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Contos-->Passageiro da agonia II -- 06/03/2018 - 20:12 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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Fitou-a demoradamente e percebeu nela o rosto cheio, e o corpo mais gordinho. Sentiu Cezar Ubaldo sussurrar em seu ouvido: Carregamos no ventre a hóstia consagrada em partos menores... No ventre carregamos vida, então!...Carregamos no ventre o sol da manhã, a manhã irmã... Ele, Fernão, nunca desejara tanto  ver o sol da manhã, da tarde..., ou mesmo ainda que  apenas uma nesga de lua, um sinal qualquer de vida fora das paredes da aeronave... Queria contemplar o semblante de rostos amenos, diferentes daqueles  espavoridos de seus companheiros de voo.
Embora tentasse acalmar os passageiros, logo que o sorriso fabricado se desfazia, Vannini voltava a afundar-se em pensamentos pouco nobres. Pobre alma! Felizmente, com esforço sobrenatural, afastou sentimentos de rancor e ódio contra Fernão, afinal, eram eles passageiros da agonia. Ela sentiu tontura. Apoiou a mão na fuselagem da aeronave e impostou a voz:Senhoras e senhores, estamos sob forte turbulência, por favor, mantenham a calma. Preparem-se para um possível pouso de emergência. Utilizem os assentos flutuantes. Obrigada! Desligou os canais de comunicação e acenou para Fernão com gestos carregados de novos significados, como se lhe dissesse: Vamos morrer. Ele compreendeu que estavam em situação de emergência. Ouviu o  mar  bramindo debaixo de seus pés, e se sentiu na pele da Gaivota de Bach, em choque  contra o rochedo. Abriu o terno, conferiu o colete, retirou o paletó e afrouxou os sapatos.
Os passageiros estavam com a cabeça sobre os joelhos e os tripulantes, mostravam-se compenetrados, vasculhando procedimentos de segurança para uma situação de perigo. Levantou-se. Suas pernas tremiam e o coração queria saltar do peito. Assentou. Deixou que se passassem alguns segundos, minutos talvez... Queria ser uma gaivota voando a 1200 quilômetros por hora. Mas em seguida,  repreendeu seu pensamento: Gaivotas não voam a mil e duzentos quilômetros por hora , Fernão! A essa velocidade, seu corpo seria arrastado como uma folha seca tocada  pelo vento. Mas , acrescentou a voz interior,  se tiveres a sorte de não se espatifar no paredão das águas, poderás salvar tua vida.
Como fazer aterrissagem? Antes disso,   o vento rasgaria  seus olhos e arrancaria sua pele. Talvez pudesse laçar-se de paraquedas, mas  as cordas não  suportariam a tensão.
Desejou ser uma gaivota. Ainda assim, com certeza, àquela altitude,  desceria a uma velocidade meteórica, e em pouco tempo, se esborrachar contra o chão ou o espelho das  águas. Sentia-se como que acorrentado no porão de um navio negreiro. Se fosse uma gaivota, superaria seus limites voando a uma velocidade nunca atingida por  sua espécie e se chocaria no paredão das águas, duras como pedra do mesmo  modo. Não tinha jeito.
***

Adalberto Lima, fragmento de "Estrela que o vento soprou."






Adalberto Lima




Enviado por Adalberto Lima em 06/03/2018

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