir aos vendedores de empresas menores. Naquele tempo, a maioria dos propagandistas viajava em carros econômicos da Wolksvagem. O carro era valente, mas quando cheguei no planalto, engasgou e morreu. Não imagino como conseguira chegar vivo até àquele ponto. Deus tinha me carregado no colo serra acima. Eu precisava chegar em casa, e Ele sabia disso. Ainda chovia muito e tudo estava escuro, os vidros embaçados não permitiam ver absolutamente nada. Como não dava para descer do carro, respirei fundo e liguei o rádio nas ondas curtas da Difusora de Taubaté. Ouvi a notícia de que um trecho da Serra do Mar — exatamente entre Caraguá e São José dos Campos, aquele trecho de estrada que eu teria percorrido se tivesse ouvido o conselho do farmacêutico—, tinha sido derretido por uma tromba d’água e empurrado na direção do mar. A água tinha caído com tanta intensidade, que arrastara as árvores e os morros. As casas com famílias inteiras dentro, a estrada asfaltada, os carros lotados de passageiros, tudo sumira em meio à enxurrada de lama amarela.
Os homens e as mulheres que morreram naquela noite —por quem sempre rezo—, talvez estejam viajando por dimensões cicloidais, através de um tempo que não conta.
No mês seguinte, quando voltei lá novamente a trabalho, olhei para o planalto e vislumbrei o perfil da serra. O morro estava desfalcado e se parecia com um enorme panetone do qual um gigante faminto tivesse retirado, aleatoriamente, vários nacos. Neste momento, lembrei do dia em que recusei a sugestão do “seu” Filhinho (que achava mais seguro dar a volta por São José dos Campos do que subir a serra de Ubatuba) e escolhi acreditar na sugestão do insensato Robertinho. O caminho certo, aquele que me pouparia a vida, era exatamente o pior deles.
Na hora de escolher, Deus falou comigo pela voz de um doido. E falou justamente através do Robertinho do Organon —que era um grande profissional, mas não gostava nem um pouco da vida.


Os doze trabalhos de Hércules


Dos meus distantes tempos de propagandista, camelando no Vale do Paraíba, nunca me esquecerei de um lançamento feito pelo meu amigo Faro, memorável trabalho de divulgação feito pelo grande profissional que muito me encantou. Na ocasião ele representava o Laboratório Squibb e eu trabalhava no BYK.
O produto que “lançava” na ocasião era um polivitamínico para crianças, de sabor agradável, com potenciais fontes de energia e montanhas de sais minerais. Ao longo de doze longos meses, na condição de seu carona oficial, vi o Faro entregando aos médicos uma série de encartes coloridos que destacavam, um a um, os doze trabalhos de Hércules, relacionando-os com seu novo produto ”Júnior”. Do mesmo jeito que eu gostava de ver a jogada de marketing do colega, é muito provável que os médicos também tenham gostado e receitado bastante o seu produto.
Não me lembro se a ordem era essa, mas os doze trabalhos do herói mitológico eram: 1) Matar o terrível e invulnerável Leão de Neméia, (que Hércules não só matou como fez um belo manto com a sua pele); 2) Matar a terrível Hidra de Lerna (que tinha nove cabeças); 3) Capturar vivo o Javali de Erimanto; 4) Capturar viva a Corça de Cerínia (cujos chifres eram de ouro e os pés de bronze); 5) Matar os pássaros carnívoros do Lago Estínfale; 6) Limpar as cavalariças do rei Áugias, da Elida; 6) Capturar o terrível Touro de Creta (animal incontrolável); 7) Capturar vivos os cavalos carnívoros de Diomedes, rei da Trácia; 8) Roubar o cinto mágico de Hipólita, rainha das Amazonas; 9) Capturar os bois do Gigante Gerião; 10) Colher os pomos de ouro das Hespérides (cujos frutos eram mágicos e quem os comia se tornava imortal); 11) Descer ao inferno e capturar o Cão Cérbero (de 3 cabeças).
Todavia, relacionei aqui somente 11 trabalhos iniciais do mitológico herói, cuja razão explico. Aconteceu que, quando o Faro apresentaria o último dos trabalhos, fui promovido e transferido para Ribeirão Preto. Fiz o papel do ascensorista que não consegue escutar o fim da piada. Frustrado até hoje por que não fiquei sabendo do fim da história, faço um apelo aos meus eventuais leitores: se alguém foi propagandista um dia e se lembrar qual foi o último dos trabalhos de Hércules, ou melhor, do Faro, mande-me um e-mail, conte-me o resto da história ou vá comer um prato de farofa de bunda de içá. Doril


Doril


Em 1975, quando eu trabalhava no Laboratório Lafi, fui conhecer o setor conhecido por “Sertão”, que se estende de Rio Preto, SP até à cidade de Cassilãndia, MS. Recém promovido a gerente distrital —dizem que eu era um chefe chatíssimo—, acompanhava o vendedor Hélio “Chupa Coco”, o titular do setor. Uma semana antes, o laboratório Sidney Ross tinha desencadeado uma gigantesca campanha nacional com um novo remédio, o “Doril”, promovendo o antigripal no rádio e na TV de maneira maciça, massacrante mesmo.
Naquele dia a principal farmácia de Cassilândia era um formigueiro, estava cheia de clientes. Entre um freguês e outro, o comprador e proprietário da farmácia ia “montando” o nosso pedido. De repente, entrou um caboclo, um caipira típico do interior e tomou conta da situação. O cidadão estava decidido a mostrar que entendia de remédio e estava deveras atualizado com as coisas que rolavam na mídia nacional. Interrompeu a rotina, ocupou o espaço e pavoneou-se. Com a voz bem alta pediu licença aos presentes e, como se tivesse coisa muito importante a dizer, mandou: “Desculpe moço, mas a como está o Doril?”
Ele queria saber o preço do remédio apenas pra exibir-se como sendo o mais novo sábio da comunidade. Os fregueses ali presentes todos riram da ingenuidade do caboclo. Ainda hoje, quando raramente me encontro com o Chupa Coco, lembro daquela velha história da propaganda que funcionou rápido demais e pergunto: “Desculpe moço, “a como está o Doril?..”


Lagoa Santa


Os setores de propaganda e vendas do chamado “sertão de Rio Preto” ainda hoje se estendem além da fronteira de São Paulo. Na Altura de Santa Fé do Sul, os propagandistas cruzam o rio Paraná e vão até Cassiândia, MS, para visitar os médicos.
Em 1975, representando o Laboratório Lafi e recém promovido a gerente distrital (dizem que eu era um chefe chatíssimo), acompanhei o Hélio “Chupa Coco” numa dessas jornadas heróicas. Antes de chegar em Cassilãndia, o Chupa me falou das belezas da Lagoa Santa, um pequeno lugarejo do Estado de Goiás, que ficava ali perto e tinha uma lagoa de águas quentes medicinais que brotavam do centro da Terra. Era quase noite e decidimos pernoitar ali e conhecer as maravilhas do local.
Cruzamos o rio do Peixe, em uma ponte particular mediante o pagamento de uma taxa equivalente a uns dez reais, e hospedamos numa barraca de madeira que diziam ser o hotel. A noite chegou e a cidade continuava escura. Apenas nessa hora o Chupa Coco me informou que a cidade não tinha luz elétrica e foi providenciar uma lanterna. Jantar, então, nem pensar. Decidimos então tomar um banho na famosa lagoa.
O vendedor foi à frente, com uma lanterna precária, iluminando caminho. Caminhamos em meio à mata densa, sobre pontes suspensas de madeira e chegamos à famosa lagoa de águas santas. Aquilo era programa de leão e eu já estava com o saco mais do que cheio, mas era tarde para desistir. Outras pessoas estavam ali, banhando-se na penumbra, colhendo os efeitos medicinais do local. Animei-me com o movimento e decidimos entrar na água (que é realmente muito quente), mas logo em seguida deu-se um tumulto inusitado. Um grito de pavor cortou o escuro da noite: “Socorro, corram todos!... É uma sucuri...”
Corremos para o “hotel”. Chegamos sem os chinelos e sem a lanterna que se perdera na confusão, e nem imagino como conseguimos encontrar o caminho de volta. Mas, até hoje, fico pensando se aquilo tudo não foi uma “armação” do Chupa Coco para me sacanear, o seu novo “chefe”, que diziam ser chatíssimo. Só não o demiti, confesso, porque não tive certeza.
Maçã em pedaços


Durante os quase quarenta anos que permaneci na indústria farmacêutica, seja como propagandista, supervisor ou gerente, conheci médicos difíceis, farmacêuticos neuróticos e propagandistas dos mais diferentes estilos. Ao final, e à sua maneira, todos eram homens sérios buscando a melhor maneira de sobreviver e vencer na vida. Foi muito bom conhecê-los —eles completaram a minha vida e enriqueceram o meu pouco saber.
A partir de 1970, os laboratórios começaram a admitir gente nova para a propaganda médica. Antes, apenas acontecia a famosa dança do tangará: os propagandistas eram sempre os mesmos: velhos profissionais que mudavam de uma empresa para outra. Mas isto é outra história.
Nesse tempo eu era gerente do Wesley e admiti um colaborador novo, o Carlos Tadeu, que fez muito sucesso na nossa empresa e logo foi convidado a se transferir para uma empresa maior. O setor que lhe dei era um dos mais difíceis de Ribeirão Preto, o chamado “alto da cidade”. Ali havia os médicos e as clínicas mais complicadas de visitar. Representavam a elite dos clínicos e professores da USP. Dentre esses professores destacava-se o doutor Brasil, um cardiologista de pouca conversa, cheio de normas e métodos para receber a visita do propagandista. O Carlos Tadeu foi lhe fazer a primeira visita e lhe contou uma história que conquistou o coração do médico, que não era tão duro como todos imaginavam.
Hábil e inteligente, o Carlos Tadeu, embora neófito, descobriu que o doutor Brasil tinha por esposa aquela que fora, muitos anos antes, a sua (do Carlos Tadeu) primeira professora. Em meio à propaganda, contou-lhe que, embora fosse pobre, no tempo em que freqüentava a escola, sempre dividia com a professora alguns pedaços de maçã, embrulhados num lenço de papel, que a sua mãe botava na mochila para o lanche. O doutor Brasil ouviu a história, cabisbaixo, e quase chorou. Depois disso, sempre atendia ao Carlos Tadeu de modo diferente e carinhoso, tornando-se em um dos maiores receitadores dos seus produtos.
E tudo se deu por causa de alguns pedaços de maçã que a sua esposa, e mãe dos seus filhos, ganhara daquele propagandista no passado distante quando ela era uma humilde professorinha da zona rural. Agora, vai saber o quanto de amor que se passou na cabeça do doutor Brasil!...

O bode


Vários são os motivos que levam o homem ao riso. Estudiosos do assunto chegaram à conclusão de que uma das coisas mais engraçadas que existem é o tombo. O sujeito vai andando normalmente, escorrega e cai. Ninguém resiste à cena, e tome gargalhada. É a quebra da normalidade, o inusual. Aquilo que está diferente do esperado é que provoca o humor das pessoas. O óbvio também é engraçado. Vejam o exemplo: Um japonês decidiu ter apenas três filhos, somente três. Quando chegasse ao terceiro filho pararia e ponto final. Ao primeiro filho deu o nome de Doisberto, ao terceiro chamou de Humberto. Qual o nome do último filho do japonês? “Zero-Berto” claro!
Numa entrevista do fabuloso escritor pernambucano, Ariano Suassuna, ele contou a seguinte história: um caipira teria roubado um bode e o dono do animal deu queixa à polícia. O caipira, para evitar ser preso, contratou um advogado. O advogado se apresentou e foi dizendo:
— Olhe aqui meu amigo, advogado é como padre, você não pode mentir, tem que dizer a verdade para mim. Você roubou ou não o bode?
O caipira então confessou que, efetivamente, tinha roubado o maldito bode. E o advogado então lhe disse:
—Vou defendê-lo, mas vamos usar de uma artimanha. Daqui para frente você não converse mais, só diga bééééé. Direi ao doutor juiz que você ficou louco com esta história de ser acusado de roubar o bode. Dito e feito. No tribunal o advogado virou-se para o juiz e disse:
— O meu cliente ficou doido, Sr. Juiz. Ao ser acusado de uma coisa que não fez, ele ficou louco e vive a imitar um bode: só fala bééééé!
O juiz interrogou o homem e ele só respondia bééééé. A cada pergunta do juiz, o homem ia respondendo bééééé. Ao final, sua excelência decidiu que o homem estava mesmo doido e o absolveu. Na saída, ainda na porta do tribunal, o advogado quis receber pelo seu trabalho: “Bem, agora que você é um homem livre, precisa apenas pagar pelo meu serviço. Trouxe os meus honorários?” O caipira, que de bobo não tinha nada, olhou para o advogado e berrou: “Bééééé!...”



