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Contos-->A Nau Frágio. -- 07/07/2001 - 13:08 (Arnaldo Sisson) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
(1992)


Cacilda, para variar, nada para fazer e, no entanto esse muito de possibilidades remotas ou nem tanto. Uma vista rápida no muito que já consegui (e não sozinho, que sozinho só faria afundar mais) neste rápidos seis meses e não há como ver nuvens ou tragédias inevitáveis pela proa. Claro que alguma tormenta há de sobrevir, nao fosse a vida essa Deusa Doida que é....

Só pra citar e lembrar, se por um lapso de inteligência/memória esquecer, embotejadamente ou não, já tenho todo o básico para sobreviver mais que condignamente. Mais que isso, até pago pelo que tenho da única maneira com que tal é possível: pensando e sendo o melhor de mim. Tudo com absoluta liberdade para ser o pior de todos os que sou.

Não há nenhuma novidade interna nisto, o fato novo é externo. E nem isto é novidade. Esse barco que me coube habitar sempre navegou a esmo, o eu timoneiro nunca teve a menor vontade de dominar o leme e o capitão sempre esteve comodamente omisso. Ou, se não esteve, achou melhor considerar todas as imensas possibilidade de todos os rumos ofertados, sentado no bar, trêbado, imaginando como poderia transformar estar possibilidades em um naufrágio definitivo. Uma poético queima de arquivo, a eliminação da antena para impedir que notícias fossem transmitidas - apenas um gesto estúpido. A conveniente conivência com o fracasso, aceitação da derrota como confirmação do acerto da estratégia.A futilidade da vitória final justificando a omissão.

Quem são meus pares? Não os sei, nunca os encontrei, mas sei que existem e, em todo o caso, lutam como talvez e sem o saber, também o faça. Tenho feito - como o capitão que se esconde triste em sua cabine, abandonando a ponte - da certeza da existência desta confraria mais uma sórdida traição que uma graça. Atitude tão animalesca que vejo merecer o ostracismo e a solidão. A convivência com macacos não me foi imposta de forma alguma, eu a escolhi por um motivo que já esqueci e que de todo o jeito, não importa mais. O que cumpre é retomar o curso, limpar o convés de todo o lixo, atirar as carcaças ao mar, polir os canhões, treinar a tripulação e tentar chegar a tempo. Um pouco de ordem no tombadilho não há de fazer mal algum, há também de reorganizar os porões e enfrentar o que lá, já de a muito, se guardou. Que dores ou talvez delícias verão, por esta faina, novamente a luz do sol e a carícia do olhar de quem as mereceu? Não sei, mas já não lhes temo a compania como, talvez, nunca tenha realmente temido, sei apenas que sentirei saudade deste tempo de silêncio em toda nave, velas pandas e marujos embriagados e sonolentos.

É tempo de arvorar a nau, assumir um comando que, afinal, jamais foi discutido. Eis novamente ao largo a nau capitânia do braço marítimo da Coluna Merdas! A "Frágio" , reequipada com resto de sua antiga glória e retemperada por sucessivos desastres, reassume o combate. - À nós os descontentes, o rebotalho, os malditos e toda a súcia desprezada! Não sois vós quem deve desaparecer! Não é a sombra que se esconde que há de merecer o sol que brilha porque arde e se consome por brilhar, sois vós, a quem nunca foi dado a calma, quem lhe merece a luz e o calor!
Animai-vos outra vez! Novamente há porque viver, uma nova razão para despedaçar o coração! Assumam seus lugares, força nas adriças, brilho nos punhais e todo o resto! Há uma nova manhã que se avizinha, a noite já se esvai e promete um sol como nunca antes!

