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Crônicas-->UM GENERAL EM MEU QUARTO -- 02/05/2007 - 11:57 (Orlando Batista dos Santos) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
- Entra, General; meu pai tem o costume de ler e escrever deitado e não se importa com formalidades - disse meu filho, que acabava de chegar de uma praia do litoral paulista, adentrando ao quarto onde eu rascunhava um texto.
Quem escreve sabe muito bem como é doloroso desprender-se de um texto na hora em que o está criando, pois não é qualquer hora que bate a inspiração e, quando esta ocorre, o melhor a fazer é grafá-la imediatamente, antes que seja esvaziada dos sentimentos, o que pode resultar em um texto aguado e sem vida. De qualquer forma, não se pode desprezar a solicitação de um filho, e tenho como regra admitir que os amigos dos meus filhos também são meus amigos, porque é necessário hoje em dia agir dessa maneira. Em poucos segundos estava o “general” diante de minha cama: um “cinquentão” de cabeleira esvoaçada, barba por fazer, camiseta e bermuda surradas, chinelos de dedo, tremendo de frio... é, pensei, até que enfim meu filho está recuperando seu senso de humor, pois andava deprimido, devido as seqüelas de um grave acidente com moto e, nessas circunstâncias, um novo amigo sempre é bem-vindo, mesmo que seja desses tipos mal-ajeitados com apelido de General.
Dei as boas vindas ao visitante e saímos do quarto. Mostrei-lhe os detalhes da minha residência espaçosa e arejada que “há mais de dez anos a estou construindo com minhas próprias mãos” com o intuito, é claro, de provocar-lhe um tico de inveja, enquanto tomávamos cerveja em lata.
A visita durou pouco, já que o homem precisava avistar-se com alguns parentes antes de voltar para sua casa. Despedimo-nos sem que eu sequer o acompanhasse até o portão.
- Nem parece um general, não é mesmo, pai? - disse meu filho, cheio de entusiasmo, dizendo tratar-se de um tio de sua namorada, e que tinham se hospedado em sua casa há dois quarteirões da praia e que foram tratados com mimos, tendo comido, bebido e dormido sem gastar um centavo. Para completar o privilégio, o general usou o tempo de sua folga para trazê-los à Campinas e aproveitou para visitar alguns parentes. Um frio correu-me por toda a espinha, indo bater no cóccix. E não é que se tratava mesmo de um general?!
Taí um militar diferente, filho - considerei, tentando esconder o fiasco, e discorri, para provar que eu tinha razão, sobre o período da ditadura militar que governou o Brasil por mais de vinte anos a partir de 1964, do AI 5, do fechamento do Congresso Nacional, da censura, da bomba do Rio-Centro, do sumiço de muitos brasileiros idealistas, de um sargento reformado que fora meu chefe em uma estatal, dos vizinhos militares que tive, tais como o Roberto, que só quando pediu baixa revelou-me que fora um agente do SNI, do Toledo, um tenente que queria mandar no bairro e prometeu “levantar minha ficha”, por eu ser à época um ferrenho militante da Teologia da Libertação, e até mesmo daquele policial que volta e meia mandava seus colegas vasculharem os quintais aqui na vizinhança em busca de algo que pudesse incriminar alguém, e aproveitei para sugerir-lhe a leitura de alguns livros, dentre os quais, o famoso livro “Brasil Nunca Mais”. (é claro que eu poderia ter sido menos tendencioso, pois omiti que um militar é antes de tudo um ser humano capaz de ver e julgar os fatos e agir deliberadamente de acordo com a própria consciência haja visto, por exemplo, uma ação providencial impretada por sargentos do Esquadrão de Combate da romântica Porto Alegre quando, em 1961 esvaziaram os pneus das aeronaves que iriam pulverizar o Palácio do Governo para fazer calar Leonel Brizola e sua Cadeia da Legalidade, quando da recusa dos militares em permitir que João Goulart assumisse a presidência por ocasião da renúncia de Jânio Quadros. A sabotagem desses sargentos com certeza evitou que nosso país mergulhasse em uma guerra civil). Não sou muito fã dessa gente, continuei, mas esse general, que humildemente entra no quarto de um simples casebre em um bairro de periferia aqui nesse fim de mundo...
Eu precisava encerrar logo o assunto da visita antes de enrolar-me por completo na teia de meus confusos argumentos. Afinal, que culpa tinha meu filho de ter um pai quase anarquista, a ponto de fazer questão de manter distância de qualquer pessoa que tenha o cargo, título ou patente na frente do nome? Mesmo porque, não se escolhem esposo ou esposa sem quem se receba o bônus ou ônus de novos parentes.
Dei o caso por encerrado, não sem antes dizer a meu filho algo que pudesse, a despeito de tudo, refletir a satisfação pela honra de receber em minha casa um tão ilustre visitante, o maior quilate dentre as patentes do glorioso Exército Brasileiro e com chances de ser incluído entre as pessoas de nossa parentela. E voltei para a cama ruborizado, tentando retomar o fio da meada do texto com minha sofrível inspiração.
...
PS: A sobrinha do general acabou sendo minha nora...
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