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Contos-->Quase...a Vida por um Pífaro -- 27/05/2007 - 13:37 (MARIA CRISTINA DOBAL CAMPIGLIA) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
QUASE...a Vida; por um pífaro.

Enquanto Antonio José, menino pernambucano de nove anos que morava em Vitória de Santo Antão, resolvia escapar de sua casa para seguir a banda de pífaros de Caruaru que chegara à sua cidade, Paulo Henrique- outro menino também com nove anos, na cidade gaúcha de Bento Gonçalves, planejava travessura semelhante.
Mal sabiam os dois que, embora pertencendo a regiões do Brasil tão distantes, por trágicas e malvadas manobras de alguns sujeitos criminosos, eles viriam a ser protagonistas da mesma história. Naquela tarde de verão, Antonio José (o “Tonico”), resolveu sair atrás da banda de pífaros- tal era o seu entusiasmo quando os homens da banda chegavam à sua cidade uma vez por ano para fazer a apresentação. Seguiu-os até a praça, eles tocando e a multidão atrás, e Tonico no meio da multidão. Chegando à praça da cidade, ficou atento aos movimentos do músico mais jovem –tinha quase a sua idade- que sem esboçar um gesto parecia perfeito na execução do bombo. Mas a sua paixão, eram os pífaros. A banda era mágica. Aqueles músicos tinham para ele algum segredo que com sorte, um dia, ele conheceria. Pareciam feitos de uma mistura que juntava o sangue dos homens de sua terra, com o barro das esculturas que via na feirinha- até a sua cor de pele parecia única, fruto –pensava ele- do sol e do ar de tantas cidades diferentes que os músicos percorriam.
Tonico escondeu-se de Dona Rosa, a vizinha, que estava na praça prestando atenção à banda e que, se o visse, iria contar certamente à sua mãe que “o menino levado Tonico estava sozinho vendo a banda”. Melhor era não facilitar : se sua mãe suspeitasse de suas ideias, tudo iria por água abaixo.
Na mesma tarde, em Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul, Paulo Henrique contemplava, na vinícola do avô Martins (assim o chamavam todos) as toneladas de uva roxa serem esmagadas para sair, de forma estonteante, o vinho tinto. O vinho branco também era interessante. Mas o tinto... parecia o sangue das uvas sendo guardado. E o cheiro? O cheiro era especial. Seus pulmões pareciam encher-se de algo que só se respirava aí, durante as férias, na época de calor e de liberdade. Mesmo sem nunca haver bebido aquilo, ele sabia que se bebesse quando adulto, “em quantidade moderada” (como dizia sua avó sempre olhando-o de relance) não faria mal. Como poderia fazer mal, perguntava-se, algo tão gostoso até mesmo no cheiro? Às vezes achava que o importante do vinho, o que ele gostava, não era propriamente a bebida, no fim das contas ele não lhe conhecia o gosto, mas tudo que ele acompanhava até sair o vinho. Até aquelas uvas que via no pé, que juntava em sua mochila às vezes perturbando o pessoal da colheita, às escondidas, eram como jóias valiosas nas suas brincadeira. Valiam muito para ele!
Naquele dia especial, um pessoal que falava esquisito –ele sabia que não era inglês, era outra língua : italiano talvez- viera fazer negócios de vinho com seu avô. Ele sabia que quando acontecia isso, o vinho ia embora. Em enormes tonéis de carvalho, o vinho saía nos caminhões de carga da fazenda, levando aquele suco maravilhoso que nascera aí, do seu lado. Às vezes ia em caixas, já engarrafado.
Eis que então, neste verão que iniciara, tanto Tonico quanto Quique tinham em mente romper com a rotina de alguns anos nas férias, para criar fatos que, sem saber, os uniriam como amigos para sempre.
Em Vitória de Santo Antão, Tonico assistia extasiado à banda na praça, com ar de hipnotizado, enquanto passavam vendedores de guloseimas, de algodão doce e de outras coisas que cheiravam muito bem, mas que não o atraiam agora. A “Banda”(ésta) era composta por seis, entre os quais um menino que vestia camisa simples, como os outros, calça social e chapéu. Três nos pífaros, três com bombos. Os sons dos pífaros acertavam-se de forma a parecer um só, e às vezes conversavam desencontrando-se de propósito, e criando um efeito maravilhoso para os ouvidos de Tonico. De repente os moços pararam de tocar, e as pessoas que batiam palmas e gritavam “mais, mais”, não queriam dispersar-se pela praça, insistindo para que eles continuassem. Tonico, sentado no chão bem próximo aos músicos (agora despreocupado com a Dona Rosa, que perdera de vista) aguardava o momento em que eles sairiam provavelmente rumo ao hotel da cidade, ou à pensão, próxima à praça, para acompanhá-los meio de longe, e, quando fossem embora, dar um jeito de ir com eles. Os músicos resolveram tocar mais um pouco, e Tonico voltou correndo à sua casa, desesperado para não perdê-los, com a ideia de carregar consigo alguma coisa.
Colocou na sua mochila uma camisa de mangas compridas, as economias que somavam, no máximo, uns vinte reais restantes de presente de parentes no último Natal, um lápis velho e uma caderneta que, por qualquer necessidade de enviar recado à sua família era bom que estivessem sempre com ele. Correu de volta à praça (sabia que a mãe , Dona Ernestina, não se preocupava tanto em seguir-lhe os passos em época de férias- ela o conhecia bem, sabia que gostava de ir às feiras e ficar correndo pelas ruas da vizinhança com os moleques do bairro).
Ao retornar à praça, os músicos iam se retirando, e ele, com a mochila nas costas, foi seguindo-os a uma distância que não os deixasse suspeitar da perseguição. Finalmente os músicos entraram na pensão de Dona Alba e o marido José. “Que bom”, pensou: “a pensão é bem mais fácil, eles me conhecem e sabem que ando sempre por aqui. Além disso, as janelas são todas próximas à rua”. Pensou que ficaria facilitada a tarefa de espioná-los para tentar descobrir onde eles iriam essa madrugada ou no dia seguinte bem cedo. “Eu quero ser um músico como eles, e quero ter algum dia mais de um pífaro”, pensou Tonico- e escondendo a sua mochila num beco onde havia um medidor de água da pensão, voltou à entrada onde escutou que os quartos dos músicos eram o de numero dez e o de numero seis. Mas não conseguia ter acesso à janela desses quartos.
Como fazer? Dirigiu-se à entrada da pensão novamente, pensando na situação em que se encontrava : algo teria que inventar para descobrir para onde e a que horas os músicos partiriam. Havia um moço de jeans e camiseta regata na entrada, fumando e lendo um jornal, sentado numa das duas poltronas. Já havia olhado umas duas vezes para Tonico, e rindo, fizera-lhe um “oi” com a mão. Tonico sentou-se na velha poltrona, ao lado. O moço estabeleceu o início de uma conversa. Durante o papo, inteirou-se da paixão de Tonico pela música, pela banda e por flautas e pífaros. “Ora, não precisa você se preocupar, garoto : se quiser, é só mantermos segredo e dou um jeito de você acompanhar a Banda comigo”, disse o homem. A admiração e alegria do Tonico ficaram enormes e rapidamente, seguindo todas as instruções do moço que contara ser um dos repórteres que acompanhavam a “Banda dos Seis”, como se chamava o conjunto, o menino chegou à conclusão de que estava com muita sorte, e que se nada dissesse a ninguém, tudo daria certo. O “Luís”, como havia pedido ao Tonico que o chamasse, providenciaria tudo. “O que é para mim uma passagem até a capital? Não há problema, apenas você precisa afirmar a quem perguntar que é meu sobrinho, e não contar por enquanto sobre nossos planos a mais ninguém”, explicou-lhe. Deixara a mochila com ele, agora estava em boas mãos e ninguém a roubaria. Conversaram também a respeito da certidão de nascimento do menino que sua mãe guardava em lugar que Tonico conhecia. O Luís acrescentou que sobre ser ele repórter ninguém poderia saber : nem os músicos, pois o seu trabalho era “meio às escondidas para que ninguém roubasse a matéria que estava fazendo”. Voltando à casa, Tonico sabia que não poderia deixar ninguém suspeitar sobre os planos. Jantou rapidamente. Sua mãe, aos gritos com as crianças pequenas (eles eram nove irmãos, dos quais Tonico era o terceiro) para que comessem e não brigassem, pouca atenção deu ao Tonico. O calor era insuportável, e a casa de madeira, espaçosa e simples, parecia guardar o calor do dia. No fogão, a mãe não parava de reclamar, dizendo que ainda teria que passar a roupa para devolver a seus fregueses, pois isso era o trabalho diário de Dona Ernestina. Tonico percebeu que seria fácil completar seus planos de viagem. Achou melhor não se despedir de ninguém, para não levantar suspeitas. Depois ele voltaria, disso tinha certeza: não ia ser difícil. A demais o Luís já lhe dissera que tinha o dinheiro para a sua volta, que não precisava se preocupar com isso.
Lembrou-se da última vez que pediu à sua mãe uma flauta de presente, e da resposta dela : “menino, olhe aqui : veja se eu tenha lá dinheiro para uma flauta, garoto!”, “precisamos de coisas mais importantes que isso, você entende?” Lembrava da sensação de angústia que o invadiu naquele dia, e da pouca sorte que tivera de nascer numa família tão pobre. De ter tido um pai que sumira, de ter tantos irmãos e de não poder ainda trabalhar: sua mãe não deixava ainda. “Trabalhar só com doze anos, agora tem que aprender a ler e escrever”, repetia sempre... Quanto a ser músico, a sua mãe disse-lhe que era uma grande bobagem, que precisava pensar em algo que lhe rendesse algum dinheiro. Mas Tonico não abandonava a vontade e o sonho de - um dia- estudar para ser músico.
Foi dessa maneira que, naquela noite, Tonico apenas precisou pegar o documento que a mãe guardava entre as roupas: a certidão de nascimento com seu nome. Às cinco da manhã, enquanto um galo cantava e acordava o bairro, Tonico saiu da cama, calçou o tênis , vestiu bermuda e camiseta e correu até a praça sem ser visto. Chegou à pensão e viu com alívio : lá estava o “tio Luís” esperando na esquina conforme combinado. Alegres, depois de um aperto de mãos- e de tomar um café e um pão com manteiga na pensão a convite do Luís, foram para o terminal de ônibus ao lado.
Os seis músicos esperavam sentados nos bancos do terminal. O mais jovem parecia dormitar com a cabeça no respaldo. Um deles tinha um pífaro na mão. Levavam muitas coisas. Pouco depois, partiam para Jaboatão, cidade próxima a Recife, onde seria o próximo espetáculo da “Banda dos Seis”. O moço Luís não precisou de autorização para viajar com Tonico, por dois motivos : a viagem era próxima, ninguém pede nesses casos, e o próprio Tonico contou ao motorista do ônibus (que o conhecia) que esse era “o tio Luís, irmão de sua mãe”, segundo as instruções dadas pelo moço.
O Luís também prometera a Tonico comprar uma flauta - um pífaro de verdade, se vissem na viagem- e que poderiam aproveitar as férias para aprender a tocar, já que ele conhecia músicos que dariam aulas ao menino sem cobrar nada. Muita coisa boa houve na viagem : a cantarolada dos músicos e a conversa sobre os cuidados com o bombo, os pífaros, as composições de um deles e as sugestões dos colegas. Conversou muito tempo com o Luís, que perguntava tudo sobre ele e seus irmãos. E depois, cansado, acabou dormindo.
Em Bento Gonçalves, Quique escutara a conversa do seu avô com a sua avó : o vinho que ficara armazenado desde dois anos atrás para ser vendido, finalmente o fora. Alguns espanhóis que comercializavam e com quem fizera contato uns tempos atrás, realmente se interessaram em fechar contrato com sua produtora, e comprariam doze mil litros de vinho tinto produzidos por ele. “Cem barris de cem litros, e duzentas caixas já engarrafadas”, disse o avô, contente, abrindo um vinho e colocando quatro cálices para brindar na sala : ele, a avó Célia , Seu Ricardo(um dos motoristas) e Alberto, tio de Quique. Ele reclamou : “e eu, vô?”, ao que o seu avô respondeu, rindo : “claro, claro, você também : pegue aí um suco de uva com a Maria e venha cá, moleque!” O suco de uva também era produzido na fazenda do avô.
A felicidade do seu avô era grande, havia comentado inclusive quanto ganharia pela venda. Quique ficou pensativo. “Aqueles barris vão embora para Espanha...”., pensou. “Eu queria mesmo saber aonde este vinho vai parar, vó”, disse à Dona Célia que não deu importância a seu comentário
Não era muito justo. O vinho que via surgir de forma mágica, e depois vira ser guardado em tonéis de carvalho (seu avô já lhe explicara que o vinho guardado em tonéis de carvalho tinha um gosto especial, maravilhoso segundo ele e seu pai) este vinho mágico iria embora, e seria levado “quem sabe para onde”. Quem o beberia? Saberia apreciá-lo? Saberia tudo que seu avô sabia sobre como era importante cada passo na fabricação do líquido vermelho? Ainda por cima era tinto... E surgiu então a ideia de seguir o vinho. Estava de férias: que mal poderia haver em seguir os tonéis? Seguramente, assim como iria para lá, voltaria, já que os homens sempre deviam vir para comprar mais. Seria um aventura maravilhosa, parecida com o filme de férias que vira na véspera... No máximo, ganharia uma bronca de seus pais e de seus avós, mas certamente valeria a pena. Depois poderia contar a todos quem bebia o vinho produzido pela família.
