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Contos-->Vendilhões do templo -- 03/04/2018 - 18:34 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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Ravenala estava determinada a não escrever nenhum capítulo sobre o baile da Lapa. Falar mal de futebol, carnaval e música funk é colocar uma corda no pescoço e os pés no cadafalso; cair no esquecimento ou ter seu livro jogado na lixeira como as páginas policiais do jornal que Robert   comprava.  Muitos espectadores  querem ver a beleza das cores que passam pelo sambódromo, outros que o carro alegórico estoure e os foliões voem aos pedaços. Ela não gostava de preconceitos. Tinha conceitos de beleza, conceitos do Bem e do Mal. Conceito  sobre a coisa de seus desejos, e, aos poucos, sentia-se imaculada, como nos primeiros dias de Eva no paraíso.   Por seu turno, o padre  Davi  também se sentia na pele de Adão, antes de morder a maçã do pecado. Dera nome a muitas crianças, derramando água da pia batismal sobre suas cabeças, mas não dera nome a nenhum filho de suas entranhas. O poder de multiplicação da espécie que Deus deu ao homem foi  pelo padre elevado à categoria de voto. Voto de castidade. Era preciso decidir-se antes que os anos avançassem muito. Tinha mais de quarenta.
Por que não agora?
Voltou o Anjo Negro a pedir permissão a Deus para tentar o padre:
 Vinte anos de sacerdócio. Viagens sofridas, e lida com batizados, que continuavam na vida pagã? Gente  que conversa durante a homilia como se comprasse farinha no mercado público.  O padre não podia interromper a celebração, por causa de uma criança que aos berros chamava a atenção de uma numerosa assembleia, principalmente, dos pais. Muito menos por causa de um cão que ladra, insistentemente, perturbando o ritual romano.  Estava o padre  no momento de maior expressão da fé cristã: A consagração. “Corações ao Alto!”  E o povo responde: ‘Nosso coração está em Deus’. Na verdade, muitos  corações estão noutro lugar, menos ali na Jerusalém Celeste, quando o céu desce à terra ou Igreja se eleva ao céu. Outro  cachorro desses que não perde uma missa, uiva. E o padre dá sequência à Liturgia Eucarística:  Vereis o céu aberto e os anjos subindo e descendo sobre o filho do homem.  Distraidamente, uma voz ecoa no meio da assembleia: ‘Amém’ e não era hora do amém.  Dois mil anos de doutrina e o povo conversa na igreja, até na hora da elevação do Santíssimo... ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.’ E enquanto beijava o altar, Davi viu a cena de  Jesus expulsando os vendilhões do templo, o Mestre não chicoteava nenhum deles. Virava as mesas e soltava os animais, colocados à venda para serem dados em oferenda.  Quanto tempo depois, vendilhões continuam a negociar na casa do Senhor como se estivessem numa  feira-livre! Refez-se, e continuou a celebração. Davi se sentia como um  pastor ferido, incapaz de conduzir o rebanho da casa de Jacó. Servia a Deus na esperança de que a Madre Igreja, não tardasse em permitir que os sacerdotes se casassem. ‘Por que não agora? Quanto tempo esperar ainda?’ Estava  profundamente perturbado com a pergunta que Morgana fizera  durante uma aula de religião no Marista: ‘É verdade que José de Alencar é filho de um padre?’ Teve vontade de dizer que o romancista brasileiro era filho do ex-padre José Martiniano de Alencar. Mas, sabia que padre, uma  vez ordenado, mesmo perdendo as atribuições do ofício, nunca deixa de ser padre.
 Fez um minuto de silêncio.
Beijou o altar da propiciação, e afastou pensamentos que lhe perturbavam a alma. Deu a bênção final, e ficou em adoração ao Santíssimo.


***
Adalberto Lima, trecho de "Estrada sem fim..."




Adalberto Lima


Enviado por Adalberto Lima em 03/04/2018



 



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