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Contos-->OS SOBRINHOS DO SEU GERIMUNDO -- 15/08/2010 - 11:34 (FERNANDO PELLISOLI) Siga o Autor Outros Textos
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Pepezinho Mariazinha são dois anjinhos que moram numa nuvem de algodão, localizada no planeta Céu.
Eles são muito levados e adoram torta de chocolate.
Apesar da pouca idade de ambos (ele tem sete aninhos, e ela somente dois aninhos), são grandes guerreiros espaciais – guerreiros da paz e do amor!
Muitas vezes – quase todos os dias – eles, que moram numa nuvem de algodão chamada “nuvem dos gênios”, descem dela com suas naves de pão-de-ló, e descem um pouquinho mais até o planeta Neurose, onde criaturas excêntricas e caóticas como o seu Gerimundo – homem genioso – vivem. E vivem sempre a resmungar e tagarelar as suas frustrações, sem parar...
O tresloucado do seu Gerimundo habita na Vilápolis da Vaidade (cidade cheia de espelhos). Ele tem um grande problema que o persegue diariamente: o coitado cismou que é jovem, esbelto, robusto e belo; mas é feio que seja um raio, um bruxo, um palavrão! Qualquer lugar que se encontre, está sempre a olhar-se no espelho: é sua única paixão... Mas na realidade, ele sabe o quanto é feio, só que a sua vaidade extrema, doentia o faz ficar procurando, no espelho, o elogio que nunca vem...
À noite, depois das desilusões do dia – dia de depreciações à sua imagem ridícula, que a população de Vilápolis da Vaidade lhe faz, o tio Gerimundo bebe mais da taça das ilusões: ensaia movimentos elegantes no caminhar; põe o cabelo engomado; põe base no rosto; passa esmalte incolor e faz pose de galã diante do espelho mais jovem de sua casa – este também já se exauriu com tanta feiúra e, por isso, fecha os olhos lhe negando a imagem grotesca. Gerimundo insiste... De repentino, uma luz negra (das trevas) reflete a realidade à sua visão alucinada e vaidosa, exagerando-a: o pobre homem vê-se, no espelho zangado, extremamente horroroso, monstruoso... Suas orelhas abanam mais do que o habitual. Seu cabelo ainda mais ressequido. Sua barriga transforma-se em barril de chope. Seu nariz, de tão comprido, encosta-se no chão...
Quando a agonia lhe fica insuportável e a vaidade lhe tortura o ego, grita desesperado feito um biruta por seus sobrinhos da nuvem de algodão – que providos de encantamentos mil, não deixam de socorrer o titio neurótico; afora quando um velhinho pretinho, simpático, de cabelos branquinhos, faz sinal de não virem ao planeta Neurose.
Neste exato momento, às duas da madrugada, na Vilápolis, o horário e o lugar são impróprios a estas de tão gordinha ainda assim, chegam. E chegam alegres, virando cambalhotas! Ela: uma bolinha de tão gordinha e engraçadinha com os seus cabelos pretinhos, muito compridos – sempre chupando o dedinho (Freud explica!). Ele: magrinho que dá dó, de perninha arqueada; mas muito bonitinho (lourinho e de olhos azuis), sempre puxando o cabelinho da sua namoradinha. É sim, os dois são namoradinhos, e se gostam muito, e são fiéis um ao outro, e são gênios do Bem...
- Oi titio, é o Pepezinho!
- Oi titio, é a Mariazinha também!
- Que oi qual nada... Droga de espelho imprestável: dois mil e quinhentos espelhos que tenho, este é o mais jovem; mas deu para mentir... Estou desgraçadamente horrível, e a culpa é deste espelho mentiroso!...
- Tenha calma ó titio Gerimundo, que a calma é amiga íntima da sabedoria... Estamos aqui. Não adianta gritar, nem ficar enraivecido... Fica calminho que tudo vai voltar ao normal.
- Mas como estou tão feio assim na imagem deste espelho tão novo? Pepezinho, você é capaz de mostrar-me o porquê desta alucinação, poxa!...
- É claro que eu posso titio. Eu sei de tudo... O senhor está assim porque alguém o aborreceu, não é mesmo titio...
- Bem... Um sujeito disse-me que eu era horrível... Um sujeito só não... A cidade inteira: todos riram de mim!
- Olha titio, a Mariazinha quer dizer-lhe que, apesar dos meus dois aninhos, sou muito inteligente. O Pepezinho é meu professor, e o vovô também o é...
- Eu não posso negar que você é uma gracinha de geniozinho, e nunca vi nenhuma menininha da sua idade falar tão bem!
- Escuta com atenção titio Gerimundo, pois a Mariazinha escuta os ensinamentos do vovô, e ele não precisa repeti-los: o senhor está sendo influenciado por comentários maldosos. Por isso está vendo-se assim tão horrível. E também porque os espelhos da sua casa estão saturados da sua imagem repetindo sempre a mesma pergunta...
- O tio Gerimundo está entendendo... Já estou mais calmo, e estou ficando bonito outra vez...
Titio! Mariazinha e eu temos que ir embora. Vovô está nos dizendo, através do seu monitor sensorial, que já é muito tarde. Não se esqueça dos seus sobrinhos, nem do vovô, nem de todos os gênios do planeta Céu... E quando o senhor ficar nervoso deita a cabecinha no travesseirinho... Fecha os olhinhos que a beleza encontrará noutro mundo...
Mais velozes que a velocidade da luz, eles sumiram na imensidão do infinito azul-escuro. Deixaram no ar estas últimas palavrinhas: torta de chocolate, bolo, brincar de carrinho, de bonequinha com o titio... Titio nunca tem tempo pra brincar... Só chama a gente pra pedir ajuda... Esquece de brincar com as crianças, e como as crianças...
Verdade seja dita, o seu Gerimundo precisa realmente brincar um pouco de carrinho como outrora na infância. Do contrário, as rugas chegarão mais cedo, e o reumatismo não espera o seu ataque, sobretudo em pessoas revoltadas e neuróticas...
Mas afinal, onde é que se meteu o nosso herói?!
- Eu sabia! Eu sabia! Eu sou lindo... Estou calmo, e o espelho mais novo do meu castelo não mente mais pra mim. Agora eu tenho certeza que sou belo... Bem, simpático eu tenho a certeza de que sou... Mas este cabelo, estas orelhas horrorosas... Que droga! Vida desgraçada! Pepezinhoooooooooooo!...
É pelo jeito as coisas não mudaram nada no planeta Neurose. Será que só na eternidade o tio Gerimundo vai escutar mais os geniozinhos do Bem e aprender a falar menos com os seus mil e quinhentos espelhos?
- Quem disse que são mil e quinhentos espelhos se eu acabei de comprar mais trezentos?!

Nota: este meu pequeno conto foi premiado (DESTAQUE) no II Concurso Nacional de Contos (promoção da revista Brasília e do Clube Literário Brasília.
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