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Contos-->O último palito de fósforo -- 03/10/2007 - 16:53 (Ulisses de Abreu) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. O último palito de fósforo


Contudo, ainda restava um último palito de fósforo e por isso não podíamos falhar. Tínhamos que acender a fogueira ou morreríamos de frio. Eu era o mais velho do grupo, e sobre mim pesavam todos os olhares. Vi em cada semblante uma dose de piedade e de veredicto e eu não sabia exatamente qual seria a minha punição caso falhasse. Minhas mãos tremiam, minha respiração descompassava e a minha garganta estava seca – eu sentia a cada instante aumentarem ainda mais a minha angústia e o meu poder.
Retirei o palito de fósforo da caixa e o empunhei como se fosse uma espada. Nesse momento, todos me olharam de uma maneira tão insípida que ate cheguei a cogitar que talvez devesse recolocar o palito novamente dentro da caixa, mas foi melhor não fazê-lo, pois que em seguida todos, como num coral religioso, começaram a rezar suas bíblias...
Eu não podia falhar, todos dependiam do meu sucesso, estava nevando, havíamos sofrido um acidente terrível de avião, havia corpos destroçados e carbonizados espalhados por toda parte e, entre um total de setenta e cinco tripulantes e passageiros, éramos apenas seis os sobreviventes.
Pensei então na minha mãe e nas coisas que eu ainda tinha pra lhe dizer, pensei no meu pai e no quanto foram frios os nossos abraços, pensei na minha namorada e no fato de ter vivido ao seu lado pouca coisa além de sexo, pensei na minha cama vazia e no quanto era bom estar ali deitado sozinho e sem pressa. As coisas vinham a minha mente de um ponto qualquer de alguma estrada qualquer pela qual passei um dia. Enquanto isso os outros rezavam. O plano era o seguinte: eu acenderia o fósforo e o envolveria numa concha por entre as minhas mãos, e em seguida, John – um americano cujo semblante e os músculos lembravam um ator comediante francês que por displicência nunca gravei o nome – teria a não menos difícil missão de colocar ao alcance das chamas uma flanela encharcada de metanol. Pois bem! Nesse momento pedi a todos: – Um minuto de atenção! E sem poderem evitar, cessaram-se as preces. Insinuei que essa era uma missão das mais importantes e difíceis e que por isso não achava justo que só dois entre nos participassem diretamente desse feito. Mas o silêncio e os olhares fúnebres e amedrontados dos outros me bastaram como resposta.
Em momentos como esse cada segundo dura uma eternidade. A vida passa pela cabeça da gente como um filme montado às pressas. E então pensei na possibilidade de aquilo infelizmente não dar certo. E por isso morreríamos congelados, e eu não teria uma segunda chance, não poderia reencontrar as pessoas que não fui capaz de amar o suficiente. Essa, acredito, é um daquelas situações em que a vida foge completamente do nosso controle, ficamos totalmente à mercê do destino, da sorte, da ajuda divina ou qualquer outra coisa além desse plano em que quiserem acreditar. O homem nessas horas se torna tão pequeno e frágil que mal cabe em si mesmo.
Ao meu redor, aquelas pessoas tinham nos olhos a verdadeira expressão do horror. Eu não os conhecia, não sabia nada sobre seus filmes, assim como eles também não sabiam nada sobre a minha vida. Eu os conheci precipitadamente, atirados ao meu encontro por um acontecimento fatídico, eles não eram nada além de fantasmas vivos congelando ao meu redor, mas ao mesmo tempo, eles eram tudo o que eu tinha.
Risquei o fósforo e John correu com as chamas em suas mãos com a alegria de um pai segurando um filho recém nascido. Minutos depois dançávamos feito índios ao redor do fogo. Pena que ao invés do verde das matas apenas o vermelho sangue completava a paisagem.

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