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Teses_Monologos-->Celtas / gaita de fole -- 04/10/2001 - 08:21 (João Barcellos) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos





OS CELTAS

conferências



de
João Barcellos


















Falando dos povos denominados genericamente Celta (ou Kelt),recordamos logo que as palavras Terror e Lamento têm origem na História desses povos; derivam elas, respectivamente,
do culto ao deus Tor (simbolizado pelo Touro) e do culto ao teocrata Lam (q.s. Cordeiro). E desta primeira abordagem a História dos Povos Celticos alarga-se pelas partes da Humanidade que tem a Terra como moradia de passagem...

















I


Os Celtas e os Nossos Dias





1



E os Celtas abarcaram toda esta Terra


Da leitura das tábuas cronológicas do teólogo e historiador egípcio Mâneton (do Séc 2 aC), os Celtas Lamaístas dominaram o Egito por 953 anos, entre as dinastias 15 e 18, sendo que até à época de Mâneton haviam governado 31 Faraós...

Se esta é uma leitura à luz dos documentos da História, há uma outra leitura mais abrangente: aquela que nos fala da Civilização Céltica através dos símbolos do Poder, como o Touro (na Europa e Ásia), a Águia (dos romanos e alemães); dos chifrudos capacetes reais; da essência feminina pelas famosas Três Matres e das Druidinas (as sacerdotizas), até ao cisma que levaria o teocrata Ram (q.s. Carneiro) a transformar-se em Lam (q.s. Cordeiro) e fugir dos adoradores fanáticos do deus Tor - e, depois, a essência masculina desse mesmo mundo através da perseguição cultural à figura da Mulher tornada maldita pelo Homem (movimento do qual veio a surgir um novo povo: os Fenícios)..., assim como o Cordeiro, ou Lam, passou a ser uma simbologia que atravessou culturas e cultos chegando aos nossos dias como algo-cristão, da mesma maneira que a festiva Modra-Nect (a Noite-Mãe) que os católicos passaram a chamar de Natal!

Em traços gerais, eis a Civilização Céltica que tanta lenda e tanta estória tem feito correr..

Nomeada em diversos locais, a Civilização Celta, pulverizada em vários povos, é etrusca, é vasca (ou basca), é germana, é viking, é gaulesa, é polonesa, é russa, é irlandesa, é portuguesa, é escandinava...

Há milhares de anos atrás, a Raça Negra (ou Sudeana, por ser de origem equatoriana) dava a si mesma o nome de Atlantes e dominava a fraca Raça Branca, que autodenominava-se de Man (q.s. Ser); Atlantes significava Os Senhores, pelo que os Man deram a si mesmos, também, o nome de Kelts (q.s. Heróis). Eis aqui a origem do nome Celta, ou Kelt. Enquanto isso, estes brancos apelidavam os negros de Pelasgos (q.s. Peles Curtidas).

Quanto àquele primeiro nome Man, ainda usado nos idiomas setentrionais, vem do radical ân ou ôn, que em céltico é o verbo único Ser; daí, o latim ens, o inglês an... E, a talhe de foice, ou de chifre: que Atlantes vem das palavras Atta (Senhor) e Lant (Terra).

Iniciei falando do Terror e do Lamento.



Encontramos os sinais da Destruição humana - direi melhor: da autodestruição - em todas as culturas tocadas pelos Celticos: até entre os Aztecas (leiam o que Vargas Llosa escreveu em Lituma Nos Andes), cujos sacrifícios foram uma continuação daqueles oferecidos ao deus Tor; e, mesmo entre os Tupi, os Guarani e outros grupos amazônicos (já leram a crônica quinhentista do alemão Hans Staden?...); o Minotauro dos gregos, o auto-sacrifício dos Faraós ao deus Thor (Tor), depois à Águia e ao Falcão; as ofertas votivas tão características dos povos africanos e dos cultos afro-brasileiros são, na verdade, uma variante dos Cultos Célticos. E encontramos o Lamento nos cultos indiano, judaico, essênio, nazareno (seita na qual Jesus era o "cristo", i.e., o guia espiritual), chinês e japonês, tendo quase sempre o Cordeiro como simbolo: um simbolo que o próprio teocrata Ram (feito Lam durante o êxodo) viria a colocar como figura primeira, i.e., como Carneiro, para iniciar o Zodiaco e assim nos contar a sua fantástica história.

Quando se fala da Raça Branca é comum estabelecer certa ligação com a chegada do Ram ao norte da Índia denominando esses brancos como arianos. Isso tem levado alguns a confundir os Celtas com a seita fundada pelo líbio Ario (250-336 dC) que, de Alexandria, ensinava que Jesus não era de origem divina e sim um humano dotado de poderes espíritas... Mas, não posso deixar de dizer que o êxodo do Ram, logo nomeado Lam, fez dos seus seguidores um povo colonizador dando origem, na Ásia, ao lamaísmo; e este, sim, talvez seja o mesmo povo de língua indo-européia que avançou pela Índia através da Pérsia: eram os arianos. Entretanto, se a semelhança é grande, acrescento que esses Celtas nada têm a ver com os Celtas que ficaram na Europa... Por isso, estorietas publicamente estúpidas e estupidificantes, como aquela da "raça ariana" na exaltação hitleriana, serviram e servem somente para mascarar intenções ideologicamente direcionadas à simples tomada do Poder temporal. Vejam este exemplo: os Godos (também um povo céltico), quando invdiram Roma estavam imbuidos do ensinamento de Ario e nem por isso podem ser denominados como arianos..!

