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Crônicas-->Antiguidades -- 19/06/2007 - 00:58 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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A barraca era a terceira, à esquerda. Passei batido por ela, mas retrocedi no caminho. Foi assim que me desviei da caça obstinada às pechinchas do vendedor de cara redonda, excessivo gestual aquecido pelo sol das dez. Num cenário de Capodimontes e pratos Bavaria, uma pequena, desgastada e mimosa peça havia me monopolizado a atenção no burburinho da feira de antiguidades.

Não possuía prestígio comercial nem integridade. Fios de cabelo e craquelados judiavam dela, meio aos tons de rosa e vinho desbotados que permeavam as florzinhas minúsculas decalcadas em padronagem chintz. Mas algo, imperativamente, me prendia a ela, antigo perfumeiro maltratado e empoeirado que descansava numa desbotada folha de jornal.

Peguei o objeto cuidadosamente, atraída por um passado que não vivenciara. Seguramente havia atravessado os anos trinta. Ainda ali as mãos zelosas da dona e os constantes manuseios de uma época em que os objetos acompanhavam os seus por uma projeção presumidamente inacabada. Os pequenos mimos agregavam-se à personalidade de quem os recebia e, com satisfação animista, incorporavam-se à sua identidade.

- Ô Neguinha! Cuidado com a louça da Pombinha...Passa a Peroba no toucador sem quebrar!

Fiquei ali, sem saber o que fazer, enquanto o comerciante afoito dizia coisas que nem de longe escutava. O som que me chegava era o de uma caixinha de música, valsa delicada e repetitiva, cuidadosamente disposta ao seu lado no móvel de jacarandá. Ali os dois testemunhavam alegrias e tristezas- quantas saudades!- até que a vida passou e, não se sabe por que cargas d’águas, tudo se transformou em separação e morosidade insípida.

- Faço baratinho pra você! – a careca do homem brilhava sobre os olhos avermelhados. Certamente estava esperançoso em não mais transportar o produto nos engradados amontoados à sua volta.

Recoloquei o objeto na banca. Destoante de tudo que possuía. Mas, subitamente, identifiquei no que desprezava um surpreendente sopro de vida. Remeteu-me ao poema de Pessoa: “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto (...) Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça”.

Imaginei o perfumeiro zelosamente lustrado nos aniversários, envolvido por louças especialmente escolhidas. Tal como ele, pessoas felizes e ruidosas desbotaram-se através do tempo...Não pude resistir:

- Quanto? Quinze reais tá bom? Reconheci a minha voz falando...
Já em casa, retirados os produtos das sacolas, ao apalpá-las percebi a frágil e esquecida porcelana, submersa nos jornais. Lavei-a demoradamente e cuidei das suas manchinhas com chumaços de algodão e alvejante.

Pela manhã, meu olhar despertou sobre uma beleza reeditada. Percebi que havia resgatado a alma, não a dela que já ressurgira e me conquistara, mas a minha própria. Meio a outros poucos objetos escolhidos, ali seria definitivamente o seu lugar. E fui envolvida por música delicada. Apaziguadora manhã rosada, aromatizada por bolo com glacé e raspas de casca de laranja.


 


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