Havia mais uma coisa. Não estava feliz. Sabia, sem que ninguém tivesse lhe contado, que os pais- que estavam separados há muito tempo, planejavam levá-lo para morar na cidade atual do pai. Ele não gostava da Margareth, que o chamava de “filhastro”, na brincadeira. Não gostava de imaginar-se morando na casa do pai, tendo que ficar em colégio de regime “semi- interno” o dia todo e, quando chegasse, ainda ter que conviver com o filho da Margareth, o Júlio, que seu pai chamava também de filho como a ele, e que não perdia a oportunidade de se vangloriar das vantagens : a idade – era três anos mais velho- e toda a atenção e liberdade que lhe davam.
Sabia desse futuro indesejável porque escutara a conversa da mãe com o pai, na extensão, ao telefone. “Ele vai se adaptar sim”, dizia o pai; “o Colégio é bem rígido mas muito bom, não vai ter tempo de pensar em saudade”, comentara. “Quem disse a meu pai que saudade é coisa que se pensa?”, raciocinava. Naquela noite ele chorou muito : dispunham de suas coisas como se ele não soubesse opinar, e teria que deixar seus amigos para faze-los em outro lugar- isto se tivesse sorte e encontrasse amigos. A sua mãe casaria de novo, com o Ítalo, que por um tempo tinha exigido que ele ficasse com o pai.
Todas essas preocupações ele deixara para atrás, porque as férias acabaram chegando e iria para a fazendo dos avós. Como a fazenda o fazia feliz! Pensou até em tentar descobrir se os avós sabiam dos planos dos pais, mas a questão era tão chata e lhe trazia tanta tristeza, que achou melhor não estragar suas férias. No fim das contas, adorava estar aí, brincar e ficar com todos na fazenda. E tinha o vinho, a uva, os empregados –todos gostavam dele- para quê ficar triste antes do tempo?
No dia seguinte, Quique correu para os galpões onde estavam os barris. Sabia muito bem onde ficava cada fase da produção. Primeiro era o esmagamento das uvas, o que mais gostava : o cheiro embriagador. O surgimento do mosto, “ que é composto pelas uvas prensadas e o suco, antes da fermentação...”como dizia seu avô quando levava alguém ou quando era visitado por alunos da universidade. Agora ele permaneceria no galpão do armazenamento, onde existiam os tonéis de carvalho guardando o vinho que iria embora. Ao lado, numa adega enorme, escura, muito fria, para a qual havia que descer uma escada e onde dava um certo medo de ir sozinho- encontravam-se as garrafas do vinho. Contra as paredes, metros e metros de caixas cheias de garrafas prontas para a venda. De vez em quando, apareciam caminhões que carregavam as caixas, após conversas com “vô Martins” ou com um dos funcionários (Manoel, ou Sérgio) orientados por ele.
Após o café da manhã na grande sala da casa, Quique correu para o galpão dos tonéis seguindo o grupo que conversava com seu avô sobre as mudanças que precisava fazer nos portões da entrada da fazenda, nos galpões, nos tanques de fermentação. Falava do controle de temperatura, da reciclagem das cascas que muito renderia e ajudaria a diminuir o lixo resultante da produção de vinho...Entre uma conversa e outra, ao entrarem no galpão dos barris, Quique sentiu-se maravilhado : imaginou –se viajando entre eles, atravessando mares, chegando a terras desconhecidas onde o que teria em comum seriam os barris do seu avô, e seu coração pareceu bater mais rápido, suas mãos gelaram e, como hipnotizado, percebeu que o grupo dos quatro homens ria de algo que ele não escutara, porque estava absorto em sua viagem que para ele, já começara. Depois voltaram à casa. “Já sei onde vou ficar até conseguir entrar no caminhão”, pensou Quique.
Pegou uma bolsa de couro e colocou nela seu pequeno aparelho de jogos portátil e as pilhas novas, o livro de vinhos que seu tio Alberto lhe dera no primeiro dia das férias, uns chinelos e a escova de dentes. Não esqueceu uma manta (embora estivesse quente, sabia que na Europa faria muito frio) e um casaco grosso de lã. Duas revistas de histórias em quadrinhos, uma lupa, umas notas de dez reais, uma caneta e um caderno. Também seu relógio e a máquina digital de fotografar que sua mãe havia recomendado especialmente. Umas camisetas, uma calça curta e uma comprida. E, numa caixa plástica, colocou dois grandes cachos de uva que avistou na cozinha. “Acho que é só”, pensou. Agora só restava esperar o dia e o momento em que os caminhões viessem para buscar os barris. Aproveitou para guardar dois rótulos das garrafas que levavam o nome da fazenda, “La Cantatta”, caso ele precisasse identificar alguma com estas. E depois deixou a bolsa no quarto em que dormia, entre a cama e o criado mudo. E de vez em quando, ia ver para certificar-se de que ninguém havia mexido em suas coisas.
No dia seguinte, os homens de terno não vieram todos. Veio apenas um, e acompanhavam-no outros que pareciam ser seus empregados, eram mais quatro. Carregaram as caixas num dos enormes caminhões, e os barris em mais dois caminhões também grandes que fechavam parecendo fortes, com as suas portas pesadas assustadoras de metal. Tudo aquilo fascinava Quique. Pensava como iria viajar bem, como seria maravilhoso chegar a um lugar tão diferente, e sentir mesmo assim que estava em casa, pois não se separaria dos barris e do vinho. Viajaria no último caminhão a sair.Depois, quem sabe, ligaria para seu avô. Sabia que ele não poderia achar ruim, já que lhe daria notícias do vinho. Dessa forma, imaginava, ficaria mais fácil falar sobre os planos dos seus pais e verificar a possibilidade de mudar a decisão deles. No fim das contas, seu avô sempre tivera uma atitude de amigo insuperável.
Não foi nada difícil entrar no caminhão de menor altura e ficar escondido entre as caixas de garrafas. Esperou o momento certo, quase ao final, quando as últimas estavam sendo colocadas. Arrumou um espaço para esticar as pernas, estendeu o “saco – de – dormir”, que também carregara consigo – era fácil de dobrar e ajudava muito nessas horas- e deitou-se dormindo tranquilamente ao som do motor do caminhão. “Boa viagem, Paulo Henrique”, pensou. E riu de felicidade.
O ônibus em que Tonico viajava precisou trocar o pneu. Parou para fazer a troca próximo a um posto de gasolina, e o menino reparou que o “tio” Luís dormia. Percebeu com surpresa que o menino da Banda, aquele músico que pelo jeito tinha quase a sua idade, descera do ônibus junto com ele. Aproximou-se, e timidamente, perguntou : “você toca bombo?” O menino consentiu com a cabeça. Em poucos minutos estavam rindo, sentados num banco de madeira, aguardando a chamada para retornar ao ônibus. Francisco José, como se chamava, contara a Tonico várias coisas: o nome de todos os integrantes do conjunto, como o pai lhe ensinara a tocar bombo, o que fazia apenas nas férias, substituindo outro integrante adulto. Tonico estava fascinado. Contou como vivia, da vontade de ser músico um dia, e que algum dia tocaria pífaro, viraria músico e viajaria como ele.
A pesar de seu encanto, Tonico teve o bom senso de não mencionar que o “tio Luis” estava aí para escrever sobre a Banda : era a promessa que fizera, e devia mantê-la. Portanto, apenas mencionou que viajava com “seu tio Luís” até Jaboatão para ver sua tia, e desconversou sobre o assunto. Subiram ao ônibus após um aperto de mãos, e voltaram a seus lugares. Tonico lembrou-se do lápis e do papel. Escreveu seu endereço no papel – com dificuldade e letra ruim, já que não era muito bom de escrita e o ônibus não ajudava, e voltou ao lugar onde estava Francisco, entregando-lhe o endereço. “Você pode me escrever?”, perguntou. “Sim, boa ideia, obrigado”!, respondeu o novo amigo. E uma hora e meia depois, estavam chegando a Jaboatão. Desceram todos, recolheram as bagagens, menos Tonico e o “tio Luís”, pois não tinham mais do que o que levavam a tira colo. Quase ao virar a esquina, Tonico, seguindo seu “novo tio”, virou-se e despediu-se com um gesto de adeus do seu amigo do bombo, que retribuiu timidamente. “Menino : você conhece aquele lá, o menino da banda?”, perguntou Luís, enfezado. “Não, apenas quando o ônibus parou eu e ele nos cumprimentamos”, respondeu. “Escute aqui : você vem comigo mas não esqueça do que lhe falei, certo? Não fique fazendo amizades que vão me comprometer, ouviu?” E Tonico que sabia obedecer, respondeu rapidamente : “Sim, Senhor. Eu não fiz nenhuma amizade não!” Já estava se arrependendo de ter dado o endereço ao José. Porém ninguém saberia- pensou- e prometeu-se a si mesmo tomar mais cuidado. “É que era demais, o próprio José Paulo do bombo, como não fazer amizade?”, pensou. Depois esqueceu o assunto. Chegaram a uma pensão perto do local onde a Banda tocaria, segundo o “tio”. “Vê se toma um banho e me espera aqui sem sair, certo? Vou ver os nossos assuntos para depois, quando a Banda for tocar. Não saia daqui, ouviu?”
Tonico respondia tudo com gestos de cabeça. Reparara que o tio Luís estava áspero. “Seria o cansaço da viagem...”, pensava. Estaria arrependido de tê-lo levado? Tomara que não, porque esta era até agora a maior aventura de sua vida, e nada deveria dar errado. O homem dissera na entrada da pensão que Tonico “era seu filho” e perguntara se era preciso ver a certidão, ao que a moça da pensão respondera que não era necessário, para alívio do menino, que ouvia apreensivo. Luís disse ao Tonico ainda no quarto que iria usar o telefone da esquina, que não demoraria mas precisava fazer isso porque seu celular estava sem bateria. “Não mexa em nada, tente dormir um pouco que eu já volto”. “Sim senhor”, respondeu Tonico. “Tem toalha e sabonete aí no banheiro, você...sabe usar o chuveiro, não?” “Sim claro”, disse o menino.
Alguma coisa havia mudado. Seu “novo tio” estava diferente. O que estaria acontecendo? Entrou no espaço do chuveiro e reparou que haviam marcas de sujeira no canto. Não estava aí para se chatear, portanto, só tomaria um banho e tentaria dormir, obedecendo o que lhe fora dito. O chuveiro permitia pouca água, e o menino tentava se ensaboar com um sabão de cor verde que estava solto na saboneteira da parede. Alguma coisa deixara um gosto amargo em sua garganta, algo que os adultos, provavelmente, chamavam de angústia. Pela primeira vez nesta aventura, estava com um pouco de medo e vontade de chorar. Só não sabia entender. Na esquina da frente o Luís telefonava. Não havia ninguém por perto, detalhe que ele reparara antes para certificar-se de que tudo sairia como planejado. “Escute, a Dona Maria conseguiu a encomenda do bolo. É um bolo pequeno, “saca”? Sim, sim”. “Estou levando o bolo eu mesmo”. “Oquei”, estarei com tudo pronto daqui a duas horas, combinado o mesmo lugar, procede isso?” “Perfeito”. Desligou o telefone e cruzou a rua. Entrou numa farmácia com certa familiaridade, olhou para um rapaz que atendia no balcão : “me vê o mesmo de sempre, quer a receita?”, perguntou. “Não, doutor, não é necessário”, disse o moço, sob o olhar indiferente de uma senhora que estava sendo atendida por outra funcionária. E trouxe-lhe duas ampolas, seringa e agulha. “Quero também aquele remédio para inalar”, disse o homem. “Agora mesmo, doutor”, respondeu o moço, voltando para dentro e regressando com um frasco e gazes. “É só pagar no caixa”. E de repente, o céu ficou escuro e caiu a maior chuva. Nada esperado. Luís aguardou que diminuísse uns minutos, tomando um café no bar ao lado, e depois, voltou a cruzar a rua em direção à pensão. Entrou no quarto. Tonico estava dormindo. Com cuidado para não acordá-lo, afastou a manga do braço esquerdo do menino. Retornou ao banheiro, preparou uma injeção. Voltou à cama e ensopou um lenço em éter que trouxera da farmácia. Abafou o nariz do Tonico, que esperneou até desmaiar. Injetou com tranquilidade na veia saliente do braço do garoto a substância preparada sem muito cuidado, e depois levantou-se, olhando com satisfação : tudo certo e conforme planejado. “A encomenda está preparada”, pensou, jogando a seringa e a agulha com os restos de ampola numa caixa de lenços velha que havia na mesinha de cabeceira, e guardando na sua bolsa. Voltou a telefonar, agora do seu celular : “tudo pronto, pode vir com o carro, ao mesmo lugar de sempre, irmão. Nunca foi tão fácil!- estou aguardando daqui a quinze minutos, vou acertar na recepção e inventar uma história. A encomenda tá dormindo”, e riu com seu interlocutor ao telefone.