Sobre a Civilização Céltica é interessante (a)notar que quer os lamaístas quer os cristãos seguiram-lhe a Tradição telúrica e contemplativa.

Também, a Arte Céltica revive entre lamaístas e cristãos pela riquíssima Tradição decorativa em iluminuras (recordo, aqui, o famoso The Book Of Kells do início do nosso milênio), as estátuas e os relevos hindus e etruscos; já os velhos cultos a Tor sobrevivem na Arte Tauromáquica (touradas nas arenas, em Portugal, México, Espanha, França); no Touro do Ano (animal que vencendo outros torna-se o Touro da região e o macho primeiro) e na Largada do Touro (nos Açores, na Espanha, no Brasil). Riquíssimo artesanato e joalheria estão expostos um pouco por todo o mundo. Das artes mais famosas desses povos são a Prática da Adivinhação e a Prática das Runas. Interessante, também, é lembrar que além da atualidade dessas práticas, convivemos muito com as lendas de anjos e fadas e animais grotestos tão caros à Cultura oral céltica.

Celtas, Kelts ou Kells - os Heróis.

Ontem como hoje, aqueles e aquelas que descendem dessa velha Civilização nomâde sentem na alma esse sobre-Viver...




2


Antes do desenvolvimento do seu próprio instinto gregário, o humano vivia situações animalescas, como as encontradas pelos portugueses, castelhanos, genoveses e alemães, no dito Novo Mundo - e, talvez que algumas espécies animais fossem até mais organizadas, na sua sobrevivência, que a humana...


O primeiro culto dos Celtas foi o da alma-divinizada, como aconteceu também com os chineses, os hebreus e os hindus.

O ser humano é fruto das suas paixões, sem a Luz divina jamais seria Civilização. Direi que a naturalíssima cultura da Terra está para o sistema ecológico como a Civilização está para a Humanidade... Foi num ato da Inteligência contra a Brutalidade (também humaníssima) que os Celtas entenderam que só a constituição de governos regionais (em cada aldeia, cada tribo) poderia dar-lhes condições de sobre-Vivência como Povo no auge da libertação face à Raça Negra, pois esta dominva o mundo (cerca de 5.000 anos aC) com todo um poderio... sim, um Poder imperial, aquele mesmo que incentivou a criação das cidades-estados com forte ascendência mítica e mística, principalmente na África e na Ásia. Ora, as monarquias européias não nasceram por acaso... ó mãe-África!... Foi a Raça Negra uma Civilização que correu mundo. Daí os povos Celtas perceberam uma Luz além da Força do corpo e que ela poderia ser equacionada como guia de uma outra Força, ainda inexplicável: a Força da Espiritualidade, como afirmo em minha palestra/livro O Peregrino (1).






4



as amazonas
famosas guerreiras asiáticas



Sabemos que os Celticos reuniram os seus, elegeram ou nomeram representantes das aldeias - e, todos, escolheram o Herman (ou Gherman) como Chefe Militar (ou, Chefe dos Homens) e com estatuto quase divino conferido pela sacerdotisa espírita (a Druidina).

Na percepção da existência do(s) Deus(es) e dos Espíritos, talvez que se deva considerar os Deuses Espirituais e nada mais..., os Celticos, ao criarem entre si uma situação para decisões colegiais estabeleceram o princípio geral do Estado dividido em Poder militar (o Herman reinando sobre os Kings, i.e., sobre os "reis locais"), Poder espiritual, através do Drud - ou Druid, q.s. O Princípio, e vem da palavra rad ou rud de onde derivaram o latim radix e o inglês root. Quanto ao King (q.s. Rei), ele estava à frente dos Leytes (homens de armas) e dos folks (homens de trabalho).

E, em tudo isto, qual o lugar da Mulher céltica?

Eis-nos retornando à essência feminina... Como surgíu a Voluspa? Sabemos que foi através da Mulher que os povos Celticos se organizaram. Algumas mulheres, sentindo em si-mesmas o Espírito dos seus Ancestrais e dos Deuses divulgaram essa Mensagem tornando-se Voluspas. Leitora do Oráculo e seu eco místico, a Mulher tornou-se legisladora e, com isso, poderosa: a voz da Voluspa era a voz Divina que vinha do ventre da Terra e ecoava por todo o sistema cósmico.

Verifica-se que a Cultura céltica adotou, no seu sistema esotérico-religioso, a via matriarcal.

Isso passou, aos poucos, para a vida social. O que ainda é, hoje, visível em determinadas regiões onde esse sistema foi implantado antes do Segundo Milênio aC, como no centro e norte de Portugal (onde se formaram os celtiberos), no norte da Espanha, na Gália, nas Ilhas Britânicas (particularmente na Irlanda e na Ilha de Man), no Alto Danúbio (Boêmia e Baviera), i.e., o patriarcado


ficou responsável pelas coisa da Guerra enquanto o matriarcado pelas coisas do Espírito, do Social e do Legislativo, que o mesmo é dizer: da Cultura. Forte, o Oráculo da Voluspa era Lei geral. Enfim, a Mulher tornava-se Ser Humano gerando Civilização...

