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Cronicas-->DE NOVO, O VERÃO EM NÓS -- 25/12/2006 - 19:27 (ANTONIO MIRANDA) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

(RELÓGIO NÃO MARQUE AS HORAS, de Antonio Miranda. Esta é a 62ª. crónica da série*. São Cronicas independentes não obstante formem uma sequência, na intenção de uma crónica de viagem contínua...)

62
DE NOVO, O VERÃO EM NÓS


"Sólo entonces via La Sierra Nevada por la ventana, nítida y azul, como un cuadro colgado, y la memoria se le perdió en otros cuartos de otras tantas vidas." "EI General en su Laberinto", Gabriel García Márquez


Havia folhas pelo assoalho. Debaixo da mesa, junto às cadeiras, na sala e na varanda. Judith nunca fecha as portas da varanda e as janelas de seu apartamento. Estamos no início do verão, com os ipês floridos e as árvores renovando suas folhagens.

Havia também papéis, poeira. E ruídos dos automóveis. Ela já nem ouve.
Como a sinfonia de coquis(*) que a gente nem mais percebe. Como a miséria circundante para quem vive nas regiões mais despossuídas. Fazem parte do cotidiano, da paisagem circundante.

As folhas entram pelas janelas, todas têm as colorações acres. São belas. O vento pode levá-las de um lado para o outro. Melhor assim. Ou podem resultar esmagadas debaixo de nossos pés andarilhos.

Tenho que reconhecer os dotes culinários da anfitriã mas fico perturbado vendo-a comer com a boca aberta. A comida esmagada subindo e descendo, ao capricho da mastigação e das expressões aceleradas por sua impaciência. E o cachorro ao lado, disputando migalhas. Judith é assim mesmo. Vive num mundo só seu. Vejo-a sempre nos concertos de música clássica. Prefere a música barroca, renascentista, e as últimas tendências musicais, mas não se interessa pela fase romàntica e muito menos pela canção popular. Nem sabe que existe. Ou não a conhece. Certa vez quis saber que era essa estória de bolero, que não conseguia identificar propriamente. Tampouco tem paciência para outras coisas. Na apresentação de um filme do Fellini - nada menos que o clássico Amarcord - ela pergunta-me, meio desorientada com as discussões da família italiana à mesa, entre gritos e gesticulações - de que se tratava. Tento explicar que são memórias do cineasta relativas à sua cidade natal, nos tempos tragicómicos do fascismo. "Ah, pois eu não entendo nada disso". Levantou-se e deixou o cinema. Ela é assim. Autêntica e individualista. Não tem paciência nem curiosidade para o que não entende. Mas eu a entendo, em seu mundo de trabalho e perseverança. Nele está a sua fortaleza.


(*) minúsculas e estridentes rãs que povoam a Ilha de Porto Rico, verdadeiro símbolo nacional.
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Próxima crónica da série: (63) LA SONATA DE LOS FANTASMAS Crónica final da série.

Para ler toda a sequência inicie pela crónica (1) VÓO NOTURNO, na seção de Cronicas de Antonio Miranda, na Usina de Letras.

Iremos publicando as Cronicas que vão constituir uma espécie de romance,
paulatinamente. Semana a semana... o livro impresso já está esgotado...

Sobre a obra e o autor escreveu José Santiago Naud: "A agudeza do observador, riqueza do informe, sopro lírico e sentido apurado do humor armam-no com a matéria e o jeito essenciais do ofício. É capaz de apreender com ternura ou sarcasmo o giro dos acontecimentos e deslizes do humano. Tem estilo, bom senso e bom gosto, poder de síntese e análise assim transmitindo o que vê e o que sente, nos transportes do fato ao relato, para preencher com arte o vazio que um vulgar observador encontraria entre palavras e coisas".

Crónica do livro: Miranda, Antonio. Relógio, não marque as horas: crónica de uma estada em Porto Rico. Brasília: Asefe, 1996. 115 p.
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