Há, em toda a preparação de nova expedição um que do cheiro de sangue e pilhagem que nunca é o objetivo final, mas que sempre, até aqui, tem resultado deste esforço. Todos nós, todas as vezes, nos atiramos a carga com mais desespero do que fé e mais fé do que certeza. Que desta vez não seja assim, que haja ordem. Antes de partir que nos encharque o conhecimento que não nos virá nenhum auxílio, os outros deuses estão demasiados ocupados em sobreviver ao vazio de nossa ausência. Não voltarão, teremos de ir até eles. Ocorre, agora que me permito rever os papéis e os diários da partidas anteriores, um pensamento, único que é novo nisto tudo, de que nunca foi assim antes. Sempre partimos atendendo aos chamados de quem, ao chegarmos, já não estava lá. Encontrávamos destroços, escolhos de tudo, ilusões sangrentas, e a certeza inevitável que só nos restava enfrentar um massacre nos fazia voltar e enfurecidos, atirávamos nossa desilusão ao rosto de todos a volta. Sim, matávamos e saqueávamos a esmo, castigando tudo pelo motivo de um atraso que foi nosso. Não seja desta vez assim. Partamos antes, sejamos nós a deflagrar a nova guerra, a última. Que desta vez sejamos nós a não voltar, nenhum de nós. Ou atravessamos, com toda a matilha a ladrar em volta, ou deixemos aos de traz a amargura de contemplar nossos pedaços e sofrer com isso. Nós não voltaremos. Não outra vez.

A Frágio sai para sua última viagem. - Depressa, reúnam os sobreviventes, convoquem novos sonhadores para o vazio de quem tombou. Urge espalhar a novidade, que afinal se termine a "Canção dos Cansados" e seja ela o hino da partida final.

O cais fervilha, as prostitutas e vadios, sacudidos do marasmo mesmacento do porto abandonado, correm a ver as luzes e a agitação no tombadilho da escuna que se julgava morta. O estrépito dos barris de maldição e aguardente, a esbarrar no casco, ainda mal içados por mãos já quase afeitas a terra, ecoa pelas ruas e becos acendendo a imaginação e as luzes dos prostíbulos. A Frágio vai partir. -Depressa! Agora é correr a acordar a canalha, todos os perdidos! Haverá nova chamada! Afastem os lúcidos! Expulsem a precaução de suas camas, que as novas virgens sujem os lençóis de sangue e gozo! Uma explosão de gritos afasta definitivamente a bruma e recomeça o canto de orgias, um deus alucinado reacende a ira no coração de todos os vencidos. Ainda estão vivos e a constatação disto os embriaga, agarrados a um resto de razão, tíbia e duvidosa, de todos os botecos sórdidos, quartos imundos e esquecidos, quase humanos, os últimos malditos atendem a sirene. Terão a sua forra, não foi em vão que suportaram a humilhação de sobreviver a calmaria!

Nada é mais urgente, uma nova fúria se estende por todos, cada condenado tem o seu quinhão de ira e juventude. Iluminada, a Frágio - como o Capitão, agora quase sóbrio, vê e gosta - parece a cada um seu próprio sonho, é de qualquer um que andar sozinho, é todas as putas, a irmã de todos e toda a ferocidade prometida. Arvorada e Deusa, tensa guardiã de todos os propósitos largando as últimas amarras por sobre a amurada, quase desapercebida, a nave parte.

- a Frágio partiu outra vez! De pé, no cais, uns poucos que por tarde que chegassem não partiram tem os olhos postos na distância que sua alma agora toma. De alguma forma eles também estão a bordo, sabem que não serão esquecidos na hora do botim, eles, os que ficaram , são o motor e o vento que impulsiona a Frágio. Ela partiu por eles e é por eles que há de se manter ao largo e viva.

Lenta, a cidade se apercebe do pier vazio e de que há novas canções nos cabarés. Tudo tem mais cor. O sorriso cúmplice dos dementes faz alarde da notícia. A noite prepara a nova manhã. Eles fizeram-se ao largo! Teremos novidades! Algo mais que petroleiros navegam agora, não estamos sós, há que cantar e dançar, namorar e beber! Estamos vivos e tudo começa outra vez.

Longe, a muito em pleno verde, cercados de azul, os novos argonautas já sabem da Medo, a primeira fragata a lhes impedir o Oceano. Não desconhecem a Medo. Na ponte, mão na garrafa, o Capitão já se embriaga, preparando o combate. Desta vez vai evitar o confronto direto, aprendeu que não pode vencer, tem que fugir ou voltar. Não vai voltar.
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