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Contos-->O passeio do morto -- 21/09/2007 - 18:51 (AROLDO A MEDEIROS) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. O passeio do morto

Aroldo Arão de Medeiros

Nessas minhas andanças por esse mundão de Deus, encontrei todo tipo de gente. Uma, em especial, me chamou a atenção pela história que me contou e pelo tipo que era. Bento era o seu nome e a profissão, acreditem se quiserem, caixeiro viajante, quase um vendedor ambulante. Dirigia uma fubica que dava pena só em olhar. Nesse Ford Bigode, do tempo do rascunho da Bíblia, ele carregava e vendia quase tudo, desde guarda-chuva até bola de futebol. Vendia pomada Minâncora, remédio para gado, disco de vinil, máquina de escrever, blocos para anotações de fiado, enxadas, pás, ancinhos e tantas outras bugigangas que fica difícil descrever todas.
O lugar que ele mais gostava de vender suas quinquilharias era Riqueza. Digamos que era um lugarejo simples, de pessoas tranqüilas, trabalhadoras e felizes. O progresso visto nas cidades grandes, por lá ainda não havia chegado. Bento sentia em Riqueza uma paz que o deixava sorrindo sozinho e com vontade de conversar com os pássaros, e até com as flores. Gostava de ouvir o canto das pequenas aves que nem se preocupavam com sua presença. Eram bem-te-vis, bicos-de-lacre, canários, tesourinhas, gralhas e outros passarinhos, contrastando com os pardais que ele via e enfeavam os jardins das metrópoles. Até os arco-íris, quando lá apareciam, exibiam cores mais vivas. Enquanto os homens, à tardinha, depois de um dia cansativo, invadiam a bodega para beber cachaça e jogar cartas, as mulheres preenchiam as varandas fazendo tricô e tomando chimarrão.
Bento contou que havia um freguês, em Riqueza, que sempre comprava algo e constantemente o convidava para um café ou até mesmo para almoçar. Ele, que não era bobo, sempre chegava na casa desse colono lá pelo meio dia, para morder um almoço.
Certo dia chegando à casa desse conhecido, bateu palmas:
- Ó de casa! Seu Avelino, o senhor está em casa?
Apareceu à porta, a esposa, dona Adriana, já o convidando:
- Seu Bento, pode entrar.
- Bom dia, como a senhora está?
- Eu estou bem, vou levando a vida.
- E o seu Avelino, por onde anda?
Dona Adriana, cabisbaixa, sussurrou num murmúrio quase inaudível:
- O meu Vilino, se foi, faz um mês que morreu.
- Meus pêsames! – Bento exclamou surpreso, e completou - Mas como isso aconteceu se mês retrasado ele estava tão forte?
Dona Adriana desatou a falar sem parar:
- Apareceu uma ferida, no beiço, lá nele, passamos mertiolato e a pomada Minâncora que o senhor nos vendeu. Nada de a ferida diminuir ou desaparecer. Foi ficando feia, apostemada e até cheirando mal. Minha filha o levou ao médico, lá na cidade. Tiraram um pedaço da pele para fazer a tal de biópsia e o resultado foi o que não se esperava, ele tinha aquela doença ruim que eu não gosto nem de pronunciar o nome.
Bento interrompeu um pouco o monólogo:
- Fizeram tratamento?
- É, acho que sim, mas não houve jeito, uma semana depois ele morreu.
- Coitado – falou com sinceridade o Bento.
Dona Adriana continuou:
- O pior estava por vir. Ele morreu às quatro horas da tarde e nós o esperamos até a noite. E nada do meu Vilino chegar. Fomos a pé até o orelhão lá na praça da igreja e a gente ligava pro hospital e eles diziam que estavam fazendo curativo na ferida e dando banho no meu velho. Até que lá pelas dez horas da noite essa casa estava entupida de gente tomando café, comendo broa, rosca e pão e eis que chega o carro da funerária.
Bento comentou:
- Até que enfim o seu Avelino chegou?
Dona Adriana continuou com sua voz pausada:
- Aí é que o senhor se engana. Quando eu fui ver o meu velho no caixão, não agüentei, “esse não é o meu Vilino”, berrei, já meio fora de mim.
E dona Adriana continuou, já com olhos marejados:
- O homem da funerária me disse “lógico que é ele, quando a pessoa morre fica diferente, fica branco, incha um pouco”. A comadre Luiza, que estava ao meu lado, confirmou “É claro que não é o compadre, ele nunca usou bigode!”.
Dona Adriana já não se continha. Puxou um pequeno lenço florido do bolso do avental e, assoando o nariz, falou-me como quem não acredita no que está acontecendo:
- O moço da funerária pegou um aparelho que parecia um radinho de pilha, falou com alguém e, meio sem graça, veio me dizer “vocês me desculpem, mas houve um engano, nós levamos o seu marido para o Progresso e esse que está aí deveria estar lá...”
E acrescentou, levantando os ombros num um ar de interrogação:
- Levaram o morto de volta e só lá pelas dez da manhã do outro dia é que trouxeram o meu Vilino.
E, baixando novamente a voz, chegou mais perto de mim e disse como quem faz uma confidência:
- Seu Bento, sabe o que eu pensei enquanto olhava o meu velho, e que ainda não falei para ninguém?
E o Bento, curioso:
- O que foi dona Adriana?
- Eu disse lá com meus botões “Vilino, tu nunca quiseste me levar pra passear em lugar nenhum. Agora depois de morto tu foi bater até lá pras bandas do Progresso, né seu safado!”.



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