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Crônicas-->TJN - 004 = O Carro de Cavalos -- 23/08/2007 - 06:41 (TERTÚLIA JN) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. Ainda existiam alguns carros de cavalos em Penafiel como o dos fidalgos da Aveleda, os Van Zeller Guedes, puxado por uma égua branca, que transportava as fidalgas à cidade, às compras; o da Baronesa das Lages, que a levava à Missa das onze; o carro do Jerónimo de Novelas que trazia o filho Jerónimo para o Colégio do Carmo; o do Martins Bicudo e outros que já não me lembro, para não falar das carroças de carga, como a do Quim da Eléctica, que apenas faziam fretes
Na praça, no tempo da falta de gasolina, havia também o carro de cavalos do Agostinho (Augusto) Gonçalves, puxado por uma égua branca e conduzido pelo cocheiro Gaspar. De vez em quando, nos fins de tarde quentes de Verão, o meu pai alugava aquela caleche para irmos jantar às termas de S. Vicente (Entre-os-Rios) onde o meu avô materno, durante a época termal, abria a filial do seu estabelecimento de fazendas, retrosaria, rendas, perfumes e brinquedos. A mim, agradava-me muito ir mexer nos brinquedos da loja do meu avô e a minha mãe, visitar as amigas como a D. Etelvina, que ainda lá tinha do tempo de solteira, quando ia para lá, nos anos vinte e trinta. Uma época em que ir a águas para as termas, era chique. O meu pai apreciava muito um calmo passeio de landau, ao fim da tarde. Era um passeio maravilhoso, por aquela estrada ladeada de árvores, ao ritmo do trote da égua e com o som sincopado das ferraduras a bater no asfalto.
Uma vez, depois de jantarmos na pensão da D. Etelvina, fomos para o Grande Hotel das termas, onde os meus pais tinham pessoas amigas, lá hospedadas, que os convidaram. Quando entrámos, no grande salão de baile, ouvia-se música de ambiente com os últimos acordes das famosas melodias “Night and Day” e “The Man I Love” de Cole Porter, que o entretainer dedilhava ao piano, seguindo-se logo ritmos brasileiros muito mais alegres, como não podia deixar de ser, pois a maioria dos hóspedes eram portugueses radicados no Brasil. Eram os famosos “brásucas” que lá iam abanar a árvore das patacas ou, como se dizia na época, o brasileiro da mão furada que foi ao brasil e não trouxe nada, o que não era o caso, pois aqueles pareciam ter sido bem sucedidos.
O pianista atacava agora a coqueluche da época, o famoso samba “Tico Tico no Fubá” e a alegria chegou ao máximo com a “Mamã Eu Quero” e “O Que É Que a Baiana Tem”, da grande Carmen Miranda, a famosa estrela brasileira, natural de Várzea de Ovelha, no concelho de Marco de Canavezes, que, emigrando para o Brasil, chegou a estrela de Holywood, nos anos quarenta, entrando naqueles luxuosos filmes musicais, em Tecnicolor, da Metro Goldwin Mayer, da Fox ou da Warner. Uma marcoense cujo charme e alegria, dado o seu tipo exótico, tão bem representava a figura típica duma baiana, com toda aquela fruta tropical a adornar-lhe o turbante da cabeça e grandes argolas nas orelhas.
À saída do hotel, rodeei logo aqueles grandes espadas estacionados na alameda do hotel, com matrículas laranja do Distrito Federal, Rio de Janeiro, na época capital do Brasil. Eram todos americanos e predominavam os Buick, Cadillac, Pontiac, Packard, Oldsmobile, Ford V8, Mercury, Nash, Hudson e até Lincoln, todos reluzentes, na sua grandeza. Os brasileiros que eram portugueses emigrados no Brasil, quando tinham sucesso nos seus negócios, gostavam de trazer, nas suas férias em Portugal, os seus espampanantes espadas americanos, para impressionar os conterrâneos que por cá ficavam e testemunhar a fortuna que lograram alcançar ao fim de tantos anos de sacrifícios e árduo trabalho. Muitos destes foram grandes beneméritos nas suas terras como também aconteceu cá em Penafiel. Construíam os seus grandes palacetes ou chalés que se caracterizavam por terem geralmente uma ou mais palmeiras na frente.
No regresso, a refrescante brisa nocturna e o aroma intenso que dimanava dos campos. Eu e o meu pai ocupávamos os lugares da frente ao lado do cocheiro e a minha mãe e as minhas irmãs, o banco de trás. Vínhamos todos em festa, bem dispostos, mas quando parámos à beira duma fonte para a égua beber, esta empinou-se e o Gaspar viu-se em dificuldades para a dominar, no meio dos gritinhos das minhas irmãs amedrontadas.

O meu pai gostava muito de fazer piqueniques ao ar livre, em pleno monte (eu herdei-lhe esse gosto) e, no Verão, não era raro jantarmos debaixo dos carvalhos que ladeavam a estrada, desde Basseiras a Bustelo. Lá íamos a pé, as criadas com as cestas do farnel à cabeça. As mantas e toalhas eram estendidas no chão e toca a comer como se estivéssemos na festa da Senhora da Saúde. Nesse dia sim, nunca falhava comer os restos do carneiro e arroz de forno da Páscoa e mais alguns petiscos, nos montes e campos que ladeavam o Convento Beneditino de Bustelo. Era a festa dos merendeiros, o comércio fechava e Penafiel, em peso, lá ia merendar ao ar livre, no monte, prometendo que “pr’ó ano lá hei-de ir ou solteira ou casada ou criada de servir “ como cantavam, em coro, as raparigas das novenas que atravessavam, de manhã, a cidade e se dirigiam, a pé, para aquela romaria, na segunda-feira seguinte ao domingo de Páscoa.

Reinaldo Beça

(De "Penafiel Anos 40", do autor, publicado em O Penafidelense, de 2004 a 2006).
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