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Contos-->Traje Completo... -- 25/06/2007 - 22:22 (José Carlos Moreira da Silva) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Traje Completo...

O ano era 1956 e a euforia dos bailes de formatura colegiais, entre o fim e o começo dos anos na Cidade de São Paulo, era simplesmente uma loucura contagiante. Houve um ano que cheguei a ir a vinte e três bailes distribuídos nos salões da Casa de Portugal, Aeroporto de Congonhas, Trocadeiro e Clube Homs, que era de todos o mais badalado, principalmente por situar-se na badaladíssima Avenida Paulista.

Todos nós tínhamos o traje a rigor completo de smoking ou Summer, desde aquela faixa da cintura, a chamada “barrigueira”, camisa de peito corrugado, sapatos de verniz, gravata borboleta e até aquele cravinho artificial de lapela. Contávamos também com as necessárias cabeças de ponte em todos os colégios para conseguir os convites e principalmente junto a escolas só de garotas, tipo Des Oiseaux, Madre Cabrini, Carlinda Ribeiro, etc.

Apesar de sermos todos estudantes muito duros, a ponto de muitas vezes não termos dinheiro nem para a condução de ida e/ou de volta, entediávamo-nos com a rotina de simplesmente dançar, paquerar e flertar nos bailes. Procurávamos sempre algo com mais adrenalina e principalmente situações hilárias, tais como nossas aventuras junto ao Godoy, ou melhor, dizendo, Napoleão Godoy, Personagem central do nosso Tema, sobre o qual passamos a nos referir agora, desde nosso primeiro contato com o mesmo:

Certa ocasião, podres de cansados, de madrugada e sem um tostão nos bolsos, voltávamos a pé do Salão do Aeroporto para a Vila Mariana, quando vimos um cavalo pastando e com uma corda amarrada ao pescoço. Imediatamente nós três nos olhamos, caímos na gargalhada e eu, na qualidade de mais entendido em matéria de arreios, elaborei um bem adequado, pois a corda era boa e maleável.

Após algumas discussões para decidir quem montaria na frente, atrás ou no meio, o Salim (dos três o mais bêbado), foi mais peremptório e ganhou a garupa. O pangaré seguia trôpego com os três em cima do lombo cantando e olhando as estrelas, sendo que o Salim cochilava a todo o momento, escorregava e ia ao chão, matando-nos de rir. Não sei como o pangaré agüentou levar-nos durante quarenta minutos até a Av. Domingos de Morais, que atravessamos ainda montados, para espanto dos passageiros do bonde, que já transportava os mais madrugadores para o trabalho.

A padaria do Português, Seu Arnaldo (Pai do nosso Amigo Alberto), estava com a porta pela metade, não sabíamos se ainda ou já aberta, mas ficamos felizes, já que mortos de fome, poderíamos “pendurar” as deliciosas postas de bacalhau fritas no ovo, que a Mãe do nosso Amigo preparava maravilhosamente. Ainda montados, introduzimos a cabeça do pangaré na porta de garagem semi-aberta, fato que, embora provocando espanto entre os presentes, não interrompeu a execução do exímio violonista, que em pé, com o instrumento apoiado sobre uma das mesas, dedilhava uma belíssima sonata de Bethoven. – Apeamos, amarramos o Pangaré num poste e intrigados, aproximamo-nos do músico, que paradoxalmente era um sem teto aparentemente bêbado, bem maltrapilho e fedia muito, embora um virtuose sem partitura na execução de peças clássicas ! - Era também muito estranho. Residindo num beco próximo à padaria, parecia não bater bem da bola. Em resposta às nossas perguntas, apenas sorria gentilmente e nada falava. Indagado se era mudo, apenas negou abanando a cabeça, mas a idéia de levá-lo em traje a rigor completo nos bailes de formatura provocou-lhe incontida euforia e imediatamente concordou. Na primeira ocasião apresentada (um baile no Clube Homs) fomos nos preparar na casa do Pepe. Juntando então as peças de sobra que dispúnhamos, integramos um smoking completo para o Godoy, que se dispôs inclusive a tomar um banho, coisa que foi peremptoriamente rejeitada por nós três. Acomodando o fedorento mas elegante Godoy no banco de trás (mais alto) da charanga do Pepe, um Chevrolet 1924 conversível, com capota arreada e partida de manivela, lá íamos nós muito felizes, tocando aquela buzina rouca pelo Paraíso e Av. Paulista.

Na época, para alertar o trânsito sobre a eventual lentidão de um veículo, colocava-se o aviso “MOTOR NOVO” na janela de trás dos carros com motores recém retificados. Para colaborar com tal campanha educativa, arranjamos um arame velho todo torto, que prendemos na capota arreada na traseira da charanga, com o aviso “MOTOR VELHO”, para ser mais coerente com o resto do veículo.

A aventura começava na entrega dos convites para ingresso nos salões, quando os porteiros estranhavam muito aquele sujeito sujo e barbudo, mas impecavelmente trajado a rigor e escoltado por jovens de boa aparência, sérios, bastante circunspetos e que aparentavam muito cuidado e dedicação com aquele “Tio muito estranho”.

Mas o bom mesmo era na hora do Godoy tirar uma garota para dançar ! Ai, o mundo vinha a baixo. escondíamo-nos atrás das pilastras do salão e rachávamos de tanto rir. A tortura das pobrezinhas começava nos intervalos das danças, quando era normal o “passeio” dos cavalheiros em reconhecimento visual do material paquerável. Quando as coitadinhas sentiam-se examinadas pelo sorridente Godoy, tratavam de fugir, mudar de mesa ou esgueirar-se em vão para qualquer lugar, mas não adiantava, porque Ele sempre conseguia convidar alguma, e o fazia com tanta seriedade e pureza, que na maioria das vezes, elas embora visivelmente constrangidas, aceitavam, na esperança de lograrem, em seguida, alguma boa desculpa para largá-lo no meio do salão, o que sempre acontecia, seja pelo mau cheiro, pelo bafo de múmia, pela embriaguez ou pelo seu arremedo catastrófico de dança.

Algumas das vezes a coisa terminava em bate fundo, pois não admitíamos que eventuais fãs, irmãos ou amigos das gatinhas, tentando socorre-las, agredissem ou ameaçassem agredir o nosso “querido Tio”. Nessas ocasiões, depois de bater e também apanhar, éramos invariavelmente postos para fora pelos seguranças mas nunca chegamos às delegacias de polícia.

Naqueles anos 50, os convites de bailes colegiais de formatura traziam expressamente uma das seguintes opções: Traje a rigor ou escuro ou simplesmente Traje a Rigor. Preferíamos sempre os da segunda opção, pois a coisa era levada muito a sério pelos porteiros e encarregados das comissões de formatura, sendo muito comum, quando entrávamos, vermos uma leva de terninhos azul marinho devidamente barrados, a espera de algum fenômeno do acaso que os fizesse entrar. Por isso mesmo o nosso Grupo de TRAJE A RIGOR COMPLETO, era sempre respeitosamente admitido, em que pese a figura esdrúxula do nosso Godoy.


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