Phithyrius Púbis


O phithyrius púbis é um inseto assemelhado ao piolho, privativo das regiões pudendas (púbis e virilha) do ser humano e dos macacos. Também é popularmente conhecido como “chato”. Em 1983, na cidade de Águas de Lindóia, fizemos uma mega reunião do laboratório 5-Pharma em que todos os propagandistas, supervisores e gerentes do Brasil compareceram. Faríamos o lançamento de um importante produto, o Delta-kid, para o combate do piolho e, indiretamente, também do chato. A empresa andava meio claudicante e aquele lançamento precisava “pegar”. Havia tensão no ar.
Depois de uma longa semana de treinamento, feito por equipes e em salas separadas, os propagandistas foram levados a um gigantesco salão central onde se faria a simulada geral. De cada equipe sairia um propagandista que, segundo o respectivo supervisor, estivesse melhor preparado para fazer a propaganda na frente de todos. Nessas oportunidades geralmente se usa um gerente, ou um supervisor, para fazer o papel de médico. Mas como estivesse presente a diretora do departamento médico, a doutora Cacilda, esta foi escolhida. A doutora era uma coroa muito bonita e quando se colocava diante de um auditório masculino intumescia os bicos dos seios, mas isto é outra história.
Da minha equipe destaquei para a simulada o Ayala. Foi uma escolha que fiz mais para contrariar o meu gerente, o Justo Bundão, que não botava fé no trabalho daquele propagandista, do que por outra razão qualquer. Mas o Ayala acabou se saindo muito bem, como se verá.
Ninguém gosta de fazer simulada. A simulada é o maior terror de todo propagandista. Acredito que nem mesmo a morte inspire tanto pavor. O Ayala foi o terceiro numa fila de doze. Até então o ambiente estava tenso e só se ouviam os aplausos nervosos ao final de cada propaganda. Nenhum comentário, nenhum sorriso. Os bicos dos seios da doutora Cacilda estavam cada vez maiores. O Ayala subiu ao palco carregando sua enorme pasta preta com as amostras de Delta-kid e puxou conversa com a doutora. Tentava “quebrar o gelo”, acalmar-se e tornar mais agradável a entrevista e o ambiente:
— Boa noite, doutora Cacilda!... A senhora está bem?
— Não muito. Estou meio chateada...
A função da doutora Cacilda era exatamente essa, de desconcertar o propagandista, testar suas habilidades, dificultar seu trabalho. Mas o Ayala, muito nervoso, querendo entrar logo na propaganda do seu medicamento para piolhos, aproveitou a deixa, e foi em frente: — A doutora está “chateada” com a vida ou está infestada por “chatos” mesmo?


Comendo Barriga

—Claudinha, você aceita café?
—Sim!
—Você vai querer banana ou mamão?
—Vou querer café...

As crianças vivem noutro mundo, num mundo especial onde a lógica é outra. Há pessoas desligadas que também vivem e pensam como crianças, mas isto é outra história.
“Comer barriga” é uma expressão brasileira que significa perder uma oportunidade de negócio ou deixar escapar uma chance de realizar o que se pretendia. Por outro lado, uma comida brasileira, típica de Minas, é o torresmo. O torresmo para ficar bom precisa ser feito com o toucinho e a pele retirados da barriga do porco. Este preâmbulo se faz necessário para que a história de hoje seja entendida. Meu amigo, Dito da Gaita, perdeu o apetite e já fazia alguns dias que não se alimentava direito. Sentia queimação na parte alta do estômago e afinou o pescoço. Passei a me preocupar com sua saúde e passava diariamente na sua livraria para vê-lo. Quando eu chegava em casa para o almoço, preocupado com a saúde do amigo, comentava com a minha mulher:
— O Dito não está nada bem...
Minha esposa, que não entende nada de doença, passou a sofrer junto comigo e também ficou preocupada com o andamento da saúde daquele nosso amigo de longa data. Todos os dias, quando eu chegava para o almoço, ela perguntava:
— Como está o Dito?
Eu tinha recomendado a ele, no dia anterior, que procurasse um bom gastroenterologista. Ele aceitou a sugestão, fechou a loja mais cedo, e foi ao médico. Aconteceu que, na hora marcada para a consulta, como ele não conhecia o médico nem o médico a ele, acabaram desencontrando-se no corredor da clínica. Resultado: o Dito “comeu barriga” e perdeu a consulta, precisando marcar novo dia e horário.
Cheguei em casa e ouvi, de novo, a pergunta da mulher:
E, o Dito, já está melhor do estômago?
Do mesmo jeito que comprei, vendi: — Preciso lhe contar essa... o Dito foi ao médico e “comeu a maior barriga...”
Mexendo na sua panela, superdistraída, ela comentou, toda feliz: — Que bom!... Se ele já está comendo torresmo é sinal de que está curado!...

Não coma caviar!


O Diniz morava na Vila São Geraldo, aqui em Taubaté, e durante muitos anos foi propagandista de laboratório. Era um português alto, bem humorado, de rosto corado como um tomate-caqui. Torcia feito um doido pela Portuguesa de Desportos, mas o time vivia a decepcioná-lo com derrotas homéricas diante dos times maiores.
O Diniz, invariavelmente, representava firmas pequenas, atacadistas menores, “varejinhos” em final de carreira, laboratórios chamados “BEÓ” e outros similares de pouca ou quase nenhuma utilidade para os donos de farmácia. Pessoalmente, ele era um sujeito simpático e muito querido por todos. Tomava seus “gorós” sagrados e estava sempre alegre, brincando e fazendo trocadilhos o tempo todo.
Devido a um problema que tinha no pescoço, quando se virava para um lado e para o outro, parecia que estava duro. Isto lhe valeu o apelido de “Fantomas”, um famoso lutador de vale-tudo da tevê que tinha essas mesmas características. Nem é preciso dizer que o Diniz odiava esse apelido. Lembro de uma certa ocasião em que saiu na porrada com o Conde Fazanaro por conta do tal apelido. Mas isto é outra história.
Quando se aposentou, o Diniz deixou a propaganda médica e abriu uma pequena farmácia na Vila onde morava. Naquele tempo era muito comum a prática de “curandeiragem”. Os farmacêuticos mais tradicionais examinavam e consultavam seus pacientes como se médicos fossem, e receitavam montanhas de medicamentos. Essa prática era comum no passado, mas, devido à modernidade e às limitações da lei, não existe mais. Em Taubaté havia vários desses farmacêuticos “curandeiros”. Eram quase santos e o povo botava muita fé neles. Havia o “seu” Julinho, o Rodolphinho, o Wanordem, o Diaulas, o Manoel Araújo, a dona Iracema, o Martins, o Gonçalves e tantos outros que deixaram saudade.
Para competir com esses gigantes o Diniz precisou inovar. Passou a dar uma atenção especial aos seus “pacientes”, a grande maioria formada por pessoas pobres da periferia. Quando terminava a sua “consulta”, passava a lista de medicamentos a serem usados e recomendava um regime alimentar severo. Nessa hora fazia um ar solene e aproveitava para manifestar seu jeito alegre e brincalhão, dizendo: “O senhor leve esses remédios e tome tudo direitinho! Mas siga o regime direito, senão o remédio não vai adiantar nada! Não coma caviar nem bacalhau ou filé mignon!... Vinho do Porto ou vinho francês, nem pensar, certo?”
Os fregueses saíam da farmácia contentes e gratos pela preocupação do “seu” Diniz, um homem sábio e bom. Mas nem era preciso preocupar-se, afinal, comidas caras iguais àquelas, jamais passaram de longínquos sonhos...

Mal de Perroni


Nas planícies da Oceania há uma espécie de raposa amarela, com marcas brancas na barriga e no rabo, que usa de uma artimanha para capturar coelhos. Consciente da dificuldade de capturar a caça, a esperta raposa dá um show de saltos, cambalhotas e corridas, deslocando-se vertiginosamente para um lado e para o outro. Uma vez que os circos nunca vão à floresta e diante da bela “exibição”, os coelhos ficam hipnotizados e tornam-se presa fácil. Mas isto é outra história.
Em Taubaté, na altura do Mercadão, há um ex-propagandista de laboratório, de nome Manfredini, que é talvez o único homem no planeta acometido pelo “mal de Pirroni”. Segundo ele, o “mal de Pirroni” é uma “fratura” que se dá no órgão masculino e acontece com homens jovens, sexualmente ativos e priápicos. Quando a “fratura” não é bem corrigida o sujeito fica com seqüelas, um pequeno defeito no órgão, o qual teima em permanecer apontando para a esquerda ou para a direita. O defeito não é grave nem altera a função, mas pode causar desconforto e confusões eventuais. É também comum ao portador do “mal de Pirroni” mijar em pés e botas alheias nos congestionados banheiros dos shoppings.
O Manfredini, inspirado talvez na raposa australiana, sempre que vai a Ubatuba, ou quando se encontra numa festa cheia de mulheres, deixa escapar, malandramente, que sofre do tal “mal de Pirroni”. Explica e conta detalhes, cita casos de outros amigos que foram acometidos pelo mesmo mal. Diz que esse mal é muito comum de se manifestar nos animais reprodutores, touros e cavalos de raça.
Diante de tantas virtudes um pequeno defeito não significa nada. Que mal há, afinal, se a ferramenta estiver apontando para a esquerda ou para a direita? As mulheres —e às vezes alguns homens—, ficam curiosas para ver o “defeito”. É quando ele aproveita a oportunidade para fazer o “ataque” final e decisivo. Diz que nunca falha.
Portanto, mulheres honestas do meu Brasil varonil, fiquem avisadas: quando estiverem numa festa e alguém começar a contar a “cabulosa” história do desconhecido “mal de Pirroni”, caiam fora. Certamente esse alguém será o Manfredini, super mal-intencionado. Ele, como a esperta raposa do começo da história, também aprecia bastante a carne macia das coelhinhas...


Vinho do Padre


Lá pelos idos de 1960 havia na da Dutra, no trecho entre Taubaté e Caçapava, uma churrascaria gaúcha que vendia vinhos populares. Eram vinhos “suaves” e “doces” da desconhecida marca “Danny” —todos os vinhos eram de segunda e até mesmo de terceira linhas. Nesse tempo o propagandista Décio Rocha já trabalhava no Laboratório Lafi, firma em que ficou até aposentar-se como gerente de treinamento. Seus chefões na empresa se diziam “exímios” conhecedores de vinhos, entendidos em vinhos caríssimos, das melhores safras chilenas e francesas. Nos papos de reunião gabavam-se de terem experimentado os mais diferentes vinhos do planeta. Extrapolavam e diziam ter provado, em memoráveis viagens internacionais, vinhos italianos, gregos e de outras nacionalidades. O Décio não gostava de ficar ouvindo aquele papo furado e decidiu aplicar uma peça nos arrogantes e pretensiosos chefes.
Decidiu e executou o plano. Um dia, quando retornava para sua sede, passou pela “Churrascaria e Vinhos Danny” e comprou enormes garrafões do precioso vinho. Em casa, cuidou de distribuir a bebida por muitos e muitos litros de cor escura, tendo o cuidado adicional de lacrar as rolhas com cera de abelha misturada com parafina quente e colorida. O selo real era para assegurar a insuspeita qualidade da rara bebida produzida num convento secular de Taubaté, cujas videiras eram ímpares no Brasil e quem sabe alhures... Mandou fazer rótulos rústicos com marca respeitável “Vinho do Padre” e os grudou nas bojudas garrafas. Fez isso para agradar aos chefes e “tirar um sarro, de leve”.
Na primeira reunião que teve na matriz presenteou a todos com “Vinho do Padre”. Os entendidos enólogos se deliciaram e reconheceram as virtudes do vinho santo, trazido pelo Rocha diretamente das vinícolas bentas de Taubaté. Gostaram tanto que pediram mais. Depois disso, a vida do propagandista nunca mais foi a mesma. A cada nova reunião precisava levar mais e mais vinho. A brincadeira foi ficando perigosa e cara. O Rocha já estava procurando uma boa saída para acabar com a história do “Vinho do Padre”, que estava indo longe demais.
Certo dia chegou em Taubaté um dos chefões da empresa. O homem, que era um dos maiores apreciadores do “Vinho do Padre”, manifestou o desejo de conhecer a vinícola e o convento famosos. Isto era tudo o que o propagandista Rocha mais temia. Para não perder o emprego, precisou ser rápido e criativo. Inventou que a vinícola estava em quarentena, fechada por tempo indeterminado, devido a uma contaminação por fungos. O chefe perguntou:”Mas que fungo tão terrível é esse?!”
O propagandista, na maior cara de pau respondeu: “A produção deles é artesanal... os noviços amassam as uvas com os pés e estão com os dedos cheios de frieira!...” Depois disso, ninguém mais quis encomendar o tal “Vinho do Padre...”.
Os novos amigos do Buda


Fazia muito tempo que eu não via o meu amigo Buda. A última vez que o vira tinha sido na demissão coletiva do Laboratório Torres, no longínquo ano de 1968, ocasião triste em que todos perdemos o sagrado emprego. Lembro que ele fez um discurso emocionado de despedida, com sua voz forte de barítono, levando-nos quase todos às lágrimas. Agora, tantos anos depois, ele estava ali, de pé, bem na minha frente, chupando um picolé na porta do Hotel Centro América de Cuiabá. Era ele mesmo, não mudara nada. Continuava gordinho, alegre e expansivo, calçando as mesmas sandálias nordestinas, vestindo um terno de linho branco, amassadíssimo. Parecia um coronel cearense.
Eu vinha chegando do jantar e cruzava a praça que fica defronte ao hotel quando ele me viu e reconheceu. Certamente se lembrou dos velhos tempos em que trabalhamos juntos e fomos demitidos juntos. Fez um gesto largo com os braços, levantou a poderosa voz e gritou meu nome. Sua voz, que continuava a mesma depois de vinte anos, atravessou a rua e inundou a praça. Reconheci-o de imediato: era sem dúvida o propagandista Buda, meu velho amigo de Bauru.
Nesse momento aconteceu algo inesperado e curioso. Vários índios que estavam acampados na praça, vestindo apenas algumas penas e tendo a pele do corpo pintada com as cores da tribo, ao ouvirem a voz sonora do Buda olharam para ele. Da porta do hotel o Buda continuava a fazer gestos largos e festivos na minha direção. Os índios, uns oito ou nove, entenderam que aqueles gestos amplos de amizade eram dirigidos a eles e cruzaram a rua na sua direção. Diante do Buda, que ficou apavorado, os índios fizeram fila e lhe deram longos abraços. Meio sem jeito, e sem ter outra saída, recebeu, um a um, os cumprimentos dos selvagens.
Depois que a “saia justa” passou, o Buda precisou subir ao quarto e trocar de roupa. Seu rico terno branco tinha ficado impregnado com um estranho cheiro de peixe defumado, e, nas suas costas, viam-se grandes manchas vermelhas de urucum...