Desceu as escadas, falou à moça da recepção que iria embora porque seu filho estava com febre e precisava de um médico. Acertou a diária que foi cobrada pela metade em consideração ao pouco tempo que permanecera, e depois subiu para pegar o menino, completamente desacordado. Pegou – o no colo, desceu com a sacola ao ombro e a mochila do garoto enganchada no braço. Um táxi chegou imediatamente. Entrou, deixando o garoto no banco de trás e sentando na frente, e o táxi partiu. “Ainda bem que tem pai que cuida do filho como se fosse mãe, não?” disse a moça da recepção ao seu colega, que limpava a estante das revistas. “E sim”, disse o moço. E ligou o rádio que tocava um baião.
Paulo Henrique viajava entre as caixas e suas pernas já começavam a reclamar. Suas costas doíam, embora não sentisse que houvesse buracos na estrada nem que o caminhão provocasse solavancos. Olhou o relógio. Fazia duas horas e dez minutos que o caminhão partira e ele dormira. Agora estava com fome. Procurou as uvas na sacola, e comeu-as. Estava ansioso por ver aonde iriam. Assim que parasse o caminhão, ele talvez dera um jeito de ir ao banheiro, ou de urinar no mato : estava apertado. Esquecera desse detalhe : não fizera antes de subir. Mas agora só lhe restava aguardar. Não poderia fazer outra coisa, a não ser ter paciência e aguardar. O tempo parecia não passar. Não contava com esta demora chata. Depois de alguns minutos que tinham cara de horas, resolveu esquecer o tempo. Pegou seu aparelho portátil e envolveu-se no jogo preferido, bombardeando aviões como nunca o fizera, até dormir novamente. Acabou deitando por cima da sacola, e como as caixas não permitiam muito lugar, acabou ficando protegido nas subidas e descidas do caminhão na estrada, sem saber. As caixas estavam presas por correias, o que dava segurança de que nenhuma cairia em cima dele. O sono durou mais uma hora e pouco, depois voltou a acordar. Não aguentava mais a vontade de urinar, e como nada acontecia a não ser continuar a rodar, resolveu que deveria tomar providencias. Pegou a caixa de plástico onde carregara as uvas. Tomou cuidado para não errar, e aliviou-se. Boa sensação de conforto. Depois fechou o recipiente com força e com cuidado, e colocou-o preso entre duas caixas e a correia, e pensou : “até que o caminhão pare”. Depois jogaria fora com caixa e tudo. Era terrível a sensação de não fazer ideia de onde se encontrava. Não havia janela, não havia como sair daí sem alertar o motorista e quem estivesse na frente. Tinha mesmo que esperar. Pegou as revistas em quadrinhos. Eram velhas, já as conhecia de cor. Mesmo assim, prestou atenção nos detalhes dos desenhos que nunca antes reparara. As cores da capa do super herói, a maneira como o desenhista fizera a boca e as mãos, dependendo do acontecido...as casas da cidade os prédios por onde o herói procurava os bandidos...Voltou ao jogo, agora de futebol. De repente, o caminhão pareceu diminuir a marcha. Diminuiu mais, até parar. Ele não acreditava : estava feliz por isso. Na verdade poderia descer. Mesmo escondendo-se. Com pesar, escutou a voz de um dos homens e de mais dois depois, todos afastando-se do caminhão. “Claro”, pensou. “Como não pensei nisso? Eles não vão abrir aqui, e eu não tenho como abrir por dentro!” Ficou chateado com a sua falta de bom senso : nunca sairia daí até chegar ao destino! Parou um segundo quase com vontade de chorar, mas...teve uma ideia que considerou brilhante. Desamarrou uma das caixas próximas à porta, e com isso, três caixas ficavam soltas no caminhão. Aguardou pacientemente até o caminhão retomar a marcha, o que durou uns vinte minutos. Os homens voltaram e deram partida aos caminhões. No caminhão em que estava o menino, depois de aproximadamente meia hora de estrada, ao descer e voltar a subir na irregularidade da pista, ouviu-se um barulho acentuado de caixas soltas, na traseira do veículo. O motorista –o Saldanha- e o que o acompanhava- o Nunes- assustaram-se. “Logo à frente tem um posto”, disse Nunes. “Melhor parar agora”, disse o Saldanha. “Não, vá devagar até o posto, é perigoso parar aqui, no meio da estrada, sei que tem um posto perto, logo ali”. E assim fizeram. Ao abrir a porta da traseira do caminhão, o Saldanha viu que de uma das caixas saía vinho. “Que coisa, quebrou uma garrafa, que falta de sorte”, disse. “Vamos ter que dar um jeito nisto”. E percebeu que teriam de retirar a caixa e limpar, além de abri-la para retirar a garrafa quebrada. Dessa forma, ao entrar na lanchonete do posto à procura de alguém que os ajudasse emprestando uma pá para retirar os vidros da caixa, e um pano para limpar, os homens deixaram a porta aberta e rapidamente, Quique pulou sem ser visto- correndo para se esconder no banheiro que avistara ao lado do posto. Seu coração batia muito, muito rápido. Aquilo era muito emocionante. “Não entendi como estas caixas estavam soltas e só agora percebemos”, disse Nunes. “Eu tenho certeza de que amarrei tudo muito bem”, acrescentou. “Sim, estou vendo”, disse Saldanha rindo. “Estou certo disso”, retrucou Nunes. “Não faz sentido isto, para soltar tem que alguém abrir o feche, veja só...””Você está dizendo que alguém, aqui atrás, desamarrou? Quem seria, um fantasma?” expressou Saldanha às gargalhadas. “Sei não, mas que é estranho é...” E os dois entraram no caminhão, após jogar os cacos na lixeira e devolver a pá ao frentista, agradecendo. Deram partida e saíram do posto, retomando a estrada. Paulo Henrique, assustado, viu o caminhão indo embora, e ele, saindo do banheiro, espantado, pensou o que seria dele agora. Pensou também que a sua urina havia ficado no caminhão, mas que isso agora não importava. Atrasara-se! Não devia ter deixado que isso acontecesse.
Não sabia onde estava. Lavou as mãos na pia do posto, entrou na lanchonete e, sem querer, começou a chorar.
“O que houve”, perguntou-lhe uma mulher de cabelos pintados de ruivo, que usava óculos escuros que não permitiam conhecer a cor de seus olhos. Sentou-se à mesa com ele e começou uma conversa tranquila que o ajudou a parar de chorar. “Chame-me de Áurea, é o meu nome certo? Pode confiar, “lindinho”. Vou ajudar você. Fique tranquilo.” Quique disse seu apelido à Áurea, e pensou como ele se chateava quando o chamavam por diminutivos. “Lindinho”, “gatinho”, “queridinho”...eram palavras que, como bem diz o seu nome em gramática, “diminuem”. E ele não era nenhum “pequenino”. Mas enfim, a nova amiga estava ajudando-o, e de certa forma nesse momento ele precisava de alguém pois sozinho não via saída para sua situação. A sua vontade ao provocar aquilo era apenas sair para esticar as pernas, ir ao banheiro, comprar alguma comida. Apenas isso. Mas nunca imaginou que os homens seriam tão rápidos. E a Áurea parecia ser divertida. “Mas não posso falar tudo”, pensou. “Não posso abandonar meus planos assim tão rapidamente, terei que pensar em algo. Não vou dizer a ela que meu avô é dono da indústria de vinhos mais conhecida da região...” Ele pensava acertadamente que o tempo que havia percorrido no caminhão não era suficiente para sair da região. Desta forma, se ele falasse de onde era, quem era seu avô, ficaria mais fácil entregá-lo de volta a casa. E seus planos não estavam totalmente perdidos. Assim, foi com Áurea até o hotel onde ela se hospedava, já que lhe oferecera um telefone em seu quarto para ligar para casa. Quique pensou em fingir que falava com alguém da família. O hotel ficava perto do posto. No caminho conversaram e Quique inventou ser o filho do caminhoneiro –coisa que Áurea não acreditou- e disse-lhe que sempre viajara com o pai nas férias quando ele ia entregar vinhos ou mercadorias em outro estado. “Então você mora por perto, pode ligar e conversar com a sua mãe ou alguém em casa”, disse-lhe a mulher. “Não : moro apenas com meu pai. Por isso eu estava chorando, porque desci do caminhão sem falar ao meu pai e ele acha que estou dormindo atrás”, explicou Quique. “ Mas qual era o caminhão?”, perguntou Áurea. “Você não viu? Era o maior, da firma onde meu pai trabalha...”, completou...
Áurea disse que não havia reparado. Chegaram ao hotel, um quarto escuríssimo e bastante desarrumado, com uma cama pequena e precária, cheio de revistas, pontas de cigarro em todos os lugares possíveis, jornais espalhados. Havia um telefone na mesinha ao lado da cama. “Pode ligar, fofinho”, disse Áurea. Quique ligou para o telefone do escritório do avô : “vou ligar para o trabalho do meu pai”, explicou. “Faça o que precisar. Eu vou até a recepção e volto logo. Não saia daqui, certo?” “Certo”, disse o menino. E esperou a mulher sair para desligar o telefone sem falar com ninguém.
Olhou a cama onde estava sentado. Não teria coragem de deitar, já que parecia que alguém havia dormido nela a noite toda, mas encostou no respaldo da cabeceira e ficou pensando no que havia acontecido. Começou a sentir um pouco de receio do que havia feito, mas a sensação de vazio no estômago e de fome era muito maior do que o seu receio, e ficou imaginando seus avôs tomando o café da manhã em casa. O sono o atingiu e ele dormiu sentado, com a cabeça inclinada no apoio da cama.
A mulher entrou no quarto acompanhada de um homem. “Acho melhor aproveitar que dormiu e levá-lo no carro mesmo”, disse o homem. “Não, ele vai acordar. Deixe comigo que assim que der faço com que tome um suco de laranja, e coloco o remédio. Aí é tira e queda”. “Quer que avise o Castelhano?” , perguntou o homem.
“Espere no carro, mesmo que eu demore. Assim que sairmos com o moleque a gente liga. É mais seguro”, respondeu a mulher. E o homem saiu do quarto.
Duas horas depois Quique, absolutamente dopado com tranquilizante que a mulher havia colocado num suco que o fizera tomar, estava a caminho de uma pista clandestina de de aviões, de onde seria levado a um porto. A mulher e o homem o deixariam com “o Chaminé”, como era chamado o segurança de uma turma de criminosos que levavam crianças sequestradas para fora do país. Áurea, “Palito”- como apelidavam o companheiro dela que ajudara a carregar Quique- e “Chaminé”(que fumava durante o dia todo) eram peças – chave das manobras realizadas com crianças e adolescentes para levá-las para outros países. De maneira absolutamente fria e calculista, pois ganhavam muito dinheiro com crimes horrendos como estes, os três comercializavam pessoas para as mais diversas finalidades. O país para onde Quique iria seria a Espanha. “Creio que este aqui será usado para fins científicos”, disse Áurea ao Chaminé quando chegaram. “Eu não quero saber. Pode ser para o que for, eu não “tô vendo”, tanto faz. Quem mandou se meter em encrenca? Se não tivessem facilitado o moleque não “taria” aqui”, disse Chaminé. “Bom , eu só falei porque creio que quem vem buscar é “o Doutor”, já que acho que querem tirar um rim para vender. Pelo menos ele tem dois, pode doar um e ficar vivo. Menos pior!”, disse Áurea, rindo. “E certamente render umas boas centenas de mil dólares”, acrescentou Chaminé terminando de arrumar o menino no avião de pequeno porte no qual voaria com Quique até o litoral. “Você acha que o “Doutor” vai vir em pessoa buscar o “mauricinho” aqui?” – perguntou à Áurea o “Palito”, que acompanhava a mulher. “Sim, acho que para a viagem de navio, “o Doutor” vem em pessoa, ele viaja junto. Tem muitas coisas para cuidar em relação à saúde do menino. De avião, tirar do país um “gurí” sem documentos é bem mais difícil Além do mais eles já tem um esquema perfeito com pessoas no porto. Não vai dar nada errado.” “Nunca deu!”, disse Chaminé. E entrou no jato colocando-o em marcha e preparando-se para o voo.
À noite de um dia após os primeiros acontecimentos, no porto onde partem navios que cruzam o oceano em direção ao continente europeu, três homens conversavam.
“Espero que cheguem a tempo, porque não posso esperar mais do que uma hora além do prazo estabelecido. O navio sai às vinte horas. O horário combinado foi dezenove”, disse o “Doutor”.
