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Contos-->A Assassina -- 29/09/2007 - 11:30 (Ulisses de Abreu) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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Quando se olhou no espelho, viu uma mulher em prantos, olhos vermelhos, maquiagem borrada, cabelos fora de ordem e um arranhão de mais ou menos dez centímetros no lado direito do seu pescoço. Camila não se reconheceu. Aquela mulher definitivamente não era ela, não!, não a Camila forte e linda que há quatro horas havia saído de casa... Passou as mãos no rosto, enxugou as lágrimas e saiu da frente do espelho com uma terrível expressão de ódio na face. Poucas vezes Camila havia encontrado motivos para ficar assim tão nervosa, tão descontrolada; normalmente era uma mulher calma, serena, segura e que dificilmente perdia o controle. Mas naquela noite o mundo todo parecia conspirar contra ela. De uma hora para outra uma serie de acontecimentos inusitados atravessaram o seu caminho, e toda a arquitetura montada aos poucos e com muito cuidado desde a sua adolescência ruiu em questão de minutos... Camila andava de um lado ao outro da sala totalmente desorientada, sua cabeça parecia em chamas, não conseguia formar um único pensamento lógico, era tudo tão drástico, tão sem sentido que ela não encontrava uma maneira sensata ou pelo menos razoável de aceitar e entender o que lhe havia acontecido. Contudo, deitou-se no sofá que ficava na biblioteca do seu enorme e muito confortável apartamento e começou a relembrar...

A campainha tocou às oito da noite em ponto. Era Cláudio seu namorado quem estava à porta. Camila abriu a porta, beijou Cláudio rapidamente na boca e disse:
- senta meu amor! Estou quase pronta. Em seguida foi sumindo em um longo e muito bem iluminado corredor.
_ ta bom! Mas por favor, vê se não demora Camila. Disse Cláudio, rindo um riso totalmente sem graça enquanto sentava-se no sofá da sala.

No fundo todos os homens sabem que quando uma mulher diz: “estou
quase pronta” é porque vai demorar no mínimo meia hora. Meia hora depois, o casal entrou no Vectra modelo 2007 que Cláudio havia comprado fazia dois meses. Chegaram à Avenida Afonso Pena dez minutos depois, estacionaram o caro a cem metros do parque municipal, desceram e foram a pé até o palácio das artes onde assistiriam à peça “Acredite, um espírito baixou em mim”, uma comédia que conta a história de um homossexual assumido e que fazia o maior sucesso na cidade há dois meses. Dentro do teatro, como já havia acontecido durante quase todo o percurso desde o apartamento, pouco conversaram; preferiram concentrar os olhos e os pensamentos na peça que, pelo o entretenimento e as longas gargalhadas dos dois, muito lhes agradava. Todavia, Camila vinha percebendo um distanciamento
gradativo por parte de Cláudio nas últimas semanas. Estavam juntos havia cinco anos. O namoro começou exatamente no mês em que Camila completava dezessete anos, e, desde então, para ela esse namoro havia tomado proporções muito além do desejo e da imaginação de forma que tornara-se tão necessário quanto o ar que se respira. Logo que acabou a peça, deixaram imediatamente o teatro e foram para o apartamento de Cláudio. Lá: ela no banheiro ajeitando os cabelos e a maquiagem, ele servindo-se uma dose dupla de Chivas. Quando ela voltou, ele lhe ofereceu uma dose:
- pra você meu bem!
- uísque amor?
- pega?
- sabe que eu não gosto, detesto bebidas forte – Camila franziu a testa e deixou aflorar um bico enorme. No entanto, ele insistiu:
- Acho melhor você beber, pois preciso ter uma conversa muito seria contigo.