Milagre em Tambaú


O escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues era vidrado nas coisas patéticas e gostava de citar a figura do paralítico. Sempre que tinha uma oportunidade acrescentava um personagem paralítico às suas histórias. Em uma delas, a jovem Carminha, de apenas quinze anos, aparece grávida. Em meio ao tumulto da terrível notícia, descobre-se que a menina era apaixonada por um vizinho, paralítico, bem mais velho que ela, que se movia em cadeira de rodas. A tristeza do doutor Maciel, juiz de direito e pai da moça, não poderia ser maior. De repente a mãe da menina entra na sala e dá uma outra notícia:”O paralítico, eu garanto, não é o pai!...”
O doutor Maciel ficou feliz com a notícia e imediatamente botou as mãos para o céu, exclamando: “Graças, ó graças!...” Tudo ele admitia, menos ser sogro de um paralítico. Esta crônica me fez lembrar do delicioso caso acontecido com o anão Chiquinho, sobrinho do propagandista de laboratório, Zerbini, morador da cidade de Pirassununga, SP.
O fato se deu nos anos cinqüenta. Em Tambaú, SP, o padre Donizete fazia curas miraculosas, agitando o interior de São Paulo e comovendo o Brasil. Os deficientes físicos, onde quer que morassem, alimentavam a doce esperança de uma cura impossível. Em grupos, ou isoladamente, os paraplégicos acorriam àquela cidade em busca do padre e do milagre. O anão Chiquinho, que os politicamente corretos chamariam apenas de “deficiente vertical”, decidiu ir também para aproveitar a onda de milagres. Queria ser um homem normal, grande como os demais. Dito e feito. Pensou em alugar o único táxi de Pirassununga, mas o dinheiro era curto e ele precisou dividir o pequeno espaço do interior do veículo com outras quatro pessoas. Na exata hora da partida surgiu uma irmã de caridade que também queria ir a Tambaú ver o santo e miraculoso Padre Donizete. Ponderaram, argumentaram e convenceram ao anão Chiquinho de que ele, em sendo pequeno, podia muito bem concordar em ir sentado no colo da freira. Chiquinho concordou, mas fez uma observação óbvia e inteligente:”Concordo, mas só na ida! Na volta vai ter um pequeno problema, porque o Padre Donizete vai me curar e eu já estarei crescidinho...”






Moreno

Ismar Barra Moreno era o seu nome. Ele morava em São José do Rio Preto, SP, e foi propagandista de laboratório por todos os anos da vida. Nunca soube fazer outra coisa melhor. Ficou famoso na região devido ao seu jeito folclórico de ser. Era um tipo de Onofrão mais moderno.
O Moreno era diabético e tomava montanhas de medicamentos. Entre os quais usava um medicamento de nome Glucobay, que altera a função dos intestinos do paciente produzindo gases fantásticos, altíssimos e fétidos. Certa vez, no enterro de um colega, em Araçatuba, SP, o Moreno não conseguiu segurar, em pleno cemitério, uma emissão violenta de gases. O som emitido pareceu mais um solo de clarineta do que qualquer outra coisa. O ambiente era triste, mas muita gente não conseguiu segurar o riso. Depois desse lamentável evento os colegas passaram a chamá-lo de Louis Armstrong, ou até mesmo de “saxofonista”, apelidos que ele detestava. Mas esta é apenas a sua primeira história.
De outra feita, quando trabalhava na Bristol, ficou vários dias longe de casa, participando de uma reunião de ciclo em Serra Negra, SP e, quando retornou, sua mulher foi reclamando:”Olhe, Moreno, você precisa dar um jeito no seu filho. Ele não quer mais saber de estudar. Passou a semana toda brincando no quarto com uma ampulheta antiga...”
“Está bem, respondeu o Moreno!... Deixa esse moleque comigo que vou dar um jeito de acabar com essa sem-vergonhice dele... Só pode ter aprendido isso com algum amigo da escola. É má companhia, esteja certa!...”
Noutra oportunidade, quando viajava pelo chamado “Sertão”, chegou em Paulo de Faria, uma pequena cidade da fronteira com Minas Gerais, e precisou pernoitar ali. À noite, deixou a pensão onde estava hospedado e foi tomar uma cerveja. Conta o Moreno que tudo corria bem, quando entrou no bar um sujeito mal encarado e foi agredindo a todos. O sujeito aproximou-se do balcão e chamou o dono do bar para a briga, puxou a esposa do homem e lhe deu uns beijos. Dirigiu-se aos os presentes e os chamou a todos de “cornos”, ameaçou distribuir porrada e tiros a torto e direito. Ninguém conhecia o cidadão e todos ficaram naturalmente apavorados. O Moreno inclusive.
De repente entrou no bar um outro valentão, também desconhecido dos presentes, porém bem mais forte e decidido que o primeiro, e foi dando porrada no valentão anterior. O antigo machão não era tão bravo como parecia e, depois de alguns socos, acabou estirada no chão. O antigo valentão berrava entre dentes:”Agora tá na hora de chamar os “home”. Alguém, aí, chame os home...” “os hôme”, nesse caso, era a polícia.
O Moreno aproveitou o momento propício e deixou rapidamente o local. Hoje, aposentado, vive contando essas histórias em que ninguém acredita.

Tem disso em Taubaté?


O doutor Avediz foi um dos melhores médicos da história de Taubaté. Durante muitos anos foi clínico e cirurgião competente. A sua clínica, na rua Duque de Caxias, vivia lotada. Os propagandistas chegavam, olhavam o ambiente e comentavam desanimados: — Pacaembu lotado... Vamos ter que voltar outra hora!
Por vários anos o visitei, levando amostras e solicitando o seu esperado receituário para os meus novos produtos. Embora calado, de pouquíssima conversa, ele atendia a todos nós propagandistas com muita propriedade e gentileza. Era um grande profissional. Certo dia eu e o Duarte chegamos na sua clínica. Nesse tempo eu estava trabalhando com o Byk e o Duarte com o Sandoz, laboratório que hoje virou Novartis. A secretária, Adélia, que também era uma temida barreira para ser vencida, foi logo dizendo: — Vejam se não demoram lá dentro, certo?
O Duarte começou a propaganda. O doutor Avedis estava de cabeça baixa, vasculhando uma gaveta. De repente, não sabemos o que deu nele, levantou a cabeça, fitou o meu colega e perguntou, de cara:—Você conhece ou já viu algum propagandista bicha?
Se o Duarte não fosse quem é, mineiro calmo e inteligente, teria fechado a pasta e dado o fora, mas respirou fundo e respondeu na maior tranqüilidade:— Não, doutor Avediz... Propagandista bicha eu não conheço, mas médico bicha eu conheço. Aqui mesmo em Taubaté tem três...
O doutor Avediz parece que se interessou pelo assunto e voltou à carga, muito sério:— Diga-me quem são eles, por favor!
Nesse momento o Duarte tremeu. Ao perceber que perderia o receituário e talvez o emprego, concluiu com sabedoria: —Calma, doutor Avediz, não se preocupe!... São todos médicos veterinários...


Me roubaram a sogra


O Rangel foi propagandista, supervisor e gerente de laboratório farmacêutico por muitos anos. Passou quase toda a vida dedicando-se a visitas médicas, reuniões de lançamento no interior ou de treinamento na matriz. Lançou a maioria dos antiinflamatórios hoje existentes no mercado. Admitiu e treinou jovens sem experiência e teve que demitir alguns chefes de família superados, “quase parando”. Depois de quarenta e três anos —um tempo de trabalho imenso, que poucos profissionais conseguirão superar—, aposentou-se e passou a observar de longe o seu romântico e antigo ramo de atividade, que se torna cada vez mais inviável devido à internet e à globalização.
Rangel casou-se no ano de 1969, contra a vontade da sogra, segundo ele, uma mulher irritante e de trato difícil. Alguns anos depois, pai de três filhos, resolveu fazer as pazes com a sogra, agora avó das crianças, e convidou-a para uma viagem de férias ao sul. Nesse tempo as ditaduras militares eram comuns nos países da América latina, notadamente no Brasil, no Uruguai e na Argentina. Os militares davam cartas e jogavam de mão, prendiam e torturavam civis. Por outro lado eram fustigados pelos guerrilheiros urbanos, que promoviam atentados a bombas e seqüestravam autoridades diplomáticas. O pau comia sereno e solto. Era perigoso viver naquele tempo.
Foi nesse clima que o Rangel cruzou a fronteira do Uruguai levando a mulher, os três filhos e a sogra. Em dez dias conheceram Montevidéu, Punta Del Leste e outras cidades menores do litoral, e já retornavam felizes ao Brasil quando se deu o terrível e inusitado acontecimento.
Ainda em território Uruguaio, quando faltavam uns duzentos quilômetros para a fronteira brasileira, pararam para fazer um lanche. Nesse momento perceberam que a sogra, até então muito falante, tinha ficado em silêncio. Estava quieta, quieta demais. A velhinha parecia dormir um sono tranqüilo. Na verdade, porém, a pobre mulher estava morta, vítima de um infarto fulminante. Grande problema tinha agora o Rangel. Devia comunicar o fato às autoridades uruguaias, enfrentar a burocracia daquele país, ou trazer a velha “dormindo” até entrar em território brasileiro? Penalizado pela dor da esposa que perdera a mãe, dialogou entre lágrimas com a mulher e os meninos e decidiram por fazer o lanche programado e trazer a velha assim mesmo, fingindo que “dormia” no banco de traz.
Todavia, ao retornarem para o carro, objetivando a longa viagem até Taubaté, tiveram mais uma desagradável surpresa: os violentos terroristas Tupamaros, ativíssimos naquele país, tinham roubado o carro com a velhinha “dormindo” dentro. Levaram também as malas e tudo o mais que havia, provavelmente usariam o veículo numa ação terrorista.
Até hoje, trinta anos depois, nenhum sinal do carro nem da velhinha. O Rangel nega, mas os amigos dizem que ele mais gostou do que desgostou...


A comadre do tio Benê


Meu tio Benê sempre foi um cara legal e saudável. Trabalhava à sua maneira, bem devagar, no cartório da Vila de Água Doce. Nos fins de semana quentes e desertos do interior, o tio Benê nos levava para tomar banho de rio. Meu pai não gostava muito daqueles banhos, achava que um banho por semana, tomado na quarta feira, já era o suficiente. Mas a boa lábia do tio Benê convencia ao Juca, meu pai, e lá íamos, em bando, na direção do Rio Preto, para tomar banho pelado. Era uma festa a vigência daqueles banhos. A fundura e a largura do rio eram ideais e seguras, de sorte que não corríamos nenhum perigo naquelas águas sem correnteza, ainda mais que estávamos sob a proteção segura do tio. À sombra ondulante dos ingazeiros, ora flutuávamos ora mergulhávamos na água fria, fugitiva e deliciosa. Mas isto é uma outra história que contarei depois.
Certa manhã, minha tia Conceição chegou lá em casa apavorada. Contou com os olhos esbugalhados que o tio Benê só estava falando coisas sem nexo. Segundo a descrição dela, o homem parecia estar “tomado”, gesticulava sem nexo e emitia um som parecido com “gró, gró, gró, gró...”
Resumindo, tio Benê tinha sofrido um acidente vascular cerebral e foi levado ao hospital de Mantena, onde passou vários dias. Depois foi devolvido semiparalítico à sua velha casa da Vila de Água Doce. Adeus banho de rio.
A casa do tio era estreita e comprida e acharam que era melhor para ele ficar no quarto dos fundos por ser mais silencioso. E lá ele ficou esquecido de tudo e de todos. De vez em quando dava um grito solicitando algum tipo de ajuda, algum medicamento, água ou uma outra coisa qualquer.
A sua comadre preta, dona Poisé, só ficou sabendo da doença dele vários meses depois. E veio de surpresa para uma visita. Chegou e foi entrando para alegria de todos. Até então ninguém sabia que o tio Benê gostava tanto da comadre Poisé. Foi ela botar os pés dentro da sala e ele começou a berrar lá no seu quarto, no fundo da casa: —Comadre!... Comadre!... Tragam a comadre!
O pessoal se apressou em levar a comadre Poisé até o quarto onde o impaciente tio Benê berrava sem parar, repetindo:— Comadre!...Comadre!... Tragam a comadre!
A comadre entrou, mas logo precisou recolher o sorriso. Tio Benê estava nervoso e o que ele queria mesmo era outra coisa:—Não é esta porcaria de comadre que eu quero... Eu quero é a comadre de mijar!...