Usava um sobretudo castigado pelo tempo, uma gravata mal amarrada e uma camisa branca por baixo que parecia apertada. Era obeso e fumava cachimbo como se não mais pudesse sobreviver sem ele. “Eles confirmaram, Doutor?”, perguntou o “Raposa”, homem baixinho e troncudo que parecia atleta , com cara de raposa.
“Um dos moleques está a caminho, mas a outra encomenda tá enrolada. Pelo menos até agora ninguém ligou, mas tudo bem.Ainda temos tempo”. Disse o homem, mordendo seu cachimbo e, após dar uma tragada, soltando a impertinente fumaça para o ar. E acrescentou : “eu viajarei na classe normal, enquanto você vai para a parte do pessoal da cozinha, onde ficam os funcionários do navio. É um lugar tranquilo e confortável, nas divisórias você pode dormir à vontade, eu fico no camarim como lhe falei como passageiro normal, para não levantar suspeitas, mas você tem que ficar de olho nas “encomendas”, entendeu? E mais : daqui por diante, “encomendas” é como você vai falar deles, certo?”, disse o “Doutor” abocanhando seu cachimbo. Às vezes trocava o cachimbo por charutos, mas não quando viajava. Era brasileiro, mas há muitos anos residia na Europa.
Depois que o comércio de encomendas humanas ficara “certo”, nunca mais tivera problemas de dinheiro, e como não tinha familiares no Brasil, havia partido para o “o lado de lá”, como se referia ao continente europeu. Sempre que fazia as viagens “para negócios”, trazia consigo um dos ajudantes da máfia criminosa, da qual era um dos “cérebros”, como apelidavam-se os mentores. A rede existia há aproximadamente quinze anos, mas não mantinha atividades constantes ou regulares, para não levantar suspeitas. Quando as coisas ficavam muito em evidência, ou com risco de ser descoberto pelas instituições internacionais, eles “saíam de cena” por uns tempos. Depois voltavam a atacar.
O “Doutor” não era médico ou doutor em alguma área do conhecimento. Ele tinha trabalhado uns anos em hospitais como técnico que cuidava de alguns equipamentos cirúrgicos, onde aprendera muito sobre cirurgias. Mas também entendia de mulheres bonitas, desamparadas e de prostituição. Entendia de quase todas as circunstâncias que envolvem seres humanos desesperados, abandonados e em busca de recursos para sobreviver, e não tinha qualquer sinal ou sombra de escrúpulos. Estava rico graças a suas práticas criminosas, e fazia tudo para não aparentar o que realmente possuía. Vivia sozinho em uma mansão no interior da França, porém só estava lá um ou dois meses do ano, “nas férias” como dizia, quando procurava companhias femininas e realizava noites de jogo clandestino onde compareciam malandros de sua classe. Ninguém conhecia seu passado, como aliás nenhum dos dez grandes criadores da turma criminosa também contava suas histórias de vida pessoal. Quanto menos misturassem as coisas, mais fácil seria escapar e se desligar para negar a organização. Uma coisa era certa : havia muitos “funcionários” de “confiança” espalhados por vários países e em vários continentes. Com o Brasil, a quadrilha espanhola mantinha relações "fiéis” através do “Doutor”, que agora, sem perder a paciência, já sabia onde atracara o navio. Visitara seu camarim para voltar a descer avisando o vigia (que pedia os “tickets” antes do embarque) que “subiria com seus dois sobrinhos, que provavelmente estariam no maior sono”, “pelo que me avisaram ao celular”,...assim se expressou, e o “vigia”, que era alguém com quem ele sempre mantinha contatos e a quem dava gordas gorjetas nas “operações”, consentira com a cabeça, entendendo e dando a entender que poderia o “Doutor” embarcar com o pacote ou as pessoas que bem entendesse- e ninguém lhe perguntaria nada.
O “Raposa” viajava pela primeira vez para a Europa ; e era sua primeira viagem em companhia do “Doutor”. Era peça fundamental no crime. Antes era o João: por quatro anos consecutivos. Mas o João agora estava preso. Cometera um roubo de bancos na Colombia e ficara preso, sabe-se lá por quanto tempo. Nada demais : as “peças pequenas”, como eram chamados os indivíduos que desempenhavam tarefas como as da “Raposa”, como o “Palito”, a Áurea e outros (sim, como o “tio” Luís também) eram facilmente substituídos. Muitos não sabiam a quem serviam e para quê, mas nem perguntavam : se perguntassem muito, já haviam sido avisados sobre os riscos de perguntar além do necessário. Áurea era talvez uma mulher de “sorte”, porque nela confiavam muito. Todos ganhavam muito desse dinheiro imundo, e certamente os contatos de gente nova quando necessário, para trabalhar, incluíam alguém de confiança que pertencia à máfia. A espera no cais estava irritando o “Raposa”, e o “Doutor” mandou-o tomar um café nas ruas próximas ao porto, já que ainda faltavam mais de duas horas para o navio sair. Assim fez o homem, que saiu para procurar algo para comer. Além de esfomeado, o “Raposa” estava armado.
“Como “não sabem onde o Quique está”? Eu nunca imaginaria que ficaria tão descuidado, pai!”. O pai de Paulo Henrique gritava ao telefone. Rapidamente a mãe do menino também foi informada, e entre a dúvida de ficar impossibilitada de casar e ter que ir para Bento Gonçalves (cidadezinha primitiva que realmente não respeitava) ou deixar para lá e acabar acreditando numa travessura do seu filho, preferiu a primeira opção. Iria para Bento Gonçalves pois a afirmação do avô parecia ser preocupante. Desta vez ele não estava de brincadeira. “Aonde vocês o deixaram ir desta vez? Sabem como ele é, inventor das mais malucas histórias e aventuras. Como foram tirar os olhos dele?”, disse a mãe ao chegar à fazenda.
Também veio o pai : fazia dois dias que procuravam desesperadamente o menino. A polícia local já havia sido informada, mas ninguém na fazenda entendia o acontecido. A avó estava sob tranquilizantes. “Nada deve haver acontecido, eu não acredito que meu filho esteja em apuros”, dizia o pai, tentando manter a calma das pessoas à sua volta.
O aviso à polícia foi dado assim que o pai de Paulo Henrique chegou à fazenda. As buscas pelas redondezas começaram, e toda a família, inclusive os empregados que trabalhavam há muitos anos na fazenda, entristecidos com o acontecimento, procuravam o menino por todos os lugares imagináveis. Chegaram a percorrer o lugar “dos poços”, como era chamada uma área próxima das videiras onde o pessoal pegava água para atividades longe da casa. Eram poços antigos que nem sempre eram usados, e que em certas épocas do ano secavam. Alguns trabalhadores sabiam que Quique gostava de brincar no lugar, gritando nos poços para escutar o eco. Pensaram na possibilidade dele ter caído, e a própria polícia acompanhou-os para procurar. Como nada havia sido encontrado em dois dias, a polícia montou um plantão de emergência que incluía vigilância por escuta, com consentimento do avô, da linha telefónica por possibilidade de acesso de seqüestradores. A mãe de Paulo Henrique – agora ciente da falta de seu filho- negava-se a comer e ficava a maior parte do tempo num dos quartos da casa, também sob efeito de tranquilizantes à noite. O pai estava ansioso e não parava de sair e entrar da casa, e desaparecia a cada hora ou hora e meia para a cidade próxima onde ficava à procura de alguma pista. O avô – choroso e deprimido- voltara a fumar e a usar o seu velho radio para comunicações com radio - amadores, pois pertencia a um clube que tinha participantes do mundo inteiro. Mas nada disso parecia adiantar. A tristeza da avó e as suas rezas constantes acompanhadas de velas no quarto do Quique e pela casa toda era ameaça aos acidentes com fogo, mas uma das empregadas, cuidadosa e lúcida –chamada por Dona Célia de Betina, ia atrás e após uns minutos, apagava as velas. Por conta própria. A tristeza invadiu a casa e a fazenda. Nada seria suficiente para revigorar a todos; a não ser a volta de Paulo Henrique. A polícia estava quase considerando que acharia o corpo do Paulo Henrique. Mas em casa obviamente, ninguém pensava que esse seria o fim, todos, sem excepção, acreditavam que o Paulo Henrique chegaria ou alguém daria uma notícia sobre seu paradeiro. Tudo tornava-se insuportável para a mãe e o pai do Quique. A avó continuava a acender velas, rezar e pedir desculpas por não ter visto nada do que acontecera com o neto.
O jornal da cidade só falava nisso, e pela primeira vez em seus dez anos de existência, batia recorde de vendas...
Em Caruaru a “Banda dos Seis” fazia sucesso. Tanto, que um empresário jovem que estava conhecendo a cidade e o Brasil, proveniente da Espanha, encantado com o conjunto musical, resolveu fazer uma oferta : ofereceu uma quantia mais do que razoável para que a Banda fizesse uma gira pelo país espanhol divulgando o som diferente e “espectacular”, “exótico”, como dizia o moço. Mauricio Mariño, como se chamava, fez questão de contratar um advogado e fazer tudo certo para assinar contrato com a Banda. Francisco José, o “Chiquinho”, estava feliz com os novos acontecimentos. Eram ele e seu pai fazendo sucesso no mundo- e certamente isto seria muito bom para a sua família, composta de seis irmãos com ele, e sua mãe. O senhor Maurício pagava tudo por enquanto, as refeições, os hotéis do grupo, e até resolveu adiantar uma comissão à Banda.
O avião acabou demorando uma hora além do horário esperado para sair. Mas finalmente, estavam a bordo. Chiquinho só sentia pena de não poder levar seus irmãos, sua mãe, seus amigos. Mas assim que o medo da decolagem passou, ele pensou : “um dia ainda teremos dinheiro para trazer todos conosco...”- e ficou hipnotizado com as nuvens abaixo do avião, brancas e imitando algodão em flocos. Não teve medo de que o avião caísse, não apenas por não pensar nisso ou pelo entusiasmo da viagem e dos últimos acontecimentos, mas porque não havia de forma alguma lugar em sua alegria para pensamentos desta natureza. Nem para o restante do grupo, que também voava pela primeira vez. Depois de algumas horas, Francisco adormeceu.
A mãe de Tonico, no dia seguinte à saída do seu filho no ônibus, ficara realmente chateada com seu filho. Já haviam descoberto que tomara o ônibus para a cidade, em companhia de um homem que chamava-se “Luís”- um “tio” que ela sabia que não existia. O Delegado da cidade trouxe a informação à Dona Ernestina, que não cansava de repetir : “eu mato este moleque quando aparecer, ele vai ver o que é bom”... Sair num ônibus para outra cidade, em companhia de um adulto desconhecido, sem avisá-la? O que estava passando pela cabeça do menino?
Inicialmente, tanto a mãe de Tonico quanto algumas pessoas conhecidas, o Delegado inclusive, pensaram numa travessura do moleque, que ultrapassara sem perceber os limites da coerência. “Coisa de moleque levado”, dizia o Delegado. Já havia avisado a Jaboatão, onde sabia que chegara o ônibus. Agora, segundo ele, era só aguardar. Mais tarde ou mais cedo alguém veria o garoto e ele seria localizado. A Dona Ernestina, agora angustiadíssima com a situação acabou procurando a professora Mirtes, que dava aulas na escola frequentada por Tonico. Mirtes, mulher esclarecida e bem informada, não descansou a partir da notícia. Fez o delegado prometer que enviaria comunicados a todas as regionais próximas avisando do sumiço do menino, com seus dados e descrição : “pode ter sido levado para longe de propósito, pode ter sido sequestrado”, dizia em voz alta no primeiro dia em que frequentaram juntas a delegacia. O Delegado, de certa forma chateado com a insistência da professora, acabou cedendo aos seus pedidos. “Antes que ela comece a me ameaçar”, dizia ao colega de trabalho. “Sabe como são as mulheres quando enfiam algo na cabeça. Elas acham que o menino foi roubado, então...melhor deixá-las tranquilas, porque senão nós não trabalharemos mais. Não acredito que seja outra coisa a não ser travessura de menino!”, dizia o Delegado. Mirtes conhecia as histórias reais de algumas pessoas que haviam retornado de desaparecimento. Lera muito a respeito na internet. Algumas retornaram, por sorte, vivas. O tráfico de crianças e adolescentes, de mulheres, enfim : de pessoas, no mundo todo é assustador (pensava) e “se fosse um filho meu estaria enlouquecendo”, pensava dia e noite imaginando como estaria Ernestina naquelas horas.
O navio saiu na manhã seguinte ao esperado, e os dois garotos, impregnados de tranquilizantes, dormiam num camarote na parte do navio destinada aos funcionários. Ninguém os via. Dopados, não acordavam, mas mantinham-se nutridos com os recursos do “Doutor”, que sabia como mantê-los por via injetável. “Não vai dar bode, doutor? Manter estes dois pirralhos aqui, escondidos?” Perguntara o “Raposa” ao “Doutor”. “Você fique frio e faça seu trabalho de vigiar, que eu faço o resto. Sei o que estou fazendo”.