E até formou uma fantástica corte guerreira, na Ásia, em meio a outra dissidência: um povo de mulheres que decidíu caminhar com suas próprias leis - as Amazonas.

Na concepção d olivetiana, a palavra compõe-se do radical mâs, conservado ainda no latim puro e reconhecível no francês antigo masle, no italiano maschio e no irlandês moth; esse radical, unido à negativa ohne forma a palavra mâs-ohne à qual se ligou o artigo fenício ha; a palavra ha-mâs-ohne significa as-que-não-têm-macho. Ora, nesta estrutura encontramos a origem céltica e a moradia asiática.

Até meados de 1997 falar d as amazonas era falar, quase sempre, de uma lenda, apesar da extraordinária contribuição dos estudos d olivetianos sobre esse povo. 1997 é o ano da descoberta de tumbas, no Caucaso, onde muitas dessas guerreiras foram enterradas... A pesquisa arqueológica - neste caso como no caso d os manuscritos do Mar Morto - é a principal arma da História contra a estupidificante estória oficial...! Foi feita homenagem a D Olivet.






5


língua e arte célticas



Quanto à Língua céltica propriamente dita... havia dois segmentos de um tronco denominado centum: o goidélico (de onde derivam o irlandês, o escocês e o dialecto da Ilha de Man) e o galo-britânico (de onde derivam o gaulês e o bretão - i.e., o País de Gales e a França).

Para os mais interessados em aprofundar estudos, recomendo a leitura das obras de Joseph Déchelette (2) e de Jacques Moreau (3), além dos escritos de Antoine Fabre D Olivet (4) que, hoje, encontram-se em mãos de colecionadores e o acesso não é fácil.

Falei da Língua. E a força territorial desses povos denominados Celta?

Tomando posse de quase toda a Europa, os Celtas dividiram esse continente em três partes: a Central (teuts-land, q.s. terra de teut), a Ocidental (hôl-lan ou ghôl-lan, q.s. terra baixa) e a Oriental (pôl-land, q.s. terra alta); tudo o que estava a Norte dessas regiões denominavam de dâhn-mark (q.s. o limite das almas), que ía do Rio Don às Colunas de Hércules; aquele Don que os antigos franceses chamavam de Tanais e que era baliza para a ross-land (q.s. terra do cavalo = rússia).

Ainda em relação a este assunto, que obviamente liga os povos célticos, está a palavra ask, de onde a denominação geral asktan dada a vários povos (os mais interessados no assunto devem procurar a velha Gramática da Língua D Oc); ora, entendia-se por Trasks os Asks orientais, por Tosks os Asks meridionais e por Vasks os Asks ocidentais - daí, toscanos, estruscos, vascos...





Relativamente ao nome BRASIL...
este não se encontra nas línguas nativas, mas há
vestígios da passagem dos fenícios
pelas costas equatoriais e, também, pelas do Brasil.
Na antiga Língua céltica "braazi" queria dizer "terra grande" e, recordo aqui, os escritos do estudioso Sérgio Trombelli sobre o assunto... Por outro lado, sabemos que uma Insulla Brazil já existia em antigos mapas bem antes da viagem cabralina - mapas como os de
Bartolomeu de Pareto (1455) e de Pero Vaz
de Bisagudo (segundo Carta enviada pelo Mestre João a el-rei D. Manuel logo após o "achamento" oficial da tal Insulla Brazil!...
É possível que, em breve, os modernos instrumentos da Arqueologia possam, também, trazer até nós outros vestígios.



E que influência tiveram os Celtas na Literatura européia que tanta força emprestou ao pré-Cristianismo?

As literaturas no gaélico, no galês ou no bretão, exerceram influência através da Poesia Pastorial e dos Romances de Cavalaria (a saga do King Arthur e a busca do Santo Graal), das Ciências Herméticas ou Ocultas, da Adivinhação e da Cultura Rúnica, até a formação ideológica das élites em Ordens de Cavalaria e Confrarias (do tipo Rosacruzes e Maçonaria).

Chamo a atenção para o fato de vários estudiosos que põem o kardecismo (de Kardec, antigo poeta esotérico celta) como um sistema filosófico-espiritual do eixo telúrico-cósmico desenvolvido na essência mística dos Celticos; aliás, Kardec (Allan Kardec) é pesudônimo do estudioso francês Léon Rivail (1804-1869) que continuou a doutrina céltica no que à transmigração das almas e dos Espíritos diz respeito. E, antes dele, já os essênios, os nazarenos e outras seitas judeo-palestinas o haviam feito.

Importante ainda é o fato de se poder ligar o desenvolvimento da Música e da Poesia aos cultos da Voluspa: mesmo rudimentar, o Oráculo passou a ser lido/interpretado em voz ritmada e em versos rimados. Eis aqui a fonte dos cânticos sagrados tão caros a negros como a brancos!