De que morreu o Duran?


O Duran era um homem sério, muito bem casado, pai de família exemplar e propagandista dos melhores. Quando viajava para longe, porém, dava suas “escapadas”. Afinal, ninguém é de ferro.
No tempo em que eu e ele fomos representantes de laboratório, na região chamada de “ramal da fome”, ficávamos hospedados por uma longa semana no Hotel do Comércio, de Ituverava, SP, pequena cidade fronteiriça da Alta Mogiana, situada nos limites de São Paulo com o Triângulo Mineiro.
Nesse tempo a cidade não tinha motel, mas era cercada por imensos canaviais. Por outro lado, dali até Uberaba era um pulo, e todo mundo sabia que Minas Gerais sempre foi e ainda é um celeiro de belas mulheres. À noite, após o jantar, ficávamos proseando na porta do hotel até tarde. Alguns colegas desapareciam e só voltavam altas horas. Tinham ido dar suas “escapadas”, e chegavam disfarçando, exibindo a famosa “cara de cachorro que peidou na igreja”. Mas todo mundo já sabia o que tinham ido fazer: Era zona de Uberaba ou canavial... Uma certa noite, o mundo desabou. A Georgina, enfermeira da Clínica São Camilo, desceu desesperada de um táxi na frente do hotel e gritou:— Socorro! O Duran morreu!... Ajudem-me a buscá-lo. Ele está morto lá no canavial!...
Foi um desatino geral. Branquearam-se os lábios culpados, galoparam os corações. O mundo se partira. Antes mesmo de pensar no pobre Duran, morto no canavial, cada qual pensou na terrível hipótese de o fato poder repetir-se com qualquer um de nós. Deus nos livre!
Felizmente naquela semana estava hospedada ali o Manchinha — um grande propagandista, que tinha este apelido devido a um vitiligo extenso e severo—, compadre do Duran. O Manchinha era também muito amigo do mais importante médico da cidade, prefeito pela quinta vez, e acertou tudo.
Botaram a Georgina no carro, arrebanharam mais uns dois colegas e foram buscar o Duran. No meio do canavial, sob um luar prateado, imenso, o nosso querido colega estava realmente morto. Dormia para sempre, tranqüilo feito um bebê, no banco de trás do seu velho fusquinha amarelo.
Auto-suficiente, mais irresponsável e inimputável era impossível, o Duran estava seminu, curtindo um sono eterno. Agora não tinha mais importância se a sua esposa oficial soubesse. Os colegas propagandistas levaram o corpo do Duran para o hospital da cidade. Lá, tudo combinado, o doutor Riobaldo, amigo dos propagandistas, atestou um enfarte fulminante. O acontecido, para todos os efeitos, dera-se na solidão de um quarto de hotel...






O afogado de São Luiz


Alguns falam apenas “fogado”, mas o nome do cozido imenso, de sabor característico, feito com as carnes e músculos do dianteiro do boi, muito comum nas fazendas e festas de São Luiz do Paraitinga é mesmo “afogado”.
Nos fins de semana o afogado pode ser saboreado nos restaurantes ou no mercado daquela cidade histórica. Ali, numa das igrejas antigas, fato curioso, existe uma imagem de Nossa Senhora grávida, supostamente carregando o menino Jesus dentro da barriga. Trata-se, disseram-me, da Nossa Senhora da Natividade, ou das “Mercês”, mas isto é outra história.
Em mais um fim de semana, absolutamente deserto de lazer em Taubaté, mas que o prefeito insiste em dizer que tem vocação turística, convidei o cunhado e fomos tomar banho na cachoeira grande da Lagoinha. Na hora do almoço esticamos até São Luiz, dispostos a saborear um afogado no mercado municipal. O dono da cantina, bom de papo, era também o cozinheiro que preparava a comida. Comemos a carne macia, quase líquida, que tem a mesma cor escura do frango ao molho pardo, e conversamos sobre a origem do prato típico.
O homem nos contou, no seu jeito caipira de falar, que quem faz um afogado precisa ficar no mínimo oito dias sem tomar banho. Levamos um baita susto e, imediatamente, conferimos a cor marrom, suspeitíssima, do afogado cheiroso que estava na nossa frente, lotando pratos e tigelas fumegantes. A história do banho, somente depois de passados oito dias, seria verdadeira?
O homem explicou que o calor do tacho de cobre onde é preparada a iguaria precisa ser muito alto. E para que o afogado fique perfeito, as carnes precisam ser cozidas por várias horas, mais de dez, e o atento cozinheiro nunca pode sair de perto do fogão.
Ficamos então cientes de que tomar um banho depois de se preparar um afogado é pneumonia certa para o cozinheiro. É passaporte garantido para o além. Nessa hora lembrei-me do meu cabeleireiro, o Gouvea, que passou vários dias internado, curtindo uma pneumonia brava. O cara, bom de tesoura, mas inexperiente nas artes da cozinha, não levou em conta os devidos cuidados com a saúde e tomou um banho frio após preparar o afogado. Resultado: quase sobe a Humaitá de costas e ainda me causa o transtorno de ter que arrumar outro cabeleireiro. Para concluir a conversa, brinquei:— Então, quer dizer que o senhor que fez este afogado hoje, só vai tomar um banho daqui a oito dias? E ele respondeu: — Nada disso! Daqui a oito dias eu faço outro afogado e fica tudo certo!... Crendospadre!... Afogado, nunca mais.


A dor de dentes do assaltante


O propagandista João Batista era um moreno bem simpático, aliás muito simpático, e ficou também conhecido pelo apelido de “Marrom Glacê”. Desde menino, na pequena cidade mineira de Soledade, onde nasceu e viveu, lidou com medicamentos. Seu pai tinha uma farmácia e ele trabalhou por muito tempo no balcão. Depois foi propagandista e supervisor de laboratório por todos os anos bons da vida. Aos cinqüenta anos aposentou-se e passou a contar histórias. Algumas eram verídicas, outras apenas relatos de vantagens que nunca em verdade levou. Dizia para os que quisessem ouvi-lo que não queria mais saber de laboratório: “Laboratório, nunca mais!”
Os amigos, porém, achavam que na verdade eram os laboratórios que não queriam mais saber dele. Estava velho para o ofício. Depois de passar alguns anos no desvio, não conseguiu resistir ao chamado da sua vocação e decidiu voltar ao ramo dos medicamentos. Afinal seu D.N.A. era feito de remédio.
Comprou uma farmácia falida que pertencia ao Teodoro, em Guaratinguetá, SP, e recomeçou a vida. A farmácia não tinha estoque e parecia mais um “tiro ao alvo” do que qualquer outra coisa. O ponto comercial ficava num bairro distante, no final do Pedregulho, a caminho de outros bairros mais afastados, passagem certa de pessoas de caráter duvidoso.
Num sábado à tarde tudo estava tranqüilo. O “Marrom Glacê” estava sozinho atrás do balcão e ouvia no rádio um jogo do seu querido tome, o Palmeiras. De repente entrou um assaltante mascarado. O homem usava um lenço branco que lhe cobria a boca e o nariz. Entrou e disse em voz alta:
— Dinheiro!... Passa já!
O “Marrom”, cidadão pacato que passara toda a vida pensando exclusivamente em medicamentos, estava tão distraído, curtindo mais uma derrota do seu Verdão, que entendeu que o homem (em virtude do pano amarrado na cara) estivesse com dor de dentes e quisesse apenas comprar o medicamento “Passajá” (um anestésico odontológico para uso local), e respondeu distraído:
— “O Passajá” não temos, estamos em falta... Serve “Um Minuto?...” Quase levou um tiro.








Azul de Metileno


O Ítalo Caetano foi durante muitos anos motorista de táxi. Nesse tempo de trabalho, levou e buscou diferentes pessoas nos mais improváveis lugares e fez sólidas amizades na profissão, mas por uma dessas incríveis guinadas que a vida dá, acabou se casando com uma mulher ciumenta e foi obrigado deixar o serviço de que tanto gostava.
Foi ser propagandista e vendedor de um único laboratório pelo resto da vida, onde carregou a pasta de amostras e alcançou a merecida aposentadoria. Sua história é cheia de lances pitorescos e será contada em detalhes um dia.
No momento importa explicar que, muito antes do advento da penicilina, as mulheres das antigas “zonas”, as chamadas “polacas”, faziam a higiene íntima em bacias, com água morna, temperada com anti-sépticos, desinfetantes e corantes. Usavam o azul de metileno, o permanganato de potássio e a violeta de genciana. Esses sais eram um recurso rudimentar, porém poderoso, no impedimento ao contágio por vários tipos de doenças venéreas. Essa prática era muito comum também numa zona de prostituição aqui de Taubaté, que funcionou nas proximidades da antiga Vila Edmundo, com o sugestivo e nunca suficientemente explicada nome de “tapacu”, até os idos de 1950.
Certa tarde, o Ítalo adiantou as visitas médicas programadas para o dia e retornou mais cedo de Campos do Jordão. Disfarçando para não ser reconhecido, estacionou seu velho carro a uma boa distância e esgueirou-se por uma das vielas do suspeitíssimo local. Pretendia matar a saudade de algumas velhas conhecidas.
De repente, uma janela se abriu no alto e uma bacia se agitou no espaço. Na seqüência uma barragem hídrica veio do céu, trazendo uma cachoeira de água roxa. O líquido precipitou sobre sua cabeça, encharcando a roupa, ensopando tudo. O pior é que a obra desastrada fora, exatamente, da “polaca” que ele mais admirava.
A mulher distraída dispensara sobre ele a água usada no banho “tcheco”. O pobre Ítalo agora estava perdido. Vestia roupas molhadas, pintadas em cores góticas que variavam do azul-escuro ao roxo-esverdeado e, como não fosse carnaval nem noite das bruxas, como explicar tudo para a mulher ciumenta? Deve ter sido uma batalha...


Lavando cuecas com Pelé


Antigamente o curso supletivo era chamado de “madureza”. Os adultos, que por algum motivo não tinham podido concluir o ginasial, vinham de longe e chegavam em Taubaté para prestar o exame de “madureza”. Durante alguns dias do ano a cidade se transformava na Meca dos homens de meia idade. Era uma plêiade de homens sérios que desejavam recuperar o tempo perdido para cursar uma faculdade qualquer.
Nesse tempo, por volta de 1970, eu morava numa hospedaria na rua das Palmeiras, nos fundos da casa de uma italiana bravíssima, a dona Pierina Sbruzzi, que era sogra do jogador de futebol Zito. Certo dia, para surpresa de todos nós, o famoso jogador Pelé, duas vezes campeão do mundo, veio morar na pensão e conviveu conosco normalmente por uma semana. O craque pretendia entrar na Faculdade de Educação Física, de Santos, SP, e também viera fazer o exame de “madureza”.
Nos fundos da pensão (num sobrado que existe ainda hoje), ficavam os banheiros e o tanque de lavar roupas. Pelé, como qualquer cidadão comum, descia de calção e sandálias e lavava suas próprias peças íntimas. Eu e o meu colega de quarto, Rochinha, que hoje é Juiz de Direito, parávamos de lavar nossas cuecas e ficávamos encantados, olhando para o enorme pé do famoso atleta. As pernas do crioulo, musculosas, eram plenas de marcas e cicatrizes. Aquelas marcas profundas eram certamente lembranças trazidas de algum campo de futebol, estrangeiro e distante, aonde certamente fizera gols e provocara a ira de adversários violentos e despeitados.
Hoje, mesmo depois de passados tantos anos, sempre que encontro o meu amigo e colega de pensão, Rochinha, relembramos daqueles momentos de glória, quando tivemos a honra de conviver por uma longa semana com o mais famoso jogador de futebol do século, lavando nossas meias e outras roupas brancas no mesmo tanque que Ele.