Dessa maneira chegaram à Espanha. Entre umas e outras, driblando as fiscalizações e com ajuda de outros membros da quadrilha que sempre atuavam dessa forma, os meninos chegaram a uma mansão misteriosa distante da cidade, e foram colocados em quartos de dois metros por dois metros, onde só havia uma cama. Dormiam ainda, quando o “Doutor” foi tratar das questões com outros criminosos que resolveriam o destino dos meninos.
Após controles de pressão arterial, temperatura e outros padrões, feito por –agora sim- um médico de verdade, foi dado “sinal verde”; pois tinham sido devidamente “conservados”. Era rotineiro deixá-los acordar sozinhos nesses quartos individuais onde nada havia para fazer, a não ser bater na porta e se desesperar para tentar entender o que teria acontecido. Mal sabia a pessoa que acordasse, onde e como tinha ido parar. Depois as coisas prosseguiam, até seu destino estar criminosamente planejado, e; sem alternativa ou possibilidade, o ser que ali parasse seria obrigado a realizar o que para ele (ou ela) fosse planejado. Sob risco, inclusive, de morrer – caso resistisse. Crianças eram, por um lado, facilmente enganadas, mas , por outro lado, poderiam tornar-se mais difíceis. Por isso, às vezes deixavam-nas por dias gritando e batendo na porta, até a exaustão. Alimentos eram deixados para que comessem em momentos de sono, sem que eles vissem como haviam sido colocados no quarto. Tonico dormia, os soníferos haviam sido pesados. Paulo Henrique, o Quique, apresentara uma alteração cardíaca com a medicação em excesso, mas já havia sido controlada pelo médico, que o mantinha sedado ainda. A agitação poderia colocar em risco o menino. Depois, o médico passou na sala de reuniões dos “empresários”, como eram chamados, e pegou um cheque. Conferiu o total, dando uma pequena risadinha e dobrando o cheque para guardar no bolso do paletó. Pegou sua maleta e dirigiu-se à porta. Uma música parecida com hino de clube de futebol, começou a tocar. E os homens sentaram-se ao redor da mesa de madeira maciça. Dois fumavam, entre eles o “Doutor”, agora com os cabelos molhados após um banho, e vestido com um conjunto de praticar esportes. Estava satisfeito: as coisas tinham dado certo.
Na fazenda “La Cantatta” a lua enorme e cheia impunha-se no céu. Dona Célia e seu marido, caminhando pelo quintal aberto, ao redor da casa, conversavam com lágrimas nos olhos sobre o neto. Nada amenizava a dor. Seus pais, cada um num quarto, fechados para sabe-se -lá o quê, não queriam falar um com outro nem com ninguém. Para eles, que sentiam uma grande culpa por não Ter ficado mais atentos ao Quique, a vida não parecia Ter nada a ver com a felicidade dos anos anteriores, que muito haviam aproveitado. Somente a volta de Quique (um milagre- se perguntavam) poderia devolver-lhes a paz. Sabiam da hipnose que a fabricação do vinho causava em Quique. Ele ficava horas percorrendo tudo que tivesse a ver com uvas e vinhos. Mas o que isso poderia ter a ver com o sumiço do menino? Também haviam chegado a suspeitar que poderia Ter saído com o caminhão último que fizera a grande compra. Mas na verdade, como? O avô estava por perto quando saíram. De repente, uma ideia surpreendeu o avô : na hora em que os caminhões ficaram parados aguardando, ninguém revistou a traseira dos “monstros”. Antes das caixas serem todas colocadas, os homens haviam entrado na casa para tomar um café, e depois foram embora. Agora, que todas as possibilidades de achar o Quique na fazendo estavam esgotadas, de certo caberia fazer esta outra hipótese: a saída nos caminhões com as caixas de vinho. Rapidamente ligaram à polícia, e uma investigadora veio até a casa fazer um relatório. Novamente repassaram os últimos momentos em que cada um conversara com o menino, e as coisas dele que faltavam. Era obvio que alguma coisa havia feito o menino sair da casa, e provavelmente por vontade própria.
As conversas com a mãe e o pai no dia seguinte, levaram todos à polícia outra vez: a situação da mãe, que iria casar, o fato de quererem que o pai levasse a criança para morar em outra cidade...tudo isso que tinha sido de certa forma omitido, agora estava sendo colocado ao delegado, e acrescentado como possível motivo da fuga. “Eu sinto que meu filho ainda está vivo”, disse a mãe, saindo da delegacia e chorando ao lado do seu ex - marido, que num ar de tristeza e pesar, oferecia-lhe um lenço.
O pai de Quique resolveu contratar um investigador particular, e sem comunicar à polícia, foi embora à cidade para localizar profissional de confiança de seus amigos, executivos de grandes empresas. “Nenhum pedido de resgate até agora?”, perguntou o delegado aos avós. “Não, nada”, disse o avô. Convidaram o delegado com uma bebida, e sentaram-se à varanda para receber as últimas notícias das investigações. O relato do caminhão sobre “a viagem das garrafas” veio até a delegacia, e o delegado recebeu as informações sobre o episódio da quebra da garrafa dentro da caixa, caixa esta que, segundo o motorista “tinha sido muito bem amarrada” com as correntes de segurança. Também, misteriosamente, “uma caixa de plástico havia aparecido no caminhão, com...adivinhem...urina!”, disse o delegado aos avós. As coisas começavam a ficar mais próximas, se não mais claras, mais intrigantes- e, talvez, com alguma possibilidade de esclarecimento...
Na mansão em que estavam os meninos, rodeada de árvores e a muitos quilómetros da cidade, a chuva deixava o ambiente húmido e frio. Maria Ester, moça de pequena estatura e pele morena, nascida em algum país da América Central e portanto, conhecedora do idioma espanhol, que trabalhava na mansão há aproximadamente uns sete anos, já não mais suportava (como vários dos outros empregados que aí havia). Havia sido – segundo a versão do “Doutor” e outros patrões, socorrida por eles após a morte súbita do seu pai, com quem havia ido para a Espanha em busca de trabalho- trabalho este que tinha sido combinado com estes patrões. Inicialmente, disseram que movimentavam grandes somas de dinheiro pois lidavam com exportações de vinhos caros, assim como de outras bebidas das quais não eram produtores, mas revendedores. Maria Ester, como vários dos amigos que fizera trabalhando na casa (alguns de seus amigos eram Alícia, o senhor John, Alberto e dona Raimundinha, além de Raúl e Pedrita ) não acreditavam mais que essa versão dos patrões fosse verdade> Mesmo assim: que alternativa sobrava-lhe? Não via futuro, nem documentos ela tinha além da certidão de nascimento, que guardava consigo desde os dezesseis anos, e que, agora com vinte e três quase, era a parte mais importante dos seus pertences. Pensava em –quem sabe?- algum dia poder fazer sua identidade como turista na Espanha, ela ouvira na televisão que isso era possível após tantos anos de trabalho no território. Comprovaria...seus pensamentos paravam por aí : em quem ela poderia confiar? Nos patrões? Cada um mais esquisito que outro. Traziam mulheres à casa. Não lhes era (a eles, empregados) possível ver as pessoas que ficavam nos quartos. Ao levar comida, não podiam olhar o rosto de nenhum, já que o prato era colocado por uma abertura mínima perto do chào, embora de boa qualidade e bem feita, a refeição só podia entrar nos quartos sem abrir a porta...tudo para evitar contato com as pessoas que “aí se hospedavam”, diziam.
As pessoas recebiam o nome de “huéspedes”, o que em português a Raimundinha mencionava como “hóspedes” .Dona Raimunda era sua grande amiga. Pareciam mãe e filha, trocando confissões, medos e dúvidas sobre os destinos de todos aí dentro. “Quem entra aqui, dificilmente sai, menina. E se sai, nem queira saber para onde vai. Nunca saberemos”, dizia a mulher em português, língua que a própria Maria Ester já falava, pois aprendera com a amiga, que também sabia e entendia o espanhol de Ester. Quanto aos rapazes, todos eram espanhóis, ou descendentes, até mesmo o John, que tinha esse nome porque os pais gostavam de nomes em inglês, mas era espanhol e muito bravo.Ester estava chateada. Vira o “Doutor” entrar com os compinches trazendo dois meninos, dormindo. Ela sabia que não era boa coisa. Espiara através da janela do escritório de um dos “empresários”, pois haviam-na esquecido lá: nunca iniciavam uma reunião sem certificar-se de que estavam absolutamente sozinhos, mas naquela noite ela estava limpando a “oficina” de um deles, e esqueceram-na lá. Em outras ocasiões, pediam logo para se retirar, e todos obedeciam, rapidamente. Uma parte da mansão não se comunicava com a outra. Nos aposentos dos empregados, que eram mais de trinta –fora os empregados de segurança que somavam uns vinte e ficavam dentro da ala das oficinas e dos quartos dos hóspedes, nada ouvia-se ou via-se. Mas muitos deles já haviam, acidentalmente, visto ou escutado coisas horríveis. Dona Raimundinha já havia sido esquecida e presenciara, atrás de um cortinado, escondida e com medo de ser vista, à surra de uma bela mulher que teimava dizendo que não queria ir ao encontro de alguém. Havia escutado que a ameaçavam com “nunca mais poder voltar a sua terra”, e falava portugu6es...Depois a tiraram daí, e a Dona Raimunda aproveitou para sair da área proibida, sem nunca mais Ter visto a moça. Muito rezou nos dias seguintes, mas, para dizer a verdade, ela não acreditava que reza alguma amolecesse o coração daqueles pérfidos.
Ester contara a Raimunda dos garotos. “Garotos muito bonitos, deviam ter uns dez anos. Estavam dormidos, certamente dopados”, disse Ester.
Escutara também a conversa do Doutor com o “Mula”, como apelidavam um deles, dizendo que viriam buscar o garoto loiro dai a três dias, e que havia que mant6e-lo quieto. Ester contou à Raimunda: “falavam algo assim como que iam operá-lo”, e isso dava-lhes náusea e até, em certas ocasiões, faziam Ester vomitar. “Eu acho que eles vendem gente”, disse uma vez Ester a Raimunda, que tapou-lhe a boca com a mão, num gesto de que não deixasse ninguém ouvir o que dissera, mas consentiu com a cabeça. “É o horror dos horrores”, disse a mulher. Segurança era o que não faltava na casa. Às vezes eles ligavam as c6ameras, só para se certificar de que ninguém perambulava ou revistava as coisas. Eles, empregados, não sabiam quem conduzia a fiscalização das câmeras. Mas sabiam de quase todos os locais onde existiam – o que ajudava a não ser pego com qualquer “anormalidade”, como beliscar as nozes e castanhas deixadas depois de um bate-papo com outros “negociadores”.
Tonico acordara e não entendera. Não entendia o que estava fazendo aí. Quem o deixara assim, tão cansado? Algo estava errado. Aos poucos lembrou-se do tio Luís, do banho que tomara naquele quarto...do hotel...Dos músicos! Finalmente lembrou-se de que seu objetivo era ir atrás dos músicos! Como havia ido parar num lugar totalmente fechado, onde já cansado de bater na porta e chamar pelo tio Luís, desistira e começara a chorar? “Mãe”, dizia Tonico. “Minha mãezinha”, e repetia sem parar o nome de sua mãe querida. Até cansar, até dormir e acordar no mesmo lugar, até ver um prato com comida perto da porta e devorá-lo, porque estava morrendo de fome. Até tentar fazer uma reza mas não conseguir, até pedir “alguém me ouve”, gritando e batendo na porta de novo.
Estava frágil e solitário como imaginava que um soldado ficava na guerra. Lembrava-se da casa, de seus irmãos, ignorava quantos dias fazia que estava longe deles, de sua mãe, da cidade. Tinha um medo absurdo que ia aumentando, misturando-se a uma raiva estranha capaz de bater em alguém que ousasse entrar naquele quarto. Porque certamente, esse alguém tinha a ver com ele ir parar por aí. Naquela noite ele perdera o sono. Pensava no som dos pífaros e dos bombos de sua terra. Aquilo o acalmava e o deixava mais alegre. Chorava, depois, pensando em como ele havia confiado numa pessoa daquelas. “Como achei que aquele era um amigo que ia me ajudar a ter uma flauta e tocar?”, perguntava-se. E sentia-se vivo pensando que, um dia, mesmo sem saber como- seria músico e tocaria numa banda como a do menino Francisco. E de novo ia até a porta. Só que agora não batia nem gritava : tentava ouvir algo do outro lado. Mas parecia inútil. Quique estava sob efeito de medicações pesadas. Dormia no outro quarto, porém às vezes era acordado mas encontrava-se tão dopado, que não reagia a qualquer estímulo. Assim mantiveram-no por dias.