Foi grande a importância dessa Civilização antiga na formação do ser-português, na Língua Lusa que a saga marítima de 1500 levou ao mundo, legou a africanos e criou o tupi-afro-brasileiro, mesmo que à custa da destruição dos nativos pelo catecismo jesuítico e pelos ferozes salteos e bandeiras... Os povos Celticos, em cinco grupos, entraram na velha província romana, chamada Lusitânia, pelo Algarve (os cinetes), entre os rios Sado e Tejo (os sempsos), entre a Estremadura e o Cabo Carvoeiro (os sepes), pelo centro (os pernix lucis) e pelo norte (os draganes).

Sim, nem a Roma imperial conseguíu vencê-los na Grã-Bretanha... Foi grande a contribuição dos povos Celticos para a Cultura Portuguesa.




1- Edicon, Edit. SP/1995
2- in Manuel d Archeologie Préhistorique celtique et Gallo-Romaine (Paris, 1908-1934)
3- in Die Welt Der Kelten (Stuttgart 1958)
4- D OLIVET, Antoine Fabre (1767-1825) - in História Filosófica do Gênero Humano (Paris/1905; editada no Brasil pela Ed Ubyassara-RJ c/ tradução de Edmond Jorge. Obs: fora de circulação)










II


Das Origens da Adivinhação








1



entre alquimistas e bruxos


Pelas esquinas e praças de tudo quanto é habitado encontramos Alguém que nos observa com mais atenção que o comum dos mortais: esse - um Ele ou um(a) Ela -, é quase sempre um(a) Alguém que faz uma leitura além-de-nós, que nos fixando os olhos decifra boa parte da nossa vivência e, às vezes, num simples toque de mãos, indica-nos caminhos que nunca ousamos pensar como nossos...

Estamos diante de um(a) Alguém predestinado.

E desde que o Ser Humano se conhece como Civilização, independentemente da Raça ou da Cor, dos Credos e da Telúrica Essência (essa, na qual assentava a Divindade primeiríssima), aquilo a que chamamos O-Adivinhar, segundo certas posições dos Astros ou das Coisas, era regra que antecedia qualquer ação pública ou pessoal. Daí, os (al)químicos e os físicos tornaram-se Magos e, em certas ocasiões inquisitoriais, os mesmos foram declarados Bruxos, logo, lançados à fogueira!

Nessa chamada Alquimia, à qual juntaram-se os da Astrologia, além dos Sacerdotes e das Sacerdotizas (de todas as religiões), surgiu a Pedra Filosofal...

Pedra. Sempre a pedra.

Pois, foi com pedrinhas que os predestinados da Telúrica Essência, sob os desígnios dos Astros, iniciaram-se deleitando as comunidades com o que diziam ser As-Sortes De Cada Um(a). Talvez que, paralelamente, outros iniciavam-se com ossinhos, pedaços de madeira, movimentos aquosos, cera derretida ou, pela leitura de tripas humanas e d animais. Esse ato d O-Adivinhar acompanhou a trajetória social, cultural, bélica e religiosa de muitos povos, particularmente os Celtas europeus e os Negros africanos, levando os místicos ao Poder político. Dessa ação antiquíssima nasceu o Estado feudal, no qual não havia uma linha divisória entre a Política e o Clero.

Mas, retornemos às pedrinhas... Muitos povos costeiros, principalmente os africanos, adotaram as conchas (buzios) que, lançadas num circulo d areia (ou terra, ou sobre um tecido) com ritual adequado, proporcionam esta ou aquela leitura em cima de um fato ou de uma pessoa. Algo vivido ou a viver.

Os povos antigos, ainda precariamente civilizados, tinham a caverna (gruta) e o Dolmen (habitáculo feito com três enormes pedras) como referências de uma Cidadania primária culturalmente assente no viver telúrico e solar; tanto é assim que a Tradição Oral de muitos povos diz-nos da importância da-Pedra-enquanto-Ser-vivo. Daí que a Pedra, simbolo da Telúrica Essência, tivesse sido o objeto mais caro aos predestinados para O-Adivinhar - e, depois, a Pedra que tornou-se tão cara aos místicos alquimistas que a quiseram Filosofal...

E esse Alguém que possui o dom de dizer-nos do nosso Ontem como da possibilidade do nosso Amanhã, às vezes vendo-nos pela primeira vez e de passagem, no Hoje (supomos...), que relação tem conosco? Por que esse Alguém pode ser encarado como enviado-mensageiro divino, quer pelo prisma do Bem quer pelo do Mal? Ou ainda: que força é esta que nos torna além-de-nós na Cósmica leitura de um(a) Alguém?

Os antigos gregos chamavam de horoskopos aos que podiam dar um prognóstico sobre as gentes e as coisas; já aos signos/simbolos chamavam de zodiakos (q.s. circulo de animais). Entretanto, a relação entre os Astrólogos e os d O-Adivinhar levou a alguns desacertos...

Algumas convenções da Astronomia designaram constelações às quais vários signos não correspondem.

Tomemos o Carneiro como exemplo: o Carneiro, que tem a ver com a Tradição Céltica (q.s. Ram) e a mística Modra-Nect (q.s. Noite Mãe), esta, comemorada na primeira noite do Solstício de Inverno, i.e., o atual Natal católico. Ora, quando o teólogo Ram (ou Lam) inventou os Signos pôs (como Druida que era!) o Carneiro (que o simbolizava) em primeiro plano. Pelas posições de Plínio e de Árrio, sabemos que o Calendário Rúnico existe desde 8.500 aC que os festejos da Modra-Nect caíam no convencionado Sagitário... uma diferença de quatro figuras! Também, que o Ram foi confundido (?) com o Sol - este, às vezes simbolizado pelo Carneiro - por muitos estudiosos, sendo de crer que Plínio e Árrio foram às fontes originais da Tradição para nos legarem aquela cronologia...!

