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Contos-->NÃO PRECISA DE VENENO O QUE MATA É A FORÇA DA ÁGUA. -- 03/06/2007 - 12:52 (HENRIQUE CESAR PINHEIRO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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A FNS, que se tornou Funasa; já foi Dneru – Departamento Nacional de Endemias Rurais; depois Sucan – Superintendência da Campanhas contra a Febre Amarela. As mudanças de nome dos órgãos, assim como de suas finalidades, sempre foram a tônica no Brasil. Mas isso é outra história.

Pois bem, meu pai foi funcionário do Dneru e depois da Sucan por muitos anos, onde se aposentou. Trabalhou no Ceará quase todo, sempre no combate a insetos e a roedores transmissores de doenças tropicais, como malária, febre amarela, esquistosomose, doença de chagas, peste, bulba e outras mais, e me contou esta história.

Naquela época, os guardas da malária, ou mata-mosquitos, como eram conhecidos, percorriam o estado todo em lombos de animais, com bomba e saco de veneno nas costas para “dedetização” de casa, quintais, sítios, chiqueiros o que precisasse. O veneno podia ser DDT, BHC ou Mil e Oitenta. Tão fortes, que anos mais tarde seria proibida sua utilização, dadas as seqüelas que deixavam nos locais onde eram usados. Dizem que onde se colocava um desses venenos seriam necessários cinqüenta anos para a recuperação do solo. Inclusive, nos Estados Unidos, já na década de 50, não se utilizavam mais, porém por aqui e pelo mundo continuaram sendo comercializados normalmente por muitos anos. Mas, deixa pra lá não é nosso assunto de momento.

Há vinte, trinta anos, os programas de saúde, como temos hoje, com médicos e dentistas, não existiam. Os guardas ajudavam em tudo que fosse possível, até em tarefas de enfermagem: aplicar injeções; fazer um curativo. Às vezes aparar meninos no lugar das parteiras, quanto estas não estavam presente, ou mesmo auxiliá-las se preciso.

Desta maneira, por onde passavam eram sempre muito bem recebidos, porque prestava ajuda inestimável às famílias mais necessitadas da cidade e do campo. Os médicos das quebradas, sem maiores estudos, muitos analfabetos mesmo, quebravam o galho no que fosse possível.

Como quase todos os funcionários públicos brasileiros, os vencimentos eram baixos, além de serem pagos religiosamente atrasados. O pagamento de funcionários públicos em dias veio se normalizar anos mais tarde. E hoje, não restam dúvidas, neste aspecto evoluímos muito. Pois bem! As viagens eram sempre bem-vidas, porque as diárias eram de grande ajuda para completar o orçamento dos guardas, principalmente, para os que tinham família numerosa, o que não era raro. Como muitas vezes eles não pagavam hospedagem nem alimentação, pois quase sempre conseguiam acolhida nas casas de pessoas humildes do interior, que mesmo na sua pobreza, os recebiam de abraços abertos. Aí, para alguns, as diárias eram economia total. Para outros nem tanto, pois gastavam todas e mais alguma coisa com bebidas e raparigas. Outros até piores. Enfiavam-se nas casas de jogo e perdiam até o salário todo, junto com as diárias no carteado, comprometendo até vencimentos futuros, ou seja lá o que fosse.

Um daqueles guardas, cachaceiro de primeira, quando viajava, as diárias só davam para tomar birita e raparigar. Numa viagem, o guarda-cachaceiro, ou o cachaceiro-guarda gastou as diárias com bebida e ficou na pior. Liso total, sem uma banda, como se diz no Ceará, ou sem um puto para se manter durante a viagem. Na pior. Fim do mês distante e o da viagem também, ficou sem saber o que fazer para se manter longe de casa e ainda ter que beber umas cachaças.

O cara ficou desesperado, além de liso, e doido para beber uma. Sem dinheiro e sem ninguém que custeasse uma cana para ele. Os colegas se recusando a emprestar-lhe dinheiro, não só pelas dificuldades de recebimento, se é que receberiam, além de não poderem porque, também, precisavam do dinheiro para as despesas, e a grana de todos era curto.

O guarda, biriteiro inveterado, não podia ficar sem beber um único dia. Coisa impossível. Além da tremedeira; o vício era grande. O sujeito ficou totalmente desnorteado. Sem saber o que fazer.

Passou a pensar em diversas soluções até achar uma: vender o veneno que seria utilizado na borrifação das casas e dos sítios, e assim conseguir dinheiro para biritar.

Encontrar comprador não foi difícil. Vendeu o veneno e pode beber à vontade.

No seguinte dia, foi trabalhar normalmente, satisfeito, sem tremedeira. Os colegas estranharam tamanha satisfação, mas deixaram de lado. Nem desconfiaram o que podia ter acontecido.

Começaram o trabalho diário. Cada um para seu lado. O biriteiro, como não tinha veneno para colocar na bomba, enchia-a somente com água e mandava ver. Passou o dia todo trabalhando assim.

Mas ao chegar num casebre para iniciar seu serviço, o guarda pediu ao dono da casa, um matuto curioso, água para encher a bomba. Matuto, bicho desconfiado, depois de atender o pedido, ficou observando o guarda preparar a bomba, na qual somente botou água e nada mais; nem um pingo de veneno.

Cabreiro, o matuto, não tinha visto o guarda colocar veneno na bomba, ficou só esperando o começo da “dedetização” da casa. Foi o guarda começar e o matuto perguntou-lhe:

- Seu guarda, o senhor não coloca veneno na bomba, não?

O guarda, sem nem pestanejar, respondeu:

- Não. Não precisa, esta bomba é moderna, uma invenção dos americano: não precisa mais de veneno, o que mata é a força da água.

E continuou seu serviço normalmente.



HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
JUNHO/2007
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