O providencial desmaio de PC


O propagandista Paulo César ficou conhecido no ramo de medicamentos pela alcunha de PC. Era vendedor dos mais competentes, gostava de uma cervejinha e nutria irresistível queda por um rabo de saia.
PC era bem casado, pai de dois filhos e nesse tempo morava em Taubaté. Mas o seu setor de trabalho era o Sul de Minas. Fazia o “pião” em Itajubá, de onde se deslocava para cidades menores da região. Todos os meses ele passava ao menos uns vinte dias longe de casa e da família.
Com o passar do tempo, PC achou melhor alugar uma casa naquela cidade mineira e passou a se apresentar às moças locais, enfermeiras e secretárias de médicos, como sendo um rapaz solteiro. Depois de um certo tempo, não muito, arrumou uma namorada de nome Fortunata.
Quando PC saía para trabalhar em cidades próximas, de onde voltaria à noitinha, levava de carona a sua nova namorada. Entre uma visita médica mais demorada e outra, curtia uma gostosa lua de mel com a Fortunata. Ah, como ele gostava da sua querida Fortunata!
Certo dia, quando voltava de Piranguinho, a capital do “pé de moleque”, PC capotou o jipe. Fortunata estava junto, mas felizmente, nada sofreu. O PC, este sim, foi levado em estado grave e sem os sentidos para a Santa Casa de Itajubá. O hospital comunicou imediatamente o ocorrido aos seus chefes em São Paulo, diretamente na gerência do antigo Laboratório Andrômaco, onde o namorador trabalhava. Estes avisaram à sua esposa, em Taubaté.
No dia seguinte, bem cedo, a sua esposa, apavorada com o ocorrido, entrou de repente na UTI e encontrou a Fortunata, dedicada e melosa, umedecendo o rosto e os lábios do seu amado e querido noivo, o PC.
A esta altura o PC já tinha recobrado os sentidos. Mas quando viu a esposa legítima entrando no quarto —a Fortunata ao seu lado lhe devotando carinho—, anteviu a dramaticidade da cena e desmaiou de novo. O desmaio de PC foi uma boa saída, foi ou não foi?


Lombo de burro


No tempo em que o Onofre foi propagandista, a maioria das estradas, senão quase todas do seu setor, eram de terra batida. O chamado “sertão de Rio Preto” só veio a conhecer o asfalto depois de 1950. Nos períodos chuvosos era mais fácil viajar de avião do que de carro. Muitos propagandistas se cotizavam e alugavam um teco-teco para alcançarem Cassilandia e Paranaíba, cidades que ficavam do outro lado do Rio Grande, no antigo estado do Mato Grosso.
Para chegarem no centro das cidades, a partir dos aeroportos locais, alugavam charretes ou mulas, sobre os quais colocavam, além de si mesmos, também as pastas com amostras e esperançosos talões de pedido. Os médicos e as farmácias eram visitados a cavalo. Era uma pedreira.
Conta o Onofre que numa dessas viagens inesquecíveis entrou na pequena cidade de Lagoa Santa, GO, cavalgando um jumento. A pequena cidade era (e é conhecida ainda hoje), por suas águas quentes, sulfurosas e medicinais. Por alguma razão que o Onofre nunca explicava, a verdade é que ele e o jumento precisaram pernoitar ali.
À noite, quando ofereceu alimento ao animal, Onofrão percebeu que o muar se recusava a beber a água quente do local. Temendo pela vida do bicho, que era de sua responsabilidade até o dia seguinte, foi criativo e deu, no lugar da água, alguns litros de coca-cola, que o jumento bebeu gostosamente. Nesse ponto da história os colegas o interrompiam e perguntavam se, após beber a coca-cola, o jumento não passara mal. Fazendo-se de vítima, ele respondia:
— Não, mas o jumento me causou um problemão dos diabos!... Nesse tempo a vila era iluminada com lamparinas e o arroto do bicho apagou a cidade inteira!
Depois de contar esta história, o Onofre emendava com outra ainda mais incrível, acontecida com um promotor público, seu sobrinho, que veio morar em Nova Granada, SP. O moço era solteiro e o delegado de polícia local achou por bem se adiantar e informá-lo de que, caso precisasse de mulher, a única saída era “a jumentinha”, que ficava à disposição na beira do rio. O promotor em princípio recusou, claro, dizendo que não gostava dessas coisas, que era um homem de moral, etc.
Mas com o passar do tempo o desejo e a necessidade foram aumentando e o promotor foi procurar a tal jumentinha que ficava na beira do rio. Lá chegando observou que havia uma longa fila de jovens, bem organizada, atrás da jumentinha. Quando viram o promotor, a maior autoridade local que chegava, alguém logo se prontificou a deixá-lo passar na frente. Apressado, o respeitável homem da lei aceitou a gentileza e foi logo desabotoando as calças. Quando ia “partir para o abraço”, alguém o alertou: “Calma doutor! A casa das mulheres fica do outro lado. A jumentinha é usada apenas para atravessar o rio...”
Um cachorro moderno


Depois de ficar vinte e seis anos longe de Taubaté, morando na cidade de Ribeirão Preto, decidi voltar para esta terra abençoada. Comprei um pequeno sobrado na rua da Harmonia e comecei uma reforma que não acabava mais. A cada noventa dias eu vinha ver como andava a obra.
Tantos anos longe da terra de Lobato, eu já tinha me acostumado com as largas avenidas de Ribeirão Preto e estranhei as calçadas irregulares e estreitíssimas que existem por aqui. Observei que havia muito mais “sujeira de cachorro” aqui do que lá. As calçadas estavam sempre ponteadas por picos negros, às vezes verdes, conforme a “coisa” fosse antiga ou recente. Aquilo era uma novidade bem desagradável e me incomodava bastante.
Certa manhã, bem ao lado da caçamba de entulho que ficava estacionada na frente da casa, encontrei uma “montanha” maior e diferente.
Reclamei para o pedreiro. Não teria ele por acaso visto o desavergonhado “cachorro” autor daquilo? O pedreiro muito calmo, taubateano típico, apontou para um monte de papel higiênico usado, espalhado pelo local, e me disse:”Não é de cachorro, não, seu doutor! Isso é coisa de gente... “Menos” que agora os cachorros de Taubaté também “tão” limpando a bunda!...”


Em Taubaté, antes do grito


Na noite de 21 para 22 de Agosto de 1822, de passagem a caminho de São Paulo, onde daria o seu famoso grito, D.Pedro pernoitou em Taubaté. Os historiadores dizem que o imperador foi muito bem recebido pela comunidade taubateana. Referem, inclusive, que durante sua curta permanência na cidade muitos foram os festejos em homenagem ao ilustre visitante. Foi bem recebido, mas não muito como se verá, mas isso a História não registrou.
O nobre visitante era considerado, à sua época, como sendo um “grande conquistador”, termo que hoje seria atualizado para “comedor”. Em vista disso os pais das donzelas taubateanas trataram de escondê-las e liberaram para que freqüentassem os salões, e as janelas das casas, apenas as filhas “passadas”, solteironas, que estavam acima dos quarenta anos e encalhadíssimas.
Durante o baile que lhe ofereceram, no melhor e mais amplo salão local, o Imperador pareceu inquieto. Olhava para os lados, pesquisava. Estava procurando encontrar mocinhas entre os treze e os dezenove anos, as suas preferidas, mas não via uma sequer. Estas tinham sido preventivamente escondidas por seus pais, ou levadas para bem longe, para as fazendas. As poucas que ficaram na cidade eram mantidas a sete chaves, preferencialmente nos aposentos mais distantes da casa. Naquela noite em Taubaté o Imperador se deu mal. Só via mulheres casadas ou comprometidas. Nem sinal das moçoilas de que ele tanto gostava e queria. As quarentonas oferecidas lhe sorriam das extremidades da sala, mas só havia canhão.
Os astutos pais taubateanos só libertaram suas filhas no dia seguinte, depois de se certificarem de que a carruagem de Sua Majestade já se encontrava a boas milhas de distância, muito além de Caçapava.
Na estrada, a caminho da capital paulista, desapontado por não ter conseguido uma mísera namorada em Taubaté, ferido em seu amor próprio e desconfiado de que fora vítima de alguma sacanagem, o Imperador suspirou fundo. Reclinou-se na poltrona de veludo vermelho da sua carruagem, virou-se para seu ajudante de ordens e resmungou:”Anote aí. Jamais volto nesse lugar. Nunca vi uma cidade com tanta mulher feia e velha como essa merda de Taubaté!...”
E seguiu, furioso, no rumo de São Paulo, onde daria o seu famoso Grito.



O Osmoca


Com exceção do Zé Ludgero e do Salvador Pacetti, de Cunha, que eram tão bons quanto ele, o senhor Oswaldo Morais Castro era o mais gentil dos farmacêuticos do Vale do Paraíba. Atendia a todos nós propagandistas com um grande sorriso no rosto, um gostoso iogurte caseiro e um suco de laranja, que ele mesmo preparava e deixava à nossa disposição na sala dos fundos. Depois, dava sempre um belo pedido, e nunca devolvia uma “bola”. Tirando a santa, ele era a melhor pessoa de Aparecida do Norte. Seu gerente, o Alemão, morria de ciúmes dele. Era um puxa-saco dos maiores, mas isto é outra história.
Sempre que o movimento da farmácia permitia, após dar o pedido e pagar a duplicata, ele nos convidava para tomar um cafezinho no bar da esquina e aproveitava para bater um longo papo. Nesses momentos seus olhos azuis brilhavam e as maçãs do seu rosto, naturalmente róseas e saudáveis, pegavam fogo. Ele amava a nós os propagandistas. Numa dessas alegres caravanas ao bar ele pediu um suspiro ao balconista. De dentro do doce saíram algumas formigas e ele aproveitou para brincar com o português:
— Escuta aqui, ó português, eu pedi um suspiro e você me deu um cupim...
Noutra ocasião estava presente um importante gerente de laboratório, do Roche, o maior laboratório que existia na época, e fomos tomar o sagrado cafezinho. Entre outras mentiras, o cidadão contou uma história de pescaria. Segundo ele, certa vez quando pescava no Pantanal, um pacu de 20 quilos saltou do rio, espontaneamente, e passou para dentro da canoa. Seu Oswaldo não perdeu tempo, interrompeu o assunto e disse:
— Estão vendo? É o que sempre digo, puxa-saco existe até debaixo d’água!...
O “seu” Oswaldo gostava de ser chamado de “Osmoca”, nome formado pelas sílabas iniciais do seu nome. Hoje sua farmácia não existe mais. No lugar tem uma padaria e um português mal-humorado vende suspiros com formigas que os romeiros comem sem perceber.
Um beijo na sua mão, querido Osmoca, onde você estiver.





Tião Preferência


Havia muitos apelidos engraçados, e mesmo muito criativos, entre os propagandistas e farmacêuticos no tempo em que fui representante de laboratório aqui no Vale do Paraíba. Já falei deles em um dos meus livros, mas agora me lembrei de alguns personagens que tinham ficado esquecidos.
Em Cruzeiro, SP, havia o Zé Penicilina, que tinha sido propagandista e depois virou farmacêutico. Ganhou o apelido devido às grandes quantidades de penicilina que dizia vender. Em Jacareí havia o Nelson Gentileza, e em Taubaté havia o João Placenta. O sujeito era tão feio que inventaram uma lenda sobre ele. Diziam que, quando o João nasceu, jogaram a criança fora e alimentaram a placenta...
Curiosa e cômica, porém, foi a origem do apelido do Tião Preferência, um farmacêutico neurótico da pequena cidade de Machado, no Sul de Minas. Os propagandistas e vendedores só se referiam a ele como sendo o “Tião Preferência”, mas somente na sua ausência. Cara a cara com o homem, na hora boa e importante de tirar o pedido, era bom mesmo que o vendedor o chamasse por “Senhor Sebastião”, caso contrário, nada de pedido e ainda podia haver briga.
Os propagandistas que pernoitavam na cidade e não tinham coisa mais importante para fazer, resolveram levantar o passado do Sebastião e descobrir a origem do “Preferência”. Conversaram com várias pessoas da cidade, puxaram a língua do hoteleiro, dos taxistas e até de alguns médicos mais antigos. Ninguém ousava discutir o assunto. Um certo dia, porém, o garçom do hotel criou coragem e resolveu falar.
Contou que, no passado distante, uma sobrinha do Sebastião, jovem e bonita, enviuvou. Decorrido um mês, um pouco mais, um pouco menos da morte do marido, a jovem viúva entrou na farmácia do Sebastião. Viera comprar um calmante.
Foi nesse dia, em meio a um grande tumulto e baixaria, que se originou o apelido do Tião. Em dado momento da conversa, dizem que o apressado farmacêutico, que não tinha nenhum tato para tratar do assunto, virou-se para a sobrinha e disse:
— Querida sobrinha, se o calmante não funcionar, e você precisar mesmo dar para alguém, espero que me dê a “preferência”...


