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Crônicas-->O Reino da Meianoite -- 26/11/2006 - 03:09 (MARIA CRISTINA DOBAL CAMPIGLIA) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Número do Registro de Direito Autoral:131013761302432500
O Reino da Meia-noite
Aos Notívagos

A Noite é meu país.
Habito-a como se tivesse tudo: o Tempo todo, todas as pessoas necessárias aos sentimentos transversos, todos os mundos paralelos convergindo. Nela subo aos navios, cruzo os oceanos imensos e acaricio as baleias, rasante no toque das águas inquietas...
É nela meu reino. Um reino permissivo e aberto, onde as palavras me conduzem na busca dos sonhos. Onde tudo é possível se vier do pensamento.
Entrar noite a fundo é descer os degraus dos minutos, aguardando atingir seu ocaso : deixar vestimenta e problemas, esquecer os transtornos e também, as coisas amenas- e abraçar em pensamento a escuridão das ruas, ou suas luzes amortecidas nos postes parados.
É encontrar a Meia-noite. Ela vestida de Senhora, com luvas e manto; dizendo em meu ouvido que só veio de passagem e que, se eu a quiser mais tempo, devo pagar – com Sua moeda.
Meia-noite, a Rainha da Noite, conduz seu próprio carro com lantejoulas opacas e estrelas ocultas na antena, porque segundo ela, as ondas de sintonia entre os notívagos oferecem-nas como faíscas no espaço que ela recolhe- e que lhe servem como radar para encontrar os insones.
Diz ela que, em seu Tempo de reinado a cada vinte e quatro horas, faz questão de nos visitar para nos homenagear, já que nós lhe reconhecemos a natureza de Deusa. Mesmo assim, exige pagamento , mas em Sua moeda.
Levei alguns anos para entender – e outros para descobrir- qual era a moeda da Meia-noite.
Qual era a moeda que me permitiria fazer durar Sua presença, fazê-la intensa, driblar o relógio e conseguir com que - assim que ela aparecesse - meus minutos valessem o dobro, e ela fosse obrigada a demorar muito mais para se retirar.
Descobri sim, como todos meus irmãos notívagos, que a moeda da Rainha é a calma.
É preciso recebê-la de pensamento livre porque só assim conseguimos calma e podemos pagá-la.
Para ter calma e pagar a Meia-noite, é necessário fazer de conta que nada aconteceu nas últimas vinte e quatro horas. E acreditar como insone sem memoria.
Como um arquivo vazio.
Como se o dia não existisse.
Como um monge, com os sentimentos pendurados no silêncio...


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