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Contos-->CHUVAS NO JARDIM BOTÂNICO -- 01/03/2018 - 14:29 (PAULO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
 
 

 
             Gabriel, um jornalista em fim de carreira também olha a chuva. Não sabe porque tomara o ônibus antes da chuva... talvez porque saíra perturbado da diligência em São Paulo naquela semana. E não sabe também porque estava naquela sala de audiência quando chegou preso, o chefe de uma torcida do time do Palmeiras acusado da morte de um corintiano.
     Gabriel lembrou o motivo da tal prisão, o tal chefe palmeirense e outros colegas, na sede de sua torcida organizada, teriam tentado alterar a idolatria alheia e convencer  torcedor de time diferente a mudar a torcida através da tortura por afogamento.  Pensaram que, se afogassem bem, usando uma banheira, o torturado se convenceria de que alguma entidade o levara para o caminho errado, devendo então declarar no final, ser um novo palmeirense, sempre fora, surgindo todo o processo como um modo de percepção total da glória do Verdão. 
           - Para quem você torce?
          - Eu sou torcedor do Palmeiras, do Porco! Agora eu sou!
     Após estas declaração golpeavam  bem o experimento e quando o soltavam, já palmeirense redimido. Achavam  que dali para frente, aos poucos, a tortura faria efeito. Um dia o torturado andaria pelo centro da cidade e se pegaria torcendo pelo Palmeiras porque afinal, o Verdão o livrara da morte e de consequências terríveis para a sua família. 
          As conversões pareceram funcionar durante certo tempo. Mas a tal confraria encontrou enfim o corintiano fanático, um adolescente de 17 anos, pertencente  a outra pequena torcida organizada  e durante 50 horas tentaram mudar a opinião do infeliz. Fizeram até rodízio de turma para o afogamento e o animal não mudava.  Depois destas horas, desistiram e declararam que aquele não torceria para o Palmeiras, o tratamento fora inútil e, sendo assim o bicho não era bem vindo naquele ambiente sagrado ( principalmente ali, onde uma semana antes havia ocorrido uma suruba sem camisinha com torcedoras palmeirenses e alguma coisa ficara no ar) sendo melhor matar o sujeito, porque corintianos (Um corintiano!) não poderiam respirar ali. 
      O corpo  esfaqueado foi encontrado por um vigia três dias depois no Parque do Estado.
           Gabriel olhava a chuva e se lembrava da respiração do Delegado que, aliás, era torcedor do Palmeiras, e recebera preso o chefe daquela torcida em sua Delegacia. O torcedor algemado sentou-se em uma cadeira, parecia ter 25 anos,  tinha pele branca,  o lábio inferior muito saltado e um olhar que passava a ideia de estarmos diante de um cego, um cego esnobe. O delegado examinou o assassino, perguntou aos investigadores se aquele era o principal, o chefe do bando. A turma confirmou a procedência; o Delegado olhou para baixo em frente à cadeira e pediu uma foto da vítima. Gabriel lembra bem do diálogo:
          -Você tem pai, rapaz?
          -  Tenho!
          - Mãe não tem?
          - Tenho!
          - Olha pra foto do sujeito que você matou!
          - E daí?
          - Eu pedi pra olhar a foto! – disse o delegado em um tom mais ríspido.
          O bandido olhou ou fingiu olhar. O Delegado prosseguiu.
          - Não percebe nada neste menino?
          O palmeirense respondeu, já me acuado:
          - Tem dois olhos!
          - Descreve a vítima pra mim! – disse o Delegado ainda em tom ríspido.
          - Dois olhos...
          - Repara no rosto!
          - Dois olhos, boca, nariz, cabelo...
          - Que mais?
          - Dois olhos, boca, nariz, cabelo... orelha...
          - Não te ensinaram nada na escola?
          - Dois olhos, boca, nariz, cabelo... orelha, pescoço, um saco...
          - Não, filho da puta... Você quis tanto matar por causa do teu time e nem reparou... 
          - Fico pensando em meu filho... - disse o delegado para os investigadores.
          Ninguém respondeu e o delegado continuou o interrogatório:
         - Você não percebeu...a  vítima tinha Síndrome de Down?
          O chefe da torcida arregalou os olhos.
          O  Delegado, que deveria ter um filho ou filha com Síndrome de Dow, virou-se para o lado esquerdo, tossiu duas vezes, respirou fundo novamente e, de súbito, deu um tapa tão forte na cara do assassino, que o preso caiu da cadeira, bateu a cabeça na parede e soltou um gemido de dor semelhante a um arroto.
          - Levem este imbecil daqui! 

          Gabriel ali, no meio da chuva, lembra da cena e pensa em rezar. Ouve no rádio do motorista a notícia da queda de uma ponte na Barra da Tijuca.

          Algo em sua vida, afastara os seus filhos de ambientes onde a vida não vale nada. Mas afinal quais os ambientes certos? Uma partida de futebol... a sede de uma torcida uniformizada? Matar por causa de time de futebol não estão nas regras... Gabriel sentiu vontade de chorar, de rezar, mas começou a cantar bem baixinho o hino do Fluminense, do Flamengo, do Vasco da Gama... tão lindos...tão lindos quanto do Botafogo

DO  LIVRO:"CHUVAS NO JARDIM BOTÂNICO"
 

 
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