Pão com molho


Em Taubaté acontecem coisas das quais até Deus duvida. As incríveis histórias da cidade vêm de longe. Um lance muito engraçado aconteceu no antigo Restaurante do “Fredone”, que ficava na Rua Duque de Caxias. O nome da cantina era outro, chamava-se Restaurante Convênio.
O preço era bom e os propagandistas, uns eternos durangos, almoçavam e jantavam ali. O grosso da freguesia, porém, era constituído por fregueses que chegavam depois das sessões do Cine Metrópole. O proprietário do local era o senhor Alfredo, um árabe com nome de italiano, boníssimo, que não sabia dizer não para ninguém.
Nesse tempo ele servia um tradicional sanduíche de pernil que valia por uma refeição. Era o maior sucesso. Muitos propagandistas comiam o sanduíche e se davam por jantados. Comiam bem e ainda faziam uma boa economia.
Certo dia, o Cassab, um propagandista famoso por ser “mão de vaca”, achou que o sanduíche de pernil estava muito caro e se queixou para o Fredone. O Fredone, para não desagradar ao freguês, disse que tinha algo mais barato, o “pão com molho”, que custava apenas a metade do sanduíche de pernil.
O tal “pão com molho” não passava de um pão francês, recheado com as cebolas e as sobras do molho de tomate que ficavam no fundo da forma do pernil assado. O Cassab gostou bastante da idéia e divulgou a novidade para os colegas. Depois de um certo tempo a maioria dos propagandistas já tinha aderido à nova idéia do “pão com molho”. O Fredone não estava gostando nada daquilo, pois faturava menos a cada dia. Já estava até meio arrependido de ter inventado aquele bendito “pão com molho”.
Naquela noite o Cine Metrópole exibia um daqueles filmes longos, muito em moda na época, tipo Bem Hur e Os Dez Mandamentos. O cinema estava lotado e o Fredone já tinha se preparado para vender muitos e muitos sanduíches de pernil. Aguardava apenas o final da sessão para faturar bastante.
Quando o filme acabou e as portas do cinema se abriram, a multidão vazou para a rua e, de repente, o restaurante ficou lotado. Para tristeza do Fredone, porém, todos os fregueses que entravam queriam — ó maldição! — experimentar o delicioso, o econômico e tão comentado “pão com molho...”

Tosse noturna


Antigamente, os vendedores e propagandistas de laboratório viajavam bem mais do que os de hoje, percorriam distâncias bem mais longas. Os setores de trabalho eram extensos, quase intermináveis. Para citar apenas um exemplo, o setor inicial do Laboratório Lafi, nos anos 60, da responsabilidade do competente Décio Rocha, começava em Suzano, SP, e terminava em Alfenas, no Sul de Minas. Ninguém tinha carro próprio, os propagandistas viajavam todos de ônibus ou de trem. As cidades maiores serviam como “cidade pião”. Nelas havia um hotel previamente escolhido para onde as amostras grátis eram enviadas.
Nestas cidades o vendedor permanecia durante várias semanas, chegando a ficar até um mês longe da família. Os hotéis se transformavam em lar desses heróis, por longos períodos. À noite, telefonava-se para casa, para matar a saudade.
Mário, o Araponga, do Laboratório Gross, um desses pioneiros, era seguramente o que mais tempo passava longe de casa. Seu setor alongava-se do Vale do Paraíba para além do Sul de Minas, alcançando grande parte do estado do Rio.
Quando partia, o Mário se despedia demoradamente da mulher e dos filhos. Eram muitos filhos. Sua esposa ficava preocupada porque ele sofria de uma bronquite feroz e ela pensava que o pobre marido, no desconforto dos hotéis, certamente não teria os mesmos cuidados que ela lhe dedicava em casa.
O Mário era um cara alegre e brincalhão. Depois das longas viagens, quando retornava para Taubaté, reunia-se com seus colegas no salão de sinuca da Praça Dom Epaminondas, nas manhãs de sábado, e contava vantagens. Dizia que ficava um mês longe da mulher, mas em compensação, quando retornava não lhe dava folga. A pobre mulher, dizia ele, passava a noite inteira acordada. Os colegas, curiosos, queriam saber e lhe perguntavam se ele transava a noite inteira. Mas ele justificava rápido: “Nada disso! É a maldita bronquite!... Tusso a noite toda!”


O Tripinha vai ser papai.


Quando cheguei em Taubaté, bem no começo dos anos sessenta, eu era um jovem propagandista magérrimo. Era tão magro que ganhei do Kid Moringueira o apelido de “Tripinha”. Nem é preciso dizer que eu odiava o tal apelido. Pela frente ninguém ousava me chamar de “Tripinha”, mas eu sabia que, por trás, todos se referiam a mim como sendo o “Tripinha”. Com o tempo fiz vários amigos na nova cidade. Um deles foi o Rodrigues, propagandista da Bayer, casado com dona Sara. Ao menos esse casal de pessoas decentes, eu tinha certeza que jamais me chamaria de “Tripinha”.
O Rodrigues mantinha uma suspeitíssima caderneta de poupança na Caixa Federal, mas isto é outra história. Alguns anos depois, quando eu já estava casado com a Olívia, por várias vezes levei a minha esposa grávida para visitar o casal de amigos. O Rodrigues sempre dizia que queria ser o padrinho do menino. Dizia, inclusive, que, quando a criança nascesse, gostaria de ser o primeiro a ficar sabendo da novidade.
O tempo passou e o meu filho nasceu de madrugada. Embora apavorado com a novidade, a caminho do hospital, lembrei do pedido do amigo e passei na sua casa para lhe revelar a grande nova. Era bem cedo, mas a dona Sara já estava na varanda manobrando uma longa mangueira vermelha, lavando a calçada.
Feliz e exultante disse para ela que viera especialmente para lhes contar que meu filho tinha nascido. E, como ela previra na famosa “simpatia do lenço”, realmente nascera um homem, um menino forte e sadio.
Dona Sara vibrou com a notícia. Ela ficou tão contente que até se esqueceu de que eu estava ali ao seu lado. Virou-se para dentro da casa e berrou, a plenos pulmões, chamando pelo marido:
—Nego, venha correndo! O “Tripinha” já é papai!...


O porteiro do hotel


Quando vim de Minas, eu tinha pouco mais de treze anos e meu primeiro emprego em Barra do Piraí foi como garçon de hotel. Naquele tempo havia dois hotéis na cidade —o Hotel Imperial e o Hotel Vitória. Eu trabalhava no primeiro, onde meu tio era o gerente.
No Hotel Vitória, que ficava na mesma rua e calçada que o meu, o porteiro era o Marinho, um solteirão que gostava de usar perfumes caros, quase explosivos. Mais para velho, já gordo e careca, ele passava as tardes e as noites ouvindo seu radinho de pilha, aprendendo tudo sobre futebol. Depois, espertamente, apostava com os amigos e sempre ganhava, acertando os resultados e até mesmo a renda das partidas. Barra do Piraí era cidade famosa por ser entroncamento ferroviário e ali se apostava até no número do último vagão que passava. Mas isto é outra história.
Diziam que o Marinho era bicha, mas eu não acreditava, claro, por que lá em Minas não tinha dessas coisas, pelo menos que eu soubesse. O Marinho era um cara elegante e legal. Sua pele clara, em contraste com coletes coloridos, que lhe conferiam um porte britânico, me impressionava. Eu o admirava e não podia admitir, de jeito nenhum, que ele fosse realmente bicha como diziam. Meu tio Pedro, e o restante das pessoas de Barra do Piraí, ao contrário, não botavam fé nele.
Um dia o Marinho ganhou merecidas férias e sumiu. Ficou um tempão viajando. Ninguém sabia onde ele tinha ido. Quando voltou, e assumiu seu posto na portaria do hotel, fui conversar com ele. Curioso, quis saber onde ele tinha estado aquele tempo todo. Com sua voz curta, sem se deixar trair por qualquer emoção, ou sentimento de culpa, disse-me quase sorrindo: “Para você eu conto. Fui passear em Campinas, mas não comente isso com ninguém, tá bom?...”


O pedido igual


Em Guaratinguetá,SP, havia um farmacêutico tão feio que parecia ter sido feito a canivete. Era baixinho, corcunda e míope. Os propagandistas o apelidaram de “O homem feito a canivete”. Quando não se tinha um médico para visitar, uma farmácia maior ou hospital para vender, uma coisa melhor para fazer, a turma se lembrava dele e dizia: “Vamos no Guilherminho, o homem feito a canivete, que lá cobrimos a nossa cota!”
Doce e ledo engano. O homem era mais feio que um outro farmacêutico de Cachoeira Paulista, o senhor Oswaldino, que foi apelidado de Dr. Valcur. Apesar de tudo, o Guilherminho era gente boa, sempre de bom humor, amigo dos propagandistas. Só não gostava de uma coisa: dar pedidos pela manhã. Quando entrava um vendedor na sua farmácia, antes das nove, ele virava uma fera.
Um dia, bem cedo, decidimos desafiá-lo. Éramos três. Eu (do Byk), o Toninho (Lepetit), e o Duarte (Sandoz) e fomos visitá-lo pela manhã. Não era nem oito e meia ainda quando invadimos a sua farmácia. Fizemos de propósito, botamos as pastas sobre o balcão e ficamos aguardando sua atitude. Lá do fundo ele nos olhou, furioso, por cima dos óculos pequenos, com aqueles olhos estufados de sapo insone e cara de quem não gostou.
Depois de algum tempo ele veio. Aproximou-se do balcão e foi dizendo: “Hoje estou de bom humor, vocês deram sorte. Vou fazer um grande pedido para vocês, um pedido “igualzinho”, para os três”.
“Como assim?... Não entendi... — disse o Toninho. “Vocês me entenderão — disse o Guilherme. “Quero pedir que vocês três vão todos para a puta que os pariu...” E foi assim que saímos da farmácia do “homem feito a canivete” com o rabo entre as pernas e com um pedido igualzinho...
Enchendo o saco


O farmacêutico Oswaldo Moraes Castro, de Aparecida, SP, gostava de contar piadas infames. Um dia, como sempre fazia, nos convidou para um cafezinho na esquina da praça e lá nos contou uma de suas famosas anedotas de encher o saco. Segundo ele, certo dia entrou na sua farmácia um cidadão queixando-se de uma estranha e intensa dor no testículo esquerdo. Achou prudente não receitar nada para o homem, mas encaminhou-o para o doutor Miléo, um médico que tinha seu consultório numa galeria próxima. O homem saiu da farmácia à procura do médico. Na galeria, porém, havia o escritório de um advogado, onde o homem, por engano, entrou. Entrou, abaixou as calças, exibiu as partes ao advogado e foi dizendo:
— Doutor!... Estou com uma dor terrível, bem aqui no testículo esquerdo...
O advogado, percebendo o engano do homem, colocou-lhe a mão no ombro e disse educadamente:
— Desculpe, meu filho, mas eu sou especialista em Direito...
Por causa dessa e de outras tantas piadas infames, contadas pelo senhor Oswaldo, os propagandistas inventaram uma história a seu respeito. Era assim: o gerente de uma importante multinacional farmacêutica amanheceu com o saco murcho. Os testículos do homem tinham diminuído tanto que não era mais possível localizá-los pelo toque. O homem se apavorou e procurou um especialista da cidade de São Paulo. O especialista não soube identificar o problema e recomendou o paciente a um colega seu, de Los Angeles, nos EUA.
Em Los Angeles, outra decepção. O médico americano formou uma junta de especialistas no assunto, analisaram o caso em detalhes, e não encontraram uma solução. O homem que a cada dia ficava com o saco cada vez menor, acabou sendo encaminhado para um famoso professor, desta vez na Alemanha.
Mas, nessa altura do campeonato, o gerente estava a ponto de desistir. Não tinha mais dinheiro para gastar e já estava achando que o médico alemão também não saberia curá-lo e que ficaria para sempre com o maldito saco murcho. Pensava seriamente em voltar ao Brasil e desistir de tudo. Estimulado, porém, pela sua empresa, o homem acabou viajando em busca da última tentativa de cura e embarcou para a Alemanha. Ao chegar lá, porém, a sua surpresa não poderia ter sido maior. O médico alemão, quando soube que o paciente era brasileiro, de São Paulo, entusiasmou-se e disse:
— Amigo, sua cura está lá mesmo no seu país, no interior do seu estado, em Aparecida do Norte! O senhor nem precisava ter vindo aqui. Volte para lá e procure pelo farmacêutico Oswaldo Moraes Castro. Peça para que ele lhe conte uma de suas piadas infames e o seu saco logo ficará cheio novamente!...





