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Contos-->SENTINDO-SE O TAL -- 17/07/2020 - 20:39 (GERMANO CORREIA DA SILVA) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
SENTINDO-SE O TAL
 
 
No tempo em que Billy Lupércio Daniel era criança, e isso aconteceu por volta do início da segunda metade do século XX, era muito difícil para um pai de família que não tinha um emprego estável ou algum recurso financeiro extra, conseguir bens materiais e/ou dispor de algum dinheiro a mais para comprar roupas e brinquedos para seus filhos, em pelo menos, uma vez por ano.

A maioria desses pais de família, entre os quais o pai dele estava incluso, era formada por pequenos agricultores que viviam daquilo que a terra lhes proporcionava, principalmente do produto tirado da sua plantação anual de feijão e de milho.

Quem possuía uma propriedade rural um pouco maior, arriscava-se a criar alguns animais de pequeno e médio portes para vende-los em caso de uma necessidade financeira inadiável, principalmente para com a aquisição de insumos agrícolas e de fertilizantes em geral, evitando-se com isso um eventual endividamento provocado pelo pedido de empréstimos que eram oferecidos por alguns “homens do dinheiro” daquela época, mas que cobravam ágios exorbitantes.

Nos casos de cultivos nas pequenas propriedades rurais, que eram feitos pela grande maioria, não havia essa possibilidade de seus proprietários conseguirem esses empréstimos por lhes faltar uma garantia fiduciária mais consistente.

Essa categoria de agricultores também não tinha como fazer a rotação de culturas, que é uma técnica agrícola que visa à conservação e à diminuição da exaustão do solo. Em geral, esse processo consiste na troca das culturas a cada novo plantio, de modo que as necessidades de adubação sejam diferentes a cada ciclo.

Naquela época, bem menos atualmente, nos plantios de monocultura para fins de subsistência, desenvolvidos em pequenas áreas de terra, não era possível alternar espécies vegetais numa mesma área agrícola. As espécies escolhidas ainda devem ter, juntas, propósitos comerciais e de recuperação do solo e isso dificulta em muito a vida do pequeno agricultor.

Em muitas situações, aqueles pequenos agricultores que pretendessem criar gado em suas propriedades deveriam fazê-lo em áreas próprias, ou seja, em glebas destinadas ao plantio de capim, as quais raramente poderiam ser utilizadas para com o plantio de suas lavouras, anualmente.

O pai de Billy era um desses agricultores detentores de pequenas propriedades que viviam apenas e tão somente daquilo que seus plantios anuais de feijão e milho lhes ofereciam, nem mais nem menos. Uma vez ou outra ele se preocupava com a criação de meia dúzia de cabeças de suínos, mas sempre pensando em abatê-los quando do surgimento de uma necessidade  financeira mais premente, a qual ocorria quase sempre.

Certa vez, o pai dele fora convidado para ser padrinho de batismo de uma criança de um amigo seu, e seus filhos, que não eram poucos, precisavam, evidentemente, estar apresentáveis naquele dia e, ele não se sabe como, conseguiu comprar uma muda de roupa nova para cada um deles.

Billy lembra-se desse dia como se fosse hoje. Ele trajava uma calça comprida que era feita de um brim de uma tonalidade esverdeada; a camisa, de mangas curtas, era de um tecido meio parecido com a autêntica popelina, num tom rosa claro. Ele se sentia a criança mais bem vestida dentre todas as outras que ali se encontravam a caminho da realização da cerimônia daquele batizado tão esperado.

Na verdade, naquela rara oportunidade festiva, Billy se sentia o tal; ele não conseguia andar, naturalmente, como faziam as outras crianças de sua idade; fazia questão de andar um pouco apressado, tentando, daquela forma, destacar-se de todas elas e/ou se desvencilhar de outras que estavam bem à frente das pessoas que chegavam e, aos poucos, iam se acomodando no salão da igreja matriz para, em seguida, assistir à missa e à cerimônia de batismo daquele domingo.

Aquela sua desatenção para com o início daquele ritual religioso nada mais era do que uma declarada intenção infantil de chamar a atenção das outras crianças e dos adultos que por ali transitavam. Ele queria, é claro, que todos testemunhassem sua felicidade momentânea, sobretudo por estar vestindo uma roupa nova, o que não tinha sido um fato comum noutras situações similares, antes daquele dia.

Bons tempos aqueles! Assim, Billy ainda se expressa, atualmente. Todavia, para contrariar o que consta do teor descritivo do último verso da quarta e última estrofe da música Meus Tempos de Criança, magistralmente interpretada pelo saudoso cantor brasileiro Ataulfo Alves, ele continua afirmando, de forma categórica, que era feliz e tinha plena consciência daquele seu momento de rara felicidade, apesar das dificuldades financeiras vividas pelos seus pais.
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