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cronicas-->DESPEDIDAS -- 25/12/2006 - 19:14 (ANTONIO MIRANDA) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
(RELÓGIO NÃO MARQUE AS HORAS, de Antonio Miranda. Esta é a 61ª. crónica da série*. São cronicas independentes não obstante formem uma sequência, na intenção de uma crónica de viagem contínua...)

61
DESPEDIDAS


"?qué sómos, qué es cada uno de nosotros sino una combinatoria de experiencias, de informaciones, de lecturas, de imaginaciones? Cada vida es una enciclopedia, una biblioteca, un muestrario de estilos donde todo se puede mezclar continuamente y reordenar de todas las formas posibles". Italo Calvino

Sarah, a amiga de Judith, que é também judia e nasceu na Inglaterra, reclama do diálogo superficial de suas amigas norte-americanas. Não se refere a Judith ou a Margareth, suas companheiras de praia em Ocean Park, mas a outras que vivem na Ilha de Porto Rico. Ela cresceu em Nova lorque e optou pela quietude de Old San Juan (Porto Rico), que tem charme e personalidade. Nunca entra no mar, basta-se com a contemplação e exposição ao sol. Vestida.

As pessoas são sempre um mistério, como caixas de surpresas, fascinantes para quem tem a paciência e a habilidade para desvendá-las. Sarah prefere gente a todas as coisas. "Viajo para ver pessoas, não viajo para ver lugares". Vai em busca de amigos, de calor humano. Do contrário, a paisagem é inútil, sem significado.

O comentário começou quando soube que estive com Margareth Melcher, na Feira do Livro de Bogotá. Seus olhos como que ficaram iluminados, felizes. "Não é significativo ir a um lugar qualquer e lá encontrar-se com amigos?" Concordei. "Pois valeu a viagem".

Nunca havia prestado atenção nela. Está sempre lendo um livro, mesmo ao sol. Trabalha na Casa del Libro. Eu cultivo o silêncio junto ao mar, quando não estou dentro d água. Minhas conversações são mais interiores, com o meu passado, com o meu futuro. Mais com o futuro, pois estou sempre antevendo situações, como que deleitando-me por antecipação .. Nem chega a ser ansiedade, apenas imaginações. Algo que nunca será, mas que já é, antecipando-se. Situações imaginárias, que se repetem, sem terem jamais acontecido, como se fosse possível ruminar um temário futuro, já vivido imaginariamente, mas que nunca chega. Não importa, pois vivido de alguma forma, ainda que pelas sensações do imaginário. Memórias do futuro. Mas Sarah fala do passado, como coisa presente.

O Village dos anos 40 e 50 era mais tranquilo mas sempre envolvente.
Com gente sempre interessante, de todas as partes. Sente-se privilegiada par ter tido pais tolerantes e liberais. Teve amigos de toda espécie: negros, homossexuais, orientais, de todas as religiões, sem preconceito. E chegou a ser modelo para pintores. Nua. E teve um romance com um italiano da máfia e que a encontrava em lugares alternativos, marcando encontros com senhas e despistes. Não entendi bem a estória. Só sei que ele um dia apareceu em Puerto Rico, com a mulher e os filhos, para visitá-la. Se é que eu entendi, ou estou inventando. Ela vivia entre artistas, entre criadores.

Tentou explicar-me o significado de ter vivido a sua adolescência em Nova lorque. Em outro lugar, teria sido diferente. E falou de suas leituras, de suas experiências alheias, do diálogo com as pessoas e com as coisas. Aliás, de sua incapacidade de entender as coisas independentemente das pessoas.
Uma pessoa qualquer. Sarah, em poucas palavras, levantou-se diante de mim, numa arquitetura completa de imagens e indagações, como um ser recorrente, pleno de sensações transferíveis, dona das palavras para expressá-las, em frases muito curtas mas sempre carregadas de significados desdobráveis, insondáveis. Apenas uns minutos ao sol, enquanto as amigas caminhavam pela praia.

Três mulheres tão diferentes, tão opostas mas unidas pelos caprichos do acaso. Talvez nem conversem muito sobre suas vidas. Provavelmente nem se conheçam bem. Sarah saiu como de um vaso de perfume, ou de um cofre violado, para expressar sua condição humana. Antes era apenas um corpo flácido, uns olhos renitentes e escrutinadores, uma figura como outra qualquer na paisagem urbana. Mesmo próxima de mim, não a vira até então em sua dimensão individual. Ela quis que fosse assim, num lance de dados, de relance, instantànea e furtivamente, como à guisa de despedida. Ganhando seu próprio espaço e perfil. Ela estava em Londres quando eu por lá andava em meados de 75. Um dado sem a menor importància para mim. Ela quis detalhes de minha estada, como se fizessem parte de um reconhecimento, por termos percorrido os mesmos lugares, quem sabe visto os mesmos espetáculos e até cruzado pelas esquinas, como coisas de uma intimidade intuída, secreta, própria de sua maneira de entender as relações humanas.

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Próxima crónica da série: (62) DE NOVO, O VERÃO EM NÓS

Para ler toda a sequência inicie pela crónica (1) VÓO NOTURNO, na seção de cronicas de Antonio Miranda, na Usina de Letras.

Iremos publicando as cronicas que vão constituir uma espécie de romance,
paulatinamente. Semana a semana... o livro impresso já está esgotado...

Sobre a obra e o autor escreveu José Santiago Naud: "A agudeza do observador, riqueza do informe, sopro lírico e sentido apurado do humor armam-no com a matéria e o jeito essenciais do ofício. É capaz de apreender com ternura ou sarcasmo o giro dos acontecimentos e deslizes do humano. Tem estilo, bom senso e bom gosto, poder de síntese e análise assim transmitindo o que vê e o que sente, nos transportes do fato ao relato, para preencher com arte o vazio que um vulgar observador encontraria entre palavras e coisas".

Crónica do livro: Miranda, Antonio. Relógio, não marque as horas: crónica de uma estada em Porto Rico.Brasília: Asefe, 1996. 115 p.
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