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Contos-->17 HORAS, 01 MINUTO E 13 SEGUNDOS... -- 22/05/2008 - 20:37 (Carlos Rogério Lima da Mota) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Aquele dia não seria como os outros, havia algo de diferente, tão diferente que me ofuscava a razão, ao ponto de não conseguir discernir o óbvio da suposição. Meu corpo parecia ter levado uma surra, doíam-me as juntas, fazendo-me arfar por longos minutos. A noite anterior não havia sido fácil, um daqueles sonhos que a gente tem medo só em imaginar, aprisionara-me à cela do tempo e, por lá permaneci 17 horas, 01 minuto e 13 segundos, sendo chicoteada por criaturas apavorantes, donas de gargalhadas insanas... De volta à realidade, não compreendia o porquê de tanta crueldade, afinal, em minha vida, o bem sempre esteve à frente do mal; de qualquer forma, minha mente fazia questão de não esquecer o tempo em que eu havia ficado atrás daquelas grades. Seria algum sinal? Um tipo de profecia?

Após insistência de Sabrina, minha pequena de 05 anos, fomos ao parque em frente à matriz, no centro da cidade. O sol parecia tímido no imenso céu azulado e os pássaros, nas árvores, não cantavam, aliás, pareciam mortos, empanados, naqueles galhos, com os grandes olhos voltados a mim. A sensação era incômoda!

A certo momento, ela correu para um escorregador e lá ficou a brincar com outros amiguinhos. Irrequieta, eu esfregava as mãos, arrumava a bolsa, mexia nos bolsos do casaco; todavia, nada me aquietava, como se eu, assim como aquelas aves, não tivesse forças para andar, correr, gritar e estivesse empanada num galho invisível, sob os olhares de um Céu impiedoso, incapaz de me receber nos braços, assim como uma mãe recebe um filho seu.

Aproximei-me da cerca que separava os brinquedos do parque e lá, encostada, prendi-me ao largo sorriso de Sabrina, que, feito um desses anjinhos travessos de desenho animado, subia e descia o escorregador como se ele fosse a ponte sinistra que separa a vida da morte, a realidade da fantasia, a dor da alegria e a fraternidade da crueldade. Só voltei a mim quando seus olhos se encontraram aos meus... Ambos eram de um verdor que irradiava, de um tamanho infinito, que não apenas me viam em corpo, mas em alma... Naquele instante, um arrepio desceu minha espinha, senti-me frágil, sugada pela terra, quase morta...

_Mamãe! – disse Sabrina, achegando-se. Eu te amo!
_Eu também te amo! – retribui o carinho, beijando-lhe a face.
_Senhora... senhora...quer tirar uma foto com sua filhinha? – perguntou-me um homem de certa idade, com um daqueles pequenos cavalos a mão.

Alguma coisa me dizia que não deveria me aproximar dele, pois carregava alguma semente ruim, cujos frutos apodrecem antes mesmo de brotarem. E o seu cheiro, bem, reproduzia, em parte, o daquele lugar em que estive durante o sonho. Meu Deus! O que estava acontecendo comigo? Eu estava ficando louca!

_Venha, Sabrina! Vamos embora! – disse completamente desnorteada, pegando-a pelos braços.
_Mas mãe... o cavalinho....eu quero! – implorava, como se quisesse chorar. Por favor, posso tirar uma foto com o cavalinho? Por favor, mamãezinha, prometo ser boazinha o ano todo.

Ainda que temerosa, não tinha como recusar um pedido feito por aquela vozinha adocicada. Com minhas mãos a coloquei em cima do cavalo e aguardei que o homem tirasse a fotografia. Ele foi se afastando, afastando... Enquanto meus olhos o acompanhavam, minha mente se refugiou nas badaladas do sino da igreja que, talvez por esquecimento do sacristão, batia atrasado 1 minuto e 13 segundos... Isso mesmo! O relógio da catedral anunciava 17horas, 01 minuto e 13 segundos. Foi nesse momento que o homem disparou a máquina, registrando o último sorriso de minha pequena criança. Assustado com o flash, o cavalo deu um pulo violento, jogando Sabrina contra o tronco de uma árvore, a alguns metros. O sorriso e os grandes olhos dela estavam para sempre enterrados na fotografia daquela máquina miserável. Enquanto aguardava socorro, eu chorava em desespero...

Diante dos porquês de tal acidente, olhei ao redor, não havia mais pássaros, o céu estava enegrecido e o homem, desorientado como eu, apelava por socorro. E o que adiantava? Sabrina não estava mais entre nós. Havia partido para algum lugar distante, onde mora um Deus cuja divindade, às vezes, permeia a crueldade... E que crueldade! Enfim, mais 17 horas, 01 minuto e 13 segundos de chicotadas me aguardavam, agora não em sonho, mas na vida real...

Acesse o site deste autor: www.escritorcarlosmota.com
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