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Contos-->Mataram o professor e foram brincar -- 20/09/2007 - 22:18 (Ulisses de Abreu) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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Mal entramos na sala do diretor, minha mãe foi logo falando: - entre todos os professores que o senhor tem aqui na sua escola, qual é o mais rígido, o mais exigente e disciplinador? Preciso dar um jeito nessa peste de menino, não agüento mais receber bilhetes e reclamações. O diretor olhou para mim e sem hesitar foi logo dizendo: – deixa comigo minha senhora, que eu tenho aqui no horário da tarde, o professor Rui, que é temido e respeitado por tudo quanto é aluno desta escola. - Gelei! Senti que o meu destino havia sido selado, o professor Rui não! Todos, menos aquele maldito quebra coco. O cara era uma lenda na escola, temido ate pelos mais valentões, entre as muitas historias de pavor e medo que dele contavam, havia uma que se não era a mais terrível, dava para se ter uma idéia, do quanto aquele homem era perverso. Dizem que ele costumava dar uma melhorada substancial nas notas do aluno que trouxesse a vara mais cumprida, gostava de acertar a cabeça dos alunos sem precisar levantar aquele traseiro gordo da cadeira. Por esse e por outros motivos, todos o chamavam de o quebra coco.
No meu primeiro dia de aula junto daquele Hitler brasileiro, procurei sentar-me na ultima carteira, o mais longe possível do alcance da vara daquele maluco. Mas, pouco adiantou, bastou uma única distraçãozinha, pra ele me atingir a cabeça com a ponta fina e certeira daquela maldita vara. - Aí! Como doeu, parecia que meus miolos haviam sido postos dentro de um liquidificador e batidos na potencia máxima; só não chorei porque nas escolas do Capão, menino que é homem não chora, e se chorasse, caia na malhação da galera e isso era igual ou pior que levar uma varada. No dia seguinte, ele me colocou de castigo no canto da parede ajoelhado, sobre um monte de esferas retiradas de rodas de rolimã e, o malvado de dez em dez minutos, me olhava e com uma cara de serial killer, falava bem alto para toda a sala ouvir. – estão vendo classe, o que acontece com aqueles que não fazem o dever de casa – eu juro! Se eu tivesse um revolver eu o matava com um tiro bem no meio da testa, se eu tivesse uma faca eu cortava a garganta dele sem nenhuma pressa e, se não tivesse esse corpo franzino de um menino de dez anos eu pularia em cima dele e encheria aquela cara gorda e feia de socos, pontapés e cotoveladas, ate que aquele mal amado nunca mais conseguisse abrir aquela boca cheia de maldades...
As mães não têm noção do quanto seus filhos sofrem nas escolas, elas não sabem o que é ficar a mercê da boa vontade de um professor completamente pirado e covarde. Na semana passada, o Beto, levou uma varada tão forte na cabeça que ficou andando com um colete no pescoço a semana toda, e o pobre do moleque mesmo assim, não teve nenhuma regalia, era só abrir a boca, que lá vinha varada. A Cristina, uma menina que chamava atenção de todos os garotos pela beleza e pelo fato de ser contorcionista, andava sumida. Um dia, o professor Rui gritou com ela e a mandou ficar de joelhos nas esferas, pra que! A menina deu um grito tão forte, mais tão forte, que cheguei a pensar que ia quebrar todas as vidraças da sala; então o professor Rui a segurou pelos cabelos e como quem arrasta um bicho raivoso a levou para fora da sala; desse dia em diante nunca mais vimos a Cristina na escola. Disseram que ela havia sido transferida, mas também houve quem dissesse que ela estava internada num hospital de Santo Amaro, com a cabeça rachada.
Três meses depois eu decidi que daquele jeito não dava mais pra ficar, ou eu acabava com aquele homem ou ele me matava de varada ou de raiva. Reuni em umas das esquinas próximas à minha casa, aqueles que eu chamaria sem nenhum pudor de a corja da escola. O primeiro: Edison, negro, treze anos e sei lá quantas bombas nas costas, só com o professor Rui repetira dois anos, o moleque era doidinho pra ir a fora, eu mesmo já o flagrei algumas vezes amolando um canivete de cabo amarelo e, olhando fixamente para o professor com um olhar de quem dissesse: você não perde por esperar velho filho da... O segundo: Helio, onze anos, pardo, criado pelos avós, teve a terrível infelicidade de assistir o assassinato dos próprios pais, quando tinha apenas sete anos de idade; no entanto, apesar disso ele era um menino calmo, mas tinha um olhar que mais parecia uma escopeta carregada ate na boca, quando aquele moleque ficava nervoso, meu Deus! Era nitroglicerina pura, e por ultimo, Ana Luiza, corpo miúdo, cabelos ruivos, pele branca como algodão, tinha a minha idade e como motivo por ter sido convidada para reunião, o fato de ter nas costas a suspeita de ter assassinado a amante de seu pai, morta dormindo, com uma faca enterrada nas costas, eu, sinceramente, sempre a achei inocente, mas, toda vez que algum engraçadinho a chamava de assassina, não sei por qual motivo, no entanto, ela nunca desmentia.
