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Contos-->O CURRAL -- 22/08/2007 - 21:16 (HENRIQUE CESAR PINHEIRO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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Por proceder de uma cidadezinha do interior do Ceará, Baturité, ao personagem desta história identificaremos por seu próprio topônimo: Baturité. Baturité transferiu-se de sua terra natal para Fortaleza no fim dos anos sessenta. A cidade tinha uns vinte mil habitantes, mais ou menos. Fortaleza, a capital do estado, era uma metrópole com suas duzentas e cinqüenta mil pessoas. A viagem para Fortaleza foi num sábado, pois a mãe dele, muito supersticiosa, não queria se mudar noutro dia da semana.

Baturité, entretanto, permaneceu na sua cidade até segunda-feira. Na ocasião, junho, mês de festas, estava havendo quadrilhas na cidade, e ele foi obrigado a permanecer lá para disputar um concurso.

Por não conhecer Fortaleza, matuto que era, e sem saber o novo endereço dos pais.; e se soubesse também não faria qualquer diferença, pois não tinha como chegar lá, Baturité ficou dependendo da irmã mais velha apanhá-lo no ponto do ônibus, ou melhor, na agência. Naquele tempo, Fortaleza nem terminal rodoviário tinha.; modernidade que chegou somente em 1974.

Com medo da irmã não está esperando por ele na agência, Baturité desceu do ônibus apavorado. Se por acaso ela não estivesse lá, ele ficaria sozinho na rua sem saber, nem ter pra onde ir. Se isso acontecesse, a única solução seria voltar para Baturité, mas também seria difícil: pois ele estava totalmente liso. Felizmente, quando chegou, a irmã já o aguardava.

Feliz, partiu para o novo lar. Pouco dias depois, já entrosado na cidade, com algumas amizades no bairro, tinha até a turma do futebol. No colégio, logo no primeiro dia de aula, foi suspenso por três dias por causa de uma cadeira.; brigou com um colega. Mas isso nada tem a ver com este caso.

Num fim de semana, uns colegas chamaram Baturité para dar uma volta no Centro da cidade. Depois de combinado, saíram sábado à noitinha.; ele e mais dois caras. Baturité, como já dito, não conhecia a cidade, menos ainda, o local para onde iam: Arraial Moura Brasil.

O local conhecido popularmente como Curral, um baixo meretrício freqüentado pela escória da cidade, ou o que havia de pior da malandragem da época. O nome foi dado porque ali funcionara um campo de concentração – é campo de concentração mesmo, na década de trinta. Fato que somente anos mais tarde foi reconhecido publicamente. Aliás, no Ceará existiram oito campos de concentração: dois em Fortaleza e outros seis no interior do estado.

Embora não seja o tema de nosso assunto, mas o fato merece uma pequena explicação.Em mil novecentos e trinta e dois, uma grande seca expulsou sertanejos, popularmente conhecidos por retirantes, do interior do Estado, que fugindo da seca causticante no sertão, na capital buscavam sobrevivência.

A seca naquela época, e ainda hoje mata muitos nordestinos. A sociedade local, mais precisamente a classe média alta, para se prevenir, pois não queria tais indesejáveis na porta de suas bonitas casas, fazia de tudo para impedi-los de entrar na capital do Estado.
Assim foram criados campos de concentração. No interior, principalmente, onde havia estrada de ferro eles foram confinados para não viajar para Fortaleza. Os que conseguiam burlar a vigilância, quando chegavam à capital, eram presos e isolados como animais nos dois campos existentes em Fortaleza: um deles o tal Arraial Moura Brasil, que ficou conhecido por Curral.
Desta forma, os figurões da época, e a sociedade não eram molestados. Ali, ou seja, nos locais determinados, os retirantes podiam fazer tudo, contanto que não saísse de lá pra nada, pois o governo se comprometeu assisti-los descentemente. Acordo não cumprido, como sempre ocorre no Brasil. O dinheiro destinado à população foi desviado. Isso, entretanto, deixa pra lá pois não é nosso objetivo, como já dito, apenas demos uma pequena explanação sobre o assunto para que as pessoas conheçam um pouco mais a nosso verdadeira história.

Mas voltando ao nosso assunto, o local era perigoso, embora o perigo daquela época fosse relativamente pequeno comparado aos perigos atuais, o mais que poderia acontecer era um furto, um descuido, uma briga, uma coisa desse tipo. Entretanto, aquele mundo era totalmente desconhecido de Baturité, que ficou de olho no vai-e-vem de putas, clientes, cafetões, bandidos e todo tipo de freqüentador do local, talvez até encantado com todo aquele movimento todo.

De repente, uma das mulheres do local, bastante nova, se engraçou de Baturité, que meio desconfiado e tímido ficou um pouco sem graça, quando foi convidando para fazer nenê. Expressão usada pelas freqüentadoras do local para atrair clientes.

