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Contos-->O Conselheiro Luiz Vianna -- 14/07/2012 - 21:23 (Marcelo de Oliveira Souza,IWA Instagram:marceloescritor) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

 

 

O Conselheiro Luiz Vianna 

Na nossa sociedade a escola deveria ser a extensão da família, pois em casa aprendemos a ter noção de respeito, amor pelo próximo e até cidadania, onde o ambiente educacional só vem a acrescentar e trabalhar as primeiras noções de cidadania. 
Quando adentrei ao Colégio Estadual Luiz Vianna, ele oferecia para a comunidade o ensino médio e fundamental, tinha um ambiente arborizado, quadras e até um campo de futebol. 
A educação pública ainda dava os seus primeiros passos ao declínio, a começar pelo diretor, um contumaz paquerador, rodeado de estudantes, ele só queria papo com as meninas, com os garotos era implacável. 
Na sala de aula, existia um garoto chamado Dedé, todos pensavam que era porque ele era cearense, por causa do humorista Renato Aragão," mas esse humorista não é Didi? "
O nome dele era Andrade, ficou o apelido da última sílaba e permaneceu mais ainda a confusão, ele era bastante tímido, quietinho no cantinho da sala. 
Como os quietos são os mais perseguidos, o nosso colega Roberto começou a operação para perder a arcada dentária, infernizou tanto o menino, chegando a ponto de colocar o nome do “trapalhão” no quadro emendando um monte de impropérios, cinicamente ele chamou o coitado cearense e mostrou a sua arte. 
O outro menino surpreendentemente saltou da cadeira e mandou o incauto apagar aquelas palavras ofensivas, mas a resposta foi negativa, mais surpreendente mesmo foi o soco desferido, cujo garoto delinquente assustou-se e segurou a boca com a mão, esvaindo –se de sangue, com a outra apagou prontamente a lousa. 
Depois disso o tímido garoto desabrochou e começou a querer mandar na sala de aula, era tido como o mais valente e tinha um desafortunado rapaz da arcada dentária torta que não deixava ninguém esquecer, ocorrendo uma mudança de comportamento: O tímido ficou valente e o gaiato ficou tímido. 
O meu melhor amigo era uma comédia, levava tudo na brincadeira, até a cara dele era engraçada, o nome era Banha, só queria brincar e rir, o pior é que ao ver o rosto dele sorrindo eu também não me controlava, era gargalhada para tudo quanto era lado, a professora parava a aula e ficava nos acompanhando naquela aventura de rir pelos cotovelos, se me perguntasse o motivo, eu também não sabia. 
Tinha um tal de Silvio, que percebeu meu jeito com a economia e resolveu me pedir dinheiro emprestado, prometendo pagar no final do mês, os dias foram se passando e nada do menino devolver o meu dinheiro. 
Tive que criar uma estratégia para reaver meus valores, comecei a ligar para a casa dele a fim de avisar da dívida, não é que ele começou a mandar dizer que não estava? Tive que partir para o plano B, sempre temos que ter um plano secundário, assim quando ligava para a sua residência, dava o recado que ele me devia, foram tantas as ligações que ele foi à minha casa zangado, me chamou e jogou o dinheiro no chão, nunca mais nos falamos, por isso que as pessoas usam aquele velho ditado: “quem empresta, não presta!”. 
Como minha maior diversão era a paquera e escrita, qualquer vacilo estava jogando o meu charme, aproveitava tudo, sendo bonitinha, que mal tem? 
Cartas de amor e poemas eram as minhas armas prediletas, até de quem eu não estava muito a fim mandava um poemazinho, só para ficar vendo a garota procurar quem escreveu a obra de arte, era muito divertido... 
A vida não era tão fácil lá, tinha até banheiro misto, os garotos adoravam! Subiam no vaso sanitário para ver o que a baiana tem e ninguém nunca percebeu esse atentado ao pudor, ou pelo menos não deu importância. 
A merenda todos gostavam de chamar de “Bonzo” uma ração antiga para cachorro, mas até que não era ruim, como ninguém gostava de se submeter à ração, íamos comer sonho com picolé, mas o rapaz do picolé gostava de enganar os meninos e meninas, ele nunca tinha troco, o que me irritava. 
Certo dia, planejei uma para o tirado a esperto, juntei um monte de moeda de cinco centavos e fui comprar o produto dele, ele olhou-me com tamanho desdém e vociferou: 
- Ta maluco! Eu não aceito isso não! 
Eu prontamente emendei que era crime rejeitar o dinheiro do país, ele me fuzilou com o olhar e cedeu ao meu argumento. 
