Usina de Letras
                                                                         
Usina de Letras
111 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 

Artigos ( 59136 )

Cartas ( 21236)

Contos (13105)

Cordel (10292)

Crônicas (22196)

Discursos (3164)

Ensaios - (9439)

Erótico (13481)

Frases (46521)

Humor (19282)

Infantil (4461)

Infanto Juvenil (3729)

Letras de Música (5479)

Peça de Teatro (1337)

Poesias (138240)

Redação (3054)

Roteiro de Filme ou Novela (1060)

Teses / Monologos (2427)

Textos Jurídicos (1945)

Textos Religiosos/Sermões (5525)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Crônicas-->Alegria mortífera -- 30/08/2006 - 09:54 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. No consultório lotado ela dizia ter matado três. Gargalhadas sucediam-se e ali estava ressuscitado o último dos mortos: um velho marido de pijama vinho. Na espera cruel pelo atendimento médico, a mulher gordinha de pele clara tremulava nas risadas e prosseguia nas peripécias: "- Isso mesmo!... matei três!... o último foi o do pijama...".

O homem sentado à frente, debilitado pela idade, percebeu com retardo o teor de brincadeira. Assim que o fez, deu início à sua catarse: perdera a mulher há alguns anos e lamentou estar tão sozinho. "- Casa de novo, vai ser melhor pro senhor!" – bradou a clientela toda que se amontoava meio a guarda-chuvas e sacolas nos estreitos sofás do corredor. Cada vez mais contagiante, o clima convidava à alegria solidária. As estampas da blusinha de Claudete, a bem-humorada viúva das três perdas conjugais, destacavam-se no volume do seio farto. Florzinhas amarelas e azuis pareciam criar vida ao balanço das risadas. Era feliz nos seus setenta anos, casada agora com um homem bem mais novo, e aconselhava ao senhor tristonho que arrumasse uma companheira, no que contava com a aquiescência dos que ali se encontravam.

A conversa prosseguia...Depoimentos de variadas experiências, as gargalhadas ecoavam no consultório exíguo e superlotado. "- Agora...se o senhor se casar, só não me faça uma coisa: usar pijama o dia todo!...não há mulher que resista!". E prosseguiu dizendo que o último dos seus maridos não tirava um pijama vinho. Ela dizia: "- Pôxa!...tira isso aí que não agüento mais...você tem tanta roupa!". E ele nada!...Quando o velho morreu, pediram a roupa pra ser trocada e ela disse: "- Ah, não!...O homem vai assim mesmo!...Adorava tanto o pijama vinho que é com ele que vai seguir pra eternidade!".

Os clientes, acotovelados e suados devido à inexistência de um ar-condicionado, a essa altura nem se incomodavam mais em esperar pelo médico de expressão cansada, visível desânimo trajando um jaleco azul. Haviam sido projetados para um teatro amplo, de tapetes espessos e temperatura fresca, no qual prestigiavam uma comediante renomada e talentosa. E eram tantas as risadas que as mazelas agregadas foram postergadas, aliviadas pela alegria e humor que a mulher generosamente distribuía.

No velho viúvo, a expressão triste já havia sido substituída por um sorriso matreiro, quase infantil. Já pensava na sugestão de arranjar uma companheira, ainda que só pra não deixar a sua pensão pro governo. "- É até uma caridade que o senhor faz!" – ria/dizia Claudete...". Um rapaz negro, de beleza espontânea, ainda arriscou: "- Por que vocês não se casam?", ao que ela respondeu: " -Ih, não gosto de velho não...comigo só garotão!... E dirigindo-se ao velho, perguntou: "- Mas o senhor ainda tem ferramenta em casa, né?". E o povo do consultório se acabava de tanto rir. Não era só pelo teor da conversa, mas pelo tempero único, carinhoso e cômico da mulher. E o velho respondeu com riso frouxo, provavelmente o primeiro que havia dado em anos de solidão: "- Já nem sei mais, minha filha!... nem sei mais!..."

Após muitas horas de espera não percebidas, a atendente anunciou a vez de Claudete ser atendida. Ela então se levantou, ultrapassou a barreira do excesso de gargalhadas e, não sem antes recolher uma quantidade absurda de envelopes e sacolas, dirigiu-se à sala de atendimento. Foi quando aquela gente sentiu um vazio no peito, um "não-sei-o que-falar mais", um constrangimento...E tentaram soltar uma ou outra piadinha, forçar novamente a descontração, mas não deu...Claudete era chama e sem ela a magnífica interação se apagara. O iluminado palco anterior voltara a ser a sala mediocremente decorada, os corpos tornaram a suar devido ao calor, as solas de sapatos reconheceram a cerâmica dura do piso.

E todos os que ali estavam chegaram à brilhante conclusão, embora não tenham dividido isso ente si, de que os maridos da Claudete morriam de pura e gloriosa felicidade!
Comentários

O que você achou deste texto?        Nome:     Mail:    

Comente: 
Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui