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Crônicas-->CRÔNICA DE UM CHURRASCO ANUN CIADO -- 29/09/2006 - 18:33 (Domingos Oliveira Medeiros) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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CRÔNICA DE UM CHURRASCO ANUNCIADO
(Por Domingos Oliveira Medeiros)

Amanheci com os pensamentos embaralhados. Algo diferente estaria acontecendo comigo. E o pior de tudo: eu já sabia. Ou pelo menos, desconfiava. Intuição animal, talvez. Lembranças de tempos idos, misturadas com fatos recém acontecidos, escorriam de algum arquivo do meu interior mais profundo Datadas do início dos anos sessenta e final do ano em curso, aproximadamente, que ninguém e de ferro.

No espelho do barbear matutino, os primeiros sintomas explícitos: meu rosto estava lambuzado e colorido de verde, amarelo, azul e branco. O nariz parecia inchado, todo coberto de vermelho. Um nariz de palhaço.

Fazia a barba enquanto meus pensamentos viajavam pelo tempo. Tempos bons. Tempos idos. Época de grandes festivais. Grandes talentos. Toquinho, Vinícius de Moraes. MPB. Roberto Carlos, uma brasa, no início de carreira. Gilberto Gil e Caetano. Os novos baianos. Raul Seixas, se não me engano, e sociedade alternativa inaugurando. Não necessariamente nesta ordem.

E pensei cá com meus botões: eu devia estar feliz, por ter me formado. Casado, com todos os cinco filhos criados. Servidor público, por concurso, relativamente bem remunerado. Alguns contos de réis conquistados, por méritos pessoais. Estou devidamente aposentado. O ócio tão esperado. Eu devia, portanto, estar sossegado. Todavia, ando ultimamente angustiado. O que não faz sentido. Afinal, possuo um carro, ano dois mil e seis, melhor do que o corcel setenta e seis do Raul. E não estou esperando a morte chegar. Por via das dúvidas, comuniquei, por escrito, esta decisão ao gerente do Purgatório que controla as atividades de meus pares. Requerimento, aliás, deferido. Minha vaga, portanto, está à disposição de quem tiver pressa, seja qual for o motivo, não interessa. Fazer o bem sem olhar a quem, é o meu lema.

Aos poucos, os assuntos foram encaixando dentro de certa lógica. Dentro de poucos dias estaria participando da maior festa da Democracia. A festa de arromba da cidadania. As eleições gerais. Presidente, governadores, deputados e senadores no palco do circo das promessas e da renovação das esperanças. O único dia em que se lembram de nós, é verdade. Por isso, o dia é tão importante. Todos os demais dias estaremos fora do baile, durante quatro anos, aplaudindo ou vaiando, sorrindo ou chorando, nada mais poderemos fazer. E pagaremos se não soubermos escolher. Apesar dos pesares. Do processo defeituoso, que premia o honesto do mesmo jeito que o criminoso. Que renuncia, por covardia, indiciado e marcado com o ferro quente da corrupção. Que volta ao poder, mesmo sendo ladrão confesso. Por conta de um brocado jurídico: a presunção de inocência. Mesmo que a presunção de culpa seja evidente. Que esteja presente. Ainda que o processo tramite pelos escaninhos da Justiça.

Se não transitado em julgado, a sentença, tudo irá ao encontro dos interesses escusos do pretendente, na busca do foro privilegiado; e garantir a melhor defesa do que fez de errado. Culpa em parte, do eleitorado. Que tem maioria absoluta de desinformados. Entre analfabetos, de primeiro grau incompleto, que mal assinam o nome, lêem ou escrevem. Sem discernimento para entender o jogo da política. Exceções à parte, claro! Gente que adquiriu experiência com o tempo. Mas que, nem por isso, deixa de ser exceção. E que não pode, no meu entendimento, comprometer os interesses maiores da coletividade. O voto consciente. O voto qualificado. E não me venham com essa história de preconceito.

Muito ao contrário. Já foi assim, um dia. E deu bons resultados. O que não se concebe é a apologia ao mal formado. Ao mal instruído. Ao mal politizado. Mais vulneráveis de serem manipulados. De serem agradecidos com esmolas alcunhadas de proteção social. Que os condenam a eterna pobreza. Vamos por as cartas na mesa. A saída tem que ser pela educação. Gratuita e de boa qualidade. O professor Cristovam Buarque está coberto de razão. É preciso associar os programas assistenciais ao processo educacional. Esta é a ponte que liga o presente ao futuro. E tira da escravidão e da ignorância mais da metade do povo brasileiro.

Por isso acordei angustiado. Cara de palhaço e corpo de boi abandonado. Rumo às eleições a que estou obrigado. De mãos e pés atados. Junto com outros companheiros. Indignados e envergonhados. Fomos todos selecionados pela exclusão. Castrados em nossas esperanças. Jogados, em fila, no corredor de um matadouro. Corredor para a votação final. Corredor estreito, de madeira, e muito escuro. Ninguém sabe de nada. Todos desconfiam. Seguimos calados. O futuro aponta sombrio. Já dá para ouvir o mugido dos amigos que me antecederam. Ouço seus gritos. Uma pancada primeira. A primeira estação. Caímos no chão. O olhar parado, confuso e triste. O corpo sangrado. A morte é questão de minutos. Crime hediondo. Por motivo torpe e sem chances de defesa. O criminoso não se importa. Age como se garantida tivesse a impunidade. Venceu, mais uma vez, a mediocridade.

Cortados em pedaços, somos agora petiscos, churrascos. Bem ou mal passados. No presente, o presente, para atender aos mesquinhos interesses políticos e econômicos de nossos representantes. Que foram escolhidos para garantir a defesa do nosso bem-estar, da nossa liberdade, de nossas vidas.

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