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Contos-->A MATA DO SINO -- 06/12/2011 - 20:02 (Orlando Batista dos Santos) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
O Brasil ainda não tinha a cara de hoje, quando surgiu um grande mistério em uma mata de Santa Rita Velha. Mal caía a noite e um sino badalava tresloucado horas a fio, chamando a atenção dos moradores, de modos que só a luz do dia o fazia silenciar, fenômeno que instalava na vila um clima de inquietação, de medo, de verdadeiro pavor. Por essa razão, ninguém passava à noite pela estrada da mata mal-assombrada. Por precauções, quatro horas da tarde era o horário limite para quem precisava atravessá-la; caminheiros, cavaleiros, carreiros e mais tarde até mesmo os condutores de veículos motorizados, como a jardineira, não ousavam desobedecer ao espontâneo “toque de recolher”.
Mas afinal, o que de fato havia por trás das histórias do sino da mata? Em que tempo, e por quanto tempo teria durado o tão propalado mistério?
Dentre as inventices, hipóteses, palpites e conjecturas para justificar a existência do tal sino, algumas eram mais citadas:
- O diabo, aprontando mais uma das suas; utilizando-se de um símbolo sagrado, procurava confundir o povo zeloso e fiel numa espécie de encantamento, a fim de conturbar-lhes o fervor religioso;
- Almas do purgatório solicitando missas, pois que o lugar fora passagem e pousada de mineradores e tropeiros, sendo que muitos vieram a morrer sem serem suas almas assistidas;
- Rixas entre Minas e São Paulo; os paulistas teriam colocado o sino na mata para orientar as incursões e as manobras na luta contra os emboabas na região. Entre uma refrega e outra, os paulistas abandonaram o sino na mata para melhor empreenderem fuga.
Das muitas histórias sobre o sino, a que mais se discutiu mesmo foi a da intriga entre as facções Aranhas e Caranguejos, partidos que disputavam o poder na vila. A briga era antiga, e ambos os lados tinham razões de sobra para sustentarem mútuas acusações.
Diziam os Aranhas, que os Caranguejos, imersos na esperança da sobrevivência da Monarquia, e na velha crença do retorno ao trono de um rei, ainda que morto, pretendiam fundar na região uma colônia genuinamente lusitana. Que inventaram a história do sino a fim de inibir a entrada naquela região, de exploradores não portugueses que começavam a chegar ao Brasil. Os Caranguejos tinham a mata como sua, mas faltavam braços para explorá-la, e ardilosamente resolveram interditá-la, pagando gente para tanger um sino todas as noites em seu interior.
Por sua conta, os Caranguejos diziam que os Aranhas, estes sim, estavam por trás de toda a farsa. Que usavam o sino como parte de uma estratégia para assombrar o povo e assim ganharem tempo, até que passasse o reboliço provocado pela queda da Monarquia. Graças às respeitáveis influências que os membros da facção tinham no meio republicano, a requisição de posse da mata ser-lhes-ia prontamente atendida. Fosse pelo que fosse, independente de acusações e de insultos, diziam o bom senso - e a cisma - que era preferível não abusar daquelas manifestações sobrenaturais até que o mistério fosse de uma vez por todas decifrado. Enquanto isso, membros de um grupo de colonizadores recém-chegados à região, e pouco dados a crendices e superstições, investiram sobre a mata, derrubaram-na, plantaram café e fundaram ali um povoado.
Na região, todas as pessoas conhecem uma ou mais histórias da mata e seu misterioso sino. Quando as velhas histórias vão perdendo a graça, inventam-se outras, e todos riem com o folclore e suas lendas. Mas ali se acha um preto-velho a repetir as “histórias dos antigos”, herdeiros dos quilombos de Minas Gerais, a remexer os fatos que ainda permanecem guardados no imaginário do povo.
Antes da chegada das bandeiras paulistas, Minas Gerais era infestada de quilombos confederados. Negros fugidos das minas e de engenhos, negros forros, índios “mansos”, brancos pobres (os pés-rapados) e mestiços de todas as raças, moravam e trabalhavam naquelas terras e havia fartura.
Mas, esse reino, o Campo Grande, não resistiu às incursões do bandeirante contratado por Minas, que investiu impiedosamente sobre os quilombos mineiros. Sedentos de ouro, de terras e de poder, os invasores trocavam pelo metal precioso as orelhas obtidas de cada “nativo” que fosse eliminado. E foi assim que as povoações foram sendo varridas de Minas com truculência, de surpresa e a golpes de traição.
Forçoso é dizer que, batalha após batalha, os naturais da terra eram sempre derrotados, pois a lança, o arco e flecha, o porrete e o facão não estavam à altura das armas de fogo dos soldados e dos capitães-do-mato. Mas certa feita, com bravura incomum, os negros do Pinhão conseguiram cercar e abater uma patrulha de soldados de Bartolomeu, sendo muitos os que foram apanhados. Ao lado de um jovem pinheiro fizeram uma grande vala e ali amontoaram os corpos dos inimigos. Um sino subtraído aos invasores fora pendurado em um dos galhos do pinheiro e, à moda da época, quando os “homens bons” erigiam capelas e cruzeiros sob os cadáveres dos seus iguais, ou para esconderem as vítimas de suas tiranias, assim foram enterrados os corpos daquele punhado de opressores.
O tempo passou, a árvore cresceu e o sino ganhou altura. À noite, os ventos alpinos que escapavam da Serra de Ventania alcançavam toda a mata e balançavam o pinheiro, que tocava o sino, denunciando assim durante décadas aquelas tragédias e celebrando o evento ali ocorrido com sinistras pancadas, tristes melodias que tanto incomodavam os ouvidos daquela gente.
“Ancê num sabe? Antão assunta” - diz Nhô Bento, para quantos desejem ouvir. Ajeitado na soleira da porta da sala, Nhô Bento relata detalhes de batalhas heróicas em que estiveram envolvidos seus ancestrais. O magnetismo suave de sua voz induz o ouvinte a reproduzir os detalhes dos fatos sugeridos pela narrativa, enquanto passeia os olhos pela singela e bucólica Juruáia.
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