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Contos-->TEMPO DE MUDAR -- 26/03/2000 - 18:17 (Paccelli José Maracci Zahler) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
TEMPO DE MUDAR

Paccelli M. Zahler

Abriu os olhos sonolentos e pesados. Fechou-os. Pensamentos mesclavam-se na sua mente em um entremeado de sonho e de realidade, pesadelo até.
Era tão difícil acordar! O tique-taque do relógio quase a despertar o incomodava (já era tempo de substituí-lo por outro mais silencioso). Estendeu o braço e desligou o alarme.
Ficou pensativo, com o olhar fixo em algum ponto do teto. Há anos repetia a mesma rotina: levantava-se, tomava um banho de água morna, vestia o terno e aquela gravata horrorosa que, à media que o tempo passava, o sufocava. Sorvia um café solúvel (os de antigamente eram mais saborosos) e saía rapidamente para tomar o coletivo. No escritório, saudava mecanicamente os seus colegas. O barulho das máquinas de escrever era insuportável.
Cafezinho, cigarro, fumaça, revisão e assinatura de projetos, sapato apertando, calo doendo, correspondência acumulada, outro cafezinho, a irritação do chefe. Mas, que saco!
O contraste do ar condicionado com o calor do sol, irradiado através das cortinas; a luz fluorescente refletida na mesa de trabalho, causando desconforto aos olhos; e o telefone a tocar insistentemente. De vez em quando, lembrava-se de olhar pela janela. Podia vislumbrar um pedaço da natureza entre as frestas dos espigões - uma porção de céu cinzento, tal a quantidade de fumaça expelida pelos carros.
Estevão sonhava acordado. Um dia (quem sabe nas próximas férias) iria para uma fazenda em alguma cidadezinha do interior. Vestiria aquele calção de banho, estilo samba-canção. Caminharia de pés descalços pelo campo. Toma ria um banho de sol para pegar uma cor e sentir a energia aquecendo seu corpo, trazendo conforto para seu espírito cansado. Queria aspirar profundamente o ar perfumado do campo, sentir o cheiro do gado, do estrume, da terra molhada em dia de chuva. Somente assim poderia esquecer, definitivamente, os problemas do trabalho. Ficaria deitado à beira do riacho, na expectativa do peixe mordes a isca, imerso naquela paz abençoada, cujo silêncio seria rompido apenas pelo canto dos pássaros.
Ficava com água na boca ao imaginar-se colhendo e saboreando as frutas no pé ou comendo legumes e verduras fresquinhas no almoço. À noite, poderia maravilhar-se com o céu estrelado, sob a luz da lua iluminando o campo. Ouviria os grilos (e esqueceria os seus), sapos, corujas, encantar-se-ia com o vôo nupcial dos vagalumes na mata.
Estremeceu subitamente com o barulho de alguma coisa quebrando lá fora. Na certa, algum gato mexendo na lixeira.
Lembrou-se da última conversa que tivera com Cláudio naquela mesa cativa no Bar do Zeca. Reuniam-se religiosamente às sextas-feiras para não uma mas várias cervejas geladas. Gostavam de debater temas atuais chamando, inclusive, a atenção dos demais freqüentadores. Quem dava a maior força, lógico, era o dono do bar, o Seu Godofredo José, uma vez que o movimento aumentara bastante desde que Estevão e Cláudio passaram a freqüentar o lugar. Para eles era muito vantajoso pois, dependendo do número de fregueses, dava até para descolar uma ou duas "louras geladas" por conta da casa.
Sexta-feira passada, discutiram sobre a crise ecológica pela qual o mundo inteiro estava passando. No país, então, nem se fala. A cada dia que passava, avolumavam-se notícias sobre as queimadas na região amazônica, a abertura de novas áreas do cerrado para a expansão da fronteira agrícola, a caça predatória e clandestina de jacarés e onças pintadas no Pantanal Matogrossense.
Entre uma cerveja e outra, ao manifestar suas intenções de ir para o interior, Estevão foi duramente criticado por Cláudio, o qual lembrou-lhe sua condição de homem criado no asfalto, que jamais se habituaria a viver longe das facilidades da cidade grande. Ao que Estevão rebateu com veemência, pois queria ir ao encontro da natureza para vivenciá-la, conhecê-la e ter condições de conscientizar as pessoas para a riqueza grandiosa que as cercavam.
Cláudio discordou radicalmente porque, no seu entender, todos faziam parte daquela massa habituada a consumir, a valorizar os usos e costumes estrangeiros, em detrimento da própria pátria. Eram capazes de arrecadar fundos, compor músicas, fazer abaixo-assinados para a preservação de focas e baleias nos mares do norte, todavia, incapazes de mover um dedo em defesa da seriema, da ema e do lobo guará, tão próximos e tão importantes para o ecossistema do cerrado. "Essa onda de ecologismo vai passar logo", dizia.
Estevão "subiu nos tamancos" e lembrou ao seu amigo que sua paixão pela natureza vinha desde a época de estudante universitário. Certa vez, quando presenciara a derrubada de árvores centenárias na Avenida Sete de Setembro realizada por funcionários da Prefeitura Municipal, sob as ordens do Secretário de Obras, para dar um aspecto progressista à cidade, subiu em uma das paineiras, sendo seguido por alguns colegas. Ante os aplausos dos populares, conseguiu com que os operários, mesmo temerosos de serem despedidos, suspendessem o trabalho. A polícia e o corpo de bombeiros foram chamados. A imprensa se fez presente para documentar o fato. Alguns sádicos queriam ver sangue.
Só não foi preso graças ao apoio de um vereador e de dois engenheiros da Prefeitura. Estes últimos, mais esclarecidos, alteraram o projeto de asfaltamento da avenida, evitando a retirada das árvores centenárias.
Na opinião de Cláudio, aquele foi um ato conservacionista isolado e sem importância pois, sabidamente, milhares de árvores nativas eram derrubadas e queimadas diariamente, sem que ninguém fizesse alguma coisa por elas.
Na solidão do quarto, Estevão remoía pensamentos. Seu amigo podia ter razão. Ele realmente se habituara a cultuar o que vinha de fora e esquecia sempre que a realidade do país era outra. Seus princípios de vida eram corretos, mas precisavam de uma adaptação. Estava ficando angustiado porque sabia, intimamente, que devia mudar e ajudar a sociedade a mudar também.
Cumpriu seus rituais rotineiros e dirigiu-se à repartição. Lá chegando, ficou absorto, sentado em sua escrivaninha. Em meio ao burburinho das máquinas de escrever, dirigiu-se à janela. Contemplou por alguns instantes aquele pedaço de céu com uma nuvem branca refletindo o brilho do sol. Seus olhos fixaram-se em algum ponto no alto e uma felicidade súbita o invadiu.
A luz do sol iluminou-lhe a face, a esperança renovou sua alma e ele sentiu-se livre porque agora compreendia tudo.
Ainda havia tempo para mudar. E fazer!
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