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Cronicas-->A Última Crónica (Fernando Sabino) -- 14/10/2004 - 11:14 (CARLOS CUNHA / o poeta sem limites) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos




A Última Crónica



Fernando Sabino



A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão.
Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta.
Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um.
Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida.
Visava ao circunstancial, ao episódico.
Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples expectador e perco a noção do essencial.
Sem mais nada pra contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança:"assim eu queria o meu último poema"
Não sou poeta e estou sem assunto.
Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crónica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos.
A compostura da humildade na contenção dos gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mau ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor.
Três seres esquivos que compõem em torno à mesa à instituição tradicional da família, célula da sociedade.
Vejo, porém, para algo mais que matar a fome. Passo a observá-los.

O pai, depois de contar o dinheiro que distraidamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás da cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma.
A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom.
Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo.
A mulher suspira, olhando para os lados, a ressegurar-se da naturalidade de sua presença ali.

Ao meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, apenas uma fatia triangular.
A negrinha contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca Cola e o pratinho que o garçom deixou a sua frente.
Por que não começa a comer?

Vejo que os três, pai, mãe e filha obedecem em torno à mesa um ritual.
A mãe remexe a bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa.
O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera.
A filha aguarda também, atenta como um animalzinho
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia de bolo.
Enquanto ela serve a Coca Cola o pai risca o fósforo e acende as velas.
Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e assopra com força, apagando as chamas.
Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você... "

Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.
A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sófregas e põe-se a comê-lo.
A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo que lhe cai no colo.
O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como aq se convenser intimamente do sucesso da celebração.
Dá comigo de subto, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça baixar a cabeça...
Mas acaba sustentando o olhar e enfim abre um sorriso.

Assim eu queria minha última crónica: que fosse pura como esse sorriso.


texto de Fernando Sabino
publicado no livro "A Companheira de Viagem"(Editora Record/1965)
produção visual:CARLOS CUNHA


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