O Doutor que não era doutor, descobrira que, no centro da cidade, ia se apresentar uma Banda de pífaros e bombos, de Caruaru, do Brasil. Sua terra, caramba- comentara com dois dos empresários. “Vou assistir”, e convidou o colega, que recusou “devido a outros compromissos”. “Vão ficar tocando no “Club de los Pájaros”, durante uns cinco dias, e não posso perder. Vou me lembrar um pouco da minha época de criança”. Disse comentando com o amigo. Ester escutava (desta vez não precisava abandonar o lugar, nem se esconder, porque não havia reunião e “nada estava acontecendo”, apenas ela continuava limpando normalmente mas, é claro : seus ouvidos eram aguçados e ela sabia fingir indiferença. Por outro lado, quando descontraídos, os patrões relaxavam e esqueciam que ela entendia português. Eram as boas oportunidades para, de longe, escutar as conversas e ficar sabendo o que aconteceria. De repente, escutou falarem dela, e fez de conta que não entendia.
“A baixinha aí está já no ponto de ficar boa para um negócio”, disse o Mula.
“Pode-se pensar no assunto”, respondeu o Doutor, e os dois abriram a gargalhada, e ela, percebendo que tinha que ir embora daí o quanto antes, saiu fazendo como se não tivesse escutado, mas sentindo suas pernas em tremedeira, e uma enorme vontade de vomitar. Chegou apavorada a seu cubículo, e além de vomitar o café da manhã no banheiro, desandou a chorar. Não ia conseguir fazer mais nada se não conversasse com Dona Raimunda. Seu tempo na casa havia chegado ao fim, agora sim: ela precisava urgentemente fazer alguma coisa e sair do “mansão do horror”, como chamavam entre eles à casa. “Mesmo que me custe a vida”, pensou “vou sair daqui”.
Ester contou à Raimunda o que escutara, e entre uma e outra coisa, as duas resolveram que teriam que fazer algo para escapar da casa dos horrores. “Precisamos de mais alguém”, disse Dona Raimunda, tentando manter a calma. Conversavam durante as madrugadas. Combinavam horário e se encontravam no quarto de uma ou da outra, sempre com cuidado para que ninguém visse. Ester achava muito arriscado confiar em mais alguém, e teimava em que queria dar um jeito denunciar à polícia algum dia o que faziam na casa, assim como de sair para nunca mais voltar aí. Havia uma mulher que era de confiança dos patrões, a apelidavam de Sarita e de vez em quando costumava passar pelo setor dos empregados e revistá-los, ou então, fazendo de conta que conversava amigavelmente, cutucar algum deles para saber se haviam descoberto alguma coisa. Por isso, todos eram praticamente “túmulos”, principalmente após o sumiço – há alguns anos- de uma empregada que resolveu questionar sobre o que haviam feito com uma mulher que ela havia visto apanhar. Quem lhes contara isso já não estava na casa, havia saído “limpo”, como diziam os patrões, e era um antigo segurança que resolveu sua situação para nunca mais voltar, mas que nunca certamente se preocupara em tentar ajudar a denunciar absolutamente nada da casa de horrores.
A “Banda dos Seis”, com seus três tocadores de pífaro e seus três músicos dos bombos cantava naquela noite em Madri. O Doutor, preparado para mais uma noite de boa vida, arrumou-se e saiu para o “Club de los Pájaros”. Por outro lado, sabia que à noite na casa seria a vez do menino acordado, “o gritante”, como o apelidava para si. Seria a noite em que o menino receberia a visita de um homem de cabelos grisalhos, que pagava-lhes muito bem, e que além de dispor do menino para o que bem entendesse, o examinaria para ver se ficaria com ele ou não, o que certamente render-lhes-ia muito dinheiro. A noite prometia, mas ele não gostava de ficar na casa quando essas coisas estavam para acontecer, até porque os clientes ficavam mais à vontade. Esta banda de pífaros caíra do céu. E prometia fazer sucesso, isso já sabia: era totalmente diferente do que havia na noite de Madri. O clube estava lotado, e, descendo do carro, o “Doutor” sentiu-se dono do mundo.
Maria Ester e Raimunda haviam planejado tudo. Sabiam que os donos estavam viajando, ou ao menos, tinham ouvido através das conversas de Pedrita e os outros, que o único patrão que estava em casa era o Doutor, que comentara que iria ver o conjunto brasileiro tocar. À meia noite seria a última refeição dos hóspedes, que elas duas teriam que distribuir. Tudo parecia estar perfeito. Iriam dar a comida e tentar combinar com os meninos (sim, ao menos com eles!) para depois dar um jeito de fugir da casa. Mas isso ainda levaria um tempo. Tinham que fazer alguma coisa para evitar que o “cliente monstro”, como chamavam aos que iam à noite se encontrar com os hóspedes, chegasse ao quarto do menino “gritante”.
“Há um quarto vazio : a última porta do lado do corredor esquerdo”, disse Alícia. Para surpresa das duas, Alícia também se juntara a elas. Sabia de tudo : namorava o homem da segurança das câmeras, que também “era boa gente”, segundo ela. Contava – lhe tudo, e ela estava assustada com tanta coisa errada. “Temos que nos unir e fazer alguma coisa”, disse a moça, que havia escutado uma conversa escondida de Raimunda com Ester. Havia agora um time perfeito. Alícia convencera o seu namorado a ficar quieto, sem fazer nada com o que visse. Ele apenas gravaria como sempre, mas não contaria sobre nada suspeito, ao que o namorado acabou cedendo, já que enojara-se com a última cena que vira, e sobre s qual não quis comentar nem mesmo com Alícia.Eram agora quatro decididos a juntar-se contra o time dos horrores. Daria certo? Era tudo ou nada.
Com a ajuda do namorado da Alícia, o Alfredo, as câmeras não seriam mais uma ameaça. Dessa forma, precisavam agir rápido. Tinham que dar um jeito de conversar com os meninos e explicar-lhes a situação. Mas isso não poderia ser naquela noite. Não daria tempo. O cliente chegou à casa, e devagar, sob o olhar dos quatro na câmera : Alícia, Alfredo, Raimunda e Ester, entrou ao quarto do menino gritante, o Tônico. Daí por diante, não havia acesso ao interior do quarto. “Por favor, Alfredo, façamos algo”, diziam as mulheres. “Não, entendam!- suplicava Alfredo, “não podemos levantar suspeitas, não percebem? Deixem as coisas acontecerem : não temos outra alternativa, calma, calma.”
Ninguém se acalmava, obviamente. Ester vomitava sem parar no banheiro do escritório da câmera, onde estavam. Raimunda, tremendo, só repetia: “pobre menino, pobrezinho, O que vai lhe acontecer com esse degenerado ameaçando-o?” E Alícia chorava, mordendo os próprios punhos fechados, que o namorado segurava com força, evitando que batesse nele. “Vocês precisam manter a calma se não quiserem que me arrependa de ter confiado em vocês, vocês não fazem ideia das coisas que já vi aqui e estou calado até hoje. Acham que gosto, hein?”
Tonico viu um homem grisalho com rosto simpático entrar no quartinho. Começou a fazer perguntas : “quem é o senhor, me deixe sair daqui, quero a minha mãe!”, e chorando, começou a se defender dos braços fortes do homem que procurava dar-lhe bofetadas para acalmá-lo. Tinha um anel na mão esquerda que, ao atingir o rosto de Tonico, tirou-lhe sangue. O menino, ao ver que tinha sido machucado, e sob a fala do homem que não entendia, ficou quieto num canto, esperando que o homem chegasse perto. Calmamente então, certo de que o havia “domesticado”, o homem partiu para cima de Tonico e pegou-lhe uma das mãos, ao que o Tonico respondeu como se consentisse. Tonico lembrou-se de um ditado que a sua professora trabalhara em sala : “o junco, meninos, parece frágil, mas dobra-se para não ser quebrado pelo vento. Depois que o vento passa, ele continúa de pé e firme..”, e com toda a raiva do mundo Tonico fincou as suas arcadas dentárias na mão gorducha do velho, fazendo-o gritar e escorrendo sangue, ao que o homem quase desmaiou de dor, e num acesso convulsivo, começou a se contorcer.
O monstro tinha epilepsia, e convulsionou – entre as secreções de urina, cheiro de fezes e saliva espumante, o que fez com que Tonico, rapidamente e chorando, confuso porém com seu instinto de sobreviv6encia à flor da pele, passasse por cima do homem que não parava de convulsionar, e tirando a chave do local onde o velho a deixara sem perceber, abriu a porta do quarto e saiu correndo para se esconder atrás de um grande biombo, onde agachou-se para chorar.
No quarto das câmeras, Alfredo, aos berros com as mulheres, parou de repente ao perceber que o menino saíra do quarto, e sob as novas imagens animadoras os quatro saíram correndo, desligando antes as câmeras correspondentes. Tentando não fazer barulho, foram até o outro lado da mansão ao encontro do menino, e enquanto o Alfredo via o estado deplorável do “homem monstro”, como agora o chamavam, arrastou-o até o quarto livre no fim do corredor e, abrindo a porta empurrou-o para dentro. Ele e Alícia trancaram a porta, pois Alícia tinha as chaves dos quartos desse lado do corredor (já que eram quartos onde às vezes dormiam clientes).
Levaram uns minutos para convencer o Tonico de que estavam do seu lado. Explicaram toda a situação ao menino, que de certa forma, tinha virado um fenómeno. ”Sua mordida deve ter sido muito forte”, dizia-lhe Raimundinha, que falava português e servia como tradutora dos outros para o menino e vice-versa. Todos estavam apreensivos. O homem encontrava-se trancado no quarto, o que fariam agora? Ninguém poderia descobrir o que acontecera, mas ... para isso, Tonico teria que confiar neles e ainda se prestar a aguardar que as coisas ficassem no ponto certo para sair daí. “Muito arriscado hoje, os seguranças ficam de noite em volta da mansão e de vez em quando entram na casa. Esses sim, impossível pensar em que colaborem. São totalmente do lado dos donos”, explicava-lhe Raimunda, traduzindo parte do que Alfredo acrescentava. De repente, Ester pede a Raimunda que pergunte se o menino no outro quarto, que veio com ele, era seu irmão ou parente, ou mesmo amigo.
“Que menino?”, perguntou Tonico .
Ele não sabi que tinha chegado à casa com outro garoto, aliás, “eu nem sabia para onde vinha”, disse Tonico. E contou como havia deixado sua casa e ido parar ao hotel do tal de Luís, que disse ser seu amigo. Contou sobre a sua paixão por bandas de pífaros, sobre seu gosto pela música da sua terra, ao que Raimunda juntou-se, dizendo conhecer o som das “flautinhas”, como ela dizia se referindo aos pífaros, “desde menina”. “Claro- disse Tonico – os pífaros são muito antigos, na verdade chamavam-se flautas pastorís, e existem desde que os pastores as inventaram...” Naquele resto de madrugada Tonico viu o outro menino, o Quique, a quem Ester passaria a deixar sem medicação para dormir desde essa noite. O medicamento era colocado na comida, e às vezes a Sarita entrava no quarto para administrar alguma injeção que, certamente, tinha a ver com o estado dopado em que se encontrava o garoto. Tonico explicou quase chorando, aos seus novos amigos, como ele fugira de casa, e como o homem misterioso chamado Luís o levara até um hotel onde ele dormira. “Mas- disse- eu nunca vi este garoto, ele não é nada meu; nem amigo.” Aflito com o estado do companheiro de viagem – Ester os havia visto chegando juntos, os dois desmaiados- Tonico pediu para que os deixassem sair daí. “Certamente, meu menino- disse-lhe Raimunda- depois disto que fizemos de trancar aquele homem lá e te dar cobertura pela mordida que lhe destes, nenhum de nós poderia voltar atrás mesmo que quisesse, entende? Estamos todos do mesmo lado, mas precisamos combinar muito bem tudo...” “...e dar um jeito de não cometer absolutamente nenhum erro!...”acrescentou Alfredo. Aproveitaram a noite para combinar absolutamente tudo, e já com um plano arquitetado por Alfredo, que conhecia até os túneis da casa, e as saídas escondidas, resolveram tirar Quique do outro quarto naquela mesma noite, e levá-lo junto com Tonico para esconderijo até acordar. Continuariam com a farsa, fazendo de conta que os meninos estavam nos quartos, até que eles descobrissem sozinhos, e então, os outros quatro (Alícia, Alfredo, Ester e Raimunda) teriam também escapado. Iriam à embaixada, provavelmente à embaixada do Brasil, ou ao consulado. Alfredo conhecia perfeitamente os endereços, já que um dos patrões costumava mandá-lo buscar documentos algumas vezes.
