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Contos-->A Marcenaria -- 16/03/2009 - 20:30 (Antonio Accacio Talli) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
A Marcenaria
Antonio Accacio Talli

Já no terceiro ano de Medicina (pouca teoria e nenhuma prática), era costume ir ao Pronto-Socorro e sapear o movimento. Ambulâncias partiam e chegavam a toda hora, trazendo doentes. Num determinado dia, estando o PS totalmente lotado e todos os plantonistas ocupados, colocaram uma maleta na minha mão e pediram para que eu fosse atender a um chamado. Tinha acontecido um confronto de grevistas com a Polícia e esta mandara bala com fuzis e metralhadoras. Os feridos chegavam aos borbotões e eram colocados nas salas de operações, nas enfermarias e nos corredores. Todos chorando e gritando. Aquilo se tornou um verdadeiro inferno. Tentei argumentar que nunca tinha examinado um doente, mas a resposta foi esta – não precisa examinar ninguém, é só trazer o doente. Isso se chama Rebocoterapia.

Assustado, mas ao mesmo tempo empolgado, de branco, maleta de médico na mão, eu e o enfermeiro partimos na ambulância que, numa velocidade assustadora e com a sirene aberta, ia ultrapassando os carros e semáforos até chegarmos no endereço do chamado.

O local era um velho barracão onde funcionava uma marcenaria. Do lado de fora do estabelecimento, umas 30 pessoas angustiadas esperavam a ambulância e deram graças a Deus quando viram, finalmente, o Doutor chegar. Este, cara de criança, maleta na mão, estufou o peito e adentrou a marcenaria. Ali, aproximadamente 50 pessoas se aglomeravam em torno de uma mesa e, sobre ela, deitado de barriga para cima, um senhor enorme e gordo, aparentando uns 50 anos, inerte. Nesse momento, o Doutor pensou com os seus botões:
“Vai ser fácil. É só colocá-lo na ambulância!”.

Então, só para justificar minha presença, perguntei o que tinha acontecido. Disseram-me:
“Ele estava trabalhando normalmente, quando resolveu ir ao banheiro. Após mais de 1 hora trancado e sem responder aos nossos chamados, ficamos preocupados, arrombamos a porta e o encontramos desmaiado. Com muito custo, colocamos o homem em cima da mesa”.

Aí, veio a pergunta fatídica que mudaria por completo a minha expectativa em relação ao caso:
“O senhor acha que ele está morto?”.

Com a minha extensa experiência no exercício da medicina, como é que eu poderia saber? Em vez de rebocá-lo imediatamente para o PS, caí na besteira de simular um exame clínico. Meti o estetoscópio no peito do doente e tentei auscultar o coração do homem, mas percebi imediatamente que seria impossível auscultar qualquer coisa, pois o barulho ao lado do paciente era infernal. Dei-me conta de ter entrado numa sinuca de bico. Jamais na minha vida passei por uma dúvida tão cruel. Eu queria sumir, desaparecer. Naquela hora, eu até aceitaria trocar de lugar com o provável morto, só para fugir da responsabilidade de ter que responder àquela maldita pergunta. Estava tenso, apavorado, suando frio e com vontade de chorar. Interiormente me perguntava:
“Por que você foi fazer medicina, seu burro? E agora, seu idiota?”.

Entretanto, aquela não era hora de me lamentar e eu tinha que levantar a cabeça e dar o veredicto. Está vivo! Está morto! Doutor é para essas horas. Eu era a autoridade máxima e tinha que dar a última palavra. Porém, no lado de fora da minha cabeça, no mundo real, eu ouvia algumas pessoas murmurarem:
“Ele está morto”.

Outras:
“Não, ele se mexeu”.

Ou, ainda:
“Ele está vivo”.

Tentei, desesperadamente, lembrar-me dos outros sinais que eu vira os plantonistas pesquisarem e me pareceu que o morto deveria estar frio e apresentar a rigidez típica. Imediatamente, coloquei a mão na testa no homem e, para meu pesar, ele estava quente e não apresentava rigidez alguma. Aí o meu desespero aumentou, o meu coração disparou.

A situação ficou insustentável quando as cobranças começaram. O vozerio era enorme:
“E aí, Doutor, está morto ou não?”.

O Doutor transtornado, lívido e numa incerteza terrível, após quase meia hora de cabeça baixa, com medo de enfrentar os olhares da multidão sedenta, começou lentamente a erguê-la e, nesse momento, pensou:
“O homem está quente, não tenho certeza de nada, mas seja o que Deus quiser. Vou dizer que ele está morto, afinal, até agora ele não se pronunciou”.

Apoiando firme na mesa para não cair, levantei a cabeça sem fitar as pessoas e com dificuldade as palavras foram saindo espremidas, entrecortadas, cavernosas, como se estivessem saindo das minhas entranhas:
“Eeelle esstaaá moortoo”.

Aí, a gritaria e a choradeira começaram.

Imediatamente passei a mão na maleta e falei para o enfermeiro:
“Vamos embora!”.

Positivamente, aquele não era o meu dia. Após andar rápido – quase correndo – uns 6 metros em direção à porta, já visualizando a ambulância salvadora, escutei um grito:
“Doutor, Doutor”.

Aquele grito foi como se um punhal estivesse penetrando no meu coração, e pensei:
“O desgraçado levantou. E agora, volto ou corro?”.

Trêmulo, continuei a pensar:
“O Doutor tem que manter a calma. Não vai ficar bem correr”.

Virei com dificuldade, e com firmeza perguntei:
“Ooo quuee fooi?”.

O dono do grito falou:
“E agora, Doutor, o que fazemos com o corpo?”.

Aliviado, respirei fundo, estufei o peito e gritei:
“O problema agora é com a Polícia. A morte aconteceu em condições misteriosas e só uma necropsia poderá mostrar a verdadeira causa!”.

Rapidamente, o Doutor e o enfermeiro entraram na ambulância e partiram sem olhar para trás. O Doutor, agora, era outro. A tremedeira e a incerteza tinham ficado na marcenaria. Com muita pena do pobre coitado, mas orgulhoso do difícil diagnóstico que acabara de fazer, passos firmes e muita personalidade, chegou ao Pronto-Socorro gabando-se de que aquele tinha sido um caso extremamente fácil!

E não foi?


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