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Contos-->AS SURPRESAS DO AMOR -- 23/07/2008 - 22:21 (Francisco Miguel de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
AS SURPRESAS DO AMOR
Francisco Miguel de Moura*

(Publicado na revista “Literatura”, nº 9, Brasília, dez.1995)

Eles veio a pedido de Mara das Graças, Gracinha, como como chamava agora. Pediu folga no emprego e mandou que a secretária transferisse para o dia seguinte todos os seus clientes. A visitar no hospital, não havia nenhum. Veio porque não podia faltar. Não queria faltar. Estava mesmo sentindo saudades de sua querida Gracinha. Depois de dois dias sem se encontrarem... Nunca vira mulher mais atraente, mais sedutora, mais gostosa. Sentia-se o máximo. Era paixão. Estava apaixonado, e ainda pouco. Depois de tantas noites deliciosas, o céu se abria, no início de sua vida. O relatório da OMS consumia todo o seu tempo, mas... Como Deus era bom!
- É coisa de rotina - ela disse pelo telefone.
- Pois não, minha filha, não me demoro.
O facultativo examinou-a com todo o cuidado. A recomendação do colega relevava. Pediu os exames de laboratório, entre os quais aquele mais temido.
No dia seguinte, o diagnóstico.
Chamou o Dr. César de modo meio reservado e misterioso e disse:
- Amanhã.
“Amanhã? Não é pouco tempo não, doutor?” – esteve a ponto de perguntar.
Não, não fica bem a um médico, devia ser objetivo, confiar no colega. Embora o outro pressentisse alguma relação afetiva entre Dr. César e sua paciente, Maria das Graças...
Amanhã Gracinha teria de ser internada num hospital especializado, onde exigem completo isolamento. A lógica, onde está a lógica de tudo isto?
Um engano, deve estar acontecendo um engano. Não via nenhum sinal. Apenas uma fraqueza momentânea, umas manchinhas sem valor. Que coisa absurda.
Mesmo sem aceitar, Dr. César começa a diminuir a pressa na colheita dos dados para o relatório da OMS a partir daquele dado estúpido. Um engano do laboratório, a dúvida. Disfarça, ou cai num desânimo, num estado de nervosismo e apatia incomum. Escolhera justamente Gracinha para fechar o relatório, seu nome ia crescer como médico, como colaborador, como cientistas. Há quanto tempo sonhara com uma temporada nos Estados Unidos, uma bolsa, uma especialização? E vinha fazendo um trabalho espetacular. Outra vitória que dele se aproximava. Deus não iria castigá-lo justo agora. Se merecia algum castigo, que viesse depois.
Porém a desconfiança bate, inevitável.
“O doutor não faz mais as minuciosas anotações de antes, tão exigidas, tão apuradas. Mudou de método? Deixa o lápis cair. Tosse, pára, tosse.”
Que está ausente, Dr. César sabe. Por isto faz um tremendo esforço para não transparecer. E não consegue. Ó santo Deus!
Depois de algum tempo, reage, exortar-se, procurando tornar-se razoável, convincente, dedicado, sutil.
- “Prossiga, meu amor. É interessante o que está dizendo. Mas, se quer deixar para amanhã...” Faz a sugestão, receando que ela feche a boca e não consiga terminar o documento. Pelo menos isto. Se o resto está perdido...
E como dizer a ela?
Que amanhã? – devolver-lhe-á o enigma, com certeza.
O tempo não existe mais para ele e, no entanto, pesa como chumbo. O espaço é intransponível, sem brechas, sem saída, como se estivesse colado entre barras de ferro descomunais.
Levantam os dois do sofá. Parados, já na porta da saída ele diz, segurando no ombro da companheira.
- Amanhã...
- Amanhã... O quê?
Olham-se longamente. E aquele olhar sem voz tem uma força de penetração da realidade que jamais casal algum produziu. Tão forte e tão triste. E tão aterrador. Em poucos segundos, um paraíso se transformou no inferno.
Coitada!
Por culpa de quem? Dele? Dela? Dos dois?
Não, de Deus.
Sentindo que ia cair – oh, Pai, que fraqueza! – ampara-se novamente no ombro dela, enquanto é colhido por um turbilhão de pensamentos.
É incompreensível a alma das pessoas. De um dia para o outro, de vibrante, de cheia de doçura e vitalidade, de amor para dar, indo até o esgotamento, cai numa queda fragorosa. E não há ciência do mundo capaz de ensinar alguém a sofrer o sofrimento do outro. Os males de cada um são suportados individualmente, até a última gota. A incomunicabilidade causa nojo, tristeza, vergonha, tudo o que há de mais abjeto. E é o que tem o ser humano. Ao mesmo tempo louva-se o que há no homem de único, diferente, exclusivo. Um inferno e um céu na terra, cuja mistura é impossível. A dor é impotência.
Sem poder captar a marcha que Maria das Graças empreendia para dentro de si mesma, olhos pregados no teto sujo de teias de aranha do hospital e de manchas de goteiras das últimas chuvas, Dr. César acompanha sua amada ao calvário e ainda arranja alento para tentar a finalização do trabalho – cujo prazo fatal de entrega é “amanhã”.
- “Céus, tende piedade de nós, de mim e dela”, quase pronuncia, mas em seu lugar solta um suspiro preso, enquanto o barco de salvamento não aparece:
- Querida, lembre mais.
- Oh, bem... Meu bem, não dá mais para lembrar, dá?
- E quem poderá contar o resto de nossa história?
Maria adquiriu um pouco de brilho nos olhos e falou:
- Meu filho – e aponta o ventre, que ainda nada demonstrava, nem podia, porque a gravidez era de pouco mais de dois meses
Dr. César esfriou. Pálido, para não cair virou estátua, sem nenhum sabor. Puro gelo. Parado. Paralítico.
Imediatamente ela retifica a resposta:
- Nosso filho, Dr. César. Não se lembra?
Ele caiu como uma fruta podre. A resposta não o devolver à realidade. Afoga-o cada vez mais no inferno em que se debatia. O reexame do vírus poderia tranqüilizá-lo por alguns dias, colocar a cabeça em situação razoável. Como poderia perdê-lo por completo, para sempre, tão logo... Gracinha era a única criatura de sua vida, seu único amor. E, agora, a mãe de seu filho.
“E se ele nascesse portador...”
O deus que tinha sido Dr. César, dali em diante afunda-se na mais triste humilhação. É uma coisa, um fardo. Nem tem mais sentido a vida, em lugar nenhum. Sem esperar por exames nem por conselhos dos amigos, colegas, familiares, por anda, resolve instalar-se junto com ela, no isolamento dos aidéticos. Deus ajudaria que encontrassem a feliz vacina para o tão rancoroso mal contra o amor.
- Amanhã...
- Amanhã?

_________________________
*Francisco Miguel de Moura é contista, romancista, poeta e crítico literário, mora em Teresina. Tem e-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br
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