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Crônicas-->NO BOM SENTIDO -- 04/09/2006 - 17:31 (Délcio Vieira Salomon) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. NO BOM SENTIDO

Dèlcio Vieira Salomon


Extrovertida, comunicativa, amante da boa conversa, ela é sempre o centro das atenções à mesa do bar. Todas as sextas feiras este é religiosamente freqüentado pela mesma turma e lá está ela, alvo e condutora de entusiasmada conversação.

Em reação a inesperado arremate, cheio de picardia, com que mais uma vez foram todos brindados, com observação de extrema originalidade e bom gosto, naquela calorosa discussão, recheada de casos e igarapés, eis que, de repente, vira-se para seu autor e exclama, com largo sorriso a emoldurar-lhe a fala: - Você é um grande filho da puta! Se não existisse, teríamos que inventá-lo.

E, segurando-lhe a cabeça entre as mãos, dá-lhe estalado beijo na testa.

Todos, inclusive ele, riem e aprovam, com entusiasmo, o carinhoso gesto e se brindam pela décima vez naquela noite, erguendo e tilintando os copos de cerveja: - Ao grande filho da puta!

Mas não é só grande, é também belo. Tempos atrás, no mesmo local, numa sexta feira de agosto, todos comentavam a inusitada epopéia de ele, professor titular na universidade, sustentar duas mulheres ao mesmo tempo. Fato notório e do conhecimento público. Só não era, por conveniência, mais do que por pudor, registrado em cartório. E tinha motivos sociológicos, jurídicos, políticos, econômicos, morais e psicológicos para seu proceder. Talvez não tivesse razões religiosas. Mas quem sabe não as tivesse também, sobretudo em se tratando de religiosidade intrínseca, vivenciada no âmago da consciência, bem mais autêntica do que a extrínseca, que se alimenta de cultos e ostentação?

Então, o mais velho da turma, tido e havido como guru de todos, vira-se para ele e exclama: - Você é um belo filho da puta. Onde já se viu alguém com seu “status”, em nossa sociedade tão mineira e tão moralista, ter duas mulheres e com as duas ainda ter filhos!?...

Filho da puta, no bom sentido! Estava subentendido.

No entanto, quantos já não foram condenados por terem revidado, a facada ou a tiro, simplesmente porque, transtornados, perderam a cabeça, ao serem chamados de “filhos da puta”? (Curioso: nunca ouvi falar que alguém recorreu ao veneno nessas horas. Certamente por que o revide tem que ser tão espontâneo quanto veloz a ofensa recebida).

Poderiam suportar tudo, menos o insulto. Sentiram-se no dever de fazer jorrar sangue para lavar a honra ofendida. O preço da ofensa irrefletida. Independente de ser calúnia ou não.

Lembro-me de célebre reunião solene da congregação da minha querida faculdade. Duas correntes digladiavam fortemente, cada uma querendo arrebatar o poder da outra. Um dos contendores é contemplado de repente com o canto da pedra noventa. Eis que se ergue da cadeira e dedo em riste no nariz do adversário, joga-lhe na cara: - Filho da puta é você. Literalmente, porque conheço sua progenitora. Mas um consolo eu tenho, sou mais jovem que Vossa Excelência, por isso não tenho idade para ser seu pai.

Curiosamente na mesma situação, anos e anos depois, os mesmos grupos continuavam a se pegarem em disputa ferrenha e desta vez o xingamento parte do segundo adversário. O primeiro revida com toda fleuma: - Eu posso ser filho da puta, mas não sou o canalha que Vossa Excelência é. Minha honra eu não só não lavo bebendo seu sangue, porque o sangue de Vossa Excelência é sifilítico.

*

A terceira cena já não se deu mais na mesma faculdade. Foi na Escola de Direito. Disputava-se o cargo de sucessor do diretor. Um dos pretensos candidatos é criticado e sua candidatura é contestada por outro que tinha as mesmas aspirações. Só que até então não o tinha revelado.

Eis, senão quando, o primeiro, não suportando os ataques do colega, lhe revida com um sonoro “vai à puta que te pariu”, que reboou pelo recinto sagrado da Congregação, atingiu através da janela o hall de entrada, o pátio, os corredores e as salas de aula da tradicional escola, a chamada Casa de Afonso Pena.

A reunião terminou naquela mesma hora com constrangimento geral.

Seis meses depois, o catedrático ofensor, autor do dito palavrão, porém amado e querido pelos alunos, é escolhido pelos bacharelandos, paraninfo da turma e, como era praxe, fazia jus à tradicional viagem a Europa.

No momento em que ia tirar o passaporte, recebe intimação judicial. Havia no tribunal ação contra ele, movida pelo colega ofendido, exigindo retratação ou reparação por danos morais. Não comparecesse, não poderia viajar e correria o risco de ser condenado.

Só lhe restava a retratação pública. Perante o egrégio tribunal confessou que jamais conheceu a progenitora da parte e muito menos que ela algum dia residira na zona de meretrício da capital.

*

E pensar que se pode sem mais nem menos chamar alguém de “filho da puta” no bom sentido.

Que poder tem o sentido das palavras!
Será que qualquer ofensa moral, traduzida em xingamento, de repente passa a ser elogio, bastando-lhe acrescentar “no bom sentido”, mesmo implicitamente?

Mas o contrário também não ocorre? Usado com ironia e acinte no momento inesperado, um elogio não se converte em agressão verbal? Sobretudo, se escrito, com o uso das aspas ou, se falado, com o gesto manual que as representa?

Como no caso daquele deputado que se referiu, em discurso na Câmara, ao Presidente da República, acusado por toda a imprensa, de estar mantendo, no governo, dois ministros corruptos: - Não se apoquente, senhor presidente, Cristo também foi crucificado entre dois ladrões. Para todos os efeitos, Vossa Excelência, entre pares, não deixa de ser o nosso “cristo”.

E pronunciou a última palavra, erguendo os braços e riscando no ar, com dois dedos de cada mão, o sinal das aspas.

















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