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Cronicas-->ESTRANHAMENTO -- 25/12/2006 - 17:38 (ANTONIO MIRANDA) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

RELÓGIO NÃO MARQUE AS HORAS, de Antonio Miranda. Esta é a 60ª. crónica da série*. São Cronicas independentes não obstante formem uma sequência, na intenção de uma crónica de viagem contínua...)

60

ESTRANHAMENTO


"la búsqueda de la levedad como reacción al peso de vivir". Italo Calvino

Uma escala em Panamá, a cidade debruçada sobre as marés do Pacífico, com casebres de madeira contrastando com os edifícios arrogantes dos mais de cento e trinta bancos. Mais bancos do que escolas, ou seja, o Noriega saiu sequestrado mas os ladrões que ele protegia conseguiram institucionalizar-se. Agora têm onde lavar dinheiro legalmente, como se fossem lavadoras automáticas. Espécie de zona franca de divisas podres. O dinheiro passa o dia lá e dorme nas bolsas de NY, Londres e Tokyo.

Um calor crescendo com as buzinas dos automóveis, gente falando alto e letreiros ruinosos por toda parte. Ciudad de Panamá é pesada, sufocante, densa, congestionada, ruidosa, contraposta à placidez e simetria de Balboa, na zona do Canal. Dois mundos. Dois oceanos. Um canal considerado uma das maravilhas do mundo moderno, com suas eclusas e seu tráfego incessante.

Olhar esvaziar-se as diversas alturas, seus vertedouros vertiginosos, suas águas doces subindo e descendo, os navios descendo e subindo, puxados por comboios sobre cremalheiras, é admirar-se da invenção humana. Tanta imaginação, tanto sonho, tantas mortes e obstinações enlouquecidas! Todo terrorista do mundo deve ter sonhado com a sua explosão, todo ditador pretendeu tê-lo sob seu controle. Balões suspensos no ar interceptavam aviões kamikazes; marines insones espreitavam possíveis investidas guerrilheiras ... O canal une dois mundos desunidos.

Oue me perdoem os panamenhos mas o país é uma ficção geopolítica.

E o Canal é mais que uma obra de engenharia, é uma obra de arte. Ciudad de Panamá, com sua zona franca, é um mercado ao ar livre, depósito de mercadorias, entreposto de bugigangas. Os bancos estão lá para facilitar as transações, as lavagens de dinheiro. Panamá é um lugar de passagem para navios e mercadorias.

Encontro de dois mundos. Caribe e Estados Unidos. Como água e azeite.
O taxista mostrou-me as ruínas de uma estrada de ferro e explicou: foi o fruto da administração do canal pelos panamenhos. Não sei se exagerava, mas garantiu que bastaram seis meses para tudo aquilo virar sucata. Vagões abandonados, trilhos enferrujados, dormentes apodrecidos. Buscava justificativas para o controle definitivo do canal pelos gringos. O acordo de cessão termina em 1999 mas ele acredita que um novo acordo será firmado para dar continuidade, ainda que permaneça alguma co-gestão no processo. Tanto melhor, se garantir paz e prosperidade ao país. O homem estava orgulhoso do retomo da democracia, depois do rapto rambesco do Noriega, que agora apodrece em cárcere norte-americano. Pior para ele, melhor para os panamenhos que aproveitam a existência do canal para viabilizar suas estratégias de desenvolvimento económico.

Panamá é pesado, não é leve. Costa Rica é leve, não é pesada. Maneiras de ser, maneiras de ver. Embora tudo seja relativo - justo sói reconhecer ¬pois, como bem vaticinou Italo Calvino "todo lo que elegimos ya preciamos por ser leve no tarda en revelar su propio peso insostenible".

Leve pode ser a poesia. Transformando coisas pesadas em corpúsculos etéreos, plúmbeos, voláteis, em que a noção de tempo se transfigura e transcende. Foi assim que uma exegeta considerou os versos de Tu Pais Está Feliz: leves e translúcidos. Ela reconheceu nos versos tentativas de relativizar o concreto, de superar o real e de suprimir as distàncias inúteis e os tempos impossíveis. Segundo ela, manifestações incontestes de um pós-modemismo literário.

