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Crônicas-->TJN - 004 = Os Meninos de Leite -- 04/10/2007 - 15:59 (TERTÚLIA JN) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. OS MENINOS DE LEITE

Naturalmente que, naquela época de transição de costumes da tasca para o café, os jovens que frequentavam mais os cafés do que as tascas, eram apodados de “meninos de leite” ou “pasteis de nata” pelas gerações mais antigas ou por aqueles mais conservadores para quem os homens a sério eram os que andavam nos canecos e nas presuntadas, pelas casas de pasto que abundavam na cidade. Os que preferiam o galão ou o copo de leite com a torrada, eram criticados pela maioria mais antiquada da terra que media a masculinidade pela quantidade de tintol que emborcava. Não era só em Penafiel, pois esta mentalidade espalhava-se por todo o país e não só. Nos filmes, também se viam os franceses, de boininha na cabeça, com aqueles “moustaches” à Obelix, na copofonia e os alemães, irlandeses, ingleses e americanos a afirmarem a sua virilidade com canecas de cerveja e garrafas de whisky. Basta dizer que, nos anos quarenta, apenas existiam dois cafés em Penafiel e os tascos espalhavam-se por toda a cidade. Mais tarde, as coisas alteraram-se um pouco quando os cafés começaram a aparecer por todo o lado e os seus frequentadores a aumentar, tornando tudo mais equilibrado e as “bocas” foram-se calando.
Quando chegou o meu tempo de jovem, já a malta nova frequentava mais os cafés do que os tascos. Isto não quer dizer que não se metessem nas tainadas, para variar. Eu e os meus amigos, gostávamos do galão ou meia de leite com a torrada ou fatia de Resende, no Imperial mas também apreciávamos umas petiscadas nas tascas e pensões da terra e arredores, para saborear o nosso bom vinho e os nossos deliciosos petiscos, como os suculentos bifes no Ernesto ou no Edmundo; as fêveras no Ramiro de Piéres e as tortas de Basto, à noite, depois do cinema; os pastelões de chouriço e cebola no “Bebe Zé”, no Sameiro e até, a convite do Quim Gonçalves, na adega dele, na Travessa do Paço, fazíamos grandes comezainas, à noite, com salpicão, presunto, atum com cebola e punheta de bacalhau, ali no meio das pipas do vinho de S. Tiago. Pertencíamos a uma geração de transição, havia horas para tudo, para a meia de leite com bolo e para a vinhaça. Até havia para as duas coisas ao mesmo tempo, dependia dos apetites.
Uma noite, após o cinema, estava com o Teão Bessa no Imperial e apetecia-me comer qualquer coisa leve mas, como tinha sede, não queria tomar nada quente. Então lembrei-me de mandar vir uma tacinha de branco fresquinho com meia torrada. O Teão começou a rir-se mas, como gostava de inovações, também mandou vir. O Gervásio ficou a olhar para nós e disse admirado: - Vinho com torradas?! - Dissemos que sim e depois vimos, no balcão, o Ferreira a falar com o Gervásio e a olhar para nós. O petisco lá veio e passou a ser usado normalmente pela malta do Imperial.
No Verão, nas tardes de domingo, quando não havia “programa” nem arranjávamos boleia para o Porto, deambulávamos pela cidade e acabávamos sempre na esplanada do jardim do Calvário a conversar e a beber cerveja, com música de fundo transmitida da cabina sonora do Fernando Batista que animava aquele passeio público, na pasmaceira dominical da cidade.
No dia em que fiz vinte anos, em Maio de 1956, como calhou ao Domingo e num lindo dia de sol quente, convidei alguns amigos para almoçar comigo em minha casa, pois havia rancho melhorado. Se não me engano, foram o Zeca Matos, o Joca e o Quim Gonçalves. Depois do almoço, metemo-nos num dos Ford V8 do Gonçalves, sem letra “A” e fomos para as feiras anuais de Felgueiras, salvo erro de Santa Quitéria que se realizavam em Maio. Começámos no tasco do Zé, acima de Novelas, já perto de Santa Marinha de Lodares onde fomos buscar o Raimundo Magalhães. Colocávamos as canecas, no balcão, à nossa frente e era um, dois, três e bota abaixo. Seguimos então para Lousada e, até Felgueiras, foi sempre assim em todas as tascas que entrávamos. Escusado será dizer que quando chegámos à festa, só armámos barraca e até jogámos a bola na estrada, à saída de Felgueiras para Lousada, em frente a uma tasca, interrompendo o trânsito e provocando uma grande zaragata. Pisgámo-nos quando chamaram a guarda e o potente Ford V8 deu quanto podia nas mãos do Quim. Só parámos em Lousada, na tasca do largo da feira, ao pé do campo de futebol onde, após o lanche, calhou a mim, pedir em casamento a linda filha do dono da quitanda, na época, uma das beldades do Vale do Sousa. Embora o tivesse feito com o respeito e solenidade que o meu estado permitia, de nada valeu, pois fomos corridos e tivemos que acabar o repasto, já no Aníbal Aires, em Penafiel, onde jantámos e, obviamente, encharcámos mais.
Foi uma piela das antigas e o meu pai é que me enfiou na cama, pois deu comigo a dormir, em pelote, na banheira do quarto de banho onde eu me deitei, talvez sonhando que já estava na cama, no meio dum grande sonho de belas odaliscas e éteres deliciosos.

Setembro de 2004

Reinaldo Beça
(reibessahotmal.com)


De "Penafiel Anos 40" do mesmo
autor.


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