“Mas vocês dois precisarão ficar pacientes, aguardar até que nós entremos em contato com os dois, entende, Tonico? Não podem arriscar nada, provavelmente terão que ficar alguns dias escondidos onde Alfredo vai levá-los, sem aparecer para ninguém, porque são meninos e não falam a língua daqui. Ninguém iria acreditar em vocês.” Assim Raimunda traduziu ao Tonico os cuidados e recomendações. Entre Alícia e Alfredo retiraram Quique do quarto trancado, e levaram-no a um dos porões, onde coisas escondidas eram realizadas, sem conhecimento de ninguém. Alfredo apenas conhecia o caminho. Sabiam que não poderiam ficar aí por muito tempo. A mochila do Tonico e a bolsa do Quique não estavam mais. Eles não sabiam onde eram colocadas as coisas dos “huéspedes”, como dizia Sarita. Isso também não importava mais, pensou Tonico.
Alfredo explicou numa mistura de idiomas os cuidados que Tonico deveria ter até o menino acordar. Sentiriam fome : nada poderiam fazer até o outro dia, por volta do meio-dia quando alguém iria até o local para trazer-lhes algo para comer.
“Se ninguém aparecer por aqui, é porque tudo está tudo certo, entendes?”. Isso Tonico tinha entendido muito bem. Precisava cuidar do seu novo amigo desconhecido. Queria agora que ele acordasse logo para saber como havia ido parar aí. O porão era limpo e tinha cheiro de úmido. Era um canto num corredor escuro por baixo do piso da mansão, Tonico sentou encostando-se na parede, e deitaram Quique com a cabeça apoiada num lençol dobrado que viera junto com ele. Não fazia frio, nem calor. Alfredo e Alicia deram um abraço ao menino, e foram embora correndo. Ao chegar ao térreo da mansão, Ester os aguardava ansiosa: “passei pelo quarto trancado e escutei um gemido esquisito, uma coisa estranha. Não acham que pode ter acontecido algo com o “cliente?” perguntou.
Resolveram chegar até a porta do quarto onde o homem estava trancado e, enquanto Alicia abria devagar, Alfredo esperaria com um taco de “beisbol” que havia na sala de enfeite, para ameaçá-lo caso estivesse acordado. Nada disso foi necessário, pois ao abrir a porta, viram o homem estendido no chão, numa poça de líquido que parecia urina. Ao tentar palpar o batimento cardíaco na artéria do pescoço, Alfredo disse : “está morto”!
Decidiram deixá-lo aí mesmo, e então fazer de conta que o menino (Tonico) teria desaparecido sozinho, seria a oportunidade para que ninguém deles ficasse como suspeito aos olhos dos criminosos. Conversaram os planos durante o resto da madrugada, enquanto a Raimunda dormia no seu quarto e os patrões não chegavam, ou os seguranças aparecessem, ou mesmo a Sarita chegasse para dar uma olhada nas coisas.
Devido à implicação das câmeras, Alfredo seria o primeiro fugitivo, com os garotos. Porque o acontecido não poderia ter passado sem ser percebido por Alfredo, que não teria desculpa alguma para dar. A desculpa possível seria enquanto ele estava dormindo, mas : como não teria a gravação? Nos seus horários de descanso, as câmeras gravavam tudo, coisa que não havia mesmo acontecido. Então, Alfredo despediu-se de Alícia e das outras amigas, já com tudo combinado. Lugar, horário e a maneira como sairiam. E todos desejando-se sorte, afastaram-se. Alfredo correu com uma mochila e seus documentos, pegando antes algo para os meninos comerem, e dirigiu-se ao porão. Caso os planos não pudessem ser exatamente realizados como planejados, a denúncia seria feita, e de qualquer forma as três mulheres seriam resgatadas da “casa dos horrores”.
A Banda dos Seis tocava desde a meia-noite. Alguns cantores ou cantoras que começavam no “Club de Los Pájaros”, estouravam nas paradas logo depois, já que tudo que passava por ele acabava sendo referência do grande público.O “Doutor” deleitava-se com a Banda desfrutando uma bebida num canto escuro do salão. Na entrada do Clube havia um enorme cartaz que anunciava a Banda dos Seis, com retrato dos músicos, onde via-se um garoto muito novo que agora chamava a atenção do “Doutor” : a sua concentração no ritmo com o instrumento era admirável. O ritmo não parava, e o “Doutor” aceitou da garçonete uma garrafa de vinho importado do Brasil, e antes de autorizar abrí-lo leu o rótulo:“La Cantatta”. Ao degustar, ele disse: “tinha que ser da minha terra, é muito bom, obrigado. Pode deixar a garrafa”.
A avó de Quique, a mãe do menino, assim como o pai e o avô, já haviam emagrecido muito com a tristeza e a depressão que a perda do garoto trouxera à fazenda. Desde o acontecido, a polícia presente à casa, acessando os computadores que haviam ido instalando no casarão e a correria ao Instituto Médico Legal de vez em quando, já não surpreendiam ninguém. Tudo era motivo para choro e desespero para a avó Celina, que continuava comparecendo à missa da cidade todos os dias cedo, em companhia de duas empregadas.
Em casa de Tonico, em Santo Antão, as coisas eram diferentes. Mas a tristeza era a mesma. Os dias passavam, o Delegado nada trazia de novo, e a Dona Ernestina, já bem mais magra e abatida, resignava-se a lavar as roupas e fazer as faxinas que precisava fazer para sustentar os outros filhos, agora preocupada sempre com todos eles em determinadas horas da noite mais que antes. A Professora, chateada por não Ter achado nenhuma pista em Jaboatão, não sabia mais a quem apelar. Num impulso de desespero, ligou seu computador num Domingo à tarde e encontrou outra organização de caráter internacional que procurava por pessoas desaparecidas principalmente no Brasil ou a partir do Brasil, e resolveu ligar no dia seguinte.
Ao chegar onde Tonico, Alfredo viu os dois meninos acordados. Chegando perto, após o susto dos dois que haviam se abraçado sentados no chão com medo de quem teriam que enfrentar ao aparecer no corredor, Alfredo tranqüilizou - os, apresentou-se ao Quique que disse seu apelido, e conversaram rapidamente sobre como o menino acreditava haver chegado até um país estranho. Alfredo escutava fazendo sinal para que se apressasse a contar, entendendo tudo que o garoto falava (português não era problema para ele, pelo menos falado!) e enquanto a história corria na boca de Quique, ainda meio enfraquecido e com tonturas, os três caminhavam pelo corredor escuro em direção a algum lugar, no sentido inverso do que levava à mansão. Alfredo no sabia exatamente onde isto levaria, mas tinha praticamente certeza de que chegariam à rua, porque sabia de uma fuga de um “cliente” que certa vez precisara fugir de outro “cliente”.
A pressa de Alfredo era enorme, e os meninos corriam um pouco, outro pouco caminhavam. Na mansão, ao chegar o “Doutor” e encontrar o corpo do cliente deitado no chão, numa poça de urina, a loucura começou. Houve uma busca desenfreada entre os empregados, na esperança de achar alguma pista. Mas a única pista encontrada mesmo, havia sido a ausência do Alfredo, o “camerista”, como lhe chamavam os diretores. Após a cautelosa revista de todos os empregados, incluindo Alícia, Ester e Raimunda, que fingiam realmente não entender o que estava acontecendo (nisso elas eram peritas!), um homem da segurança havia sido enviado aos “túneis” para verificar se os fugitivos ainda seriam impedidos de sair. O “Mula” havia sido chamado agora para ficar de olho nas câmeras ligadas novamente, e Alícia escutou Sarita dizer a outro empregado que novas câmeras seriam instaladas nesse mesmo dia, agora para vigiar os empregados. Alícia sentiu um frio correndo sua espinha, e suas pernas começaram a tremer, o que tentou dar um jeito de disfarçar vestindo uma calça folgada do uniforme alegando frio (Sarita perguntou-lhe por quê havia trocado sua roupa). Esses acontecimentos deixavam todos em pânico, inclusive Ester e Raimunda, que combinaram com Alícia de não mais conversar sobre o assunto, nem mesmo durante as noites ou madrugadas. “Vamos colocar escutas na casa inteira”, disse Sarita a todos. E sentenciou: “se alguém planeja ou planejava sair como o imbecil que saiu com o garoto, acho melhor tirar isso da cabeça, porque assim que ele for encontrado vai se arrepender amargamente. E será a mesma coisa com quem imagina que sairá daqui sem ser percebido”. E retirou-se do local da cozinha onde havia feito o comentário. Todos voltaram a suas tarefas, e as pernas de Alícia não paravam de tremer. Ester, enjoada até a alma, foi ao banheiro e vomitou.
O homem da segurança corria pelo corredor embaixo no subsolo da mansão, com o microfone ligado e um aparelho mínimo de escuta no ouvido. Sua altura era exagerada e em alguns pontos tinha que abaixar a cabeça para não bater na viga de sustentação. Ele parecia conhecer bem o local. Tonico, Quique e Alfredo agora na rua, precisavam de um lugar para se esconder. Saíram num bueiro no meio de um local isolado, parecia um desses lugares onde joga-se lixo e onde não há ninguém que freqüente a não ser com essa finalidade. Era uma saída de aproximadamente três metros de largura, por onde tinha sido muito fácil sair, pois ao longe avistaram a luz do descampado com uma rua de asfalto um pouco distante. Haviam grandes galpões, desses que nos filmes aparecem quando as quadrilhas vão combinar os crimes. Alfredo sabia que estavam correndo grande risco de ser descobertos, e negando aos meninos a parada, pois queriam sentar-se para descansar, continuou correndo com os dois tomados pelas mãos, até um lugar mais reservado atrás de um dos galpões. Descobriram que havia uma escada que levava a outro subterrâneo ou esconderijo no subsolo, nas imediações de uma torneira que fazia barulho pingando sobre umas chapas de metal, que eram na verdade as que cobriam a escada. Alfredo fechou com força a torneira para que se alguém estivesse seguindo-os, não descobrisse a escada “caso não saibam que ela está aqui”, pensou. E desceram de novo para começar a correr agora num subterrâneo com cheiro nauseante, onde viram ratos passando e embora não fosse apertado o local, dava realmente medo se imaginando ficar à noite no lugar.
Alfredo corria com os meninos sem saber aonde iria parar esse túnel enorme. Mais parecia um porão aberto pela companhia de saneamento! Mas não tinha opção. Acharia um lugar mais seguro para deixar os meninos até conseguir encontrar ajuda. Não seria fácil o que teria ainda de enfrentar, mas agora não era hora indicada para se pensar muito nisso. Não havia volta. Era só seguir adiante. Na mansão, o “Doutor” participava agora de reunião com os outros donos. Todos fumavam muito, e tomavam bebidas para suportar a raiva com que se encontravam. A morte de um cliente na própria casa. O médico que se encarregava de ver os “hóspedes”, viera para analisar o cadáver. Descobriu que o homem tinha sido mordido na mão, e que morrera provavelmente de ataque cardíaco , que não parecia estar ligado a qualquer outro fato. O que fariam com o corpo? Como justificar” Não poderiam. Seguramente, dariam um jeito de jogá-lo nalgum lugar, ou abandoná-lo em local que parecesse morte acidental, já que para isso eles tinham muitas artimanhas. E assim foi feito. Deixaram o cadáver num banheiro público dentro do box, imitando um ataque cardíaco com a calça aberta como se o homem estivesse urinando quando sofreu o impacto. E o caso saiu nos jornais, pois a figura do homem era conhecida, ligada a um cargo público na área municipal. Esse assunto estava resolvido. Restava, porém, entender como o camerista havia conseguido enganar inclusive a segurança. Como ninguém havia percebido que o homem planejara fugir? Agora, eles teriam que recrudescer as manobras com os empregados. Ninguém que estava na mansão teria como sair sem que eles desconfiassem : todos, até mesmo os mais novos, poderiam saber de alguma coisa. Então, começaram a planejar como tirar informações dos outros, mas a polêmica entre eles era se essas medidas não piorariam a situação.Com a perda da grande quantia que o menino lhes traria, agora só restava conseguir mais vítimas para compensar.
“O tráfico de órgãos é mais apropriado do que estes outros “, disse um deles. “A propósito, vamos ver se negociamos mais para a venda do menino que veio junto. Espero que tudo esteja certo para podermos aumentar o preço”. O “Doutor” interrompeu o assunto da negociação para perguntar à Sarita sobre o outro garoto, trancado até agora.
“Está tudo bem sim, vi a menina levando a comida ao moleque, que parece que ficou gritando à noite, mas que comeu tudo, pois ela retirou o outro prato quase limpo”, disse Sarita. Resolveram enviar mais dois homens para rastear os fugitivos através do túnel, “já que só podem ter fugido por aqui mesmo. Mas nós acharemos”, disse outro dos donos, parando para degustar a bebida.“Coitado do imbecil que resolveu fugir assim que o pegarmos. Esse já era”, disse o “Doutor” em voz alta, sob o consentimento de todos.
Feita a pausa, continuaram a discutir como aumentariam a segurança em relação aos próprios empregados. E o que fariam para negociar o menino rapidamente, caso até a noite os compradores iniciais não aceitassem as condições que tentariam impor.
