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Poesias-->Paraíso Triste -- 24/03/2020 - 11:05 (Paulo Barreto) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Paraíso Triste

 

Ainda guardo a imagem daquele jovem rapaz vestindo

Uma desbotada camisa azul escrita com a palavra sexo

Na porta da velha escola em companhia de seus amigos

Sob a rachada marquise para se protegerem da chuva

Conversando acerca de coisas que não levam a nada

Disfarçando seu riso e sua libido da garota tresloucada

Que antes era metida e não falava com a nossa turma

E agora sai pela madrugada oferecendo seus dotes de puta

Enquanto carros e motos faíscam pelas ruas e avenidas

Inundando o ar de gasolina e de convites para a esbórnia

Nas vazias ondas de prazer com alguém desinteressante

Que torna ainda mais vazia a romântica ideia platônica

De que todo mundo deve dar sem a necessidade de receber

Mas todos nós éramos expoentes da juventude obstinada

Que não seguia convenções nem postulados acadêmicos

Vivendo em busca de novas doses cavalares de aventura

Ou de voluntário confinamento com garrafas de vinho

Que encharcavam os quartos desorganizados e sem ventilação

Cruzando a cidade em busca de algum trocado para a festa

Que atraía desde os esfarrapados até os idiotas abastados

Perambulando pela noite afora nas vielas do subúrbio

Procurando pela luz da inspiração nos bares de segunda

Tudo que era o sétimo céu da imundície do corpo e da alma

O refúgio perfeito para os desencontros das vis atitudes

Antes que houvesse a recaída como loucos anjos da devassidão

Que éramos apesar da máscara que usamos com sofrimento

Transmutados na legião do mal que riscava os muros da cidade

Que anunciava nos clubes, pavilhões e igrejas sua assunção

Benditos como uma facção do amor na mais pérfida língua

Que desejava percorrer o céu da boca de todos os malditos

E de nossas narinas ilesas antes do advento do úmido lenço

Que perfumava o ambiente com aroma de éter e benzina

Para sentir a mistura do clorofórmio com essência de erva proibida

Gargalhando com árvores que conversavam por horas e horas

Que alcovitavam as garotas sedentas por um orgasmo diferente

Nas indecifráveis orgias que jamais viram a voluptuosa luz do dia

Desejadas pelos enrustidos que trafegavam trôpegos pela noite

Entre êxtases carnais e discursos filosóficos de igualdade sexual

Massacrados pelos puritanos hipócritas que choravam a sós

Enquanto nossa turma tentava capturar uma brecha espacial

Dentro de um plano temporal teleguiado por micro-ondas divinas

Que aceleravam partículas subatômicas em um caldeirão de ideias

Concretas e visíveis como imagens justapostas de caleidoscópios

De injeção elétrica nos grandes motores de astronaves alienígenas

Que percorriam o Universo em busca da majestosa vulva apocalíptica

Recriando a substância do falo onomatopéico da quinta essência

Na exposição de todo pensamento juvenil que impregnava o cérebro

Desmistificado da roupagem colorida da moda reencarnacionista

Que transformava o tédio urbano em um oásis de um paraíso triste

Na graduação etílica do último acorde da nossa canção preferida

 

Autoria: (Paulo Barreto)

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