Sem dinheiro, todavia, o negócio não deu certo. Mas Baturité ficou encantado com a gata do Curral e doido para dá uma com aquele monumento. De graça! Não teve como o negócio vingar, pois daquele faturamento dependia a sobrevivência dela. Entretanto, marinheiro de primeira viagem, marcou encontro para o sábado seguinte, quando tentaria arranjar dinheiro para pagar a moça.

No sábado seguinte, já com dinheiro no bolso, conseguido com o pai, se mandou para o Curral e às sete horas em ponto já estava lá. Procurou pela mulher e nada. Ficou rodando o local pra cima e pra baixo na esperança de encontrá-la. Cansado da procura, escorou-se num poste, à espera da sorte, ou que ela aparecesse. Nada. E por lá permaneceu por mais algum tempo conversando com seus dois companheiros.

Certo tempo depois, surge um fusca branco, e do carro descem três camaradas, todos vestidos de branco. Inclusive, também, os sapatos eram brancos. Um deles ao passar por Baturité diz:

- Rapaz, vá embora daqui. Isso aqui não é lugar para você, e saiu.

Baturité não se deu conta de nada, até porque não sabia do que se tratava mesmo e continuou despreocupadamente onde estava. Pouco depois, eles voltam e dirigindo-se novamente a Baturité, perguntaram sua idade.

- Dezesseis anos, respondeu sem ainda ter desconfiado de nada.

- Tu conheces estes dois caras que estão contigo?

Naquele momento, sem saber porque, ele entendeu o problema, e como seus amigos eram maiores de idade, veio uma luz, dando conta de que não poderia responder sim, pois poderia prejudicá-los.

- Não. Respondeu naturalmente.

- Tens certeza?

- Claro que sim. Diante da resposta incisiva, desistiram dos dois.

A conversa terminou, e eles se identificaram como membros do juizado de menores. Explico: antigamente, havia um grupo de trabalho voluntário chamado Juizado de Menores que percorria lugares suspeitos: cinemas, bares, cabarés, para ver se o local era freqüentando por menores de idade, que se flagrados eram levados pra casa, onde os membros do juizado procuravam conversar com os pais do garoto sobre o assunto, orientando-os e pedido-os para terem mais cuidado na criação dos filhos. Não sei se ainda existe este trabalho. Acho que não, tem o tal do conselho tutelar que serve somente para proteger bandidos, a quem chamam de menores infratores.

Mas voltando ao assunto, um dos membros do juizado, um baixinho, ordenou que Baturité fosse colocado no carro, que estranhou aquele procedimento, mas não se opus, por entender que não poderia resistir contra três sujeitos. A única coisa que poderia ter feito seria correr, mas pego de surpresa não arriscou. Por outro lado, se corresse e os amigos não o acompanhassem, também não saberia voltar para casa, como dissemos, por não conhecer ainda a cidade.

Dentro do carro, Baturité e o cara, que o levou, começaram a conversar, enquanto aguardavam o restante da equipe, que continuou a ronda. Nesse ínterim, o sujeito aproveitou para esclarecer Baturité sobre aquele ambiente, impróprio para menores, e que Baturité deveria ter ido embora quando eles mandaram.

Disso se aproveitou Baturité e pediu para ser solto, garantindo que iria imediatamente embora. O sujeito negou o pedido. Baturité, então, começou a se preocupar com o problema, principalmente, com a reação do pai dele. Sujeito brabo, matutão do interior acostumado à vida dura do sertão cearense. Chegar em casa acompanhado por integrantes do juizado de menores, que contariam ao pai dele onde o apanharam.; era porrada na certa. E muita.

Naquele tempo, o respeito aos pais e aos mais velhos era grande, qualquer deslize não tinha jeito, a porrada comia solto.; não tinha essa de psicologia não. A psicologia era da porrada. Por qualquer motivo se levava uma boa pisa, como eles diziam. Agora, imagine se pode haver uma pisa boa.; grande até se acredita. E pensamento assim, pedia para o carro nunca mais chegar na casa dele.

O percurso demorou mesmo, pois passaram ainda por diversos lugares suspeitos. Fizeram verdadeira turnê pela cidade, ou melhor pelos cabarés. Andaram na Vó, no Farol do Mucuripe, e por outros locais mais. Mesmo assim não saia da cabeça de Baturité a reação do seu pai.; o monte de porrada que levaria. Experiência de muitos anos no ofício de apanhar.

Ainda no carro, outra vez pediu para ir embora. Mas o sujeito negou novamente, alegando não poder, por ser uma decisão do chefe e que não podia desobedecer. Era ordem superior.
Depois de algum tempo em silêncio, recomeçaram a conversa:

- Qual o teu nome, perguntou o membro do juizado?

- Baturité.

- Não. Quero teu nome verdadeiro e completo.

- Baturite respondeu.

E devido ao sobrenome:

- O sujeito perguntou: de onde tu és?

- De Baturité.

- Sim, mas esse sobrenome vem de quem?

- Do meu pai.

- E qual é o nome do teu pai?

- Aderaldo Pinheiro.

- De onde ele é?