Toda esta História, muito ligada aos eventos que culminaram com a decadência da Civilização Celtica e, particularmente, ao teocrata Ram/Lam, leva-nos a um ponto crucial de reflexão sobre o Zodiaco e O-Adivinhar:



que O-Adivinhar é algo que transcende
esse Alguém provando que Ele/Ela
continua uma outra e anterior vivência;
que os Astros influenciam
e determinam todos os simbolos
zodiacais historicamente tomados pelo Humano.


Eis que esse Alguém pode tornar-se aliado do Mal contra o Bem quando as circunstâncias da sua sobre-Vivência no cotidiano (ou a ganância ou a inveja) lhe tomam a Alma.

E assim, simples ou culto, esse Alguém pode(rá) ter ou não ter consciência desse dom divino; porque, quer se queira ou não, esse Alguém é enviado divino re-vivendo uma Vida passada e re-transmitindo aos outros a Luz do amanhã que no passado já foi utilizada em outras circunstâncias!



Quem tem o dom d O-Adivinhar não precisa nem de objetos, pois que, com um simples olhar o(s) Outro(s) determina a posição cósmica... Que o mesmo é dizer: eis-nos diante da Luz refletida na Energia por ela alimentada no Ser Humano. Por isso, somos tocados, influenciados (bem ou mal), por esse Alguém predestinado a achar o som do sino antes do toque do badalo...





2


em torno do horóscopo


Todo o mundo já ouviu falar, ou já teve contato com o Zodiaco, mas poucos lhe conhecem a história...

Os povos Celtas, através do Ram, dominaram meio mundo e influenciaram outras culturas, nascentes ou não; o que aconteceu, também, na Ásia. Quando o Ram e os seus correlegionários tiveram contato com os hindus e todo o seu sistema educativo (embasado na metafísica, na física e enquadrado na filosofia Atlante que atribuia tudo a um Princípio Único), houve uma incorporação de valores culturais entre esses povos... e, com isso, foi exaltada uma gênese puramente espiritual - a Iswara.

E o que isto tem a ver com os Signos e a simbologia zodiacal? Que têm os Celtas a ver com o Zodiaco?

Falei do Ram, esse enviado divino perseguido por uma parte da Civilização Céltica por ser contrário aos sacrifícios humanos ordenados na Tradição e dirigidos pela Voluspa. Vivendo entre e sendo um dos Druidas, o Ram era um homem sábio e virtuoso, segundo a imagem desenvolvida pelas pesquisas d olivetianas; esse sábio veio a descobrir o remédio para um "mal" que afligíu os Celticos durante muito tempo: a elefantíase. Desesperados por esse "mal" que haviam transportado para a Europa no retorno da Ásia, os Celticos tudo fizeram para encontrar um "remédio". Um dia, sonhando, o teocrata Ram ouvíu uma voz e víu um homem envergando um manto: "- Oh, Ram! Eis o remédio que procuras". O homem segurava uma vara e nela estava enroscada uma serpente e, súbito, tirando do peito uma faca de ouro, cortou um ramo da árvore próxima: era o visgo de carvalho, que se tornou a árvore sagrada dos povos célticos. O Ram preparou, então, um remédio cuja receita não revelou, achando que isso era algo divino e deveria, assim, continuar na sua mente. O colégio druida dividíu-se e, a partir daí, não lhe reconheceu a Voz divina. Estava feita a cisão que seria mito cara à Civilização Céltica... O nome Ram (Carneiro) tornou-se Lam (Cordeiro) porque o colégio druida considerou o primeiro muito forte para aquele teocrata. O certo é que a perseguição Ram/Lam criou um êxodo fantástico entre continentes e o culto do pacifismo e do espiritismo...

Era, precisamente na época do Solstício de Inverno que os Celticos cultuavam seus mitos com festas populares e, também, a descoberta do remédio contra a elefantíase. Nesse evento, comemoravam a Modra-Nect (ou, New-Heyl) pedindo boas colheitas e saúde. Pois bem, celebrando a escoberta do remédio, os Celtas celebravam o Ram. Foi festejando essa nova Tradição que o agora Lam colocou o Carneiro (Ram) como simbolo primeiro do calendário zodiacal.

Mas, foram os Celticos os autores do Zodiaco?

A cisão entre o espírita Ram e os fundamentalistas do Tor gerou uma fuga que contribuíu para a aproximação entre os sistemas filosófico-religiosos de Celticos e Hindus - estes, imbuídos da crença geral da Raça Negra sobre o Princípio Único da vivência.