General Ganso

O Luiz Gonzaga, que recebeu o apelido de “Ganso” devido ao seu jeito de andar, foi um dos propagandistas mais folclóricos do Vale do Paraíba. No tempo em que ele trabalhava no Laboratório Steg, firma que não existe mais, vendia grandes quantidades de Novatropina, um produto antiemético muito popular, e prometia ao farmacêutico “um 38” como bonificação. Depois de alguns dias, fiel à sua promessa, trazia “um 38”, de plástico, da fábrica de brinquedos Estrela e entregava ao cliente. Mas isto é outra história que talvez eu conte depois.
Certa vez, em plena Ditadura Militar, o Ganso, que morava em Guaratinguetá, pegou o trem de aço com destino a Cruzeiro. Naquele tempo isso era comum. Os propagandistas viajavam muito nos trens da Central. No vagão-restaurante daquele trem de luxo só podia permanecer quem estivesse bem vestido e gastando algum dinheiro. Ali se almoçava ou jantava muito bem. Serviam um filé acebolado que era uma delícia.
O Ganso chegou, entrou e cumprimentou os passageiros presentes, sentou-se e pediu um guaraná. Do vagão anexo uma mulher humilde passou a fitá-lo demoradamente. A mulher parecia que estava com fome e ele não hesitou em chamá-la para sentar-se ao seu lado e tomar um guaraná também. Logo chegou o garçom e lhe disse que a mulher estava mal vestida e não podia permanecer ali. Imediatamente o Ganso elevou a voz e a defendeu com veemência: “Sou oficial e a moça vai ficar!”
O garçom bateu continência e concordou que a mulher ficasse, afinal o homem era um oficial e os militares estavam por cima da carne seca. Ali ao lado um senhor bem vestido acompanhava tudo com muito interesse. Tratava-se de um Oficial graduado da Marinha do Brasil. De repente o homem se levantou, aproximou-se do Ganso e disse:
— Muito bem, gostei da sua atitude! É de gente assim que o Brasil precisa. Eu também sou oficial da Marinha do Brasil, qual é a sua “arma”?
O Ganso, apesar de ser um grande gozador, assustou-se com a abordagem do estranho. Mas, perdido por um, perdido por dez. E foi em frente, fazendo um gesto característico de cortar pano, tocando os dedos médio e indicador: “Minha arma é a tesoura!... Sou alfaiate... Oficial de corte e costura...”
O militar não gostou da brincadeira, ficou furioso e ameaçou prendê-lo. Sujeito esperto, o Ganso percebeu que tinha entrado numa fria e decidiu descer na próxima estação. Essa, dizia ele, foi a primeira vez em que descumpriu um itinerário de viagem, mas aproveitou para visitar alguns médicos extras em Cachoeira Paulista...


Coramina


O doutor Avelino já estava beirando os oitenta anos, mas clinicava normalmente. Suas receitas famosas, com doses maciças de penicilina, “caíam” em todas as farmácias da cidade. O farmacêutico João Carvalho tinha sido seu colega de universidade e também continuava a trabalhar feito um garoto na sua antiga farmácia de prateleiras negras, feitas em pinho de Riga. Era a popular Drogaria Normal de Guaratinguetá. O povo da cidade dizia que a Drogaria normal pertencia a um “anormal”, mas isto é outra história.
Certo dia entrou na farmácia um cliente, trazendo uma receita de penicilina, em alta dose, passada pelo doutor Avelino. Na receita o médico mandava que se aplicasse a injeção sem fazer o “teste”. O “teste” é sempre exigido nesses casos para evitar um possível choque anafilático. O farmacêutico João, experiente, se recusou a atender à receita, mas se propôs a vender o medicamento, recomendando que o cliente procurasse o próprio doutor Avelino para que ele mesmo lhe aplicasse a perigosa injeção. O cliente gostou da sugestão, retirou as ampolas da farmácia e retornou ao doutor Avelino.
Alguns minutos depois, o telefone da farmácia tocou. Era o doutor Avelino, desesperado, chamando por socorro. O paciente estava inconsciente, babando, estirado no chão do seu consultório: “João, traga urgente uma injeção de Coramina!”
O consultório era perto. O João pediu licença aos seus clientes e se apressou em atender àquela emergência. Chegou em poucos segundos e foi entrando. Lá dentro encontrou o homem da receita já praticamente morto. O doutor Avelino estava branco e tentava algumas manobras para ressuscitar o paciente. E foi dizendo: “Rápido, João, prepare duas ampolas de Coramina! Rápido!...”
“Uma ampola só basta, doutor... Uma ampola só basta! — disse o farmacêutico João, que já se mostrara mais do que entendido no assunto. O doutor Avelino, puxando pelas suas últimas forças, certo de que já perdera o paciente, esforçou-se para não explodir com o velho amigo, e disse fingindo calma: “Uma é para mim, João, uma é para mim...”
Dia desses fui a Guaratinguetá fazer um pedido ao Frei Galvão e aproveitei para visitar os dois amigos no lugar tranqüilo onde atualmente se encontram. Estão repousando, eternamente ao lado do ex-presidente Rodrigues Alves, mas para mim, que os conheci e sei da sua infinita bondade, eles foram mais importantes do que o mais famoso político local.

O convite


Em 1964, quando se instalou a ditadura militar no Brasil, o sindicalismo passou a ser considerado coisa de comunista. Nesse tempo o enfermeiro Ari Marques, um homem elegante, franzino e pálido, era diretor do sindicato da sua categoria em Taubaté e carregava consigo sempre uma seringa de vidro, equipada com uma agulha enorme, que, segundo ele, era para retirar sangue dos cadáveres nas autópsias que fazia. Mas isto é outra história.
Em virtude da sua condição de sindicalista, o Ari andava desconfiado com algumas coisas suspeitas que passaram a acontecer na sua vida modesta. Seu salário não vinha mais no dia certo e seu saldo bancário diminuía misteriosamente; no trabalho, recebia constantes ameaças de demissão; em altas horas era despertado para atender a telefonemas misteriosos. Muitas outras coisas suspeitas aconteciam e tudo parecia muito estranho naquele tempo.
Certo dia o Ari estava lendo o seu jornal na porta do Banco do Brasil, aguardando a hora de o banco abrir para conferir seu sempre minguado saldo, quando se aproximou o seu jardineiro, um homem simples e humilde, a quem o Ari devia uma boa quantia. Como sabia que o homem certamente lhe cobraria o atrasado, precisava agir rápido para escapar dele. Tinha urgência em inventar uma história para impressionar. Botou o dedo na boca, fazendo um sinal característico de quem pede silêncio e disse, sussurrando:
— Abaixe a voz. Não faça nenhum movimento suspeito. Estou estudando um jeito de assaltar esse banco!... Se você quiser participar, me procure em casa hoje as oito da noite... Tem um monte de dinheiro na parada...
Claro que o Ari não pretendia assaltar banco nenhum, estava apenas dando um jeito de assustar o jardineiro e assim se livrar do seu credor. O homem arregalou os olhos e sumiu. A desculpa funcionara mais do que o esperado. Para quem andava na maior dureza, a idéia do assalto ao banco fora um alívio, uma jogada de gênio.
À noite, porém, quando assistia ao Jornal Nacional, bateram na porta. O Ari foi atender e levou um susto. Era o seu jardineiro: o homem aceitara o convite para assaltar o banco...

O engano do doutor delegado


Havia em Cunha, SP, um fazendeiro muito popular, de nome Homero, que andava sempre armado. O homem não dispensava seu revólver por nada. Nos fins de semana, sempre que ia à cidade fazer suas compras, deixava-se ver com grandes volumes metálicos sob a camisa. O povo de Cunha já se acostumara com o jeito do fazendeiro e sua pinta de valentão. Na verdade, o fazendeiro Homero era um homem bom e as armas que levava na cintura não passavam de uma saudável mania, antigo hábito caipira regional.
Certo dia chegou na cidade um delegado novo, metido a besta, e logo no primeiro encontro que tiveram Homero ficou sem o seu revólver. O doutor delegado não admitia que ninguém andasse armado na cidade. E ainda ameaçou:
— “Se o senhor aparecer na cidade com outro revólver, já sabe, tomo de novo!”.
O fazendeiro Homero, humilhado, foi para casa e ficou imaginando um jeito de se vingar. Na sua simplicidade, no seu jeito caipira de ser, pegou uma raiz de mandioca e esculpiu cuidadosamente uma enorme e falsa pistola. A imitação ficou perfeita, até a cor ficou igual. No final de semana meteu a pistola de mandioca sob a camisa e foi para a cidade fazer as compras habituais.
A cidade é pequena e o encontro dos dois não tardou. O esperado incidente se deu na rua principal, defronte à farmácia do Zé Ludgero. O doutor delegado, fiel à sua promessa de mantenedor da ordem, não hesitou e enquadrou o fazendeiro Homero, que não reagiu. Após a revista de praxe, tomou-lhe a “perigosa” arma e a recolheu, com o devido cuidado, aos próprios da delegacia.
Mais tarde, tomando sua pinga numa roda de amigos, o esperto fazendeiro comentava: “O doutor delegado é muito macho, mas desta vez ele levou foi mandioca!...”

Os flatos do velho senhor


O Doutor Athos Procópio, querido e respeitado médico da cidade de Catanduva, SP, clinicou, operou e fez partos na roça e na cidade por mais de cinqüenta anos. Atendia a todos, ricos ou pobres, com a mesma atenção e carinho. Ao longo desses muitos anos de trabalho o Dr. Athos foi observando e anotando fatos curiosos e engraçados, acontecidos na suas andanças pelo campo ou no consultório.
Certo dia, atendeu a um paciente inusitado. Uma família inteira adentrou a sua sala de consultas. Os familiares que o acompanhavam —a mulher e várias filhas—, estavam trazendo para ser consultado um velho senhor de aproximadamente oitenta anos. O velhinho, caladíssimo, lembrava o cego de Betsaida, aquele que, contra a vontade, fora levado até à presença de Jesus para ser curado de uma cegueira antiga.
A consulta seguiu conforme o roteiro habitual: após algumas perguntas iniciais, o doutor Athos procedeu à tomada da pressão; o estetoscópio foi aplicado sobre o tórax para ouvir os esperados ruídos cardíacos agudos e os graves pulmonares; algumas apalpadelas no abdome para sentir o fígado e o baço; o martelo, em leves toques, foi aplicado ao joelho para avaliar a estabilidade dos reflexos neurológicos. O velhinho se submetia passivamente a tudo e não dizia absolutamente nada. Com o semblante furioso, permanecia calado todo o tempo.
Terminados os exames, o doutor Athos concluiu que o paciente estava muito bem. Afora alguns problemas degenerativos, próprios da idade, o velho senhor apresentava uma saúde de ferro. Anotou os dados na ficha e prescreveu apenas um proverbial fortificante.
Para encerrar, passou mais algumas recomendações extras e finais. Nesse momento uma das filhas se adiantou e solicitou que doutor aproveitasse e passasse também um medicamento que fosse bom para gases, uma vez que, segundo ela, o paciente sofria de uma flatulência horrível. O doutor Athos atendeu ao pedido da moça e prescreveu Luftal.
Foi quando o velhinho, que se mantivera calado todo o tempo, se manifestou:”Doutor, esse último remédio eu não vou tomar!”
“E por quê não quer tomar o remédio, meu filho, pode me dizer?” — quis saber o doutor Athos.
E o paciente respondeu: “Sim, doutor. Não tomarei porque não posso permitir que me tirem a última e grande alegria da vida que é peidar...”




O ponto “G”


O propagandista Pénacova ganhou este apelido em virtude de ser magro, muito magro. Durante vários anos representou uma famosa multinacional farmacêutica no Vale do Paraíba. Algum tempo depois surgiu um propagandista ainda mais magro que ele, que o Diniz logo denominou de “Jánacova”. Mas isto é outra história.
Nesse tempo o “Pé” já era famoso por ser um paquerador incorrigível. As secretárias dos médicos, as balconistas, as clientes das farmácias, casadas ou não, passavam um sufoco diante da lábia dele. O “Pé” cantava a todas e ainda se vangloriava de que a cada dez cantadas tinha sucesso numa. Esta estatística nunca falhava, dizia ele. Era mais ou menos como pedir carona na Dutra: a cada dez carros, um pára.
Anos mais tarde, quando surgiram os primeiros medicamentos genéricos no Brasil, o Pénacova já estava aposentado, dedicando-se exclusivamente ao seu esporte predileto, o alterocopismo (levantamento de copos). Para se destacar das demais, uma drogaria de Taubaté, situada ao lado do Mercadão, colocou na fachada uma placa enorme, com uma grande letra “G” em destaque, sinalizando que ali se vendiam os produtos genéricos. Quando alguém precisava comprar um remédio genérico, logo se lembrava daquele “G” e se dirigia para lá. O “G” tinha sido uma boa idéia do proprietário Dominguinhos.
Mas voltemos ao nosso herói. Embora não tivesse mais o vigor da juventude, o “Pé” ainda mantinha vivo como nunca o seu antigo hábito de paquerar. Num fim de tarde, no bar habitual, aconteceu de ele abordar uma jovem interessante e acabou fazendo uma nova conquista. Terminaram aquela noite no motel.
O “Pé”, que já tinha tomado todas, acabou por não desempenhar bem o papel de amante. Para dizer melhor, foi uma decepção total. Ao final, a mulher não deixou barato e cobrou: “Escute aqui, cara, você é sempre assim apressado com as mulheres?... Nunca ouviu falar que existe um tal ponto G ?”
“Claro que já!... Fica ali perto do Mercadão...” — respondeu o Pénacova.

Com quem você está, afinal?