Nos porões onde tinham encontrado um lugar para passar a noite, não haviam ratos. Haviam goteiras, algumas baratas. Mas como o lugar era espaçoso, a imundice era suportável. Quique sentia-se fraco. Com o corpo todo dolorido, havia dividido com Tonico um sanduíche de presunto que Alfredo havia dado aos dois. Os dois não paravam agora de falar. Alfredo havia explicado a ambos o que fazer caso alguém aparecesse. Não poderiam confiar em absolutamente ninguém. Somente em alguém conhecido de Tonico (Alícia, Ester ou Raimunda) ou ele mesmo. Se outro alguém aparecesse, eles se esconderiam mesmo que as baratas e os ratos lhes passassem por cima, num buraco que havia próximo ao lugar onde estavam. O buraco estava sujo, era grande e tinha uma espécie de degraus que permitiam descer mais abaixo, e como era escuro, daria para se esconder. Mas certamente, havia baratas ou algo semelhante, o que não poderia importar-lhes. Os dois estavam muito assustados , mas isso não seria motivo para que os encontrassem. Da parte de cima vinha um barulho de pisadas de pessoas na rua. Pisavam de vez em quando uma tampa de aço ou algo semelhante, que fazia barulho. Mas não parecia ser ruído da cidade, e sim de uma casa de comércio ou algo parecido. Os garotos sentaram-se um ao lado do outro, prometeram a Alfredo que esperariam e se esconderiam no buraco caso fosse necessário, e começaram a conversar. Alfredo pediu-lhes que contassem sua vida, um para o outro, pois isso ajudaria a passar o tempo. Não havia luz, a não ser a luz do dia que entrava por uma fresta no que seria o “teto”, e Alfredo pensou então em deixar com eles uma caixa de fósforos que estava em seu bolso. Assim o fez, explicando que não poderiam gastá-los à toa, pois ele não sabia quanto tempo demoraria. E ainda acrescentou que na volta não se assustassem com ele, pois viria “disfarçado”, provavelmente com barba ou bigode postiços, mas isso somente se tivesse tempo de fazê-lo. Os meninos riram muito, e Alfredo saiu correndo em direção ao que esperava fosse uma saída em direção oposta à que chegaram. Os meninos ficaram conversando como se esquecessem que estavam em apuros.
“Você falou que tem quantos irmãos?”, perguntou Quique. “Eu tenho oito, comigo somos nove.” “Nossa, deve ser muito legal ter uma família desse tamanho...”
“Quero ser músico, quero aprender a tocar pífaro”, disse Tonico ao amigo.
“Sério? O que é “pífaro”? “É um tipo de flauta, que chamam também de “flauta pastoral, sabe...os pastores tocavam antigamente...E você, o que quer ser quando ficar grande?” “Não sei, talvez eu seja agrônomo...Engenheiro florestal, sei lá...”, disse Quique.
“O que faz um agrônomo?” “Bom, na verdade mexe com terra, plantações. Mas eu não sei ainda, pode ser que eu queira ser engenheiro florestal, porque meu avô, sabe, ele tem fazendas e ele planta uva, produz vinho..” “Nossa! Que legal! A noite ia concretizando o escuro dentro do lugar também pois a luz que entrava pela fresta já se fazia muito tênue, e os dois começaram a ficar com medo. Mesmo assim, não paravam de contar um ao outro. Quique explicou tudo sobre a produção do vinho, as etapas todas, desde a colheita da uva da qual participava nas férias, até a fermentação e finalmente, a saída das últimas caixas e tonéis de carvalho, quando teve a fatal idéia de sair pelo mundo atrás de suas queridas uvas em forma de vinho.Enquanto as histórias sucediam-se entre os meninos, lá fora, Alfredo aguardava do outro lado do descampado vendo os homens do horror a buscá-lo. Iam de um lado para outro, já há duas horas, e não saíam, o que impedia com que ele saísse do local. Escondido, viu-os de repente desaparecendo após um grito de um deles .E pensou : “não posso continuar aqui, preciso dar um jeito de chegar até a embaixada, a polícia, ou um consulado, até algum lugar confiável!”, e saiu correndo, logo após o sumiço dos homens para dentro dos galpões. Embaixo, os meninos escutaram passos. Pararam de falar. Os dois tremiam, o coração pulando quase para fora do peito. Tonico levantou-se tentando não fazer barulho, e fazendo um sinal com o dedo para seu amigo, foi entrando no buraco. “Não vou olhar as baratas”, pensou. Quique seguiu – o rapidamente e os dois ficaram abraçados no escuro buraco, escutando agora o barulho da goteira da torneira. Certamente alguém havia entrado. Alguém havia descoberto o lugar. Os dois ficaram respirando o mínimo possível, e sem encostar na parede. “As baratas não comem gente” pensava Quique...e sentiu que um inseto tentava subir pela sua perna esquerda, que retirou com a mão.
“Não estão aqui não, Amador. Eles não iam agüentar nem dez minutos aqui dentro...” mesmo em espanhol, os meninos entenderam. E ainda escutaram um deles falando : “vamos embora. Estamos perdendo tempo, meu irmão!”...
“Ufa”, “que susto”, e os dois se abraçaram, saindo do buraco. Ainda tremiam. Acharam melhor andar um pouco para adiante, e foram caminhando até uma luz reduzidíssima que viram à frente. “Cuidado, o que será?”, disse Quique.
Ao chegar embaixo dela repararam que havia uma fresta no teto. Um barulho de muita gente conversando e, de repente, deram-se conta de que conseguiam escutar as conversas misturadas e as vozes das pessoas e de pronto, uma música começou a ser ouvida no local, e Tonico, com olhar espantado, disse ao amigo: “é a Banda de pífaros! Esses são os pífaros e os bombos!” Os meninos ficaram um tempo pensando se valeria a pena tentar sair daí. Haviam prometido ao Alfredo que ficariam esperando, mas “ele não sabia que a gente ia se encontrar com a Banda dos Seis”, dizia Tonico tentando convencer o amigo. Eles realmente estavam embaixo do “Club de Los Pájaros”
No clube, o “Doutor” agora ficava mais tempo. Paquerava a garota que lhe trazia o vinho, a garçonete de longas pernas e cabelos arrepiados, recolhidos com um broche de borboleta que lhe caía muito bem. Esta noite, após o acontecido com os negócios, precisava relaxar. Precisava de mais tempo, e levara consigo o “Lisura”, como chamavam um dos capangas da mansão, que fizera amizade com ele. Os dois sentados numa das mesas, escutavam a música da banda dos Seis. “Que porcaria Ter perdido aquele menino”, pensou no meio da bebida que tomava aos goles grandes. “A gente vai achar aqueles idiotas”, disse ao “Lisura”. “Sim, patrão, tenho certeza de que a gente vai achar.
De repente o telefone celular do “Doutor” tocou. Ele atendeu...escutou mudando a expressão do rosto...”Não acredito!”, gritou dando um murro na mesa, que ninguém ouviu a não ser o “Lisura”, pois o ruído e a música abafavam qualquer voz. “O que houve, patrão?”, perguntou. “O outro garoto também sumiu! Vamos saindo, eu não acredito. É besteira demais para um dia só!” Os dois saíram correndo, não sem antes o “Doutor” puxar umas notas de dinheiro da carteira, que certamente superava o que haviam consumido. Chegando à mansão, o “Doutor” gritou à Sarita, que rapidamente desceu as escadas para confirmar a notícia. “Fomos eu e a menina, a Ester, recolher os pratos e dar uma olhada no garoto. E o que vejo? Nada! No lugar do garoto, ninguém!” “Como você explica?”, perguntou raivoso o “Doutor”. “Não explico, apenas estou confirmando”, disse ela. Reuniram todos os empregados, alguns com sono e sem fazer a mínima idéia sobre o que estava acontecendo, faziam força para ficar de pé e acordados. “Podem começar a falar, porque senão a coisa vai ficar muito feia para o lado de vocês...” As ameaças foram terríveis. Todos os empregados estavam em fileira, sem coragem de sequer levantar o olhar. Haviam também seis homens seguramente armados, que cuidavam as portas de entrada, a escada e os elevadores, enquanto as ameaças continuavam. O “Doutor” resolvera chamar de novo os colegas que se encontravam na cidade. Estava furioso, e não parava de fumar. Andava de um lado para outro, quando o telefone da entrada principal tocou. O telefone da entrada só tocava quando alguém entrava, ou quando o guarda da segurança externa precisava dizer que um cliente estava chegando. “Mas...quem é? A esta hora? Dizia o “Doutor”, que mandou os homens armados ficarem alerta e não entendia por que as câmeras não mostravam nada. De repente, as luzes se acenderam como holofotes e um alto falante anunciava : “polícia, rendam-se!” “Rendam-se”, a casa está rodeada!”, “Somos da polícia!”
E sem outra alternativa, o “Doutor” e a Sarita se renderam, junto aos homens da segurança. Haviam mais de cem homens uniformizados rodeando a sala, todos armados, e daí por diante, sob aplausos e festejos dos empregados que iam sendo soltos um a um, todos foram presos. Haviam duas mulheres nos quartos de hóspedes trancadas, uma bastante adormecida e provavelmente sob efeito de soníferos, e outra acordada, com marcas de golpes no rosto, e um corte na sobrancelha. As narrações eram assustadoras.
Finalmente, Alfredo e Alícia encontraram-se na entrada do prédio enorme da polícia. Também a Dona Raimunda, e a Maria Ester com eles. Era muita gente : repórteres, curiosos, empregados da casa. Muitos choravam e se abraçavam. Todos os criminosos principais, os “patrões” que se reuniam para arquitetar os planos estavam presos, já que tinham comparecido sob o chamado urgente de Sarita e o “Doutor”.
“Os meninos, agora eu vou com o delegado e o juiz buscar os meninos!”, disse Alfredo, que estava sendo chamado para acompanhá-los no carro.
Encontraram os meninos um pouco adiante de onde Alfredo os deixara. Tonico tremendo de frio, sentado ao lado do seu amigo, que adormecia e acordava, enfraquecido devido à fome. Foi uma festa de abraços.Antes de partir para o Brasil, agora os dois sob cuidados de uma assistente social do consulado, Tonico quis conversar com seu amigo da Banda dos Seis. Foi um encontro e tanto, trocando novamente endereços. E Tonico ganhou...um pífaro! Nem acreditava no que estava vivendo.Quanto a Quique, havia ganhado um novo amigo. E deste, seria sempre amigo- ao menos assim tinham –se prometido. No dia seguinte, os jornais do mundo inteiro anunciavam a descoberta de uma das maiores organizações criminosas por tentativa de comércio de pessoas. dos governos (sob trabalho da polícia oficial) por alguns anos, até retomar as atividades em locais que
Muitos da cidade de Santo Antão conheciam Tonico. Mas as notícias não chegavam rápido à cidade. Já em Bento Gonçalves a realidade era outra. O telefone tocou na casa da fazenda, eram seis horas da manhã, e o avô ainda dormia no sofá da sala. O delegado dava aos berros a boa notícia à Dona Celina.
Naquela noite parecia que toda a cidade havia ido à praça em Santo Antão. Devia ser o calor. Ernestina que andava com quatro dos seus filhos pela praça, olhou para o céu e viu que a lua estava agora alta. De repente, sem mais nem menos, sentiu-se aliviada : uma certeza de que seu filho estaria vivo, e de que algum dia o veria de novo, invadiu – a .
No dia seguinte, a Professora, que lera o jornal de manhã cedo, correndo foi à casa da Dona Ernestina, que lavava roupas de seus clientes no quintal. A foto de Tonico, ao lado da foto de Quique, o menino do Rio Grande do Sul, estava no jornal em primeira página.
Do outro lado da rua, acenou à mãe de Tonico. “É sim, Ernestina, ele está vivo”, gritou- e as duas correram para se abraçar.
Um ano depois, Tonico – que tocava pífaro numa banda da cidade formada por sete integrantes- iria passar férias com seu amigo Quique- que decidira ser piloto de avião. Ou talvez engenheiro elétrico. Ou apenas cultivaria uvas na fazenda do avô, tanto fazia.
Bom mesmo, era saber que tinha um amigo quase irmão, que o convidara para passar férias em Pernambuco no ano seguinte. Alfredo, desde Espanha, escrevia e-mails sempre ao Tonico e ao Quique. Tonico usava o computador da escola, e estava ótimo em informática. Descobrira na rede que existia um tal de Tio Zé, que fabricava pífaros. Fabricava também bombos, que eram exportados para a Espanha, que era praticamente o único país que valorizava a produção de “Ti Zé”, como era chamado o homem que morava numa cidade nordestina que ele esquecera o nome, mas era próxima a Recife.
E desta vez...adivinhem? Tonico planejava conhecer este maravilhoso fabricante de instrumentos artesanais. Mas, obviamente, a Professora seria a primeira a saber que ele queria viajar para conhecê-lo, e- quem sabe, ela mesma pedisse à sua mãe que o deixasse ir com mais alguém. No fim das contas, ele conseguira convencer a mãe de que a música era, depois da família e os amigos e amigas que tinha, a coisa mais importante de sua vida.
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