Idéias foram postas na roda, todavia, no primeiro encontro não chegamos a nenhuma decisão, no dia seguinte pra nossa surpresa, Ana Luisa, trouxe debaixo dos braços um embrulho fino cujo cumprimento devia ser de mais ou menos uns setenta centímetros; aquilo deixou a todos muito curiosos, e eu sem muita paciência para esperar fui logo perguntando: - o que é isso Ana? – isso meu amigo Miguel, é um cano de ferro que arranquei de uma casa velha e abandonada, e que vai nos servir direitinho pra rachar a cabeça daquele monstro. Senti nos olhos perturbadores de Helio, uma doce e fria sensação de vingança e, Edison, num sarcasmo arrebatador já foi logo dizendo: - a primeira pancada sou eu quem dá – naquele momento senti que talvez estivéssemos indo longe demais, matar, isso não, a principio o meu desejo era dar-lhe um corretivo, mas agora o que eles querem é matar o infeliz. Isto me deixou profundamente confuso e consegui adiar para o outro dia a execução do plano.
No dia seguinte cheguei dez minutos atrasado ao encontro, todos me olharam com um olhar de pouco agrado, coloquei minha mochila no chão e de dentro tirei uns pregos, umas pedras, um martelo e um estilete. Todos me olharam atentos, e sem dar muito tempo para especulações, fui logo revelando o que tinha em mente. - pessoal o plano é o seguinte: nós sabemos muito bem do amor enorme que o professor Rui tem pelo seu carro, e sabemos também, o quanto àquela porcaria de carro é importante para ele, pois bem, vamos detonar aquele carro, arranhar, riscar, amassar, furar os pneus, quebrar os vidros e os faróis... Por um instante, o silêncio me fez pensar que meu plano não tinha sido aprovado, entretanto, alguns segundos depois eu vi no rosto de cada um uma satisfação mórbida, e sem hesitar, Ana Luiza, desembrulhou o cano de ferro e foi logo dizendo: - eu vou encher aquele carro de pancada ah si vou - saímos às gargalhadas. O professor era mesmo apaixonado por aquele carro, dizem que se ele tivesse que escolher entre o carro e os filhos, ficaria com o carro, já se o objeto da troca fosse à senhora sua esposa, essa, ele dizia, não valer nem as rodas.
Na hora do recreio, pulamos o muro da escola e pegamos as ferramentas dentro de uma caixa de papelão fazia escondida do lado de fora, em dez minutos transformamos o opala bege dourado do professor Rui, num monte de lata mutilada. E foi tão bom olhar para aquele carro todo riscado, amassado, vidros quebrados, pneus furados e ainda todo mijado por dentro que, era difícil esconder a alegria no nosso rosto. Mas, o tempo era curto e voltamos rapidinho pra escola e, entramos na sala do professor Rui como se nada tivesse acontecido. De vez enquanto, olhávamos de rabo de olho uns para os outros, e riamos em silêncio, na certeza de termos lavado a nossa alma. Naquele dia ficamos sem saber o resultado da nossa missão, o professor Rui, dava aulas também para os alunos do segundo grau e só ia para casa depois das dez horas da noite.
No outro dia, chegamos à sala ainda faltavam cinco minutos para tocar o sino e começar as aulas, entre cochichos, risadas e certa dose de medo e ansiedade, iam aos poucos revivendo em nossas mentes aqueles momentos de glória do dia anterior. Mas para nossa surpresa e, creio que para a surpresa de todos naquela sala, o professor André Luis, entrou carregando nas mãos um velho livro de história. E antes, que alguém fizesse qualquer pergunta, disse: - classe! O professor Rui foi hospitalizado, teve uma parada cardíaca nessa madrugada, e seu estado de saúde infelizmente não é nada bom... E... Continuou falando, mas daí em diante eu não ouvi mais nada. Senti por toda a sala de semblante em semblante um ar de espanto e alivio tomar posse, olhei para Ana Luisa, e ela parecia totalmente paralisada, mas, não por medo, por uma espécie de nuvem encantada e, assim durante toda a aula olhávamos uns para os outros sem saber qual sentimento deveríamos deixar aflorar a face. Eu só tinha certeza de uma coisa, ninguém tinha motivo pra chorar.
O professor Rui, veio há falecer uma semana depois, deixou mulher, dois filhos homens, um cachorro e um automóvel em muito mal estado. Foi ter com o diabo e por mim foi tarde! Daquele dia em diante, mais precisamente após o dia 22 de maio de 1974; a vida na escola e no Capão Redondo, tomou rumos menos dramáticos; meninos e meninas por toda parte brincando, professores e ditadores nos corredores cochichando coisas do tipo: - ele nos fará muita falta, soube como poucos servir ao nosso bondoso regime. Muitas vezes, só pelo fato de sermos crianças, alguns adultos tolos, ignoram o fato que também nas crianças os sentimentos de liberdade afloram... E no futuro, podem pagar um preço muito alto por isso.
_ pega a bola Miguel! – gritaram simultaneamente Helio e Edison, sorrindo um sorriso de menino e mais nada, e eu corri atrás daquela bola, com a alegria e a certeza de que a vida só estava começando...


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