Durante a ditadura militar brasileira, que se alongou por vinte anos, desde 1964 até o início dos anos 80, os brasileiros viviam assustados e qualquer atitude, por banal que fosse, era motivo para que o cidadão fosse levado a prestar esclarecimentos na delegacia mais próxima. Era um clima de medo e terror. Todo mundo andava assustado.
Aqui em Taubaté não foi diferente. Nesse tempo o meu amigo e enfermeiro, Ari Marques, pertencia à diretoria do sindicato e, para variar, era tido como um perigoso comunista. O Ari era um sujeito legal, andava elegantemente vestido, usava um grosso terno escuro, riscado em listras de giz, sempre de gravata e chapéu.
Às vezes o Ari se licenciava do sindicato e pegava um bico de vendedor em alguma distribuidora de remédio, ou mesmo num laboratório menor, aqueles que eram chamados na época de “porão”.
Os propagandistas de laboratório faziam seu ponto de encontro no Café Paris, na esquina da rua Duque de Caxias com a praça Dom Epaminondas, de onde esses profissionais saíam para visitar seus médicos. Era também o local preferido dos supervisores para encontrar seus comandados. Entre as sete e oito horas da manhã o local fervia de novidades e fofocas.
Um dia o Ari chegou lá e se juntou ao grupo. Mais tarde chegou o Afonso, propagandista do Laboratório Roche. O Afonso era um homem formal, reconhecidamente de direita, e se fazia acompanhar por um cidadão desconhecido (depois descobrimos que era o seu gerente), que usava os cabelos bem curtos, com aparência de militar. O pessoal diminuiu o tom da voz, e mudou de assunto. Em dado momento, o Afonso, querendo saber com que laboratório farmacêutico o Ari estava trabalhando, virou-se para ele e perguntou: “Ari, afinal, com quem você está no momento?”
Desconfiado, o Ari ficou esperto. Mirou o misterioso companheiro do Afonso e respondeu:”Com as Forças Armadas, claro!... Sempre estive com as Forças Armadas!...” E foi saindo de fininho...
Serapião


Antigamente não havia as grandes redes de drogarias que hoje são comuns. O comércio varejista de medicamentos estava nas mãos de pequenas farmácias, milhares delas, espalhadas pelo Brasil. Seus donos eram também farmacêuticos, curandeiros e quase médicos. Eram eles que monopolizavam a distribuição dos medicamentos e tomavam o maior tempo dos propagandistas. Nesse tempo, além da propaganda médica, os propagandistas realizavam também vendas e cobrança. Esses comerciantes se aproveitavam disso e judiavam de nós.
No Vale do Paraíba havia inúmeros deles, que se julgavam importantes e gostavam de torturar os representantes. Seria fácil enumerá-los, mas não vale a pena. Citarei apenas os que, de alguma forma, enriqueceram o folclore da indústria farmacêutica. Os bons estarão sempre na memória e no coração da sua gente e da sua cidade.
Em Guaratinguetá havia o Serapião, que gostava de jogar “palitinho” com os propagandistas, mas não gostava de perder. Se perdesse, não dava pedido. Era muito organizado e neurótico na hora de fazer o pedido, e mais neurótico ainda na hora de pagar a duplicata. Conferia, carimbava, conferia de novo, e só assinava depois de se certificar de que tudo estava correto. Sua farmácia era a N.S. Auxiliadora, mas um dia pagou a duplicata da farmácia N.S. Aparecida, que pertencia ao senhor João Pedro Reis. Foi uma gozação geral, até os taxistas que tinham um ponto ali perto ficaram sabendo da história.
Uma outra característica curiosa, própria do Serapião, era a maneira com que se despedia do vendedor. Cumprimentava-o e dizia: “Passe bem. Se não vê-lo mais, que seja por morte sua!...”
Como podem ver, o homem era uma simpatia. Agora, felizmente, os propagandistas estão livres das pequenas farmácias e dos seus antigos proprietários, aqueles pequenos grandes tiranos. O Serapião anda sumido, muito sumido. Nunca mais o vi.


Pró Pança


Dizem que o sujeito otimista não passa de um desinformado que deu certo. Este é o caso do meu amigo João Macaco. O João foi propagandista de laboratório por muitos anos. Neste ramo de atividade organizou uma bela família e se arrumou financeiramente. Hoje é um próspero comerciante em Jacareí, onde tem um grande centro atacado de material de construção. Mas isto é outra história.
Quando fui colega do João, aqui no Vale do Paraíba, eu trabalhava no laboratório Lafi e ele no Frumtost, firmas que já desapareceram na poeira do tempo. Atuávamos quase sempre juntos, revezando uma carona amiga. Sempre que íamos lançar um produto, permutávamos opiniões sobre o sucesso ou fracasso do novo medicamento. Ora acertávamos, ora não. A verdade é que a nossa opinião não tinha nenhuma importância. O marketing das empresas decidia tudo. Tínhamos apenas que apresentar o produto aos médicos e pronto.
Em 1974 fiquei responsável pelo lançamento de um importante estimulante do apetite, chamado “PROPAN”. Não gostei do nome, achei que o nome era feio e não tinha nada a ver com um estimulante do apetite. Confessei minha dúvida ao João Macaco, mas ele não concordou e retrucou enfático: “Nada disso, amigo! Esse produto vai ser um sucesso! Tem tudo a ver com comida, com alimentação! “
Confesso que não alcancei o raciocínio do João, que era um otimista inveterado, e perguntei:”Como assim?”
E ele concluiu, cheio de lógica:”O produto se chama “PROPAN”, não é mesmo? Então você fala para o médico que o remédio é “Pró... pança”, para crescer a barriga, crescer a “pança”, entendeu?” Entendi, mas nesse caso particular, o otimismo do amigo João Macaco não funcionou e o meu lançamento foi um fracasso total.



Briga de “priquito”


O Brasil é um país imenso e, ao contrário de outros países que falam vários dialetos, os brasileiros falam a mesma língua desde o Norte até o Sul. Há pequenas diferenças de sotaque, mas o português é a língua comum e universal, falada em todos os lugares e estados do país.Todo mundo se entende. Mas nem sempre, como se verá.
O Carlinhos e o Batista eram dois nordestinos, propagandistas de laboratório, que moravam em Taubaté e sempre andavam juntos. Um era baiano e o outro cearense. Os dois amigos formavam uma dupla dinâmica e permanente, dividiam o mesmo jipe e estavam cumprindo sempre o mesmo itinerário, ficavam nos mesmos hotéis e compareciam juntos aos mesmos médicos.
Certo dia, quando se deslocavam no seu velho jipe, entre Itajubá e Alfenas, cidades do Sul de Minas, o assunto se tornou escasso. Resolveram então falar das características que separavam o linguajar do povo nordestino, que, segundo o Carlinhos, seria diferente do que se falava no Sul. Este, o mais extrovertido, disse e apostou que as mulheres mineiras ou paulistas não sabiam o que significava a palavra “priquito”. O Batista, que dirigia o jipe, sabia muito bem que “priquito” era uma baita pornografia lá no nordeste, e duvidou.
Alguns quilômetros à frente alcançaram duas jovens, talvez professoras rurais, que caminhavam pelo acostamento. As mulheres estavam se protegendo do sol por grandes sombrinhas coloridas. O Carlinhos virou-se para o Batista e disse:
— Pare o carro! Vou fazer o teste e perguntar a elas se sabem o que é “priquito”...
Dito e feito. Avançaram alguns metros mais e pararam o jipe no acostamento de terra. O Carlinhos desceu, certo de que as jovens não entenderiam nada, e foi perguntando:
—Vocês não gostariam de botar os nossos “priquitos” pra brigar?...
As jovens se entreolharam e decidiram que não. Não queriam saber de briga de “priquito” nenhum e ainda ficaram furiosas com a proposta indecente. Reagiram com indignação e partiram para o ataque, desferindo vigorosas “sombrinhadas” no propagandista atrevido. O Carlinhos voltou rapidamente para o jipe, e disse para o colega Batista:
— Toca o carro!... Toca o carro!... Dei azar, as mulheres também são “nortistas”!...
Realmente as moças eram nordestinas e, pela reação delas, deviam saber muito bem o que era “priquito”...

Esses gringos!


Até o final da década de sessenta não era comum, ao menos na indústria farmacêutica brasileira, a figura da secretária executiva. Esse trabalho era feito por homens. Segundo uma teoria já superada os secretários, homens, seriam mais resistentes que as mulheres e por isso suportavam com mais tranqüilidade as broncas dos executivos, normalmente estressados e deselegantes no trato.
Nesse tempo eu trabalhava no Byk, uma firma alemã séria, fabricante do creme Nívea, que, ainda hoje, é uma das líderes do mercado farmacêutico. Certo dia chegou ao Brasil, vindo da Alemanha para fazer o lançamento de vários produtos novos, o novo presidente da empresa, o Dr. Hans, a quem os brasileiros logo apelidaram de doutor “Sapos”.
O alemão era muito simpático, aprendeu depressa o nosso idioma e passou, inclusive, a arriscar algumas gírias que os funcionários mais próximos foram lhe ensinando. Adepto de coisas novas já usadas no seu país, o Dr. Hans resolveu trocar seu secretário executivo por uma secretária. Uma secretária brasileira. Era assim na Alemanha e tinha que dar certo também no Brasil. Mas não deu.
Num fechamento de mês difícil, com os nervos à flor da pele, o Dr. Hans admoestou à sua nova secretária com palavras de ordem bem duras, gesticulou, elevou a voz. Foi uma bronca solene que toda a indústria ouviu. A moça não suportou o tom da advertência e abriu um sonoro berreiro. Não concluiu o serviço e continuou chorando pelo resto do dia. No dia seguinte, na reunião com seu pessoal, o Dr. Hans pediu a palavra e tomou uma decisão final e definitiva: “Eu não quererr mais secretárria brasileirra! A gente não pode comerr o rabo delas que elas logo começam a chorrar. Agorra só querro secretárrio homem... Esses não chorram quando a gente comerr o rabo deles!...”



O descongestionante nasal


Quando os laboratórios vão lançar um produto realmente novo tudo é incerteza. O medicamento pode ser um grande sucesso, ou um retumbante fracasso. Inúmeras pesquisas científicas são feitas, unem-se os departamentos competentes da empresa, o marketing se movimenta, os homens de propaganda e vendas vão a campo. A maior de todas as batalhas é a primeira visita ao médico.
Pessoalmente, nos meus mais de trinta anos de trabalho na indústria farmacêutica, participei de inúmeros lançamentos. Alguns tiveram sucesso, outros nem tanto. Nos setores de trabalho ao longo do Brasil assisti a milhares de entrevistas visando a implantar novos produtos. Na maioria das vezes o sucesso depende mesmo é do profissional da pasta, que conhece o campo, está na ponta do processo. Lembro de ter assistido ao trabalho desses excelentes profissionais, desempenhando o seu trabalho junto aos médicos.
Aqui mesmo, no Vale do Paraíba, lá pelos idos de 1970, lembro de um fato marcante acontecido com um produto novo que o Kid Moringueira (grande propagandista) lançava. Tratava-se de um descongestionante nasal. O remédio era muito eficaz, mas apresentava um inconveniente terrível: tinha cheiro de ovo choco.
Tudo se deu na primeira visita que fazia ao querido médico de Taubaté, doutor Bassil, exatos trinta dias após ter feito o lançamento. Nesse dia o Moringueira precisou usar toda a sua arte de convencimento para não perder o receituário daquele importante médico.
Assim que o Moringueira abriu a pasta, o médico viu as amostras e foi dizendo:”Mas este seu remédio tem um cheiro terrível de ovo podre!...”
O Moringueira não se abalou, e respondeu:”É verdade, doutor, mas o que isso importa se o sujeito está com o nariz entupido?” Aqui no Vale do Paraíba, ao menos, sei que o produto foi um grande sucesso.


As curvas da estrada de Campos


Até meados da década de 70 a estrada para Campos do Jordão era de terra batida e o asfalto só chegaria anos depois. O vendedor que não quisesse enfrentar poeira ou barro tinha que dar a volta por São José dos Campos, rodando uns cem quilômetros a mais. Era uma pedreira. Muitos companheiros ficavam atolados nos dias de chuva e outros tantos chegavam no alto da serra enlameados, ou cobertos de pó. A estrada, além de ser de terra era também cheia de curvas. O motorista precisava ser bom para ir e voltar sem nenhum problema.
O Zé Carlos, na época vendedor do laboratório Sintofarma, era um excelente motorista, mas gostava de tomar uma cervejinha ao final do expediente. Esta saudável prática, todavia, quase o leva desta para melhor. Aconteceu assim. Certo dia, já passava das oito quando o Zé Carlos encerrou seu trabalho em Campos do Jordão, com uma última e demoradíssima visita ao doutor Sílvio Rios. Antes de pegar a estrada de volta, levado pelo hábito, não dispensou sua cervejinha habitual e em seguida pegou o caminho para Taubaté. Alegre e decidido enfrentou as curvas da perigosa estrada. Mas, quando chegou na altura do rio Piracuama, numa curva mais acentuada, o Zé Carlos perdeu o controle do carro e capotou.
Felizmente nada de mais grave aconteceu e o propagandista sobreviveu para contar sua história e continuar com suas cervejas. Os colegas que o encontravam depois do acidente perguntavam o que tinha ocorrido, queriam saber como tudo acontecera. E ele respondia tranqüilo, absolutamente isento de qualquer culpa: “Não houve nada demais. Acontece que a estrada tem muitas curvas e, pra não demorar muito, resolvi descer direto...”
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