Ora, os 12 Signos Zodiacais representam, também, a histórica odisséia daquele teocrata que se afastou do espaço céltico fundando o seu sistema esotérico. Vejamos: tendo o Carneiro como Signo primeiro, a esfera zodiacal apresenta logo o simbolo do Deus Tor, i.e., o Touro - como animal enraivecido que tenta impedir a marcha do Carneiro transformado em Cordeiro, mas, sem o conseguir. Daí, os Gêmeos representam a aliança necessária entre vencedores e vencidos, enquanto o Câncer coloca as meditações e as reflexões do teocrata sobre a sua própria gênese. Logo mais, é o Leão, simbolo da Ilha de Lanka - onde o Ram/Lam saíu vencedor em todos os confrontos; depois, a Balança significando novamente a aliança entre uns e outros dentro do princípio Paz e Amor; e o Escorpião, para dizer-nos da sempre possível ameaça à Paz precariamente alcançada, sendo o Sagitário a vingança (também, sempre) possível. Já os Capricórnio, Aquário e Peixes, iluminam a estrada da Moral nesta história (...e, Peixes, para lembrar que o Ram/Lam sobrevive sempre no seu sucessor, como o sabemos pelos lamaístas).

Pelo histórico geográfico e astral, foi perto de Balk (atual Afeganistão) que o Ram/Lam idealizou tais figuras: estava a 37 Graus de Latitude Norte, o que podemos verificar pelo círculo traçado no lado do Pólo Austral pelas constelações Navio, Baleia, Altair e Centauro, além do espaço vazio deixado acima delas nas esferas mais antigas, demonstrando, assim, o horizonte daquela Latitude e o local da idealização.

Eis, em traços gerais, algo em torno dos Celtas e do Zodiaco, para que se possa entender como este surgíu e de como o Ram feito Lam levou a mensagem divina da Paz e do Amor ao mundo da época; e de como esse teocrata, sabendo insuficientes os seus recursos astronômicos, complementou a sua idealização com o calendário dos povos negros do Oriente.





Notas

- Outro pormenor sobre Ram/Lam: ele passou a ser um Sumo Pontífice e a designação de Papa (Pa-zi-Pa q.s. Pai dos Pais) vem dessa antiga teocracia. Ram é cultuado entre os Hindus como Rama; e, entre os povos do Tibete, da China, do Japão e outros, como Lama (de Lam) - mas, também como Pa-zi-Pa.

- D OLIVET, Antoine Fabre (1767-1825, França). Autor, entre outras obras, de História Filosófica Do Gênero Humano (publicada em 1905 na cidade de Paris).

- O homem vestido com a simbólica capa dos Druidas, naquele sonho de Ram, era um dos ancestrais dos Kelts, de nome Esculápio (Aesk-heyl-hopa q.s. esperança da saúde no bosque).



















III


Gaita-de-Fole
uma cultura céltica



I


Fazer uma leitura sobre o saber-do-povo ou, o “folk lore” - como dizem os britânicos, no que se refere à Música, é fazer uma viagem aos primórdios da Comunicação de Massas, aos tempos ancestrais das necessidades tribais dos chefes de Clãs e seus teocratas nas exigências da disseminação do Conhecimento entre guerreiros, camponeses e artesãos - i.e., a Comunicação entre Senhores e Servos ganhou uma mistura entre a voz-do-mando e a fala popular de sabedoria feita.

Mas, como erguer uma ponte de ligação entre uns e outros? Existia uma ligação mítico-telúrica entre quem lia os Oráculos (sacerdotizas e sacerdotes), ora para os Senhores ora para os Servos, mas era uma ligação que mais inspirava receios do que alívio ou esperança... A ligação não poderia ser tão seca, tão primária e institucional.

Cerca de 3.000 anos antes das conquistas místico-bélicas que construiram a Era Cristã, um povo genericamente denominado Kelt (Celta) estava distribuido em tribos pela região que hoje conhecemos como Europa - e, esse povo, de característica indo-européia, tinha um sistema de vida teocrático embasado no matriarcado pelo qual a Mulher, relegada para segundo plano a partir da Era Cristã, exercia todas as principais tarefas e funções organizacionais em pé de igualdade com o Homem.

O Povo Celtico tinha, então, uma Cultura própria: dela surgiram as primeiras concepções de estrutura militar com chefes guerreiros e de estrutura legislativa, logo... e novamente, a necessidade imperiosa de uma ponte fez-se sentir entre a vivência mítico-telúrica da Vida e o entendimento social em cada Tribo.

Observando a cadência silábica da fala da Sacerdotiza na leitura do Oráculo, os artesãos celtas, enfim, acharam a ponte. E só poderia ser, na verdade, uma ligação artística. O que eles acharam? Os pastores e os camponeses utilizavam já e em diferentes parte da Terra instrumentos rudimentares para identificarem-se com os rebanhos - eram Instrumentos de Sopro; aí, os artesãos conceberam a solução com a ajuda dos teólogos: era a ponte que iria adocicar a árdua Vida daqueles tempos. Ainda que rudimentarmente, desenvolveram a Gaita (do gaélico ghaid, q.s. “cabra”) para que pudesse acompanhar em Melodia aquele Ritmo poético que fazia ecoar a Sina ditada na fala da Sacerdotiza. E então nascia, diga-se assim, aquilo que convencionou-se denominar como Música Popular (ou Folclórica) servindo o sistema teocrata, tal como as canções que hoje ilustram os serviços religiosos, no Ocidente, e os mantras, no Oriente.