Foi durante um recital organizado pelos estudantes da Escuela, no Museu da Universidad de Puerto Rico, em abril de 1994. Aceitei ressuscitar os poemas, acompanhado por uma cantora (Wanda Pabellón) e por um guitarrista (Humberto González). Considerei meio estapafúrdia a idéia de reviver os textos mas acabei convencido de sua validade. A escritora Lourdes Vásquez entrevistou diretores de teatro que participaram daquela histórica apresentação da peça no Teatro Coop-Arte, no Bairro Obrero de San Juan, nos idos de 1971. Maria "Ate" Matos redescobriu os recortes de jornais da época com as fotos e impressões dos críticos e repórteres. Diante de um público surpreendentemente grande para as circunstàncias, fiz a leitura, levitando no espaço-tempo. Queria saber se havia alguma validade em versos que falavam da guerra fria e da rebeldia contra os valores estabelecidos. Parece que mudaram as aparências mas permanecem as motivações. Avanços e retrocessos. Permanece a leveza do texto, insinuações mais que afirmações.

Porque a poesia é um exercício de despistamento que trai a si mesmo, revelando e desvelando aproximações consecutivas a uma verdade intangível mas perceptível. Artesanato das palavras e das imagens, transfigurações das idéias e das percepções. As palavras têm autonomia, seu universo próprio. Sua forma e significado. Existe a palavra que só conhece a si mesma, como afirma Italo Calvino. Que modela a existência, que a estabelece. Tu País está feliz... pretendeu caçar mariposas no abismo das contradições humanas, negá-las sem perder a sua identidade. Contrapor, negar e dar-se em fragmentos e por inteiro. Um exercício de imprecisões e de exatidões, visibilidades numa geografia que era mais temporal que espacial.
Não queria ser um poema. Pretendia ser um espetáculo: em que se mostra e se reflete, em que a palavra é apropriada, é exposta, vivenciada. Sem limites entre o ator e o espectador.

Regressando a Calvino (que só descobri muitos anos depois), "la literatura nunca hubiese existido si una parte de los seres humanos no tuviera una tendência a una fuerte introspección, a un descontento con el mundo tal como es, al olvido de las horas y los días". O teatro tampouco existiria, já que é outra forma de literatura. Mas em Tu País está feliz a proposta era vencer o eu e ser o outro, em usar o tu e o nós para ampliar a participação. Não haver um personagem no palco porque o verdadeiro personagem estava para ser conquistado na platéia.

Foi espantoso ouvir testemunhos de quem esteve presente a alguma das funções originais. Houve até quem ainda recordasse versos e melodias. Distanciei-me, tentando aceitar os testemunhos. Teatro não é uma obra física, é um acontecimento.

Sou o autor de uma obra única, que nem é mais minha. Ninguém re¬corda o meu nome. As recordações fazem parte da história das pessoas. Eram estudantes, eram jovens ansiosos de liberdade e liberalidade, eram sonhadores buscando identificação com o texto e seu tempo. Vêm-me como o autor que era, mas não é mais pois não demonstram interesse algum pelo que veio depois. Basta rever ou reler os poemas de Tu País país está feliz, que também foi mas não é mais, estacionado em algum momento do passado que continua presente, agora fustigado como nostalgia do ser. As pessoas falavam de si mesmas, de suas crenças e vivências. A peça era parte delas, não eu, que parecia um estranho, a quem olhavam com certa perplexidade e incredulidade. Os que não a viram antes, puderam imaginá-la e o recital concluiu com os aplausos e simpatias de praxe. Volto ao meu recolhimento, com ciúme de mim.


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Próxima crónica da série: (61) DESPEDIDAS

Para ler toda a sequência inicie pela crónica (1) VÓO NOTURNO, na seção de Cronicas de Antonio Miranda, na Usina de Letras.

Iremos publicando as Cronicas que vão constituir uma espécie de romance,
paulatinamente. Semana a semana... o livro impresso já está esgotado...

Sobre a obra e o autor escreveu José Santiago Naud: "A agudeza do observador, riqueza do informe, sopro lírico e sentido apurado do humor armam-no com a matéria e o jeito essenciais do ofício. É capaz de apreender com ternura ou sarcasmo o giro dos acontecimentos e deslizes do humano. Tem estilo, bom senso e bom gosto, poder de síntese e análise assim transmitindo o que vê e o que sente, nos transportes do fato ao relato, para preencher com arte o vazio que um vulgar observador encontraria entre palavras e coisas".
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