Nessa hora, Cláudio tomou tudo que estava no seu copo de uma só vez e foi novamente de encontro à garrafa... Camila sem saber qual rumo exatamente àquela conversa tomaria, começou a tremer e as suas mãos começaram a suar, pressentia uma situação para a qual jamais havia se preparado. Começou a andar pela sala de um lado para o outro. Passou as mãos pelos cabelos, olhou para Cláudio, que enchia novamente o copo de uísque, ainda de costas para ela no balcão do bar. De repente Camila parou de andar e, quase que por impulso, bebeu seu uísque num único gole; fez uma cara tão estranha e desconcertante que lhe ofuscou completamente a beleza, e o gosto forte do uísque quase que a fez vomitar. Nessa hora Cláudio voltou-se para ela e disse:

- Parto amanha às 10 horas para Portugal.

Camila bambeou as penas e, se não fosse pelo fato de estar bem próxima da parede e com isso ter no que se segurar, teria mesmo se esborrachado toda no chão da sala. Em seguida, recuperou o fôlego, respirou bem fundo, foi até a janela e, como quem buscasse ali uma ajuda sobrenatural, respirou ainda mais profundamente... Voltou para o centro da sala, olhou bem dentro dos olhos azuis de Cláudio e perguntou:

- será que eu ouvi direito?
- sim eu vou amanhã...
- mas, e eu como fico?
- você? Uai! Você fica eu é quem vou! - dito isso, pôs se a mexer o gelo dentro do copo com os dedos.
- quanto tempo você pretende ficar por lá?, perguntou Camila agora com as bochechas bem rosadas e a voz alterada.
- por tempo indeterminado, me tornei sócio de uma cadeia de restaurantes e, por causa disso, para estar mais próximo dos negócios, pretendo ir morar lá de vez.
- e você espera que eu vá morar lá com você um dia é isso?
- não!

Nesse momento, Camila empalideceu-se completamente e, tropeçando na própria perna, dirigiu-se novamente ao bar, serviu-se meio copo de Chivas e bebeu tudo de uma só vez como alguém que estivesse morrendo de sede. Voltou a encher novamente o copo, virou-se para Cláudio, olhou-o como jamais havia olhado e, de repente, tudo com que até então ela havia sonhado, tudo o que havia planejado e desejado parecia lhe escapar por entre as mãos: o casamento, a festa, a alegria no âmbito da família, a casa, os filhos as reuniões nas casas dos casais amigos, tudo, exatamente tudo, estava se consumindo no exato momento em que Cláudio, com toda naturalidade do mundo, havia lhe atirado bem no meio da cara aquele fatídico “NÃO”. E o fez de uma maneira tão inesperada e fria, que para ela teria sido melhor que ele tivesse usado uma arma...

Camila levantou assustada! Olhou para o relógio e viu que já eram duas horas da madrugada, achou então que devia ter apagado, sentia-se tão cansada. Sentou-se no sofá, colocou as duas mãos sobre a cabeça e alisou o rosto, em seguida, juntando os cabelos de uma maneira espontânea e uniforme para trás da cabeça suspirou e
bocejou. Depois, colocou os dois pés sobre a mesinha de centro, e foi nesse exato momento que sua alma quase saltou para fora. Camila tinha os pés e as barras da calça manchadas de sangue. O sangue estava entre os seus dedos e por cima das suas unhas, também havia sangue no peito do pé, nos calcanhares e desde a barra da calça até bem próximo dos joelhos. Camila pulou para fora daquele sofá, com a destreza e a rapidez com que um coelho foge de uma águia. Correu para o banheiro, arrancou as roupas do corpo atirando-as contra a parede como se nelas existisse um bicho muito nojento. Finalmente abriu o chuveiro e, pôs-se a lavar-se mergulhada em lágrimas e desespero. Esfregava a pele com uma força descomunal, parecia querer arrancar-lhe o próprio couro a todo custo; ajoelhou-se no piso encharcado de sabão, sangue e lágrimas. E ali, como alguém que estivesse a rezar e que de tão envolvida em sua fé estivesse em transe profundo, transportou-se novamente para algumas horas atrás...


continua
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