II

“Os Druidas, ao ouvirem os oráculos da Voluspa, aperceberam-se de que estes estavam sempre contidos em frases medidas, de uma forma constante, trazendo consigo uma certa harmonia que variava conforme o tema, de maneira que o tom em que a profetiza pronunciava as suas frases não diferia muito da linguagem comum. Eles examinaram com atenção essa singularidade e, após (...) imitaram as diferentes entonações que ouviam, conseguiram reproduzi-las e descobriram que elas possuiam coordenadas com regras fixas”, como nos ensina o historiador e escritor Antoine Fabre D’Olivet (1767-1825), na sua obra “História Filosófica Do Gênero Humano” (editada em 1905, Paris - Fr., pela Librairie Générale Des Sciences Occultes). Este intelectual francês, vilmente perseguido por Bonaparte e pelo Vaticano, escreveu obras como “A Essência e a Forma da Poesia”, “Música” e “Considerações Sobre o Ritmo”, o que nos garante a discussão profunda deste estudo sobre a Cultura Céltica.

As tais “frases medidas” eram o Lai: a tradição da Música Monofônica (i.e., para uma voz e sem acompanhamento instrumental) vem do Canto Oracular Celta, anterior ao Canto Gregoriano (ou Romano), por isso denominado de Rito Galicano. O Lai, que Richard Wagner refere em Tristão e Isolda, é esse falar cantado das liturgias célticas que cita D’Olivet. Só a partir do Séc XIV é que o Lai foi estruturado com “12 Estrofes” no âmbito de um acompanhamento polifônico sob controle para uma variedade métrica..

E então, foi durante o cerimonial dos cultos - como já mencionei: um rito mítico-telúrico embasado na essência feminina - que o Celta achou a Melodia entre a constante sonoridade da fala poética da Sacerdotiza (ou Voluspa), e o Ritmo, entre tempos fortes e fracos.

Em texto editado na “Cotianet” e o jornal “Gazeta de Cotia” (em Março de 1999), sob o título “Gaita-de-Fole: Uma Cultura Céltica”, recordo que na “(...) velha Escócia do Séc. XII era comum aos clãs o uso da Gaita-de-Fole na celebração dos ritos da fertilidade, natural e humana, e no adeus aos entes queridos (...) a Gaita-de-Fole até hoje é como um idioma musical celebrando o passado (...) do Povo Celta”.

Durante o Séc. I da expansão cristã, ou o aguerrido “catolicismo” do Cristianismo, e já submetidos ao poder romano, os Povos Celtas foram aos poucos submetidos também à inquisição papal, e então, a sua estrutura cultural, militar e social foi desapropriada em favor principalmente do novo poder religioso - sendo as regiões célticas mais afetadas, a Irlanda, a Península Ibérica e a Alemanha; a Escócia, que melhor resistiu à inversão dos valores culturais célticos, conseguiu preservar muitos dos seus simbolos - um deles:


a ghaid, ou Gaita-de-Fole...



III


Por que falar sobre a Gaita-de-Fole se não é um instrumento musical tão conhecido abaixo do Equador, embora seja tradição entre povos de cruzamento céltico?

Quando os conquistadores, colonizadores e povoadores portugueses, a partir de 1500 dC, tomaram posse da Insulla Brasil - como era indicada esta parte das “américas” no mapa de Bartolomeu de Pareto (e que o físico Mestre João lembrou em carta ao Rei D. Manuel, a par da de Caminha) -, uma das peças da sua cultura musical popular era um instrumento do seu passado céltico: a Gaita-de-Fole.

A vida cultural luso-brasileira teve grande desenvolvimento no Rio de Janeiro oitocentista, mas já na São Paulo setecentista o capitão-general D. Luiz António (o Morgado de Matheus) fez surgir os saraus (encontros artísticos) e os te deuns (cânticos de louvor - ou, ritual religioso cantado) nos quais um dos instrumentos... além das flautas, violinos e violas, era a Gaita-de-Fole. Relatos setecentistas dizem-nos também da sua utilização popular e cerimonial em povoações da Paraíba e de Minas Gerais... Eis que a Gaita-de-Fole, para espanto de muita gente!, já teve o seu momento na cultura luso-brasileira.



IV


Gaita-de-Fole



a água que de mim escorre
ao chegar junto do ninho d’águia
reflete um passado e um futuro
qual pedra rúnica
que bate em meu ser com som cristalino
a minha sombra como que um relógio-de-sol
aponta para o vale verdejante
selvagens corcéis entre tambores e gaitas
e aqui junto do ninho d’águia
amei no prazer de viver
e aqui soube do amor o hino
que os deuses em nós habitam


deuses adejam
som cósmico
ontem um adeus
hoje a festa
desejos meus
outro cântico
os deuses falam


do sopro vem o hino
os deuses em nós habitam


em meu ser o som cristalino
vinho em cálice telúrico
o meu fado rúnico junto do ninho d’ águia
gaita-de-fole em mim explode

(Serra do Gerês - Pt., 1979)





V

Os artesãos celticos acharam a Ghaid como seu primeiro instrumento musical para suporte da Melodia que acharam na Fala Poética oracular; mais tarde, e tendo a Ghaid praticamente como bocal, chegaram à concepção da Gaita-de-Fole.

Como Foi?

