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Crônicas-->TJN - 004 = Desvios da Nossa História -- 20/08/2007 - 21:44 (TERTÚLIA JN) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. OS LUSITANOS E PORTUGAL

A História de Portugal também teve alguns desvios provocados por poetas da Renascença como Camões e pelos nacionalismos exacerbados dos anos trinta e em muitas outras épocas de exaltação patriótica.
Todos os povos querem ter uma história cheia de feitos de que se orgulhem. Desde os primórdios tempos tribais, quando os feitos dos antepassados se reduziam apenas a actos de coragem na caça ao urso ou à vitória sobre qualquer inimigo de outra tribo, feitos esses que eram engrandecidos de geração para geração até entrarem no campo da lenda que podia levar até a deificação dos heróis, que as histórias têm sempre algo de faccioso para elevar a própria raça e enaltecerem-se a si próprios.
Nós fizemo-lo com os Lusitanos, um povo heróico na resistência ao ocupante romano, que viveu desde o centro peninsular (Meseta Ibérica), região entre Tejo e Douro até ao ocidente ocupado hoje pela parte central de Portugal. Só que os lusitanos não fazem parte da História de Portugal mas sim da História da Península Ibérica ou Hispânica, comum aos dois povos ibéricos e nem qualquer relação se vislumbra com o reino que, um milénio mais tarde, se veio a edificar no ocidente peninsular, com outro povo, outras crenças, outra língua ou seja noutra realidade histórica. São comuns a espanhóis e portugueses e, como eles, houve outros povos celtas que resistiram da mesma forma aos romanos, como belos, titos, lusos, aravacos, vetões, vaceus, astures, cantabros, muitas vezes unidos aos lusitanos e até ilírios-túrdulos, um povo anterior aos celtas de quem Astolpax, sogro de Viriato , era a principal figura e naturalmente a quem pertencia a sua mulher Tangina e os seus ajudantes que o assassinaram, Audax, Minurio e Ditalco, etc. O certo é que nem os lusitanos falavam de Portugal nem dos portugueses nem os primitivos portugueses falavam dos lusitanos ou talvez nem os conhecessem mas sim de “Portugaliae in Galécia”.
Na região em que Portugal nasceu, a norte do Douro, viviam uma série de povo celtas (brácaros, limicos, tamaganos, sappos, ilíricos, artrabos, lugos, zoelas, astures, albiões, britos, calaicos, etc.) a quem os romanos chamaram, duma forma geral, galaicos e a região Galécia. Depois, o Império Romano do Ocidente faliu e vieram outros povos germânicos e árabes que dominaram a península e os lusitanos perderam-se no tempo, nas guerras que se travaram e nas novas nações que se formaram. Quando Portugal se fundou, passados cerca de mil e trezentos anos das guerras dos lusitanos, os tempos eram outros, muito diferentes e já ninguém nem qualquer documento falava dos lusitanos mas sim de Portucale, Portugale, Portugaliae, Portugalli tanto como castro, civitate, diocese, Terra, condado e depois país. E talvez todos estes nomes venham de Gallicias portus ou Portus gallicias, nome porque era conhecida a embocadura do Douro ou então Portus Ocale ou Cale que não era uma cidade mas antes significa castro ou fortaleza, na língua indígena. Suponho que, só após os cânticos épicos renascentistas de Camões, se ressuscitaram os lusitanos, uma vez que o poeta connosco os identificava, como nossos representantes na Antiguidade Clássica revivida pelos artistas da Renascença. Essa relação toponímica, aliada à simplicidade do nome (lusitano, luso, lusíada etc.) e à carga de heroicidade autonómica que transportava, depressa os levou a ser adoptados, como nossos heróicos antepassados, pelos poderes mais patrioteiros da nação e ao mesmo tempo justificar a nossa singularidade, o nosso carácter independentista e autonómico perante os outros povos da Hespânia. É que a justificação da nossa rebeldia ao jugo leonês e castelhano, ao longo da nossa existência, foi sempre o que mais preocupou os nossos doutos historiadores.
Deu-se assim pouca importância ao reino suevo, com capital em Brácara, à diocese portucalense e ao condado portucalense ou de Portugale, durante duzentos anos, governado, de forma dinástica, pela mesma família condal, a de Vímara Peres e seus descendentes;à disputa entre a Sé de Braga e de Compostela pelo primado religioso da Galiza e como centro de peregrinações. Em suma, a toda a época de reconquista e ocupação de todo o norte de Portugal, talvez porque os historiadores lisboetas não vissem nenhuma honra em descenderem de galegos que eram, no Sc. XIX, os carrejões e aguadeiros de Lisboa.
Fugiu assim do conhecimento geral dos portugueses, o início de todo o processo que levou, no Sc. XII, à constituição da nação portuguesa que, de certeza, não se deveu só à acção independentista do jovem infante Afonso Henriques e à disputa da realeza com o seu primo Afonso Raimundes. Filhos de duas irmãs com diferente estatuto e ambos criados por aios poderosos que defendiam os direitos dos seus pupilos: Egas Moniz de Ribadouro e Pedro Froilaz de Trava e seus filhos.
Suponho que o próprio Alexandre Herculano também pôs em dúvida a relação da nação portuguesa com aqueles povos celtiberos. É uma falha que deveria ser rectificada para que muita história local fosse mais conhecida, fazendo jus a muitas famílias, nomes e povos que contribuíram mais directamente para a formação do nosso espírito autonómico, no contexto ibérico ou hispânico.
A luta de Viriato e dos lusitanos, sempre aliados a outros povos, só esporadicamente se centrou no actual território português e apenas nos Montes Hermínios mas sim no centro e sul da península que hoje pertence ao estado espanhol. Não era a defesa da Lusitânia que não existia como país mas de toda a península Ibérica, Hispânica ou Céltica (a Ofisura dos Aqueus). Primeiro, contra os invasores cartagineses e depois contra os romanos que adivinharam que vinham para ficar para se apossarem das suas terras, explorarem as suas riquezas mineiras e capturarem escravos. Essas lutas travavam-se principalmente no centro da península, perto de Numância, entre as nascentes do Douro e do Tejo onde existiam as minas de ferro de Moncoyo que os romanos cobiçavam e no sul, Tarraco (Tarragona), Cartagena e Sagunto onde desembarcavam. Mais tarde, também no norte astúrico e cantábrico (Médulas e Intercátia)) onde existiam importantes minas de ouro, prata e estanho.
A conquista do Ocidente e Noroeste peninsular, que hoje corresponde a Portugal e Galiza, foi quase um passeio, sem resistência, das legiões de Décimus Junius Brutus, o Galaico que, partindo de Olisipo, estabeleceu, em 136 a.C., três anos após a morte de Viriato, o seu acampamento na terra dos brácaros, que deu origem, mais tarde, à cidade de Bracara Augusta (Braga) fundada pelo imperador Octávio Augusto, no ano de 36 a.C.
Tudo isto pouca relação teria com o futuro condado portugalense e com a nação Portugale que se formou, no Entre-Douro-e-Minho, durante a reconquista aos mouros, passados mais de mil anos, quando a luta dos povos celtas pré-romanos já estava esquecida ou era até desconhecida pelos novos senhores germânicos e árabes que dominaram a península. Não era a Lusitânia mas Portugaliae in Galécia.

Reinaldo Beça





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