- De Senador Pompeu.

- Conheço ele, também sou de lá. Ele é meu primo.

Disso se aproveitou Baturité e pediu novamente para ir embora, achando que sendo parente do sujeito, ele teria pena e o soltaria.

Naquele tempo, qualquer parente era mesmo que irmão, pelo menos aqui no Ceará, e o mais velho tinha ascensão sobre os mais novos. E ele negou outra vez o pedido de liberar Baturité. Aliás, que não estava preso, apenas aguardando transporte oficial para ir pra casa, compulsoriamente.

- Não. Agora é que vou deixá-lo em casa mesmo.
Além de querer rever teu pai, quero também fazer algumas recomendações para que ele tenha mais cuidado contigo.Ali não é lugar para adolescentes.

No caminho, morrendo de medo, Baturité ia imaginado como diminuir as porradas.
Aí tive uma idéia que poderia salvá-lo, ou transferir a pisa para o outro dia. Mesmo se acontecesse a segunda hipótese, talvez fosse bem melhor. Com o passar do tempo, podia ser que a raiva do pai dele diminuísse, e o velho batesse menos.

A casa de Baturité tinha duas entradas, e isso é importante explicar para que se entenda o que ocorreu na chegada. A casa em forma de “ele”.; tinha duas portas de entrada. Uma na perna menor, ou parte de baixo da letra.; e a outra na perna maior.

Como a segurança na época era total, não havia problemas de assaltos.; a porta da perna menor ficava somente encostada, até a última pessoa da casa entrar, geralmente Baturité.,A irmã mais velha dele tinha de estar em casa no mais tardar às dez horas da noite. Portanto, qualquer pessoa da casa chegando, era só empurrar a porta e entrar. A outra porta dava pra sala e para o quarto, onde dormiam seus pais, e era fechada logo que eles iam dormir.

Ao chegar em casa, Baturité bateu na porta da sala e chamou pelo pai dele. Pode entrar, a porta lá de trás está aberta.Você não sabe disso, respondeu o velho, num misto de afirmação e também de repreensão ao mesmo tempo.

- Sei, mas não é isso, disse Baturité. Aqui fora têm três senhores querendo falar com o papai. Papai é o tratamento dado aqui no Ceará quando nos dirigimos a nosso pai.

O velho estranhou, devido a hora, e perguntou quem era.

- Não sei. São três senhores que se dizem amigos do senhor, e gostariam de conversar um assunto. Não sei do que se trata.

- Como era seguro sair a qualquer hora do dia ou da noite, ele mandou aguardar um pouco enquanto se vestia.

Dado o recado, Baturité deixou os caras lá fora, e entrou pela porta dos fundos e foi direto se deitar.; deixando a conversa entre eles transcorrer. E tratou logo de fazer que estava dormindo, pra ver se conseguia se livrar da surra, adiá-la, ou diminui as pancadas.

Depois de muita conversa, o pai dele, puto da vida, entra em casa aos palavrões, coisa que nunca ninguém da família tinha ouvido ele dizer, principalmente, na presença dos filhos e da mulher, embora somente ela e Baturite, que fingia dormir, estivessem ouvindo os gritos do velho, pois o restante da família era, exceto a irmã mais velha, todos bem pequenos e dificilmente o barulho dos gritos do velho os acordaria, ou se os acordou, nenhum deles demonstrou.

A mãe de Baturite, preocupada com o estado do marido, que fora de si, jurava matar o filho, tratou de acalmar os ânimos.

- Calma, calma, Aderaldo. Que foi que aconteceu?
Totalmente descontrolado, ele responde:

- Puta que pariu, eu aqui uma hora dessas, dormindo e este vagabundo por aí, no meio do mundo, nos cabarés. Agora mesmo ele vai se ver comigo. E partiu para matar Baturité de porrada, que calado dentro da rede, ouvindo a discussão, fazia de conta que estava dormindo e rezava para o pai dele se acalmar, que com a bainha de um facão na mão já vinha pronto para meter a sola no menino. Era costume do pai dele bater nos filhos com a tal bainha de couro cru, enorme, de um facão que usava para cortar mato no sítio.

Finalmente, depois de muita insistência, a mãe de Baturite pôde controlar a situação, convencendo o velho a falar com o filho no dia seguinte, ou melhor, naquele dia mesmo, mais tarde, pois já era madrugada.; com o argumento de que ele estava dormindo e não era bom acordar o menino naquela circunstância. Isso pode até prejudicar a saúde do menino, argumentou, caso acorde assustado.

Bem cedo, mesmo sendo domingo, o velho saiu para trabalhar. Na pressa, a conversa ficou para depois, quando voltasse. Quando voltou, Baturité não estava em casa e ficou para depois, e esse depois não chegou até hoje.

Ele já está com oitenta e nove anos, acredita-se que tenha esquecido assunto, que aconteceu há mais de quarenta anos, e a vontade de me matar o filho pode ter desaparecido.


HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
AGOSTO/ 2007
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