Os músicos precisavam, também eles!, de uma ponte entre o sopro e a execução musical mais longa. A idéia foi tirada do fole-de-ferreiro, instrumento de um dos artesãos mais notáveis da época céltica: adaptar um fole de couro a um tubo perfurado e com uma palheta (do tipo “livre”) - o Ar entra por um tubo superior soprado pelo tocador e uma válvula impede o seu retorno; o tocador comprime o fole com o braço para da pressão d’ar e fazer vibrar a palheta... Depois, adaptaram-se dois e três tubos... E então, a Gaita-de-Fole ganhou nomes como Gaita Galega (na Cultura Minho-Galaica), Cornemuse (entre gauleses/franceses) e BagPipe (entre irlandeses, bretões e escoceses).

Desde o Séc XIV a Gaita-de-Fole é um instrumento marcial entre os escoceses: já entre os irlandeses, ela é também marcial (dita War-Pipe), sendo ativada pela boca e mais social (dita Union-Pipe), ativada pelo fole, e para eventos em interiores; no caso inglês existe a Northumbrian-Pipe, ativada (ou soprada) com fole; e, na Índia, a Gaita-de-Fole é de bambu com uma palheta e um bordão preso a um odre de pele de cabra.

Outro instrumento construído sob o mesmo princípio do fole de couro como peça intermediária é o Realejo (na verdade, um orgão portátil).

Como é do conhecimento geral, a Música estuda-se, genericamente, através dos segmentos modal (no qual inscreve-se o tipo mitológico e comunitário, logo, folclórico - ou, a ação musical na sua ênfase popularmente festiva e menos erudita), tonal (o tipo polifônico que levou à erudição musical, ainda durante o período medieval da Europa) e, como alguns pesquisadores defendem hoje, serial (o desdobramento da práxis musical em formas radicalizadas, como o jazz, o rock’n roll, o punk, o blues, etc, etc, além do mix entre o folclórico e o erudito). Neste breve apontamento sobre a Gaita-de-Fole interessa(-nos) o segmento modal - aquele em que uma Tônica Fixa assegura o fluxo da linguagem musical popular e, às vezes, como entre os Clâs Celtas, cria uma unidade institucionalmente comunitária. No espectro da História da Música é aqui, neste segmento de estudos e práticas, que situa-se a Gaita-de-Fole.

Todos os grandes historiadores, do grande Heródoto ao chinês Sima Qian passando pelo árabe al-Tabaric, o romano Tito Lívio, e os mais recentes, como o italiano Maquiavel, o francês Antoine Fabre D’ Olivet e o brasileiro Mário de Andrade, entre muitos e muitos outros, falam-nos do uso de instrumentos musicais de sopro quer em rituais tribais e palacianos quer em batalhas. Referências dos cronistas Aristófanes e Platão lembram-nos que a Gaita-de-Fole já era apreciada até entre gregos e egípcios, demonstrando mais uma vez a grande dispersão cultural céltica que cita D’Olivet. E, na Roma imperial, este instrumento era denominado como Tibia Utricularis: aqui, a Gaita-de-Fole ganhou também a simpatia palaciana e popular.

A Gaita-de-Fole tornou-se, após a Queda do Império Romano e as lutas intestinas nas ilhas “britânicas”, o simbolo nacional escocês por excelência, o que levou o escritor Walter Scott a escrever que “doze escoceses e uma gaita de fole fazem uma rebelião” (“twelve highlanders and a bagpipe make a rebellion”). E é na Escócia que a Gaita-de-Fole tem presença musicalmente mais marcante, hoje: artistas compõem peças do tipo popular (ceol-beag), como marchas e danças, e do tipo erudito (pibroch ou ceol-mor), como baladas para contemplação e rituais.

Historiadores da arte musical, como Câmara Cascudo, José Miguel Wisnik e Mário de Andrade, no Brasil, ou Michel Giacometti (um corso radicado) em Portugal, põem a Gaita-de-Fole como uma espécie de instrumento musicalmente especial.

Dos encontros minho-galaicos dos quais participei recordo, e é difícil esquecer..., o continuísmo da nota grave que sai do fole enquanto é dedilhada a flauta. É um “largo sopro”, como eu mesmo tentei definir, em 1979 (La Coruña, Galiza-Esp.), “que nos sitia, faz-nos perceber o (nosso) chão”. Talvez por isso, a Gaita-de-Fole serviu os exércitos celtas e serve, ainda, o exército escocês.

Se nos países de Cultura Céltica os grupos de gaiteiros continuam a tradição popular, existe também produção musical mais sofisticada como a fantástica adaptação da canção "asa branca", de Luis Gonzaga, aos bombos e à gaita-de-fole pela cantora portuguesa Isabel Silvestre (EMI, Val. de Carvalho - Pt., 1996), também, na produção musical de Loreena McKennitt (QR-Quinlan Road). Estes são apenas dois entre muitos exemplos que nos mostram as potencialidades musicais da gaita-de-fole.

O som da gaita-de-fole

é um hino desenvolvido para o equilíbrio da festa e do adeus entre a Humanidade e o Cosmo, teluricamente vivido pela graciosa divindade que desperta sobre a Terra.


(Terminando,
lembro a presença telúrica e cósmica da Gaita-de-Fole
acompanhando a invasão da Normandia
que acabou com a barbárie dos generais nazis...
Foi como que uma apropriação coletiva da terra
sob aquele largo sopro.)
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