Em frente ao colégio morava uma garota da turma vizinha, Alba, bem simpática e cativante, tão cativante que muitos garotos queriam conquistá-la, quando chegou a minha vez, esperei o ambiente escolar ficar vazio e fomos para o jardim, mas o tal do diretor cabeludo me viu e saí debaixo de gritos, a concorrência ali era braba! 
Pior era nas festas da escola, era onze, doze garotos para uma menina, que horror! Era praticamente impossível dançar com uma “gatinha” quanto mais dar um beijinho. 
As que eram mais bonitas, queriam carinhas de motocicleta e a gente que era usuário do “pevette” ou usuário do buzu, não tinha vez. 
Para ir ao colégio era uma aventura, todos esperavam a linha do Centro Administrativo e ficavam no fundo, para sair sem pagar, o interessante que ficava um garoto ao lado do cobrador, o abusado contava quantos desciam por trás, os chamados de “trazeiristas” e cinicamente fazia o relatório para o homem da cobrança, sendo o último a sair pelo fundo. 
Era tudo para poder economizar um dinheirinho da mesada, uns até se misturavam as meninas para pedir carona, duvido que os pais deles sabiam dessa aventura no final da aula. 
O dia da orquestra sinfônica da Bahia foi impagável, o diretor  resolveu trazer esse grupo de musicistas, muito interessante por sinal, mas a música não agradava a todos, infelizmente, dava até desespero em alguns colegas, o pavor foi tanto que muita gente saiu correndo para pular um muro de três metros, até hoje eu me pergunto como conseguiram, precisou a direção entrar em ação, o homem do cabelão branco saiu com a sua turma disciplinar e começou a puxar o pessoal de volta para o colégio; um aluno segurando no outro provocou a queda de todos que estavam lá, um verdadeiro efeito dominó! 
Mas teve uns que preferiram invadir a casa do vizinho, como meu colega Raimundo, ele traçou essa estratégia, ele e outros  colegas seguiram adiante, o pior é que pularam o muro e atravessavam um quintal enorme, cheio de árvores, ainda passavam na frente do colégio com a maior cara de pau, mas Raimundo não teve tanta sorte, pois quando tentava atravessar o lugar, saiu de traz um cachorro enorme, pastor alemão, ele voltou correndo para o ponto de partida, mas quando chegou o homem do cabelão já estava com a suspensão na mão. 
Para falar em final de aula, um colega nosso resolveu brigar com um pivete da região e o marginal resolveu revidar, chamando uma verdadeira turma para pegar o nosso colega na saída do horário, tinha para mais de quinze garotos. 
Foi o maior  corre-corre, o pior que sobrou para mim, não queria brigar com ninguém somente ir para casa, mas fui convocado e como ninguém abandonava ninguém, nos juntamos e ficamos esperando um colega nosso chamado de Cavalo, convocar os amigos dele lá do Horto, quando vieram foi paulada para tudo quanto era lado, “correntada”, cabo de aço chiando, todo mundo no maior quebra pau e eu lá no cantinho olhando e me esgueirando para não sair de covarde, pois eu tinha que guardar isso na memória para um dia contar aquela batalha épica, igual como os escritores de antigamente faziam nas epopsias. 
No outro dia apareceram machucados, arranhados e até alguns foram parar no juizado de menores para saber o acontecido, o tal marginal chamado de Sapo, nunca mais apareceu. 
O nosso colégio era bastante conhecido na comunidade, pela sua eficiência e pelos esportes, o professor de educação física era preparador físico do Vitória; lá era trabalhado atletismo, futebol, vôlei, tinha até campeonato com outras escolas, inclusive escolas particulares iam lá participar de torneios; numa dessas disputas, perdi o interesse de ostentar o nome da unidade de ensino, foi quando numa dessas competições as meninas xingavam os adversários de tudo quanto era nome, foi aí que percebi que o colégio já era pequeno para minhas pretensões. 
Saindo de lá no outro ano, indo para outro colégio de referência, mas o Conselheiro Luiz Vianna mudou, mudou até a sua estrutura, agora é somente nível médio e até perdeu o título de Conselheiro, isso mostra de como a atual educação pública tem se diluído, dissolvido tanto que no estado da Bahia, passam-se três meses de greve e não há ninguém que faça o tal do governador recordista em cinismo dar uma maior atenção para a educação. 



Marcelo de Oliveira Souza,IwA

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